As pessoas gostam de mim. Se soubessem como eu realmente penso, talvez não gostassem.
Esse não é um pedido de ajuda nem um relato de crise. É apenas uma tentativa honesta de organizar em palavras algumas contradições que observo em mim mesmo há anos.
Tenho 21 anos e, por fora, dificilmente alguém suspeitaria de algo. Se você me conhecesse no trabalho, na faculdade ou em qualquer ambiente social, provavelmente me descreveria como educado, articulado, inteligente, calmo, talvez até carismático. Eu sei conversar. Sei usar a voz. Sei parecer gentil. Sei fazer as pessoas se sentirem confortáveis perto de mim. Sei causar boa impressão. E isso não é completamente uma máscara. Eu realmente sou assim.
Mas isso é só a superfície.
Existe uma outra camada em mim que quase ninguém conhece.
Desde muito novo, percebo em mim uma relação intensa com controle, poder e transgressão. Sempre gostei de testar limites. Existe algo em mim que sente prazer em descobrir até onde eu consigo ir sem ser parado. Quebrar regras me dá prazer — não apenas pelo benefício prático, mas pela sensação. Pela adrenalina de fazer algo que a maioria das pessoas pensaria em fazer, mas não faria por medo, culpa ou vergonha. Eu raramente sinto esse freio.
No meu trabalho atual, por exemplo, eu frequentemente encontrava formas de contornar pequenas regras: manipulava pausas, tentava atender menos, encontrava brechas no sistema. E eu gostava disso. Gostava da sensação de estar enganando o sistema e saindo por cima. Uma vez, depois de voltar de um atestado, meu acesso ao computador ainda não tinha sido liberado. Meu supervisor pediu que eu esperasse perto da máquina até regularizarem tudo. Eu simplesmente saí da empresa, fui ao shopping, tomei sorvete e esperei me ligarem dizendo que estava resolvido. Eu sabia que era errado. Fiz mesmo assim. E gostei de ter feito, porque aquilo reforçava uma ideia silenciosa que existe em mim: eu faço coisas que outros não ousam fazer.
Também minto com facilidade. Às vezes por conveniência, às vezes por estratégia, às vezes para evitar desconforto, e às vezes porque percebo o quanto é fácil moldar a percepção das pessoas.
Já inventei uma tragédia familiar para manipular um supervisor. Ele me pressionava muito por desempenho, e eu me sentia encurralado por aquilo. Em vez de lidar com a situação diretamente, contei que familiares próximos tinham morrido em um acidente de carro dias antes e que eu estava em luto. A pressão desapareceu imediatamente. Ele sentiu pena de mim, ficou mais gentil, e eu consegui exatamente o que queria. O mais perturbador é que eu não senti culpa. Senti competência.
Também já inventei a morte do meu avô para evitar encontrar uma garota. Nós conversávamos bem. Havia conexão. A energia era boa. Ela parecia genuinamente gostar de mim — talvez esse tenha sido o problema. Quando percebi que ela estava se apegando mais do que eu, comecei a me afastar. Evitei encontros presenciais. Evitei intimidade real. Um dia eu mesmo sugeri que treinássemos juntos. Marcamos. No dia, mandei uma mensagem dizendo que tinha acabado de encontrar meu avô morto dentro de casa e que não tinha condições emocionais de sair. Era mentira. Eu simplesmente não queria vê-la. Depois disso, desapareci. Sem explicação. Cortei contato em tudo. Às vezes eu prefiro inventar uma tragédia do que tolerar alguns minutos de desconforto emocional.
Também percebo que uso pessoas instrumentalmente. Às vezes elas são validação. Às vezes são ponte. Às vezes são ferramentas emocionais. Nem sempre isso é consciente no momento, mas quando reflito, fica claro. Já usei vitimização para conseguir o que queria. Já manipulei narrativas para preservar minha imagem. Já me aproximei de pessoas estrategicamente. Existe uma parte de mim que pensa em termos de utilidade.
Outra coisa que percebo é uma sensação muito clara de superioridade. E eu sei como isso soa: arrogante. Mas é genuíno. Eu realmente me percebo assim. Eu realmente acredito que sou mais bonito que muitos homens ao meu redor, mais articulado, mais inteligente. E isso não vem só de fantasia interna. Eu recebo validação externa com frequência. Mulheres me olham. Demonstram interesse. Eu percebo isso. E eu gosto disso. Admiração me dá sensação de poder. Às vezes nem preciso agir; só saber que eu poderia conquistar alguém já me satisfaz.
Recentemente isso ficou muito claro para mim. Uma colega apareceu com um rapaz que eu nunca tinha visto. Nunca tive nada com ela. Nunca houve promessa de nada entre nós. Mesmo assim, senti algo parecido com posse. Me comparei com ele imediatamente e concluí, sem esforço, que eu era superior. Então fiz algo proposital: aumentei o contato físico com ela na frente dele, toquei nela mais do que precisava, me mostrei íntimo de propósito. Eu sabia que aquilo criaria desconforto nele. E senti prazer nisso. Não era sobre ela. Era sobre poder. Era sobre saber que eu podia mexer emocionalmente com ele.
Quando alguém quebra o meu controle, porém, minha reação muda completamente. Eu me sinto profundamente desconfortável, quase impotente. Sinto raiva. Muita raiva. Não gosto de ser confrontado. Não gosto de ser corrigido. Não gosto de me sentir diminuído. Existe algo em mim que odeia vulnerabilidade. Quando perco controle, meu impulso quase automático é tentar recuperá-lo.
Também percebo em mim pensamentos e impulsos que considero difíceis de admitir. Não necessariamente porque eu aja sobre eles, mas porque eles existem — e reconhecer isso já é desconfortável o suficiente. Já tive comportamentos dos quais hoje não me orgulho, inclusive na infância. Já percebi em mim uma atração por conteúdos mais extremos. E noto que certas ideias ou imagens me estimulam de um jeito que considero desconfortável admitir. Não digo isso com orgulho. Digo porque é verdade.
Às vezes me pergunto de onde isso tudo veio. Não acredito que essas coisas surgiram do nada. Cresci em um ambiente familiar que, por trás da aparência de normalidade, carregava tensões que me marcaram mais do que eu costumava admitir — especialmente na relação entre meu pai e minha mãe. Não gosto de transformar isso em explicação pronta, nem em desculpa. Mas seria desonesto fingir que esse ambiente não me moldou. Talvez parte da minha necessidade de controle, da minha dificuldade com vulnerabilidade e até da forma como enxergo relações tenha começado ali.
Ao mesmo tempo, eu não sou emocionalmente desligado. Eu rio. Tenho senso de humor. Consigo ser afetuoso. Consigo ser gentil. Consigo fazer pessoas gostarem de mim — talvez facilmente demais.
Nos relacionamentos existe outro padrão: intensidade. Eu me apaixono rápido. Idealizo rápido. Conheço alguém e, em pouco tempo, essa pessoa pode virar o centro da minha mente. Fantasio cenários, imagino futuro, imagino intimidade, construo uma narrativa inteira. Só que muitas vezes percebo que não estou apaixonado pela pessoa real — estou apaixonado pela ideia que criei dela. Isso gera um padrão: idealizo, desejo, persigo e, às vezes, descarto.
Também percebo um traço evitativo nisso tudo. Muitas vezes eu quero a aproximação, mas não a intimidade real. Quero a tensão, a possibilidade, a fantasia. Mas, quando algo ameaça se tornar concreto demais, parte de mim recua.
Outra coisa que percebi é que até em terapia eu tento controlar a narrativa. Dependendo de quem me escuta, conto as coisas de formas diferentes. Às vezes quero parecer mais perturbado. Às vezes mais racional. Às vezes mais perigoso. Até quando estou sendo honesto, estou editando. Isso também é controle. Inclusive, percebi um padrão: vou a consultas, falo tudo o que quero falar, sinto alívio e depois desapareço. Como se eu estivesse usando o profissional para catarse, não para vínculo. Talvez eu faça isso aqui também. Porque é mais fácil ser brutalmente honesto quando ninguém pode realmente me tocar.
Talvez seja por isso que eu tenha tanta dificuldade em sustentar coisas ao longo do tempo. Existe em mim um tédio que eu considero crônico. Eu me entedio fácil — não só com pequenas coisas, mas com estruturas inteiras da vida. Rotina me desgasta rápido. Repetição me esgota. Depois de algum tempo fazendo a mesma coisa, começo a sentir uma saturação quase física, como se aquilo estivesse me sufocando.
Isso aparece muito no trabalho. Nunca consegui me imaginar muitos anos no mesmo lugar. Depois de um tempo, qualquer emprego começa a me parecer insuportável. Não necessariamente porque seja ruim, mas porque começo a sentir que estou preso, subutilizado, estagnado.
Nos relacionamentos isso também aparece. Muitas vezes o que me excita é o começo: a conquista, a tensão, o mistério, o “e se?”. Existe uma energia muito forte nessa fase. Mas quando algo começa a se tornar previsível ou estável demais, meu interesse às vezes diminui. Como se eu gostasse mais da perseguição do que da manutenção. Isso me faz questionar se eu realmente desejo vínculo ou se, muitas vezes, desejo apenas a intensidade que antecede o vínculo.
Talvez esse seja o resumo mais honesto sobre mim: eu estou sempre buscando intensidade. Intensidade em relações. Intensidade em admiração. Intensidade em poder. Intensidade em fantasia. Intensidade em transgressão. Como se o ordinário nunca fosse suficiente. Como se a calmaria fosse entediante demais. Como se, no fundo, eu estivesse sempre tentando sentir algo forte o bastante para me tirar de uma sensação constante de vazio ou saturação.
Talvez muita coisa que eu faço — quebrar regras, manipular, idealizar pessoas, buscar validação, me expor num texto como esse — seja apenas uma tentativa de escapar disso. Escapar do tédio. Escapar da sensação de que a vida comum talvez não seja suficiente para mim.
Talvez eu esteja apenas romantizando meus próprios defeitos. Talvez eu esteja transformando padrões problemáticos em identidade. Talvez isso tudo seja ego. Ou talvez exista, de fato, algo em mim que eu ainda não compreendi completamente.
O que mais me inquieta não é perceber esses padrões.
É saber que consigo observá-los com bastante clareza — e, ainda assim, nem sempre sei o que fazer com essa consciência.