
1 ano de egg crack: tudo o que mudou em mim
Hoje, 19.05.2026, faz exatamente um ano que tive minha egg crack (sou muito boa lembrando de datas extremamente específicas). Mesmo que eu ainda esteja no boymode, no armário e eu nem tenha começado a TH (não sei se quero), algumas coisas já mudaram em mim nesse 1 ano. A minha egg crack aconteceu no instante que eu percebi que começou a ter ginecomastia em mim. Tipo assim, é super normal homens terem isso, e a minha nem é muito grande, mas por algum motivo aquilo mexeu comigo profundamente. Nunca mais fui o mesmo desde então. No instante que tive minha egg crack, algo em mim quebrou. A minha própria noção de "eu" quebrou. Eu fiquei encarando meu corpo por vários minutos. Eu achava que esse sentimento iria embora com o tempo, mas passaram dias, semanas, meses e ele permaneceu lá. Na verdade, até hoje eu apalpo a ginecomastia de vez em quando e fico me vendo com ela no espelho de vários ângulos me imaginando como uma mulher
Por alguns meses eu fiquei um tanto quanto pertubada porque simplesmente não conseguia dizer se eu era homem ou mulher. Se alguém me perguntasse, eu simplesmente não saberia responder.
Eu me lembro que, antes mesmo da minha egg crack, eu já seguia esse sub, pois queria entender a comunidade trans por dentro (nasci e fui criada numa igreja evangélica, portanto, não sabia nem o básico sobre, e até hoje tenho muito a aprender). Desde então eu sentia uma certa "conexão" com esse sub, mas não entendia o porquê. Eu comecei a me aprofundar na comunidade trans em geral querendo me tornar uma melhor aliada. Nesse período que eu não sabia dizer quem eu era, eu comecei a experimentar coisas que são normalmente atribuídas a mulheres, como usar vestidos (quando minha mãe e minha família não estão em casa) e a me apresentar como mulher nessa conta do Reddit. Foi por causa da experimentação que eu percebi aos poucos que algo em mim queria ser mulher
Ainda nesse período, eu comecei a escrever alguns nomes femininos em uns papéis que iam para o lixo onde trabalho (lá a gente joga MUITO papel fora por dia). "Vai que algum combinasse comigo caso eu seja mulher?", eu pensei. Escrever nomes femininos nesse papéis ajudava a aliviar a disforia (que eu não sabia que tinha esse nome na época). Eu pensei em vários nomes: Agnes, Beatriz, Valéria (como eu escrevi no fim desse meu post), mas nenhum combinou tanto comigo quanto Sofia. Por que eu escolhi esse? Por causa da palavra "filosofia", que significa "amor à sabedoria", o que combina perfeitamente comigo, já que as pessoas sempre me acharam bastante inteligente e eu quero "espalhar a minha filosofia pelo mundo". No começo eu fiquei com um pé atrás, com medo do que as pessoas iriam achar por ter muitos significados. Então inicialmente escolhi Valéria (que significa forte, saudável, segundo a Wikipédia), pois parecia mais modesto, até que fizeram esse post aqui nesse sub, onde várias pessoas disseram como escolheram seus nomes, e eu percebi que boa parte delas não poupou esforços para pôr o máximo de significados possível em seus novos nomes. Então eu pensei: "ah, é? Então foda-se, quem tem que gostar do meu nome sou eu". Desde então escolhi o nome Sofia, mesmo. Na verdade, eu sempre imaginei que, se um dia eu tivesse uma filha, eu colocaria o nome dela de Sofia. Agora que eu me dei esse nome, não tenho pressa em ter filhos
Mas a virada de chave veio mesmo por causa do site bíblia da disforia de gênero (a imagem dele ressoa comigo). Mais uma vez, eu só li para tentar entender o que se passa na cabeça de uma pessoa trans (eu queria destruir a transfobia internalizada que há em mim), mas algo naquele site mexeu comigo. Foi como se ele tivesse falado com a minha alma. Nenhuma leitura tinha me tocado tão profundamente quanto a bíblia da disforia de gênero. Foi como se aquele texto tivesse sido escrito para mim, como se alguém me tivesse pego pela mão e me arrancado da caverna de Platão que eu nem sabia que estava. Ver a luz do dia pela primeira vez doeu, mas a vista e a vida do lado de fora da caverna eram bonitos demais para voltar lá para dentro. À essa altura, simplesmente não dava mais para voltar para a caverna, mesmo que eu quisesse. Por anos eu sentia que faltava descobrir algo sobre mim, mas não sabia o quê. E antes da minha egg crack eu sentia que eu estava no meu "limite de felicidade", que era estranhamente menor do que o das outras pessoas, e me descobrir mulher trans elevou esse "limite de felicidade" de tal forma que até hoje eu não sei qual é. Hoje eu me sinto mais alegre, mais espontânea. Hoje eu fico cantarolando por aí quando ninguém vê, o que eu acharia ridículo no passado. Eu sou grata por ter me tornado ateia antes de me descobrir mulher trans. Eu fui crente pelos meus primeiros 18 anos (e ainda estou na igreja para resolver assuntos pendentes, aos 21 anos) e eu realmente levei a religião à sério o máximo que consegui. Me conhecendo bem, se eu ainda fosse crente quando tivesse me descoberto trans, eu teria tentado "me corrigir", e nós sabemos muito bem o quão destruitiva é essa atitude (OBS.: não estou querendo dizer que absolutamente todas as religiões são 100% ruins e que não há nada de bom nelas, o que eu quero dizer é que a forma de cristianismo fundamentalista que me foi aplicada causou mais mal do que bem)
Fun fact: teve um dia que eu decidi pôr uma toalha na cabeça (para esconder o cabelo) e vestir um vestido para ver como ficava no espelho do banheiro. Eu também coloquei a mão na boca para esconder o bigode. Eu fiquei estasiada com a linda mulher que eu vi no espelho, e fiquei me encarando perplexa por vários minutos. Eu faço isso até hoje. EU VOU SER LINDA!
Com um tempo, eu comecei a sentir um sentimento que eu nunca sentia antes. Eu comecei a querer vestir as roupas de lojas de roupas femininas. Eu comecei a desejar ter o corpo e a ser vista e interpretada como uma mulher. Eu comecei a ter fantasias sexuais me imaginando como uma mulher. Eu comecei a desejar a ter uma vagina. E esse sentimento foi só crescendo com o tempo. Esse sentimento não tem hora para começar nem para acabar: ele só começa. E quando ele começa, se prepare, pois é como um sentimento de angústia na própria alma: essa é a disforia de gênero. Pode durar pouco, pode durar muito. Pode doer pouco, pode doer muito. Ela pode até passar por um tempo, mas ela sempre volta, e fica pior e pior com o tempo. Às vezes é como um pequeno incômodo, mas tem vezes que ela está tão forte que dá vontade de entrar na primeira loja de roupas femininas que eu vir e vestir o primeiro vestido que eu pegar só para ver se esse sentimento passa. Lembra que eu falei que eu me senti pertubada durante alguns meses por não saber que gênero eu sou? Esse sentimento só chegou ao fim em 01.10.2025 (eu já falei que sou boa com datas extremamente específicas?), quando eu estava sentindo disforia em casa (uma das piores até então) e estava sozinha, então eu me levantei do sofá e fui correndo pôr um dos vestidos da minha mãe: a disforia desapareceu quase que completamente. Naquele instante, eu percebi que sou uma mulher trans
De lá para cá as coisas não mudaram muito: continuo pondo as roupas da minha mãe quando estou sozinha (até pensei em comprar um sutiã e talvez um vestido escondida quando eu volto do trabalho, é só passar numa loja de roupa que é caminho e acho que ninguém vai suspeitar)
Sei que minha vida vai mudar completamente quando minha "versão feminina interior" se abrir para o mundo. ouvir os relatos do que mulheres, especialmente mulheres trans, passam, dá medo, e por jsso vou usar e abusar de todo o privilégio de homem branco aparentemente hétero (sou bi, na verdade, mas só me apaixonei por mulheres até aqui, eu acho) que eu ainda tenho para me garantir, pois eu sei muito bem que quando eu, uma mulher trans, sair da casa dos meus pais, o mundo vai fazer de tudo e mais um pouco para dificultar minha vida. Eu já sei o que quero para mim: quero ser aquelas mulheres inteligentes famosas, daquelas que vão em debates tratorar transfóbicos, daquelas que você confia que tudo o que ela está falando tem uma base científica sólida por trás, e vou lutar todo dia para chegar lá. Não vai ser fácil, mas desistir não é uma opção
Agora que eu reli esse texto, é impressionante perceber que a euforia está presente todas as vezes que eu me senti mais mulher
Enfim, mesmo que ninguém leia, tudo bem, só queria descrever como foi esse meu último ano em algum lugar