Minha tia é uma bruxa, e eu posso provar.
Eu não sou fã do Reddit.
Na verdade, nunca postei ou usei este site, nem participei de teorias da conspiração, nem li relatos sobrenaturais, nem nada do tipo.
Mas, vendo que as pessoas adoram postar suas próprias histórias e experiências aqui, hoje, um dia depois do meu aniversário de 15 anos, pensei que seria o momento certo para falar sobre tudo o que tem acontecido comigo.
Desde que nasci, minha tia me visita todos os dias no meu aniversário – até aí, tudo bem – o problema é que ela sempre pede para passar uma hora sozinha comigo no quarto dela.
Sempre achei isso meio estranho.
Não é como se houvesse algo romântico ou algo do tipo, pelo contrário, ela sempre tentava ficar o mais longe possível de mim. Nossas conversas, que tinham que durar exatamente uma hora (nem mais, nem menos), começavam com coisas triviais – escola, família, amigos, namoradas – mas se desenrolavam em uma direção meio... sinistra.
Ela adorava falar sobre veados, chifres, suspiros. Sim, eu me lembro dos suspiros. E ela sempre me pedia, no final, para me dar um beijo na bochecha esquerda; o batom dela deixava uma marca na minha bochecha. Vermelha. Depois, líamos o capítulo bíblico em que Judas beija a bochecha de Jesus para identificá-lo. Assim, saíamos do quarto, como se nada tivesse acontecido, minha mãe, já preparada, arrumava a mesa, jantávamos, cantávamos parabéns e ela saía. Eu nunca a vi sair de fato, quer dizer, fechávamos a porta depois de um "tchau! Até o ano que vem!", e era isso. Eu nunca a vi sair do prédio. É difícil explicar.
Agora, aos 15 anos, esse ritual volta à minha mente, considerando os acontecimentos de ontem.
Passei minha hora com ela no quarto (ontem foi meu aniversário, repito) como de costume e, diferentemente desta vez, comecei a conversa respondendo à pergunta dela: "Como você está?", falando sobre um menino que disse coisas muito ruins sobre mim na escola e para os amigos dele, o famoso "bullying". Minha tia permaneceu impassível e perguntou o nome do menino. Eu disse. Foi só isso. Simples assim. Continuamos o encontro normalmente, conversando.
Só que dessa vez, ela me deu um beijo na bochecha direita. E lemos um evangelho diferente, não o de Mateus, como de costume. O de João. Nem sequer lemos a parte do beijo – já que o autor omitiu essa parte. Estranho. Jantamos, ela foi embora, como sempre, e fechamos a porta.
Minha mãe recebeu um telefonema: o menino que me fazia bullying tinha se suicidado num surto psicótico.
Fiquei perturbada. A princípio, não conseguia nem ligar os dois fatos. Fui dormir, até que, na cama, notei uma caixa de presente, bem embrulhada, bonita.
"Para (meu nome).
Com amor, da sua tia Zazá."
Abri a caixa e vi uma pequena boneca de pano branca, cheia de beijos e mais beijos. O batom vermelho destoando do branco e do vermelho-sangue.
Hoje, na escola, meus (poucos) amigos me mostraram a foto do corpo do menino.
E eu nunca vou esquecer essa imagem.
O menino, só de cueca, pendurado, todo avermelhado. O beijo de Judas.