u/Dear-Share-6543

Estou fazendo um livro que fala sobre contos macabros do folclore brasileiro. São 5 contos das 5 regiões do Brasil. Fiz até agora 2 contos: o do Norte e o do Sul. Aqui está o conto do Norte

Região Norte

Estados Unidos, 14 de novembro de 2025.

Universidade de Massachusetts — Departamento de Ciências Biológicas.

De pé, diante de uma turma com cerca de cem alunos, estava Sebastian Whitaker, um homem de 34 anos, apresentando sua pesquisa realizada em uma floresta do Arizona.

Ele descrevia os animais que havia encontrado, as plantas que catalogou e até um sapo com uma coloração incomum, semelhante às cores de um arco-íris. Falava também sobre o ambiente hostil: o calor intenso durante o dia e o frio extremo à noite.

Ao final da apresentação, a sala foi tomada por aplausos.

Mas havia apenas uma reação que realmente importava para Sebastian — e ela não veio.

O professor Leonard Hastings permaneceu imóvel, com o mesmo semblante de desinteresse que carregara durante toda a apresentação.

Sebastian percebeu.

Sem dizer nada, desceu do pequeno palco e voltou rapidamente ao seu lugar.

Após a apresentação dos demais alunos, o professor dispensou a turma.

Todos, exceto um.

— Foi uma boa apresentação, Sebastian.

— Obrigado, professor, eu fo—

— Boa… tecnicamente.

Sebastian se calou.

— Sua apresentação não foi ruim. Longe disso — continuou o professor. — Mas outros cem alunos poderiam apresentar exatamente a mesma coisa. Florestas, plantas, animais curiosos… tudo isso é genérico.

O professor caminhou lentamente até a janela.

— Em todas as minhas aulas, eu digo a mesma coisa: sejam originais. Inovem. Mas hoje, todos aqui fizeram praticamente o mesmo trabalho. O que muda é só o lugar. Um foi ao Arizona, outro a São Francisco, outro à Carolina do Norte…

Ele fez uma breve pausa antes de continuar:

— E sabe por que estou falando isso especificamente para você?

Sebastian levantou o olhar, em silêncio.

— Porque eu vejo potencial em você. Sei que você é dedicado.

Sebastian ouviu tudo calado, tentando esconder a frustração. Seus olhos ardiam.

— Vou te dar outra chance — disse o professor. — Mas dessa vez, faça algo diferente. Vá além. Viaje. Procure uma floresta pouco explorada… algo que ninguém aqui tenha coragem de fazer.

Ele se virou, encerrando o assunto:

— Você tem quatro meses. Dispensado.

Sebastian apenas assentiu com a cabeça e saiu da sala.

Do lado de fora, caminhou até o estacionamento da universidade. Cada passo parecia mais pesado que o anterior.

Ao chegar ao carro, abriu a porta, entrou e encostou a cabeça no volante.

Ficou ali, em silêncio, por longos minutos.

Tudo o que ele conseguia pensar era no tempo que havia perdido.

Dias de pesquisa. Noites na floresta.

E, no fim… nada.

Chegando em sua residência, Sebastian Whitaker estava derrotado. Frustrado. Com o ego ferido.

O silêncio da casa parecia mais pesado do que o normal.

Ele se lembrava das palavras do professor como um eco constante na cabeça:

> “Procure uma floresta pouco explorada… faça algo que ninguém aqui tenha coragem de fazer.”

Sebastian ficou alguns segundos parado, encarando o vazio, como se tentasse engolir aquilo.

Aquilo não tinha sido só uma crítica. Tinha sido um desafio direto.

Ele foi até o quarto, sentou na cadeira e ligou o computador.

A tela acendeu, iluminando o ambiente escuro.

Sem pensar muito, abriu o navegador e digitou:

“floresta pouco explorada pelo mundo”

Em poucos segundos, vários resultados apareceram. Nomes de lugares distantes: uma floresta na Grécia, outra na Tailândia, outra na Coreia do Sul…

Ele passou os olhos sem muito interesse, até parar de repente.

Um nome se destacou.

Floresta Amazônica

Sebastian ficou imóvel por alguns segundos.

Ele já tinha ouvido falar. Já tinha visto documentários. Mas agora parecia diferente. Mais sério. Mais real.

Ele clicou.

O site abriu lentamente.

Apareceram informações: rios extensos, vegetação densa, áreas praticamente inexploradas e espécies ainda desconhecidas pela ciência.

Sebastian começou a ler com mais atenção.

E quanto mais ele lia, mais a ideia tomava forma na sua cabeça.

Não seria só mais um trabalho.

Seria algo único.

Algo que ninguém da sua turma teria coragem de fazer.

Algo que finalmente faria seu professor reconhecer o seu valor.

Ele respirou fundo.

— É pra lá que eu vou.

---

Nos dias seguintes, Sebastian começou a se organizar.

Calculou custos de viagem, equipamentos e suprimentos. Conferiu tudo duas vezes.

No fim, percebeu que conseguiria pagar.

No dia seguinte, foi até o centro de Massachusetts.

Comprou o necessário: barraca resistente, lanterna potente, kit de sobrevivência, primeiros socorros e outros equipamentos essenciais.

Cada item parecia deixar mais claro o que ele estava prestes a fazer.

Não era mais um trabalho simples.

Era uma decisão.

---

De volta para casa, já à noite, ele se sentou novamente em frente ao computador.

Agora procurava outra coisa: um guia.

Vários nomes apareceram, mas os preços eram altos demais.

Sebastian franziu o cenho, impaciente.

Até que encontrou um perfil diferente.

Um guia nativo de uma aldeia próxima da mata densa, em uma região pouco explorada.

Nome: Saru Mundurucus

O preço era acessível. A descrição era simples. E a experiência parecia suficiente.

Na foto, o rosto do guia transmitia uma calma difícil de explicar.

Sebastian hesitou por um segundo.

— Acho que não tenho opção melhor…

Clicou em contratar.

---

Em menos de dez minutos, uma mensagem chegou.

Era Saru.

Ele enviou os detalhes do ponto de encontro, a localização da aldeia e até o limite da área onde poderia levá-lo dentro da floresta.

Sebastian pegou um caderno e anotou tudo com precisão.

Cada informação.

Cada instrução.

Antes de encerrar, confirmou que em uma semana viajaria para a Floresta Amazônica.

Saru respondeu de forma simples:

— Confirmado.

E encerrou a conversa.

---

: Aeroporto de Massachusetts — 20 de novembro de 2025

Após uma semana, Sebastian já estava no aeroporto de Massachusetts, esperando seu voo.

Com tempo de sobra, abriu sua mochila e pegou uma revista sobre a Floresta Amazônica.

As páginas mostravam imagens aéreas da floresta, rios imensos, animais exóticos e vegetação densa que parecia não ter fim.

Até que uma seção chamou sua atenção:

Lendas locais

Vários nomes desconhecidos para ele:

Boto Cor-de-Rosa

Iara (Mãe d’água)

Curupira

Mapinguari

Até que um nome o fez parar por alguns segundos.

Matinta Pereira…

Sebastian ficou encarando a palavra por um tempo, sem entender por que aquilo parecia… estranho.

Foi interrompido quando uma chamada ecoou pelo alto-falante:

— Voo 3344 com destino à Amazônia, plataforma 06. Última chamada.

Era o seu voo.

Ele fechou a revista rapidamente, se levantou e foi em direção à plataforma.

Após apresentar a passagem, seguiu até seu assento.

A viagem seria longa — cerca de 12 horas. Tempo suficiente para descansar e planejar o que estudaria primeiro ao chegar na floresta.

12 horas depois

O avião pousou.

Ao descer, Sebastian percebeu imediatamente a mudança no ambiente.

O calor era mais pesado. O ar parecia diferente. As pessoas, os sons, tudo era novo.

Descendo a escada rolante, ele avistou Saru segurando uma placa com seu nome.

Sebastian o reconheceu na hora.

Quando chegou ao final da escada, apertou a mão do guia.

— Como foi a viagem? — perguntou Saru.

— Bastante confortável… aqui é bem quente, né?

— Isso não é nada comparado ao lugar onde você vai.

Sebastian franziu o cenho.

— A floresta?

— Sim. Lá a temperatura é bem mais alta… mas você se acostuma. Vamos?

— Vamos.

Saru o levou até o estacionamento do aeroporto, onde havia uma picape.

Sebastian entrou, e os dois seguiram viagem em direção à aldeia.

No caminho, ele ficou impressionado com a paisagem.

Rios extensos, vegetação densa e uma natureza viva de um jeito que ele nunca tinha visto antes.

Ele não conseguia parar de olhar pela janela. Fotografava tudo. Queria registrar cada detalhe para sua pesquisa.

Nem percebeu o tempo passar.

Cerca de 50 minutos depois, o veículo parou.

— Aqui é a minha aldeia… sinta-se à vontade — disse Saru.

Sebastian desceu do carro e ficou em silêncio por alguns segundos.

Nunca tinha visto nada parecido.

Casas de barro, chão de terra batida, mulheres carregando crianças nas costas, outras colhendo frutas e legumes.

Homens afiando lanças, conversando em uma língua que claramente não era português.

Ele observava tudo com fascínio.

Nem percebeu Saru chamando sua atenção.

— Vai querer descansar? A viagem foi longa. Se quiser, pode dormir na minha casa. Mas vai ter que ser numa rede.

— Não, obrigado, Saru. Prefiro conhecer o lugar o mais rápido possível. Tenho muito trabalho pra fazer.

Mesmo cansado, ele recusou o descanso.

Ainda era manhã. Tinha tempo de sobra.

Saru apenas assentiu e apontou para uma trilha.

— É por ali.

Ele começou a caminhar lentamente em direção à entrada da floresta.

Sebastian o seguiu.

Ao dar o primeiro passo na trilha, Sebastian seguiu Saru em direção ao interior da Floresta Amazônica.

Logo nos primeiros minutos, percebeu que tudo ali era diferente.

O ar era mais pesado.

Os sons, mais vivos… e ao mesmo tempo, mais estranhos.

Não era como a floresta do Arizona.

Era outra coisa.

Em menos de dois minutos de caminhada, Sebastian já havia visto uma cobra enrolada sobre um galho.

Ele se assustou.

— Tá tudo bem? — perguntou Saru, sem parar.

— Tá… só me assustei com aquela cobra.

— Fica tranquilo. Ela não vai te fazer nada… a menos que você faça primeiro.

Saru seguiu andando.

Sebastian o acompanhou, mas agora mais atento.

Após cerca de vinte minutos, Saru parou.

— Aqui é o máximo onde eu posso te levar.

Sebastian olhou ao redor.

— É bonito…

— De dia, sim — respondeu Saru, sem expressão. — De noite… não é.

Sebastian deu um leve sorriso, tentando manter o controle.

— Acho que me acostumo.

Saru virou o rosto lentamente para ele.

— Que horas você quer que eu volte pra te buscar?

— Não precisa voltar. Eu vou passar a noite aqui.

O silêncio caiu entre os dois.

— Você vai fazer o quê? — perguntou Saru, dessa vez mais sério.

— Vou passar a noite. Preciso estudar os animais noturnos também.

Saru respirou fundo. Demorou alguns segundos antes de responder.

— Eu não posso deixar você fazer isso.

— Por quê?

Saru olhou ao redor, como se tivesse certeza de que não estavam totalmente sozinhos.

Quando falou, a voz saiu mais baixa.

— Porque tem coisa aqui que não é pra gente ver.

Sebastian franziu a testa.

— Tipo o quê?

Saru demorou.

— A Matinta Pereira.

O nome caiu estranho no ar.

Sebastian ficou em silêncio por um instante.

— Eu já vi esse nome… numa revista.

— Então você já sabe.

— Sei que é uma lenda.

Saru negou com a cabeça, devagar.

— Eu já vi gente entrar aqui à noite… e não voltar.

Sebastian não respondeu.

— E os poucos que voltaram… não eram mais os mesmos.

O silêncio ficou pesado.

Mas Sebastian respirou fundo e respondeu:

— Saru… eu respeito sua cultura. Mas eu não acredito nisso. Eu acredito na ciência. Tudo tem explicação.

Saru o encarou por alguns segundos.

E naquele olhar… não tinha raiva.

Tinha desistência.

— Você que sabe.

Ele colocou a mão no bolso e tirou uma pulseira.

Velha. Gasta. Com um nó apertado no centro.

Saru ficou alguns segundos olhando pra ela antes de entregar.

— Toma.

Sebastian pegou, curioso.

— O que é isso?

— Se alguma coisa te prender aqui… isso pode te salvar.

Sebastian arqueou a sobrancelha.

— Como assim?

— Ela gosta de brincar com a cabeça. Faz você andar… e voltar pro mesmo lugar.

Sebastian ficou em silêncio.

— Se isso acontecer… joga a pulseira no mato.

Saru apontou para o nó.

— Ela vai até isso pra tentar desfazer.

— E aí?

— Aí você corre.

Sebastian assentiu… mas sem acreditar de verdade.

— Entendi.

Saru deu um último olhar ao redor.

— Boa sorte.

— Obrigado…

Saru se virou e desapareceu entre as árvores.

O silêncio que ficou depois foi diferente.

Mais pesado.

Sebastian estava sozinho.

Completamente sozinho.

Ele começou a analisar o local onde montaria o acampamento.

Foi então que percebeu.

Algo o observava.

Uma coruja.

Parada em um galho.

Imóvel.

Os olhos eram grandes demais.

Fixos demais.

E o mais estranho…

Ela não piscava.

Sebastian ficou encarando de volta por alguns segundos.

Longos demais.

— Estranho…

Virou-se para pegar o caderno.

Quando olhou de novo…

Ela não estava mais lá.

Nenhum som.

Nenhuma asa.

Nada.

Sebastian franziu a testa.

— Deve ser silenciosa…

Tentou racionalizar.

Como sempre.

Depois disso, montou o acampamento.

Pegou seus equipamentos e começou a estudar o ambiente.

Árvores, insetos, água do rio… tudo.

O tempo passou rápido.

Rápido demais.

Quando voltou ao acampamento, olhou o relógio.

17:44.

Foi então que ouviu.

Pássaros.

Muitos.

Sebastian olhou para o céu.

E viu algo errado.

Não eram poucos.

E não era normal.

Era como se todos estivessem indo embora ao mesmo tempo.

Sem parar.

Sem hesitar.

Sebastian observou em silêncio.

Sentiu um leve incômodo.

Algo que ele não soube explicar.

Mas, ainda assim…

— Devem evitar a noite…

Disse para si mesmo.

Ele acendeu a fogueira, esquentou sua comida e entrou na barraca.

Deitou-se.

Mas não dormiu imediatamente.

Ficou olhando para o teto da barraca.

Em silêncio.

Por algum motivo…

A lembrança da pulseira veio à sua mente.

Ele levou a mão até a mochila… confirmando que ela ainda estava lá.

Só então fechou os olhos.

Mas o sono demorou a chegar.

Sebastian teve certas dificuldades para dormir. A sensação de dormir na floresta era totalmente estranha, mas por quê? Se já havia passado noites na floresta do Arizona, por que justamente aqui o desconforto o perturbava? Algo não o deixava dormir em paz.

Quando finalmente achou a posição ideal e fechou os olhos, mal percebeu, em seu relógio, que o horário já marcava 2:14.

Quando parecia que iria dormir, algo fez seus olhos se abrirem no exato momento.

O som de um assobio agudo parecia vir de todos os lados. Sebastian tampou os ouvidos e tentou raciocinar o porquê daquele som.

— Será que é um predador noturno que usa esse som para caçar?

Sebastian se deitou de lado e tampou os ouvidos com o travesseiro, esperando o som cessar. Mas não parava de jeito nenhum.

Irritado, Sebastian levantou, pegou sua mochila que estava ao lado dele e procurou sua lanterna. Ao pegá-la, abriu a barraca lentamente. Dependendo do animal, se fosse algo peculiar, queria parar para analisar, estudar e colocar em sua pesquisa.

Ao abrir a barraca, Sebastian apontou a lanterna para a mata e, no momento em que seu dedo pressionou o botão de acender a lanterna, o som parou no mesmo instante. Não só o assobio parou, mas todo som que a floresta transmitia simplesmente cessou.

Nenhum som de inseto, nenhuma gota que pingava das árvores, nenhum mato se mexendo com os leves ventos.

Nada.

Sebastian ficou confuso, mas, como ainda estava sonolento, apenas pensou que o animal que transmitia o assobio parou ao perceber a luz da lanterna. Sebastian, aliviado que o som havia parado de uma vez, apenas apagou a lanterna, voltou para dentro da barraca e pegou no sono logo de imediato.

Ao acordar de manhã cedo, Sebastian abriu sua barraca e viu, à sua frente, várias penas pretas. Ao ver, ficou confuso e impressionado pelo tamanho das penas. Sebastian se agachou e pegou uma pena para analisar. Tentou raciocinar que um predador havia caçado um pássaro grande na madrugada e que o pássaro deixou as penas caírem.

Ao analisar a pena, viu que ela se parecia muito com a de uma coruja, como se fosse da mesma coruja que viu ao chegar na floresta no dia anterior.

Sebastian apenas guardou a pena em uma sacola e a colocou na mochila para analisar melhor mais tarde.

Sebastian trocou sua roupa, comeu um sanduíche que estava em sua mochila, bebeu um suco de caixinha que havia comprado no aeroporto e começou os seus estudos.

Fez exatamente a mesma coisa que fez no dia anterior.

Estudou plantas, animais com coloração incomum, árvores e analisou a água do rio próximo ao seu acampamento. A água parecia mais escura. Pegou um frasco, mergulhou na água, pegou o frasco que havia coletado no dia anterior e comparou a coloração. O do dia anterior estava mais claro, e o outro, que acabou de coletar, estava mais escuro.

Pensou que era algum fenômeno da natureza com o decorrer do tempo.

Não tão longe de seu acampamento, Sebastian viu uma árvore enorme e com o tronco bastante claro. Quis fazer algo diferente: queria coletar um pedaço da árvore para analisar em sua barraca. Pegou um serrote de sua mochila e começou a serrar uma pequena parte da árvore. Como não tinha prática para fazer essa ação, se cansou rápido e se agachou com as mãos nos joelhos.

Enquanto descansava, Sebastian sentiu uma presença atrás dele. Ao se virar para trás, tomou um susto ao ver um nativo ancião o encarando com um olhar sério.

— Nossa, senhor, que susto.

— Aquele acampamento é seu?

O senhor apontou para a direção do acampamento.

— É sim.

— Chegou hoje?

— Cheguei faz um dia já. Sou biólogo e estou fazendo uma pesquisa por essa área.

— Você passou a noite aqui?

— Sim?

Respondeu Sebastian, confuso.

— Como ainda está vivo?

— Como assim?

— Você, por acaso, ouviu ou viu algo na noite?

Sebastian pensou por um tempo e lembrou.

— Bem, durante a madrugada eu ouvi um assobio bem agudo que tirou meu sono. Aí, quando eu saí da minha barraca e liguei a lanterna, o assobio parou.

A expressão do velho, que já estava séria, ficou ainda mais.

— Você precisa ir embora agora!

— O quê? Por quê?

— Se ela deixou você sobreviver à noite, quer dizer que ela marcou território em você... Vá embora agora.

Sebastian baixou a cabeça por um segundo, processando a frase “ela marcou território”. Quando levantou os olhos para perguntar o que o velho queria dizer com aquilo, o silêncio já tinha retornado. Onde antes estava o homem, agora só havia o balanço leve de uma folha de samambaia.

Ele correu até o ponto exato, mas o chão de barro úmido estava liso, sem uma única marca de sandália ou pé descalço.

O ancião simplesmente nunca esteve ali.

Sebastian se assustou na hora.

— Como uma pessoa desaparece sem deixar rastro?

Ficou totalmente assustado. Pensou em pegar suas coisas e ir embora dali como o senhor mandou, mas tinha medo de ir embora sozinho e se perder na mata. O que lhe restou foi esperar.

O retorno de Saru.

Como não podia fazer muita coisa, Sebastian apenas voltou para o seu acampamento e voltou a estudar as coisas que havia coletado, esperando o retorno de Saru. Torcia para que o guia chegasse o mais rápido possível.

O tempo se passou e, sem perceber, já estava tarde. Olhou para seu relógio e era 17:44.

Ouviu o mesmo som de pássaros que ouviu no dia anterior.

Olhou para cima de imediato e viu os pássaros passando por entre as árvores, mas dessa vez não foram poucos como na última vez. Dessa vez, os pássaros estavam em número maior, mais desesperados. Foram 30 segundos cravados de pássaros.

Sebastian, ao presenciar o acontecimento, ficou apreensivo.

Quando o relógio deu 18:00, Sebastian decidiu acender a fogueira. Se levantou da cadeira em que estava sentado e foi no mesmo local onde pegou lenha no último dia. Sabia que tinha bastante, então não se preocupou em procurar mais lenha em outro lugar.

Ao pegar as lenhas, voltou ao acampamento, acendeu a fogueira e pegou uma panela, colocando sua sopa enlatada para esquentar.

Esperando a sopa esquentar, Sebastian se sentiu estranho.

Se sentiu observado.

Olhou para os lados e nada.

Até que, quando olhou em direção ao rio, viu que, do outro lado, parecia ter uma figura meio curvada, totalmente preta.

Sebastian se assustou e agarrou a lanterna que estava no bolso da mochila. Ao ligar e apontar para o local onde parecia ter visto uma pessoa...

Simplesmente não havia nada.

Sebastian checou o local e não encontrou nada de anormal.

Ficou parado, pensando no que era. Não tinha mais explicação para aquele evento. Nem percebeu que a sopa estava fervendo.

Depois de um tempo, Sebastian comeu a sopa e decidiu se deitar na barraca e esperar o dia seguinte para sair daquele local, mesmo sem Saru.

Custou a pegar no sono, pois pensava no que era aquilo que viu do outro lado do rio.

Nem percebeu quando dormiu.

Seu sono não durou muito.

Acordou com o mesmo som de assobio que ouviu na noite anterior.

Acordou no susto, pois dessa vez estava muito mais perto, muito mais agudo.

Sebastian tampou os ouvidos de dor e ligou a lanterna dentro da barraca.

Ao iluminar o ambiente, percebeu que algo rondava sua barraca.

Não parecia um animal, e sim uma pessoa.

Uma pessoa curvada e andando rapidamente em volta da barraca.

Sebastian quase deu um pulo por conta do susto de saber que não estava sozinho.

Com um pingo de coragem, pegou a lanterna, decidido a sair da barraca e ver quem tanto o incomodava.

Saiu da barraca rapidamente e apontou a lanterna para fora...

Nada.

Nem ninguém.

Nenhum som.

O único som que escutava era o do seu batimento cardíaco, o pingo do seu suor batendo no chão, e sua respiração ofegante.

Decidiu se virar para entrar na barraca.

No momento em que se virou e abriu a barraca...

Lá estava ela.

A Matinta Pereira.

Olhos grandes como os de uma coruja, pele áspera com tom de madeira velha, uma boca que ia de orelha a orelha, seu nariz parecendo o bico de uma coruja deformada.

Matinta Pereira estava à frente de Sebastian.

Algo em que Sebastian não acreditava, algo que ele colocou a ciência acima, estava ali, na frente dele, olhando fixamente.

Sebastian ficou paralisado por um instante. Quando voltou...

Deu um grito alto e, sem pensar direito, apenas pegou sua mochila que estava ao lado e saiu correndo mata adentro.

Correu o mais rápido que podia, sem olhar para trás. Correu no escuro total. Não queria parar para acender a lanterna, não queria parar por nada. Apenas iria parar quando saísse dali.

Com dificuldade de enxergar, a cada metro batia em um galho e se cortava com espinhos, até que tropeçou em uma pedra e caiu no chão.

Não teve tempo de sentir a dor do tombo. Se levantou rapidamente para continuar correndo.

Ao levantar o olhar, percebeu que se encontrava no acampamento.

Como era possível andar em linha reta e voltar para o local de onde havia saído?

Sebastian não parou para pensar e voltou a correr em linha reta.

Correu por menos de um minuto.

E voltou.

Fez isso sete vezes.

E sempre voltava para o acampamento.

Sebastian parou, cansado e ofegante.

Não teve muito tempo para descansar.

No céu, ouviu o bater de asas de um pássaro grande.

No mesmo instante, Sebastian se escondeu atrás de uma pedra grande.

Se agachou rapidamente.

Ficou imóvel.

Olhou para cima e viu a Matinta Pereira rondando a área à sua procura.

Sebastian, que até aquele momento se dizia ateu, começou a fazer uma oração em tom baixo.

Pediu proteção.

Pediu para Deus tirá-lo daquela situação.

Olhou para cima e viu a Matinta Pereira pousando suavemente em um galho de árvore.

O olhar dela penetrava a alma de Sebastian.

Ela parecia saber onde ele estava.

Mas estava apenas brincando com a presa.

Sebastian, no calor do momento, se lembrou da pulseira que Saru havia lhe entregado.

Lembrou que aquilo quebrava a ilusão do looping.

Sem pensar duas vezes, enfiou a mão na mochila e procurou a pulseira.

Achou no fundo.

Não demorou para pensar.

Jogou a pulseira para perto da árvore onde a criatura estava.

O som da pulseira caindo no chão chamou sua atenção.

Ela desceu.

Pegou a pulseira com suas mãos ásperas e pretas.

E, no momento em que viu o que era, começou a tentar desamarrar o nó desesperadamente.

Sebastian, em vez de correr, ficou observando, para ter certeza de que a Matinta caiu na isca.

Quando se virou para levantar e sair daquele lugar maldito…

Pisou em um galho.

O som seco ecoou.

Alto.

Pesado.

Naquele silêncio, parecia um tiro.

Ao olhar de volta para o local onde a Matinta estava desamarrando o nó…

Não havia ninguém.

Apenas a pulseira no chão.

Sebastian virou para frente.

E viu.

O que ele mais temia naquela noite.

A Matinta Pereira estava a menos de dez metros.

Sebastian tentou gritar.

Mas nenhum som saiu.

Apenas um assobio que agora estava

Saindo dele.

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u/Dear-Share-6543 — 1 day ago

Estou fazendo um livro que fala sobre contos macabros do folclore brasileiro. São 5 contos das 5 regiões do Brasil. Fiz até agora 2 contos: o do Norte e o do Sul. Aqui está o conto do Norte

Região Norte

Estados Unidos, 14 de novembro de 2025.

Universidade de Massachusetts — Departamento de Ciências Biológicas.

De pé, diante de uma turma com cerca de cem alunos, estava Sebastian Whitaker, um homem de 34 anos, apresentando sua pesquisa realizada em uma floresta do Arizona.

Ele descrevia os animais que havia encontrado, as plantas que catalogou e até um sapo com uma coloração incomum, semelhante às cores de um arco-íris. Falava também sobre o ambiente hostil: o calor intenso durante o dia e o frio extremo à noite.

Ao final da apresentação, a sala foi tomada por aplausos.

Mas havia apenas uma reação que realmente importava para Sebastian — e ela não veio.

O professor Leonard Hastings permaneceu imóvel, com o mesmo semblante de desinteresse que carregara durante toda a apresentação.

Sebastian percebeu.

Sem dizer nada, desceu do pequeno palco e voltou rapidamente ao seu lugar.

Após a apresentação dos demais alunos, o professor dispensou a turma.

Todos, exceto um.

— Foi uma boa apresentação, Sebastian.

— Obrigado, professor, eu fo—

— Boa… tecnicamente.

Sebastian se calou.

— Sua apresentação não foi ruim. Longe disso — continuou o professor. — Mas outros cem alunos poderiam apresentar exatamente a mesma coisa. Florestas, plantas, animais curiosos… tudo isso é genérico.

O professor caminhou lentamente até a janela.

— Em todas as minhas aulas, eu digo a mesma coisa: sejam originais. Inovem. Mas hoje, todos aqui fizeram praticamente o mesmo trabalho. O que muda é só o lugar. Um foi ao Arizona, outro a São Francisco, outro à Carolina do Norte…

Ele fez uma breve pausa antes de continuar:

— E sabe por que estou falando isso especificamente para você?

Sebastian levantou o olhar, em silêncio.

— Porque eu vejo potencial em você. Sei que você é dedicado.

Sebastian ouviu tudo calado, tentando esconder a frustração. Seus olhos ardiam.

— Vou te dar outra chance — disse o professor. — Mas dessa vez, faça algo diferente. Vá além. Viaje. Procure uma floresta pouco explorada… algo que ninguém aqui tenha coragem de fazer.

Ele se virou, encerrando o assunto:

— Você tem quatro meses. Dispensado.

Sebastian apenas assentiu com a cabeça e saiu da sala.

Do lado de fora, caminhou até o estacionamento da universidade. Cada passo parecia mais pesado que o anterior.

Ao chegar ao carro, abriu a porta, entrou e encostou a cabeça no volante.

Ficou ali, em silêncio, por longos minutos.

Tudo o que ele conseguia pensar era no tempo que havia perdido.

Dias de pesquisa. Noites na floresta.

E, no fim… nada.

Chegando em sua residência, Sebastian Whitaker estava derrotado. Frustrado. Com o ego ferido.

O silêncio da casa parecia mais pesado do que o normal.

Ele se lembrava das palavras do professor como um eco constante na cabeça:

> “Procure uma floresta pouco explorada… faça algo que ninguém aqui tenha coragem de fazer.”

Sebastian ficou alguns segundos parado, encarando o vazio, como se tentasse engolir aquilo.

Aquilo não tinha sido só uma crítica. Tinha sido um desafio direto.

Ele foi até o quarto, sentou na cadeira e ligou o computador.

A tela acendeu, iluminando o ambiente escuro.

Sem pensar muito, abriu o navegador e digitou:

“floresta pouco explorada pelo mundo”

Em poucos segundos, vários resultados apareceram. Nomes de lugares distantes: uma floresta na Grécia, outra na Tailândia, outra na Coreia do Sul…

Ele passou os olhos sem muito interesse, até parar de repente.

Um nome se destacou.

Floresta Amazônica

Sebastian ficou imóvel por alguns segundos.

Ele já tinha ouvido falar. Já tinha visto documentários. Mas agora parecia diferente. Mais sério. Mais real.

Ele clicou.

O site abriu lentamente.

Apareceram informações: rios extensos, vegetação densa, áreas praticamente inexploradas e espécies ainda desconhecidas pela ciência.

Sebastian começou a ler com mais atenção.

E quanto mais ele lia, mais a ideia tomava forma na sua cabeça.

Não seria só mais um trabalho.

Seria algo único.

Algo que ninguém da sua turma teria coragem de fazer.

Algo que finalmente faria seu professor reconhecer o seu valor.

Ele respirou fundo.

— É pra lá que eu vou.

---

Nos dias seguintes, Sebastian começou a se organizar.

Calculou custos de viagem, equipamentos e suprimentos. Conferiu tudo duas vezes.

No fim, percebeu que conseguiria pagar.

No dia seguinte, foi até o centro de Massachusetts.

Comprou o necessário: barraca resistente, lanterna potente, kit de sobrevivência, primeiros socorros e outros equipamentos essenciais.

Cada item parecia deixar mais claro o que ele estava prestes a fazer.

Não era mais um trabalho simples.

Era uma decisão.

---

De volta para casa, já à noite, ele se sentou novamente em frente ao computador.

Agora procurava outra coisa: um guia.

Vários nomes apareceram, mas os preços eram altos demais.

Sebastian franziu o cenho, impaciente.

Até que encontrou um perfil diferente.

Um guia nativo de uma aldeia próxima da mata densa, em uma região pouco explorada.

Nome: Saru Mundurucus

O preço era acessível. A descrição era simples. E a experiência parecia suficiente.

Na foto, o rosto do guia transmitia uma calma difícil de explicar.

Sebastian hesitou por um segundo.

— Acho que não tenho opção melhor…

Clicou em contratar.

---

Em menos de dez minutos, uma mensagem chegou.

Era Saru.

Ele enviou os detalhes do ponto de encontro, a localização da aldeia e até o limite da área onde poderia levá-lo dentro da floresta.

Sebastian pegou um caderno e anotou tudo com precisão.

Cada informação.

Cada instrução.

Antes de encerrar, confirmou que em uma semana viajaria para a Floresta Amazônica.

Saru respondeu de forma simples:

— Confirmado.

E encerrou a conversa.

---

: Aeroporto de Massachusetts — 20 de novembro de 2025

Após uma semana, Sebastian já estava no aeroporto de Massachusetts, esperando seu voo.

Com tempo de sobra, abriu sua mochila e pegou uma revista sobre a Floresta Amazônica.

As páginas mostravam imagens aéreas da floresta, rios imensos, animais exóticos e vegetação densa que parecia não ter fim.

Até que uma seção chamou sua atenção:

Lendas locais

Vários nomes desconhecidos para ele:

Boto Cor-de-Rosa

Iara (Mãe d’água)

Curupira

Mapinguari

Até que um nome o fez parar por alguns segundos.

Matinta Pereira…

Sebastian ficou encarando a palavra por um tempo, sem entender por que aquilo parecia… estranho.

Foi interrompido quando uma chamada ecoou pelo alto-falante:

— Voo 3344 com destino à Amazônia, plataforma 06. Última chamada.

Era o seu voo.

Ele fechou a revista rapidamente, se levantou e foi em direção à plataforma.

Após apresentar a passagem, seguiu até seu assento.

A viagem seria longa — cerca de 12 horas. Tempo suficiente para descansar e planejar o que estudaria primeiro ao chegar na floresta.

12 horas depois

O avião pousou.

Ao descer, Sebastian percebeu imediatamente a mudança no ambiente.

O calor era mais pesado. O ar parecia diferente. As pessoas, os sons, tudo era novo.

Descendo a escada rolante, ele avistou Saru segurando uma placa com seu nome.

Sebastian o reconheceu na hora.

Quando chegou ao final da escada, apertou a mão do guia.

— Como foi a viagem? — perguntou Saru.

— Bastante confortável… aqui é bem quente, né?

— Isso não é nada comparado ao lugar onde você vai.

Sebastian franziu o cenho.

— A floresta?

— Sim. Lá a temperatura é bem mais alta… mas você se acostuma. Vamos?

— Vamos.

Saru o levou até o estacionamento do aeroporto, onde havia uma picape.

Sebastian entrou, e os dois seguiram viagem em direção à aldeia.

No caminho, ele ficou impressionado com a paisagem.

Rios extensos, vegetação densa e uma natureza viva de um jeito que ele nunca tinha visto antes.

Ele não conseguia parar de olhar pela janela. Fotografava tudo. Queria registrar cada detalhe para sua pesquisa.

Nem percebeu o tempo passar.

Cerca de 50 minutos depois, o veículo parou.

— Aqui é a minha aldeia… sinta-se à vontade — disse Saru.

Sebastian desceu do carro e ficou em silêncio por alguns segundos.

Nunca tinha visto nada parecido.

Casas de barro, chão de terra batida, mulheres carregando crianças nas costas, outras colhendo frutas e legumes.

Homens afiando lanças, conversando em uma língua que claramente não era português.

Ele observava tudo com fascínio.

Nem percebeu Saru chamando sua atenção.

— Vai querer descansar? A viagem foi longa. Se quiser, pode dormir na minha casa. Mas vai ter que ser numa rede.

— Não, obrigado, Saru. Prefiro conhecer o lugar o mais rápido possível. Tenho muito trabalho pra fazer.

Mesmo cansado, ele recusou o descanso.

Ainda era manhã. Tinha tempo de sobra.

Saru apenas assentiu e apontou para uma trilha.

— É por ali.

Ele começou a caminhar lentamente em direção à entrada da floresta.

Sebastian o seguiu.

Ao dar o primeiro passo na trilha, Sebastian seguiu Saru em direção ao interior da Floresta Amazônica.

Logo nos primeiros minutos, percebeu que tudo ali era diferente.

O ar era mais pesado.

Os sons, mais vivos… e ao mesmo tempo, mais estranhos.

Não era como a floresta do Arizona.

Era outra coisa.

Em menos de dois minutos de caminhada, Sebastian já havia visto uma cobra enrolada sobre um galho.

Ele se assustou.

— Tá tudo bem? — perguntou Saru, sem parar.

— Tá… só me assustei com aquela cobra.

— Fica tranquilo. Ela não vai te fazer nada… a menos que você faça primeiro.

Saru seguiu andando.

Sebastian o acompanhou, mas agora mais atento.

Após cerca de vinte minutos, Saru parou.

— Aqui é o máximo onde eu posso te levar.

Sebastian olhou ao redor.

— É bonito…

— De dia, sim — respondeu Saru, sem expressão. — De noite… não é.

Sebastian deu um leve sorriso, tentando manter o controle.

— Acho que me acostumo.

Saru virou o rosto lentamente para ele.

— Que horas você quer que eu volte pra te buscar?

— Não precisa voltar. Eu vou passar a noite aqui.

O silêncio caiu entre os dois.

— Você vai fazer o quê? — perguntou Saru, dessa vez mais sério.

— Vou passar a noite. Preciso estudar os animais noturnos também.

Saru respirou fundo. Demorou alguns segundos antes de responder.

— Eu não posso deixar você fazer isso.

— Por quê?

Saru olhou ao redor, como se tivesse certeza de que não estavam totalmente sozinhos.

Quando falou, a voz saiu mais baixa.

— Porque tem coisa aqui que não é pra gente ver.

Sebastian franziu a testa.

— Tipo o quê?

Saru demorou.

— A Matinta Pereira.

O nome caiu estranho no ar.

Sebastian ficou em silêncio por um instante.

— Eu já vi esse nome… numa revista.

— Então você já sabe.

— Sei que é uma lenda.

Saru negou com a cabeça, devagar.

— Eu já vi gente entrar aqui à noite… e não voltar.

Sebastian não respondeu.

— E os poucos que voltaram… não eram mais os mesmos.

O silêncio ficou pesado.

Mas Sebastian respirou fundo e respondeu:

— Saru… eu respeito sua cultura. Mas eu não acredito nisso. Eu acredito na ciência. Tudo tem explicação.

Saru o encarou por alguns segundos.

E naquele olhar… não tinha raiva.

Tinha desistência.

— Você que sabe.

Ele colocou a mão no bolso e tirou uma pulseira.

Velha. Gasta. Com um nó apertado no centro.

Saru ficou alguns segundos olhando pra ela antes de entregar.

— Toma.

Sebastian pegou, curioso.

— O que é isso?

— Se alguma coisa te prender aqui… isso pode te salvar.

Sebastian arqueou a sobrancelha.

— Como assim?

— Ela gosta de brincar com a cabeça. Faz você andar… e voltar pro mesmo lugar.

Sebastian ficou em silêncio.

— Se isso acontecer… joga a pulseira no mato.

Saru apontou para o nó.

— Ela vai até isso pra tentar desfazer.

— E aí?

— Aí você corre.

Sebastian assentiu… mas sem acreditar de verdade.

— Entendi.

Saru deu um último olhar ao redor.

— Boa sorte.

— Obrigado…

Saru se virou e desapareceu entre as árvores.

O silêncio que ficou depois foi diferente.

Mais pesado.

Sebastian estava sozinho.

Completamente sozinho.

Ele começou a analisar o local onde montaria o acampamento.

Foi então que percebeu.

Algo o observava.

Uma coruja.

Parada em um galho.

Imóvel.

Os olhos eram grandes demais.

Fixos demais.

E o mais estranho…

Ela não piscava.

Sebastian ficou encarando de volta por alguns segundos.

Longos demais.

— Estranho…

Virou-se para pegar o caderno.

Quando olhou de novo…

Ela não estava mais lá.

Nenhum som.

Nenhuma asa.

Nada.

Sebastian franziu a testa.

— Deve ser silenciosa…

Tentou racionalizar.

Como sempre.

Depois disso, montou o acampamento.

Pegou seus equipamentos e começou a estudar o ambiente.

Árvores, insetos, água do rio… tudo.

O tempo passou rápido.

Rápido demais.

Quando voltou ao acampamento, olhou o relógio.

17:44.

Foi então que ouviu.

Pássaros.

Muitos.

Sebastian olhou para o céu.

E viu algo errado.

Não eram poucos.

E não era normal.

Era como se todos estivessem indo embora ao mesmo tempo.

Sem parar.

Sem hesitar.

Sebastian observou em silêncio.

Sentiu um leve incômodo.

Algo que ele não soube explicar.

Mas, ainda assim…

— Devem evitar a noite…

Disse para si mesmo.

Ele acendeu a fogueira, esquentou sua comida e entrou na barraca.

Deitou-se.

Mas não dormiu imediatamente.

Ficou olhando para o teto da barraca.

Em silêncio.

Por algum motivo…

A lembrança da pulseira veio à sua mente.

Ele levou a mão até a mochila… confirmando que ela ainda estava lá.

Só então fechou os olhos.

Mas o sono demorou a chegar.

Sebastian teve certas dificuldades para dormir. A sensação de dormir na floresta era totalmente estranha, mas por quê? Se já havia passado noites na floresta do Arizona, por que justamente aqui o desconforto o perturbava? Algo não o deixava dormir em paz.

Quando finalmente achou a posição ideal e fechou os olhos, mal percebeu, em seu relógio, que o horário já marcava 2:14.

Quando parecia que iria dormir, algo fez seus olhos se abrirem no exato momento.

O som de um assobio agudo parecia vir de todos os lados. Sebastian tampou os ouvidos e tentou raciocinar o porquê daquele som.

— Será que é um predador noturno que usa esse som para caçar?

Sebastian se deitou de lado e tampou os ouvidos com o travesseiro, esperando o som cessar. Mas não parava de jeito nenhum.

Irritado, Sebastian levantou, pegou sua mochila que estava ao lado dele e procurou sua lanterna. Ao pegá-la, abriu a barraca lentamente. Dependendo do animal, se fosse algo peculiar, queria parar para analisar, estudar e colocar em sua pesquisa.

Ao abrir a barraca, Sebastian apontou a lanterna para a mata e, no momento em que seu dedo pressionou o botão de acender a lanterna, o som parou no mesmo instante. Não só o assobio parou, mas todo som que a floresta transmitia simplesmente cessou.

Nenhum som de inseto, nenhuma gota que pingava das árvores, nenhum mato se mexendo com os leves ventos.

Nada.

Sebastian ficou confuso, mas, como ainda estava sonolento, apenas pensou que o animal que transmitia o assobio parou ao perceber a luz da lanterna. Sebastian, aliviado que o som havia parado de uma vez, apenas apagou a lanterna, voltou para dentro da barraca e pegou no sono logo de imediato.

Ao acordar de manhã cedo, Sebastian abriu sua barraca e viu, à sua frente, várias penas pretas. Ao ver, ficou confuso e impressionado pelo tamanho das penas. Sebastian se agachou e pegou uma pena para analisar. Tentou raciocinar que um predador havia caçado um pássaro grande na madrugada e que o pássaro deixou as penas caírem.

Ao analisar a pena, viu que ela se parecia muito com a de uma coruja, como se fosse da mesma coruja que viu ao chegar na floresta no dia anterior.

Sebastian apenas guardou a pena em uma sacola e a colocou na mochila para analisar melhor mais tarde.

Sebastian trocou sua roupa, comeu um sanduíche que estava em sua mochila, bebeu um suco de caixinha que havia comprado no aeroporto e começou os seus estudos.

Fez exatamente a mesma coisa que fez no dia anterior.

Estudou plantas, animais com coloração incomum, árvores e analisou a água do rio próximo ao seu acampamento. A água parecia mais escura. Pegou um frasco, mergulhou na água, pegou o frasco que havia coletado no dia anterior e comparou a coloração. O do dia anterior estava mais claro, e o outro, que acabou de coletar, estava mais escuro.

Pensou que era algum fenômeno da natureza com o decorrer do tempo.

Não tão longe de seu acampamento, Sebastian viu uma árvore enorme e com o tronco bastante claro. Quis fazer algo diferente: queria coletar um pedaço da árvore para analisar em sua barraca. Pegou um serrote de sua mochila e começou a serrar uma pequena parte da árvore. Como não tinha prática para fazer essa ação, se cansou rápido e se agachou com as mãos nos joelhos.

Enquanto descansava, Sebastian sentiu uma presença atrás dele. Ao se virar para trás, tomou um susto ao ver um nativo ancião o encarando com um olhar sério.

— Nossa, senhor, que susto.

— Aquele acampamento é seu?

O senhor apontou para a direção do acampamento.

— É sim.

— Chegou hoje?

— Cheguei faz um dia já. Sou biólogo e estou fazendo uma pesquisa por essa área.

— Você passou a noite aqui?

— Sim?

Respondeu Sebastian, confuso.

— Como ainda está vivo?

— Como assim?

— Você, por acaso, ouviu ou viu algo na noite?

Sebastian pensou por um tempo e lembrou.

— Bem, durante a madrugada eu ouvi um assobio bem agudo que tirou meu sono. Aí, quando eu saí da minha barraca e liguei a lanterna, o assobio parou.

A expressão do velho, que já estava séria, ficou ainda mais.

— Você precisa ir embora agora!

— O quê? Por quê?

— Se ela deixou você sobreviver à noite, quer dizer que ela marcou território em você... Vá embora agora.

Sebastian baixou a cabeça por um segundo, processando a frase “ela marcou território”. Quando levantou os olhos para perguntar o que o velho queria dizer com aquilo, o silêncio já tinha retornado. Onde antes estava o homem, agora só havia o balanço leve de uma folha de samambaia.

Ele correu até o ponto exato, mas o chão de barro úmido estava liso, sem uma única marca de sandália ou pé descalço.

O ancião simplesmente nunca esteve ali.

Sebastian se assustou na hora.

— Como uma pessoa desaparece sem deixar rastro?

Ficou totalmente assustado. Pensou em pegar suas coisas e ir embora dali como o senhor mandou, mas tinha medo de ir embora sozinho e se perder na mata. O que lhe restou foi esperar.

O retorno de Saru.

Como não podia fazer muita coisa, Sebastian apenas voltou para o seu acampamento e voltou a estudar as coisas que havia coletado, esperando o retorno de Saru. Torcia para que o guia chegasse o mais rápido possível.

O tempo se passou e, sem perceber, já estava tarde. Olhou para seu relógio e era 17:44.

Ouviu o mesmo som de pássaros que ouviu no dia anterior.

Olhou para cima de imediato e viu os pássaros passando por entre as árvores, mas dessa vez não foram poucos como na última vez. Dessa vez, os pássaros estavam em número maior, mais desesperados. Foram 30 segundos cravados de pássaros.

Sebastian, ao presenciar o acontecimento, ficou apreensivo.

Quando o relógio deu 18:00, Sebastian decidiu acender a fogueira. Se levantou da cadeira em que estava sentado e foi no mesmo local onde pegou lenha no último dia. Sabia que tinha bastante, então não se preocupou em procurar mais lenha em outro lugar.

Ao pegar as lenhas, voltou ao acampamento, acendeu a fogueira e pegou uma panela, colocando sua sopa enlatada para esquentar.

Esperando a sopa esquentar, Sebastian se sentiu estranho.

Se sentiu observado.

Olhou para os lados e nada.

Até que, quando olhou em direção ao rio, viu que, do outro lado, parecia ter uma figura meio curvada, totalmente preta.

Sebastian se assustou e agarrou a lanterna que estava no bolso da mochila. Ao ligar e apontar para o local onde parecia ter visto uma pessoa...

Simplesmente não havia nada.

Sebastian checou o local e não encontrou nada de anormal.

Ficou parado, pensando no que era. Não tinha mais explicação para aquele evento. Nem percebeu que a sopa estava fervendo.

Depois de um tempo, Sebastian comeu a sopa e decidiu se deitar na barraca e esperar o dia seguinte para sair daquele local, mesmo sem Saru.

Custou a pegar no sono, pois pensava no que era aquilo que viu do outro lado do rio.

Nem percebeu quando dormiu.

Seu sono não durou muito.

Acordou com o mesmo som de assobio que ouviu na noite anterior.

Acordou no susto, pois dessa vez estava muito mais perto, muito mais agudo.

Sebastian tampou os ouvidos de dor e ligou a lanterna dentro da barraca.

Ao iluminar o ambiente, percebeu que algo rondava sua barraca.

Não parecia um animal, e sim uma pessoa.

Uma pessoa curvada e andando rapidamente em volta da barraca.

Sebastian quase deu um pulo por conta do susto de saber que não estava sozinho.

Com um pingo de coragem, pegou a lanterna, decidido a sair da barraca e ver quem tanto o incomodava.

Saiu da barraca rapidamente e apontou a lanterna para fora...

Nada.

Nem ninguém.

Nenhum som.

O único som que escutava era o do seu batimento cardíaco, o pingo do seu suor batendo no chão, e sua respiração ofegante.

Decidiu se virar para entrar na barraca.

No momento em que se virou e abriu a barraca...

Lá estava ela.

A Matinta Pereira.

Olhos grandes como os de uma coruja, pele áspera com tom de madeira velha, uma boca que ia de orelha a orelha, seu nariz parecendo o bico de uma coruja deformada.

Matinta Pereira estava à frente de Sebastian.

Algo em que Sebastian não acreditava, algo que ele colocou a ciência acima, estava ali, na frente dele, olhando fixamente.

Sebastian ficou paralisado por um instante. Quando voltou...

Deu um grito alto e, sem pensar direito, apenas pegou sua mochila que estava ao lado e saiu correndo mata adentro.

Correu o mais rápido que podia, sem olhar para trás. Correu no escuro total. Não queria parar para acender a lanterna, não queria parar por nada. Apenas iria parar quando saísse dali.

Com dificuldade de enxergar, a cada metro batia em um galho e se cortava com espinhos, até que tropeçou em uma pedra e caiu no chão.

Não teve tempo de sentir a dor do tombo. Se levantou rapidamente para continuar correndo.

Ao levantar o olhar, percebeu que se encontrava no acampamento.

Como era possível andar em linha reta e voltar para o local de onde havia saído?

Sebastian não parou para pensar e voltou a correr em linha reta.

Correu por menos de um minuto.

E voltou.

Fez isso sete vezes.

E sempre voltava para o acampamento.

Sebastian parou, cansado e ofegante.

Não teve muito tempo para descansar.

No céu, ouviu o bater de asas de um pássaro grande.

No mesmo instante, Sebastian se escondeu atrás de uma pedra grande.

Se agachou rapidamente.

Ficou imóvel.

Olhou para cima e viu a Matinta Pereira rondando a área à sua procura.

Sebastian, que até aquele momento se dizia ateu, começou a fazer uma oração em tom baixo.

Pediu proteção.

Pediu para Deus tirá-lo daquela situação.

Olhou para cima e viu a Matinta Pereira pousando suavemente em um galho de árvore.

O olhar dela penetrava a alma de Sebastian.

Ela parecia saber onde ele estava.

Mas estava apenas brincando com a presa.

Sebastian, no calor do momento, se lembrou da pulseira que Saru havia lhe entregado.

Lembrou que aquilo quebrava a ilusão do looping.

Sem pensar duas vezes, enfiou a mão na mochila e procurou a pulseira.

Achou no fundo.

Não demorou para pensar.

Jogou a pulseira para perto da árvore onde a criatura estava.

O som da pulseira caindo no chão chamou sua atenção.

Ela desceu.

Pegou a pulseira com suas mãos ásperas e pretas.

E, no momento em que viu o que era, começou a tentar desamarrar o nó desesperadamente.

Sebastian, em vez de correr, ficou observando, para ter certeza de que a Matinta caiu na isca.

Quando se virou para levantar e sair daquele lugar maldito…

Pisou em um galho.

O som seco ecoou.

Alto.

Pesado.

Naquele silêncio, parecia um tiro.

Ao olhar de volta para o local onde a Matinta estava desamarrando o nó…

Não havia ninguém.

Apenas a pulseira no chão.

Sebastian virou para frente.

E viu.

O que ele mais temia naquela noite.

A Matinta Pereira estava a menos de dez metros.

Sebastian tentou gritar.

Mas nenhum som saiu.

Apenas um assobio que agora estava

Saindo dele.

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