u/False-Association383

Sobre consentimento e coisas horríveis que não devem ser feitas

Prepara que vai ser longo. Seguinte, teve um post de uma mina sobre "ter perdido a virgindade sob pressão". Fui responder mas já tinham trancado. Como é um assunto relevante (e pra não perder todo o textão), trago um trecho com minha opinião/ponto de vista sobre uma questão polêmica em específico: Se foi abuso ou não e até que ponto algo pode ser considerado como consentimento. A real é que esse assunto pode ir muito mais longe.

Obs: Isso aqui não é sobre o fato daquele post ser uma máquina industrial geradora de redpills, eu sei bem disso, não precisa vir com esse papo. Se forem falar sobre isso, criem outro post separado (nem pode e.e)

Segue o trecho:

>Lembro que eu fiz sexo com ele sem querer, eu não queria, eu só cedi, eu disse que ele podia fazer oq quisesse com o meu corpo…e eu só deixei.

"sem querer, eu não queria"

"eu cedi, deixei, disse que podia"

Existe sim um elemento forte de coerção, levando todo o contexto em consideração. A insistência do cara até conseguir tirar uma afirmativa de ti, um "consentimento" de que ele podia fazer, mesmo vc não querendo, pode sim ser entendido como estupro. Você deu consentimento apenas na palavra, não na sua intenção real. Palavras vazias de consentimento, quando na verdade vc não quer fazer, não são consentimento de vdd. Se você foi pressionada ao ponto de dizer sim, quando por trás dele na vdd existe um não, então isso não é consentimento.

O que dá pra dizer que você fez, que é a parte complicada e perturbada disso tudo, foi "dar consentimento verbal pra ele fazer contigo algo que vc não queria que ele fizesse, que vc não havia consentido em fazer". Você disse que consentiu... sendo que não consentiu. Não sei se deu pra entender, mas isso não é consentimento real. Você consentiu verbalmente com ele cometer abuso (que é contra sua vontade), por isso é tão difícil de entender e engolir. Parece algo bem próximo de reações, por vezes complexas e contraditórias, que vítimas têm em situações de abuso. Não é intuitivo.

A recorrência e repetição posteriores parecem muito mais um mecanismo de coping desadaptativo ligado ao trauma (revitimização/repetição compulsiva) do que uma prática saudável e consentida. Você inclusive falou algo nesse sentido, que sente como se estivesse "se estuprando" ao continuar se relacionando com ele. É sobre isso. Porque assim... "continuar transando com ele sendo que vc não quer" é basicamente repetição de padrão traumático e comportamento autodestrutivo, é revivenciar o trauma. Na vdd, sua descrição é extremamente parecida (pra não dizer idêntica) ao que algumas pessoas que sofreram abuso passaram depois do ocorrido. A dependência emocional também, por mais estranho que pareça.

Talvez procurar sobre "estupro marital" ajude a entender alguma coisa, já que a ideia é a mesma, relação sexual forçada dentro de relacionamento. E aqui a coisa fica nebulosa porque a maioria (acho) dos homens não vai entender que mesmo vc tendo dito com todas as palavras que ele podia (e ainda por cima continuar deixando ele fazer até hoje), isso nem sempre significa consentimento real. Consentimento não é tão simples e objetivo como fazem parecer que é.

Gostando ou não, a gente vive num mundo em que tanto sim quanto não quanto talvez podem significar sim/não/talvez. Que silêncio pode ser sim, mas também pode ser não. Que ausência de resposta verbal clara pode ou não coexistir com consentimento. E que até mesmo uma frase que parece ser consentimento claro (como vc fez) pode, na verdade, esconder ausência de consentimento. Existe muita inconsistência e incoerência entre aquilo que as pessoas sentem, pensam e dizem.

Mas se até mesmo uma declaração verbal clara "sim, pode fazer tudo que quiser" nem sempre é consentimento, então o que é? Como saber, se é ambíguo nesse nível? Talvez o que daria pra tirar daqui é que consentimento depende não apenas do indivíduo aceitar ou não, de comunicar com gestos ou verbalmente de forma explícita ou implícita, mas que todo o contexto envolta da situação precisa ser levado em consideração pra entender se o consentimento é real ou não. Pra alguns isso pode parecer óbvio mas pra maioria acho que não é. Em algumas situações pode ser mais óbvio (ex: sob uso de substâncias, sem capacidade de consentir), mas em outras situações não é.

Edit 1: Isso precisa ser dito porque, pelo visto, muitos acharam que tudo ali foi consentido. Que a mina pediu por isso, afinal ela aceitou, deixou tudo acontecer e continuou se sujeitando por "livre e espontânea vontade". Não é bem assim. A realidade é mais difícil de engolir do que isso e não enxergar o que aconteceu ali é bem problemático. Dá pra ver que não entendem muito sobre abuso, trauma, coping, as reações e formas da vítima lidar com a situação. Nem sobre criação feminina. São "pílulas" mais difíceis de engolir do que uma simples narrativa redpill (ou blackpill) convencional.

Edit 2: Dia que entenderem que a mina realmente não se enfiou nesse buraco todo de propósito, que ela realmente não queria que nada disso tivesse acontecido, a mente de vcs explode. Abuso é um treco mt perturbado, desde a ocorrência em si, as consequências posteriores pra vítima e as formas distorcidas que o cérebro tem pra tentar recuperar o controle, até a propagação de trauma para terceiros.

reddit.com
u/False-Association383 — 15 days ago