Ontem, possivelmente, foi um dos piores dias do meu relacionamento. Entre as razões, destaco a minha habilidade de autodestruição e desejo pelo caos, visto que todas as ações que desencadearam os acontecimentos presentes foram realizadas por mim. Sim, foi minha responsabilidade. Por outro lado, meu professor-psicólogo aduziu o contrário: se existe culpa, ela não é exclusiva minha, uma vez que a conjectura envolveu quatro pessoas distintas. Entretanto, não é cabível, a meu ver, repartir algo que não possui nenhum nexo causal que comprove uma participação ativa deles para a existência do feito. Afinal, fui eu quem propôs o swing e, antes disso, as histórias eróticas envolvendo terceiros. Além disso, a ideia de ser um casal partiu de mim, ainda que a escolha tenha sido por conhecidos do JP.
Quando desabafei com o meu professor-psicólogo, narrei cada linha dessa história e as camadas que conseguia enxergar. Essa análise, embora escassa, revelou que a raiz desse malsucedido infortúnio emergiu como um sentimento que ultrapassava o desejo ou não de novas experiências sexuais. No caso em tela, trata-se do Amor alinhado, a meu juízo, à ideia de ciúmes e sexo. Isto é, o conceito de amor está diretamente alinhado ao do sexo, visto que ambos se fundem em uma relação romântica: o amor não sobrevive sem o sexo e este sozinho se corrói sem o amor. Todavia, este entendimento, apesar de majoritário, não é uníssono à maioria dos casais e homens gays. Para alguns, ambos podem caminhar de modos distintos, bifurcados de uma teia de poder e posse sobre o outro.
Ao questioná-los se sentiam ciúmes um do outro, o Cris contou-me o seguinte: “Não sentimos ciúmes porque os dois sempre estão juntos e, o mais importante, é apenas aquele momento. Depois não existe uma relação com as pessoas que fizemos ménage, no sentido de querer ter algo além daquela relação sexual”. Tal concepção e tino me causam estranheza, certamente, quanto à facticidade da relação carnal não se contrapor à paixão do casal, porquanto há total discernimento e boa-fé em face do que buscam e no que são. Nesse viés, define-se a permissão de um terceiro ou quarto elemento exclusivamente como acessórios temporários, algo a ser deleitado no presente, relembrado no futuro, mas escanteado no passado, pois “sexo é sexo, todo mundo geralmente tem apenas o desejo; o que realmente importa, que é o amor, paixão, ele sente por você e vice-versa”.
A despeito dessas explicações, minha reação ao imaginar tal cenário foi de desgosto, raiva, tristeza e, mais do que tudo, ciúmes. Não houve nenhum direcionamento aos garotos. Na verdade, eles elucidaram alguns pontos: 1º) o Amor nem sempre se alinha ao sexo monogâmico; 2º) o JP não sente ciúmes de mim nesse contexto, dado que os conceitos de amor e sexo convergem tanto com os do casal quanto seus próprios pesares; 3º) embora soubesse da ausência desse sentimento, ansiava que o JP despertasse uma inibição ou desejo de posse, ou medo de me perder em relação à intervenção de terceiros. Esta, talvez, tenha sido a minha maior decepção.
Se eu pudesse me descrever emocionalmente, diria que sou dependente da opinião do outro tal como a criança é perante a permissão do adulto. Essa dependência diverge, indubitavelmente, da minha atitude discursiva ácida e crítica, a qual reflete um ser retumbante, astuto e decidido. De fato, tal imagem se assolapa ao encontrar a persona na qual se personifica o autor audaz: ele/eu é/sou inseguro, desleixado, impulsivo, triste por natureza, mal-amado internamente. Entre tantos exemplos, tomo-me do mais contundente: tenho receio de não ser o bastante para aquele a quem dirijo o vocativo “amor”, visto que sou tudo aquilo que descrevi. É difícil e ridículo admitir que não me amo como alguém deveria se amar, a ponto de observar o espelho e reconhecer somente traços daquilo que já fui. Não obstante, vivo a intrínseca luta do ideal com o real: queria voltar para casa no Natal e encontrar os meus pais juntos à mesa, amando-se e felizes, juntamente com o meu irmão sorrindo e participativo; queria que o meu namorado fosse tão romântico quanto eu, que se abrisse mais e que deixasse as lágrimas molharem a minha blusa; queria que o meu corpo fosse atlético o bastante para que ninguém reparasse no tamanho do meu short; queria poder parar de pensar no futuro que preciso construir a fim de assegurar o bem-estar da minha família; e, principalmente, queria me amar do mesmo modo que alguns me amam.
Neste momento, às 10h48, em frente ao monitor, escrevo as minhas preocupações para, ao menos, eximir-me do fardo de não as poder transcorrê-las oralmente, seja este alguém amigo(a) ou Amor. Aliás, enquanto redijo, penso em como resolver todo o caos descrito, em como fazer o JP relaxar da estressante rotina, em como me portar ao fato de querer compensá-lo pelo mal-estar. Isto posto, recaio sobre a possibilidade de realizar o fetiche neste fim de semana, uma vez que os convidei para a nossa casa com o propósito de só conversarmos. Entretanto, novamente, penso se esta não seria mais uma ação cujo fim se despertaria nos mesmos sentimentos e divergência basilar: o amor e o sexo. Sou capaz de me desconectar dessa doutrina ou são princípios tabulados no meu cerne? Paralelamente, acredito que a minha intenção seria oposta ao do resto: enquanto eles buscariam prazer, eu procuraria ser desejado, amado e perdoado. É humilhante. Quem sou além da pessoa cujo propósito de vida é agradar todos?
Há muito tempo, quando JP e eu escolhíamos nossas roupas para irmos a uma festa, disse-lhe para escolher a minha, pois ele possuía melhor gosto. Todavia, tal argumento costura-se com meros trapos da facticidade, dado que a verdade é mais subjetiva: eu não sabia o que vestir ou o que gostaria de utilizar; eu queria vestir algo que, no fim, o agradasse e o deixasse admirado. Nesse diapasão, o JP expressou a minha falta de clareza não como descaso, mas como a de alguém sem opinião, fosse para vestimentas, filmes, séries ou sexo. Naquele instante, percebi o maior fato sobre mim: não ajo com fulcro em minha vontade, mas com a intenção de satisfazer a do outro. Seja na escolha da roupa ou no modo como me comporto na cama, ainda sou uma criança que espera a permissão do adulto para atravessar a rua.
Não sei quem lerá este simples depoimento, mas faço questão de deixar claro que existem limitações devido ao autismo leve do JP. Ele possui tolerância baixa ao toque e o passado dele não o ajuda (namorados abusivos, pai que o abandonou, negligenciado quando criança). Não o julgue, por favor.