u/Aurora_Lip

Map of my fantasy world

This is a map of my world: Estéria. I've been creating this world since 2017 for a Dungeons and Dragons game. On the first map we can see the latest version of West Terrária, the main continent. The other maps are older, where we can see Terrária and Arenas at the south. How can I improve then?

(Sorry about my english, this is not my first language)

u/Aurora_Lip — 7 days ago
▲ 51 r/transbr

"A expectativa de pessoas trans no Brasil é de 35 anos"

"O Brasil é o País que mais mata pessoas trans no Mundo"

"O Brasil é o pais que mais consome pornografia trans"

Fiz essa pesquisa pois já ouvi essas frases muitas vezes (e até já as repeti) e queria saber qual eram os dados que sustentavam essas afirmações. Meu objetivo com isso não foi questionar se somos um pais violento ou fetichista (por que somos), mas sim para embasar minha visão de mundo sobre a população trans no Brasil em dados e evidências, e não em repetir fórmulas prontas. O que descobri foi que essas frases mencionadas acima não estão completamente corretas, e acho que deveríamos parar de repeti-las sem entender o seu contexto. Este texto não questiona a violência sofrida por pessoas trans. Questiona apenas o uso de estatísticas frágeis como se fossem fatos consolidados.

"A expectativa de pessoas trans no Brasil é de 35 anos"

A maioria dos lugares que faz essa afirmação cita os relatórios da Antra sobre assassinatos de pessoas trans no brasil como fonte. No entanto olhando os dossiês feitos desde 2017 esse dado simplesmente não existe. O estudo faz uma média de idade das pessoas trans assassinadas que foram relatadas no estudo confirmando que a maioria das mortes por assassinato se encontra por volta dos 27/29 anos, antes dos 35 anos. A título de comparação peguei os dados do Atlas da Violência do Ipea que trazem informações sobre homicídios, em que a media de idade dos homicídios no Brasil fica entre 15 e 29 anos, o que torna o dado dentro do esperado para essa pesquisa. No entanto essa informação não é sobre Expectativa de Vida. Não significa que a população em geral tem expectativa de vida de 76 anos e a população trans de 35, são dados diferentes. O problema desses dossiês da Antra é que eles afirmam que a expectativa da população trans é de 35 anos citando Antunes (2013), no entanto, a publicação de Pedro Paulo Sammarco Antunes, chamada "Travestis envelhecem?", não faz nenhuma afirmação sobre a expectativa de vida da população trans; não é uma pesquisa sobre isso, é uma pesquisa sobre como é a vivência da velhice para travestis. Em nenhum momento Antunes cita a idade de 35 anos como sendo a expectativa de vida da população trans, nem tenta calcular essa idade. Nos anos seguintes os dossiês da Antra param de citar essa referência e afirmam que: “O dado dos 35 anos é uma estimativa média. Nunca dissemos, por exemplo, que a estimativa da expectativa havia sido levantada por nós somente a partir dos casos de assassinatos ou que era a mesma para toda população trans. Nos últimos anos temos inclusive repensado sobre esses dados, sabendo que não somos responsáveis sobre como as pessoas os utilizam ou interpretam.” (Antra 2023). Ou seja, eles perceberam que o dado estava incorreto e tentaram corrigir (de uma forma bem passiva agressiva), no entanto muitos veículos de comunicação ainda os citam como referência para afirmar isso. Os dossiês continuam afirmando a idade de 35 anos como média da expectativa de vida da população trans, inclusive para comparar a idade das mortes, mas agora sem citar fontes. A questão é que não temos uma pesquisa consistente sobre a expectativa da população trans no Brasil pois os Orgãos competentes, como o IBGE, não fazem seu papel ao identificar qual é o tamanho da população e qual a taxa de mortalidade. O Censo não contabiliza quantas pessoas trans há no brasil para que esse cálculo seja feito. Simplesmente não há dados. Provavelmente a expectativa de vida seja menor (se compararmos com homens negros, população também historicamente marginalizada, que tem expectativa de 68 anos), porém não será de 35 anos.

"O Brasil é o País que mais mata pessoas trans no Mundo"

Não há dados oficiais para saber quantas pessoas trans são assassinadas no Brasil, isso porque Pessoas trans são contabilizadas conforme o sexo em seus documentos, inclusive na certidão de óbito. Os dados sobre a quantidade de pessoas trans mortas no Brasil advém de relatórios de Ongs como os da ANTRA e Grupo Gays da Bahia, por exemplo, que normalmente são citados como fonte para a afirmação acima. Não vou entrar no mérito sobre os métodos de coleta desses dados (que são informais), não acho que isso descredibiliza as informações dos relatórios, no entanto essas pesquisas não tem como foco comparar o Brasil com o restante do mundo. Quando muito, esses relatórios afirmam isso com base nos dados apresentados pela Ong Europeia TGEU, que faz um relatório usando os dados reunidos por ongs ao redor do mundo. Ou seja, os dados coletados pelas ongs brasileiras compõe os dados comparativos da TGEU, que colocam o Brasil em primeiro lugar na pesquisa. O primeiro problema está na abrangência da pesquisa, que possui dados de 60 países, o que apesar de ser um número expressivo não compõe nem metade dos países do mundo. O segundo ponto é que o Brasil somente figura em primeiro lugar em números absolutos. Se compararmos com o tamanho da população, o país que mais mata pessoas trans, segundo essa própria pesquisa, é Honduras 9 mortes por milhão, seguido da Guyana com 5, com o Brasil em terceiro lugar com 4 por milhão. A terceira questão aparece quando vemos que a pesquisa apenas apresenta os homicídios relatados, sendo que muitos países relatam números muito inexpressivos de mortes. Seria como afirmar que se não relatar as mortes elas não aconteceram. Fica evidente a subnotificação dos relatos quando comparamos esses gráficos com o mapa de direitos LGBTQ ao redor do mundo, que inclusive mostra países da África e Oriente Médio e a Rússia como hostis a população LGBTQ, inclusive com leis que os criminalizam. A maioria desses países não relataram mortes de pessoas trans na pesquisa de TGEU, o que é bastante incongruente. O Brasil, mesmo sendo um país com muita violência, é mais aberto aos direitos da população trans se comparado com esses países, a ponto de poder ter Ongs em prol da população LGBTQ atuando ativamente. Imagino que isso contribua para a discrepância que aparecem nos dados comparativos do mundo. Talvez uma forma de corrigir a frase seria dizer: "Em números absolutos, o Brasil é o País que mais relata homicídios de pessoas trans no mundo."

"O Brasil é o país que mais consome pornografia trans"

Essa afirmação normalmente é colocada em contraste com as outras, como uma forma de comparar o interesse sexual da população brasileira versus a violência que pessoas trans sofrem por essa mesma população. As fontes dessa afirmação são normalmente os relatórios de sites de pornografia, como Pornhub, Redtube, etc, disponibilizados ao público. Usando o Pornhub Insights como referência, vemos que a frase já não está correta, uma vez que o o País listado em primeiro lugar no ranking é a Itália, seguido de Uruguai e Reino Unido, para dai vir o Brasil. Isso poderia ser corrigido mudando a frase para "O Brasil é um dos países que mais consome pornografia trans". No entanto, a estatística apresentada pelo site não mede o consumo real de pornografia pelos usuários, e sim a popularidade relativa à média global. Ou seja, compara a proporção de acessos a determinada categoria dentro de cada país com a proporção observada no conjunto mundial da plataforma. Isso significa que o dado não revela quantas pessoas consumiram esse conteúdo, nem quantas buscas foram feitas em números absolutos. Dessa forma, países com volumes muito diferentes de usuários podem aparecer próximos no ranking, e pequenas variações em categorias menos acessadas podem gerar percentuais aparentemente altos. Usar esse tipo de estatística para medir o interesse de uma população por pornografia trans é problemático porque ela se baseia apenas no comportamento de usuários de uma plataforma específica, e não da população em geral. Também entram fatores como algoritmo do site, uso de VPN, acesso desigual à internet e preferência por outras plataformas por país. No fim, esse método mede padrões internos de navegação de um recorte limitado de usuários, não o interesse sexual real de um país inteiro. E é aí que está o problema. Esse tipo de afirmação faz parecer que a população brasileira fetichiza mais corpos trans do que outros países do mundo. Ou que uma proporção grande da população brasileira sente atração enrustida por pessoas trans. Ou ainda, pode induzir a interpretações simplificadas, como associar automaticamente transfobia a desejo reprimido.

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Meu ponto não é negar a precariedade da vida trans, e sim defender que ela merece ser descrita com dados sólidos. Números impactantes podem mobilizar, mas quando são questionados depois, podem tirar credibilidade. Corrigir dados ruins não favorece transfobia, pelo contrário, fortalece denúncias reais e cobra por mais pesquisas e investimento nessa área. O fato de o Brasil aparecer reiteradamente no topo é um sinal grave que não deve ser descartado. Eu não acho que o Brasil precise estar no primeiro lugar do ranking da violência para que a vida das pessoas trans passe a importar. Se somente uma pessoa trans fosse vítima, isso já seria grave o suficiente. Nossas vidas importam.

fontes:

https://antrabrasil.org/assassinatos/
https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/publicacoes 
https://www.equaldex.com/
https://tgeu.org/trans-murder-monitoring-2016/
https://www.pornhub.com/insights/transgender-day-of-visibility-2026

https://tede2.pucsp.br/handle/handle/12364

https://redetransbrasil.org.br/tipo/dossies/

u/Aurora_Lip — 24 days ago