1. a praça
Not gonna cry.
I hide what behind?
Estava sentada no banco da pracinha, com o sorvete derretendo entre os dedos.
O sol já havia se posto, mas o calor residual ainda queimava os poros, e o suor na testa escorria como sorvete.
O som do ranger de metal, do balanço enferrujado, cessou.
A última família naquela pracinha foi embora, e Jeremy ficou só.
Parou de conter as lágrimas, e o suor tornou-se insignificante.
— Três milênios não seriam o bastante, não.
Murmurou para si, e levantou do banco, com calma.
Foi andando na direção da saída, e estava quase lá.
Mas tropeçou, e sabe-se lá no que foi,
para Jeremy, não havia nada. De repente, que frio…
bateu o joelho no chão, entre a calçada e a grama da pracinha.
Sem dor, por algum motivo, ela levantou.
Olhou adiante e arregalou os olhos.
procurava a cidade, o caminho de casa, mercearias e casas;
Mas nada, nada além de outra praça, outros bancos sujos, balanço enferrujado,
escorregador vermelho e uma caixa enorme de areia, mas sem nenhum gato.
— Fala sério…
Ela virou para olhar para trás, a praça da sua cidade, que acabara de sair.
Mas era estranho, ela estava diferente,
e uma névoa cinzenta cobria o céu, e mais distante na visão.
Mais perto na verdade., a névoa estava no limite da visão miope de Jeremy,
que dava a sensação de estar fora do mundo, em um limbo cinzento.
Jeremy correu para a praça anterior, procurando alguma coisa.
A casquinha de sorvete! Estava no banco de praça…. Estava?
Não, não estava mais lá,
e Jeremy sentiu o coração bater estranho, meio rápido, meio descompassado.
Uma sensação estranha, um macio na boca do estômago,
e a sensação de que os miolos dela estivessem recebendo massagem,
o sorrisinho torto surgindo, involuntário, meio contraditório a situação e o desespero.
Voltou a andar para a saída, e deu de cara com a entrada de outra praça.
— Mas que diabos está acontecendo…
E quando passou pelo balanço, parado, sentiu um arrepio na espinha,
como se estivesse sendo observada.
Depois, arrepiou outra vez, constatando o que via, no banco do balanço daquela pracinha.
Em cima do banco, um crânio humano,
Com um laço amarrado nas cavidades de olhos e nariz,
e uma carta logo embaixo, abaixo daquele crânio.
As pernas tremeram um pouco, e de súbito, decidiu correr,
foi para a saída, atravessou as grades limiares da pracinha e…
Bateu o joelho em um escorregador, perdendo o equilíbrio,
caiu em uma terceira enorme caixa de areia.
Outra praça… só pode ser um pesadelo.
— Sim, é isso! Estou sonhando… pode até ser divertido.
E se pôs a pensar sobre isso. Aquela névoa densa, constante…
Sempre funciona, não é? Se você sabe que está sonhando,
o sonho sabe que você sabe…
Mas talvez fosse má ideia… Por experiência própria, Jeremy sabia
que às vezes as coisas no sonho não gostam que você saiba que elas não são reais,
ou alguma coisa assim..
A praça continuava a mesma, e por isso Jeremy levantou da caixa de areia
limpou a sujeira da roupa preta. Poderia gritar em desespero?
— SOCORRO!!!
Sim, podia. E fez isso, depois esperou meio segundo.
Nada no sonho mudou… Bem, e se não fosse um sonho…?
— Impossível… — aquele sorrisinho quase surgiu, o coração saltando no peito.
Quase correu, buscando a saída, as coisas no caminho sendo mostradas lentamente,
por conta da névoa,e logo parou novamente, com os olhos arregalados,
encarando o banquinho da praça.
No banco, podia ver uma casquinha de sorvete derretido…
E ao lado da casquinha, um esqueleto humano quase completo, com exceção do crânio,
sentado, ao lado da casquinha de sorvete.
O peito saltou, novamente, o coração desesperado.
Quantas coisas estranhas mais ela poderia aguentar, naquela altura?
Enquanto encarava o esqueleto, estranhamente sentado no banco, da mesma forma que ele,
do lado da casquinha de sorvete, o sorriso nervoso apareceu outra vez.
Estava tão distraído com a figura, que não ouviu o som de pés amassando a grama,
e o único aviso que teve foi a voz meio áspera, meio morgada:
— Esse pessoal exagera as vezes, não é? Mas tem um toque artístico.
Jeremy se virou assustada, e se deparou com um rapaz não muito mais velho,
mas visivelmente bem mais cansado, com roupas sujas e rasgadas, e uma touca estranha.
— Pelos Deuses, finalmente uma pessoa! Você sabe o que tá rolando aqui?
O outro abriu a boca para falar algo, mas ficou encarando ela por alguns segundos,
de boca aberta, enquanto pensava. Depois, fechou a boca e balançou os ombros.
— Quem sabe… mas isso não importa, não é?
As mãos tremendo, mesmo com o suéter puído e o casaco surrado por cima.
— Só precisamos sair daqui.
Jeremy respirou fundo.
— Sim, por favor, sair daqui. — ela deu dois passos para perto — Você sabe como?..
O outro apontou para o esqueleto no banco:
— No caixão, é óbvio.
Jeremy seguiu o dedo dele, esperando ver alguma coisa nova, em vão.
Quase riu com o comentário, mas depois de pensar um pouco sobre, franziu o cenho
— Fala sério, morrer é a única forma?
O outro soltou uma risada fora de tom.
— Credo, isso é só pro final da obra. Digo, um caixão mesmo.
Os olhos dele constantemente arregalados
— Na próxima praça, tem um, eu vim por ele.
Ela olhou para todos os lados, não vendo mais que a névoa, além da praça.
Aquela iluminação dos postes já estava deixando Jeremy enjoada,
e se nada naquele lugar precisava mesmo fazer muito sentido, sair poderia ser fácil.
— Vou fingir que entendi, e você me leva até a saída, então?
O outro balançou a cabeça, concordando,
e começou a andar na direção que Jeremy ainda não havia explorado.
Jeremy foi atrás, dando uma última espiada no esqueleto sentado no banco…
Atravessaram o arco de metal, que deveria levar para a rua, oculta pela névoa.
Mas estavam novamente adentrando o que parecia ser a mesma praça,
com pequenos detalhes diferentes, um banco que estava em outro canto, um balanço fora de lugar,
uma gangorra dupla que agora não era mais, ou todas essas coisas no mesmo lugar, mas com cores diferentes.
Os dois passaram pela caixa de areia do escorregador,
e então Jeremy pode ver um caixão apoiado no banco, a tampa fechada.
De um lado do caixão, no banco, estava o crânio, e do outro lado, um machado.
Jeremy acelerou o passo, e sorriu:
— E não é que era verdade mesmo…
Ela olhou de relance para o crânio, e fez uma expressão de desgosto.
— Mas e esse machado aqui…
O outro foi junto e parou na frente do caixão.
— Olha só, nenhum dos dois estava aqui antes, que estranho.
Ele começou a abrir a tampa do caixão, que estava um pouco enferrujada.
— Mas tanto faz, cara… eu to com tanta fome, nada de comida em praças.
Jeremy concordou com a cabeça. Sequer conseguia lembrar da última refeição,
e se fosse ficar presa em um loop eterno de pracinhas, morrer de fome seria inevitável.
Quando a tampa se abriu, os dois observaram uma luz diferente da dos postes,
mas ainda sim, uma iluminação artificial, azulejos brancos, e um jaleco jogado próximo.
.Jeremy ficou tão perplexa com a existência de um lugar dentro daquele caixão
que não viu o machado ser tirado de cima do banco,
e o outro, que a acompanhava, estava tão distraído quanto.
O choque da falta de atenção veio quando o som gritante de madeira sendo quebrada estourou,
e a imagem dentro do caixão, do outro lado, se dissolveu conforme a madeira de seu fundo era quebrada.
O caixão caiu em cima de Jeremy, prendendo metade do corpo dela,
e do outro lado do banco, uma pessoa de sobretudo preto e máscara de gás segurava o machado.
O outro, de touca, segurou os braços de Jeremy e puxou no momento que o de máscara de gás atacou,
libertando Jeremy e fazendo o machado ir de encontro com a quina de metal da tampa do caixão, retinindo.
O de touca arregalou ainda mais os olhos, colocando a mochila de lado.
Tirou uma latinha de refrigerante bebida pela metade de lá
e atirou na cabeça do brutamontes de sobretudo.
— Essa foi péssima, temos que sair daqui logo, vem!
Jeremy não pensou duas vezes, e assim que se levantou, começou a correr para longe dali.
— E você conhece ele?
O de touca guiou Jeremy até outra praça, que agora era bem maior,
e os dois se esconderam em um enorme arbusto.
— Esse ai? Ah, sim.. é do meu grupo! Bom, não totalmente, mas já vi ele algumas vezes.
Jeremy franziu o cenho, e murmurou, olhando pelas folhas do arbusto.
— Que loucura, ele queria me matar né?
O rapaz balançou a cabeça:
— É… ele está aqui a bem mais tempo que eu…
Ele deu uma risadinha.
— Na verdade, a mais tempo que a maioria das pessoas que conheci aqui
Os dois ficaram em silêncio, e puderam ver o perseguidor, de machado e mascara de gas,
correndo pelo meio da praça, olhando para os lados por um breve momento
e depois seguindo caminho para a praça seguinte.
Jeremy olhou para baixo, depois saiu do arbusto, suspirando.
— Acho que entendi… Então você não sabe onde fica a saída de verdade, não é?
O outro desviou o olhar, e murmurou balançando os ombros:
— Eu sei onde fica a saída da praça! É melhor que nada, não é?
Jeremy balançou os ombros,
depois sentou na grama e abraçou as próprias pernas.
— Acho que é… mas o caixão, ele foi destruído, então…
Ele parou de tremer um pouquinho, e sorriu:
— Ah, sim, o caixão foi, que tragédia! Mas sabe que tem outros modos, não é.
Jeremy ergueu a cabeça e o encarou, de olhos arregalados e boquiaberta.
— E tem outra forma?
Ela levantou-se.
— E como, então?
O de touca deu uma risadinha, ainda tremendo.
— Pegue um graveto desse arbusto e me siga…
Jeremy e a outra pessoa começaram a desenhar na areia,
cada um com seu graveto, e meio minuto depois, ela estava feita.
— É uma porta bem convincente…
Jeremy lançou um olhar irritado para o outro.
— Fala sério, cara! A gente vai sair daqui através disso? um desenho na areia…
O outro, simplista, jogou o graveto na grama, admirando a porta desenhada na areia.
— Calma! Eu nem tive tempo de explicar meu método… Hehe… olha;
E começou a andar na direção da saída daquela praça.
Jeremy olhou um pouco mais para o desenho de porta em tamanho real, na areia,
depois apressou o passo e alcançou o outro, enquanto saíam desta praça e entravam em outra…
Até então, nada novo. Pensou Jeremy.
— E se encontrarmos seu amigo por aqui?
O outro seguiu andando, e passou pelo banco de praça, ignorando qualquer coisa que pudesse estar sobre ele.
— Ele deve estar alucinado demais pra procurar, seguiu correndo por aí…
E parou de andar, fazendo Jeremy esbarrar nele.
Jeremy olhava para o banco, e depois de ver o crânio de touca,
com o machado cravado nele, perdeu a concentração e esbarrou no outro.
— Ah cara…
E olhando para onde o rapaz de touca começou a apontar,
Jeremy esqueceu do crânio, com um sorriso faceiro no rosto.
— Funcionou mesmo?!
Os dois encaravam o fato de haver, na caixa de areia do escorregador daquela praça,
uma porta de madeira, fechada, deitada.
— Como eu falei, eu sei onde ficam as saídas desse lugar…
E se pôs a abrir a porta, por onde saltou.
Jeremy olhou para trás mais uma vez,
e viu o perseguidor de machado e máscara,
passando ao lado do escorregador. e então pulou na porta,
mudando o eixo de gravidade e rolando no piso de azulejos,
batendo a cabeça na barra de ferro de uma maca.