
Bugonia é muito melhor do que eu lembrava.
Eu assisti esse filme aqui um tempo atrás e pensei ter entendido a crítica, mas depois que reassisti, acho que eu entendi ela errado. Ela não é tão óbvia. Nunca foi realmente sobre a personagem principal ser ou não um alienígena. Na verdade, essa pergunta vai ficando cada vez menos importante ao longo do filme, porque você começa a perceber que o foco está em outra coisa, em como pessoas desesperadas procuram culpados gigantescos para explicar o próprio sofrimento. E vemos muito isso hoje em dia, em teorias da conspiração, sempre culpando " ELES" e em pessoas se agarrando a grupos, narrativas e inimigos imaginários para tentar dar sentido ao vazio, à frustração e à sensação de impotência.
O mais interessante é que o filme não trata isso de forma totalmente caricata. Ele não simplesmente olha para o protagonista e diz “olha esse maluco”. Existe uma tristeza genuína ali. A paranoia dele nasce de dores reais, de isolamento, de uma sensação constante de que algo está profundamente errado no mundo. E, honestamente, essa sensação não é totalmente falsa. Se pararmos pra pensar o mundo está em crise, acho que o caso Epstein escancarou muito isso, as pessoas estão cada vez mais alienadas, corporações parecem intocáveis e muita gente sente que perdeu completamente o controle sobre a própria vida.
Só que o filme mostra como esse desconforto legítimo pode acabar sendo canalizado para fantasias perigosas. Em vez de encarar problemas complexos e sistêmicos, é mais fácil acreditar que existe um grande culpado oculto manipulando tudo. Isso transforma a dor em uma narrativa simples, quase reconfortante. Você deixa de ser alguém perdido em um mundo caótico e passa a ser alguém que “descobriu a verdade”.
E acho que é por isso que a ambiguidade do filme funciona tão bem. No final, talvez nem importe se ela era realmente um alienígena. Porque a crítica nunca dependeu disso. O verdadeiro horror é perceber como alguém pode se destruir e destruir os outros tentando encontrar uma explicação absoluta para o próprio sofrimento.