Relembrar é viver: da refinaria no Amazonas até o Banco Master, o curioso envolvimento da familícia
Resumo meu, links nos comentários! Não é IA. E sim, sou jornalista e protegido pelo registro profissional, antes que algum citado queira censurar.
Primeiro dia de janeiro de 2019: Jair Bolsonaro, eleito, acaba de empossar seu vigésimo ministro, o de Minas e Energia, General Bento Albuquerque. Aquele que ficou famoso, mais tarde, por envolvimento no contrabando de R$ 16 milhões em jóias para Bolsonaro, e que foi indiciado por peculato e formação de quadrilha no episódio. Homem de extrema confiança do capetão, por certo.
Já em maio de 2019, foi o responsável pela Resolução 9 do Conselho Nacional de Política Energética (hoje revogado), que determinava a venda de algumas refinarias da Petrobrás, dentro de uma política de desinvestimento parida em pouquíssimos meses. Já no mês seguinte, junho, foi anunciada a venda da REMAN, Refinaria de Manaus, criada em 1956 por Isaac Sabbá (guardem esse nome!). O controle acionário da refinaria foi passado à Petrobrás em maio de 1974, durante o governo Geisel. Ela é uma das mais importantes refinarias, e abastecia toda a região Norte, inclusive com combustível de aviação. O processo de venda foi finalizado no apagar das luzes do governo Bolsonaro, em novembro de 2022, por um valor considerado baixo, e que cobria, basicamente, o valor da compra atualizado, em 1974.
Por ser uma S/A, é claro, não temos acesso ao rol de acionistas da empresa, nem quem se beneficiou diretamente com a transferência do negócio. Não sabemos se Sabbá ainda fazia ou faz parte do quadro. Mas é fato, duas coisas aconteceram: o preço do combustível disparou na região Norte.
Longe de Manaus, lá em São Paulo, uma outra suruba na Ju Boquetes estava acontecendo com várias execuções. Quer dizer, no Banco Central. Isaac Sabbá vendia seu banco, o Banco Máxima, para Daniel Vorcaro. Sabbá já era conhecido no mercado por suas falcatruas (que recentemente resultaram na sua condenação por fraude, com uma ridícula multa de 100 mil reais e trabalhos à comunidade), e Vorcaro queria crescer na vida e cativar novas pelelecas. Pra isso, Vorcaro foi ao BC, em fevereiro de 2019, com uma proposta de compra do Máxima, que foi negada com voto do então presidente, Ilan Goldfajn.
Vorcaro já era alvo de investigações, no Inquérito Policial nº 191/2014, na Delegacia da Polícia Federal em Vilhena, Rondônia, por desvio de recursos de fundos de previdência. A venda foi barrada no BC por insuficiente demonstração “quanto à origem dos recursos utilizados na operação” e “quanto à capacidade econômica e financeira dos pretensos adquirentes”. (link 1, nos comentários, pra não cair no filtro de links).
Março de 2019, Jair Bolsonaro conduz à presidência do BC Roberto Campos Neto e outros cinco diretores, todos indicados por Paulo Guedes. Agora, Bolsonaro e PG tinham maioria de indicados (6 de 9) na instituição. Em outubro, a compra do Máxima é aprovada. A decisão foi unânime (link 2. Último link do Valor Econômico, pois nesta série eles estão tirando o nome do Campos Neto de toda a instância decisória!). Se sabe que, pelo menos na primeira tentativa, Vorcaro tentou usar recursos do próprio Banco Maxima (Link 3) e que falsificou a avaliação de imóveis utilizando outras empresas associadas a ele. No voto que aprova a compra, foi registrado que a reputação de Vorcaro havia sido aprovada na tentativa anterior, mas ela sequer foi levada em conta porque o voto já era pela rejeição. Estranho, não?
O voto vencedor de outubro é o 218/2019-BCB, de João Manoel Pinho de Mello, sucessor de Sidnei Corrêa Vasques como diretor do DIORF, e a vitória de Vorcaro se deu graças à mudança no enquadramento, que passou a analisar o caso como se fosse de “alteração na estrutura de controle acionário”, e não mais de “transferência de controle acionário”. (link 4)
O BC não poderia, em outubro de 2019, alterar o controle da estrutura acionária considerando Vorcaro como membro da sociedade, porque em fevereiro de 2019 o BC determinou o desfazimento do contrato entre Saul Sabbá e Daniel Vorcaro. A diretoria de Campos Neto acabara de tornar lícito o que foi apontado como irregularidade em fevereiro.
Ou seja, ao que tudo indica, Vorcaro sequer precisou colocar dinheiro próprio. Em 2023, ainda sob Campos Neto, o Master foi autorizado a atuar como banco de investimento, e o resto da história a gente já conhece bem.
Se o Banco Máxima fosse liquidado em 2019, o prejuízo ao FGC seria de menos de 2 bilhões de reais. Hoje, o prejuízo chega a 60 bilhões e ameaça ainda o BRB.
No pleito de 2022, o grupo de Vorcaro foi o maior financiador privado da candidatura de Bolsonaro. E agora, véspera da eleição, Vorcaro trasferiria 121 milhões de reais para uma offshore da família Bolsonaro. Seria isso o pagamento pelo grande favor?