r/Creepypastastories

Babsi

O silêncio matinal tomava conta da cozinha, sendo periodicamente interrompido pelo som dos talheres e do farfalhar do jornal.

— Que horror. —  Minha mãe falou de repente, seu rosto ainda escondido atrás do papel.

— O que foi, querida? —  Meu pai questionou, olhando confuso para ela, enquanto deixava sua xícara sobre a mesa.

— Todos esses desaparecimentos… —  Ela suspirou, abaixando o jornal. — Outra garota sumiu essa noite, Teddy. Dessa vez foi a Phoebe, filha da Marilyn.

Meu pai olhou com pesar.

Então minha mãe desviou seu olhar para mim.

— As coisas estão difíceis, filho. Você precisa prestar atenção na Beverly, não a deixe sozinha, ok?

Aquilo me surpreendeu. Beverly é minha melhor amiga desde a infância, é uma garota esperta, aventureira e muito amada pela minha família.

Embora a pequena cidade onde vivemos esteja sendo assombrada por estranhos desaparecimentos de garotas, nunca, nem em meus piores pesadelos, consegui imaginar Beverly sendo atingida por isso. E essa possibilidade fez meu coração afundar.

— Claro, mãe.

De repente, o som da campainha tocando quebrou a tensão. 

Uma voz animada ecoou do lado de fora da casa, chamando por mim.

Era Beverly.

Me levantei rapidamente, agarrando minha mochila que estava no chão.

— Tchau mãe, tchau pai!

Em seguida corri até a porta da frente e assim que a abri me deparei com Beverly.

Ela usava um moletom listrado. Seus cabelos volumosos caíam sobre seus ombros. E ela tinha um enorme sorriso estampado no rosto.

— Oi, Oliver!

— Você parece feliz hoje. O que aconteceu?

— Você não vai acreditar!

— O que aconteceu?

— Um amigo meu encontrou uma livraria de livros usados, e nossa, ele disse que tem muita coisa legal lá! — Ela falou empolgada, enquanto caminhávamos pela vizinhança.

E não era de se esperar menos empolgação por parte de Beverly. Ela sempre foi apaixonada por antiguidades e livros — principalmente se eles fossem de terror.

A paixão de Beverly por terror era tão grande que praticamente ninguém a chamava por seu nome real, que por sinal nunca foi Beverly. Ela usava esse “apelido” por ser fascinada por It, de Stephen King.

— E onde fica isso? — Questionei.

— Naquele lugar que parece um condomínio fechado, mas não é. Sabe?

— Lógico que sei. A gente praticamente mora em uma lata de sardinhas.

Beverly riu.

— Você vai passar comigo lá depois da aula, né?

— E eu tenho escolha? — Falei, sarcástico.

— Lógico que não!

Assim que o sinal tocou anunciando o fim das aulas, Beverly surgiu ao meu lado e praticamente me puxou com ela.

E desse modo, nós batemos em retirada para a tal livraria.

Chegamos no lugar que realmente parecia um condomínio fechado, mas era apenas um conjunto habitacional, visto que não havia uma portaria, mas sim um grande portão enferrujado por onde qualquer pessoa poderia passar.

Passamos por esse portão e começamos a caminhar pelas ruas do lugar.

Um canteiro central dividia as ruas. E as casas grandes —  algumas com paredes mofadas —  se estendiam de forma imponente nas laterais do conjunto.

— Como você sabe qual dessas casas tem a livraria? Elas parecem todas iguais.

— Calma bonitão. — Beverly disse se virando para mim, seus cabelos dançavam com o vento. —  Nós não vamos nos perder dentro de um conjunto habitacional!

— Eu sei, mas também não me parece uma boa ideia ficar andando em círculos dentro desse lugar, ainda mais porque, não sei se a senhora percebeu, mas parece que vai cair uma tempestade daquelas. — Falei apontando para o céu.

Beverly olhou para cima, seus olhos castanhos encontrando o céu cinza com nuvens densas acima de nossas cabeças.

— É. Mas até onde eu sei, nós não somos feitos de sal e nem de açúcar.

Ri sem humor, mas confesso que achei realmente engraçado.

— Ali! É aquela! — Beverly falou de repente.

Ela me puxou com ela em direção a uma casa amarela grande e cheia de janelas.

Subimos uma pequena escada e entramos na varanda da casa.

Beverly ficou na ponta do pé e tocou a campainha próxima da porta.

Em poucos segundos, a porta marrom se abriu, revelando um homem que aparentava ter uns trinta anos de idade. Ele era alto, tinha cabelos loiros na altura do queixo e sobrancelhas marcantes.

Ele olhou confuso para nós.

— Olá. — Beverly cumprimentou. — É aqui a livraria de livros usados?

— Sim.

Minha amiga sorriu.

— Podemos dar uma olhada?

— Claro! Por que não? — O homem respondeu com um sorriso.

Ele abriu caminho para que nós passássemos e Bev mais uma vez puxou minha mão, me levando com ela para dentro da casa.

O dono da casa fechou a porta e voltou a olhar para nós.

— Os livros ficam ali. — Ele apontou na direção do corredor.

Beverly parecia uma criança prestes a entrar em um parque de diversões, já eu estava inquieto por alguma razão que eu não conseguia identificar.

Meus olhos passearam pelo cômodo em que estávamos. Era a sala. Eu soube disso, pois havia um sofá ali, próximo da janela que estava coberta por uma fina cortina branca. 

As paredes amarelas estavam levemente descascadas e o chão e a mesinha de centro estavam repletos de livros.

— Obrigada senhor, prometo que seremos breves. — Beverly falou.

— Que isso, não precisam ter pressa. — O homem respondeu.

Meu olhar voltou para ele e eu notei como seu sorriso era estranho e fazia um péssimo contraste com aquelas sobrancelhas marcantes. Ele parecia o Jack do filme O Iluminado.

— Ei. — A voz de Beverly me puxou para fora de meus devaneios. — Vai ficar parado aí?

— N-não. — Respondi indo atrás dela.

Seguimos pelo corredor, o piso de tacos abaixo dos nossos pés rangia e o cheiro de mofo misturado com café recém passado começava a me atingir.

Havia algumas portas no corredor, mas só uma delas estava aberta e era lá que os livros estavam.

Bev praticamente saltou em direção às estantes.

Enquanto isso, eu olhei ao redor.

Estávamos em um quarto. E me soou estranho como aquele homem havia transformado sua casa em uma livraria que podia ser visitada por qualquer um.

Beverly soltou um arquejo de surpresa de repente. Me virei para ela automaticamente e a vi puxando um livro para fora da estante.

— Não acredito. — Ela falou olhando para o livro que estava em suas mãos.

Seus olhos pareciam duas bolas de cristal.

— O que foi? — Perguntei.

— Eu acabei de achar aquela versão super rara de The King in Yellow, de 1895! — Ela respondeu desviando seu olhar encantado para mim.

— Você vai comprar?

Ela virou o livro e sua expressão de encanto deu lugar a frustração.

— Bev?

— É muito caro. Mas eu preciso disso. Voltamos aqui outro dia. — Ela falou colocando o livro de volta na prateleira.

Não pude evitar que uma pequena risada escapasse de meus lábios quando vi que ela praticamente escondeu o livro atrás dos outros, uma forma de garantir que ninguém além dela o encontrasse.

— Que foi? Ninguém além de mim pode comprar esse livro!

— Eu não disse nada!

Ela riu e caminhou na minha direção.

— Vamos?

— Sim.

Voltamos ao corredor e paramos ao mesmo tempo ao notar que outra porta estava entreaberta.

Bev e eu nos entreolhamos.

E eu sabia bem que ela queria descobrir o que havia ali.

Por mais curioso que eu estivesse, sentia que era melhor ignorar aquilo, mas quando olhei Bev já estava perto da porta.

Avancei em direção a ela e parei ao seu lado.

Uma das mãos de Bev tocou a porta, a empurrando levemente. O ruído pareceu ensurdecedor.

Vi os olhos de Beverly se arregalaram, mas antes que a porta se abrisse por completo, o homem surgiu de repente e puxou a maçaneta com força.

Agora ele já não fazia esforço para parecer simpático, sua expressão era totalmente carrancuda.

— Desculpe senhor, minha amiga achou que havia mais livros. — Tentei explicar, com a voz trêmula.

Beverly parecia congelada.

— A-aquilo eram bonecas? — Ela perguntou de repente, sua voz estranhamente fraca, como se algo a tivesse assustado.

— Sim. Mas ainda não estão prontas.

A expressão de Beverly pareceu mais suave e pude jurar que um suspiro de alívio lhe escapara pelos lábios.

— Não há mais nada para ver aqui. Vocês já podem ir embora. — O homem disse de maneira ríspida.

Fiquei desconfortável com a forma como o homem que a alguns minutos nos recebia de braços abertos, agora nos expulsava.

E fiquei ainda mais desconfortável com a forma que ele olhava para nós, seus olhos azuis eram frios como gelo.

— Sim, senhor… já estávamos de saída.

Dessa vez, eu que agarrei a mão de Beverly e a puxei comigo para fora daquela casa.

No dia seguinte, Beverly passou na minha casa como de costume e fomos para a escola.

Na saída ela veio ao meu encontro novamente, sorridente.

— E aí? O que aconteceu?

— Adivinha!

— Não faço a menor ideia. — Dei de ombros.

— Meu pai me deu o dinheiro para eu comprar aquela versão rara de The King in Yellow! Você vai comigo, né?

— Foi mal, Bev. Combinei de ir no fliperama com os caras hoje.

— Não acredito que você vai ser tão chato assim. Não custa nada você ir comigo.

Ela parecia realmente chateada.

Suspirei.

— Eu não vou voltar lá. E você também não deveria. Olha como aquele cara nos expulsou de lá ontem! E aquele lugar me dá arrepios.

Ela riu de incredulidade.

— Você tá com medo? Fala sério. Se você não quer ir comigo, tudo bem, Oliver. Mas não vem inventar desculpas sem sentido!

— Tá, Beverly. Se você acha que estou inventando desculpas, que seja. Eu não vou voltar lá e você deveria parar de ser tão mimada e aceitar isso!

Ela olhou para mim por alguns segundos, desacreditada, antes de finalmente responder:

— Divirta-se no fliperama! — Falou com a voz firme, olhando diretamente nos meus olhos.

Havia uma tempestade inteira dentro de seus olhos castanhos. Confesso que aquilo fez eu me arrepender das minhas palavras.

Mas ela foi embora, enquanto eu não abri a boca sequer por um segundo para chamar seu nome.

E fui para aquele maldito fliperama.

Na manhã seguinte, Beverly não apareceu na minha porta.

Imaginei que ela ainda estivesse com raiva e fui sozinho para a escola.

Na escola fui surpreendido mais uma vez.

Bev não estava em lugar algum, o que era estranho, já que ela não era de faltar. Ela costumava ir até mesmo quando estava doente.

Ela estudava em outra sala e eu decidi não ir atrás dela, em parte porque tinha orgulho demais para fazer isso e também por pensar que ela não queria falar comigo.

As aulas naquela manhã pareceram durar uma eternidade e eu passei cada um dos minutos remoendo minha briga com Beverly. Em determinado momento, concluí que não queria continuar sem falar com ela e decidi que iria atrás dela para me desculpar.

Então, assim que chegou a hora do intervalo, eu rapidamente saí da sala e comecei a procurar por Bev pelos corredores.

Não a encontrei, mas encontrei Austin, um amigo que estudava na mesma sala que ela.

— Austin! Você viu a Bev? Não estou encontrando ela.

Ele olhou para mim com o cenho franzido.

— Não, cara… ela não veio.

Senti meu coração bater mais forte e me perguntei se as palavras que havia dito na tarde anterior haviam a afetado tanto.

— Será que ela tá bem? Ela nunca falta. — Austin perguntou.

— Eu… eu não sei. Nós brigamos feio ontem.

— Eita. Deve ter sido bem sério, pra ela faltar.

— É… foi. Acho que vou passar na casa dela depois da aula, você pode me acompanhar? Não sei se quero enfrentar aquela fera sozinho. — Falei, tentando quebrar a tensão.

Austin riu.

— Beleza, vou com você.

Durante o caminho até a casa de Beverly, meu nervosismo começou a crescer.

Austin fazia piadas como sempre e eu mal conseguia rir.

Imaginei que estava nervoso por estar prestes a conversar com Bev depois da nossa briga.

Em poucos minutos chegamos na frente da casa dela.

Austin deu o primeiro passo em direção à porta, como se soubesse exatamente o que deveria ser feito.

— Vou tocar a campainha, mas saiba que não posso pedir desculpas por você. — Ele disse sarcástico.

Ri fraco e continuei parado atrás de Austin, enquanto o mesmo estendia o braço na direção da campainha.

Ele tocou uma vez.

Depois outra.

E outra.

Mas ninguém apareceu.

— Os pais dela não estão em casa? — Austin perguntou.

— N-não… eles… eles viajaram há algumas semanas.

De súbito fui atingido pela preocupação que eu buscava despistar.

Austin deve ter percebido pelo meu tom de voz.

— Relaxa, cara. Ela deve ter saído. Depois você volta aqui e fala com ela.

Todos os piores cenários rondavam minha mente, enquanto eu tentava demonstrar normalidade diante do meu amigo.

— Oliver? Você tá bem? — Austin perguntou com o cenho franzido.

— C-claro que sim… você tá certo.

— Ela vai te desculpar, cara. Não precisa ficar tão nervoso.

Respirei fundo, tentando dispersar a crise de ansiedade que começava a me dominar.

— Sim. Agora… vamos pra casa.

Austin assentiu e nós saímos da varanda da casa de Beverly.

Meus movimentos pareciam letárgicos e minhas mãos tremiam. Andei atrás de Austin na intenção de disfarçar.

Paramos na calçada, meu amigo ainda me olhava desconfiado.

Seus olhos pareciam ver através do meu corpo de vidro.

E eu não queria que ele soubesse que… algo estava errado.

— Falou, cara. Obrigado… por ter vindo comigo.

— Falou. Quando tiver notícias da Beverly, me liga, ok?

Assenti e Austin finalmente virou as costas.

Vi o mesmo sumir no horizonte enquanto eu respirava fundo.

Meu olhar foi direcionado pra minha casa do outro lado da rua e depois… pra casa rosa de Bev, bem na minha frente.

Tentei buscar explicações para seu sumiço repentino.

Mas… só consegui me lembrar do momento que ela me disse que iria naquela livraria.

E era pra lá que eu deveria ir se quisesse alguma pista.

Dei meus primeiros passos na direção oposta da minha casa.

Os passos hesitantes não demoraram a se tornar uma caminhada frenética.

Eu estava tão nervoso que precisava me concentrar integralmente em cada movimento meu, caso contrário, acabaria caindo.

Não demorou para eu me ver diante do grande portão enferrujado do conjunto habitacional.

Meu braço trêmulo se estendeu, tocando o metal gelado.

O portão se abriu em um ruído incômodo e eu avancei para dentro.

Lá dentro, fiz o mesmo trajeto que outrora fiz com Beverly. E dessa vez encontrei a casa amarela com facilidade, já que a conhecia bem.

Subi os degraus e me coloquei diante da porta.

Assim que toquei a campainha e ouvi o som da mesma ecoando do lado de dentro, fui atingido por uma pontada de consciência.

O que exatamente pretendo fazer aqui?

Mas, antes que eu pudesse responder minha própria pergunta, vi a porta se abrir e dela surgiu aquele mesmo homem, que dessa vez não se esforçava para parecer simpático.

Dolorosos segundos de puro silêncio se seguiram, enquanto ele me fitava com aquele olhar sombrio e eu sentia meu coração prestes a saltar do peito.

— Posso ajudar? — Ele finalmente perguntou franzindo o cenho.

Pensei em simplesmente perguntar se minha amiga havia passado por ali, mas algo me dizia que eu devia entrar e investigar por conta própria.

— S-sim, senhor. Eu gostaria de ver os… os livros!

Sua expressão suavizou e ele esboçou um sorriso sem mostrar os dentes.

— Entre. — Ele disse abrindo espaço e estendendo seu braço na direção da sala.

Passei por ele e observei o ambiente enquanto o homem fechava a porta atrás de nós.

— Bom, você sabe onde ficam os livros. Fique à vontade, eu estarei na cozinha.

Assenti e comecei a ir na direção do corredor, enquanto o homem foi para a cozinha.

Tudo parecia exatamente igual.

Até o mesmo cheiro de café recém passado.

Mas…

Percebe que eu disse… parecia? 

Havia algo que eu não teria percebido se não estivesse prestando muita atenção.

Tinha algumas pequenas manchas amarronzadas na parte inferior da parede amarela. Eram gotas de alguma coisa.

Uma ideia horrível atravessou minha mente e eu senti meu coração bater mais rápido. Mas, logo encontrei uma explicação plausível para aquilo.

Devia ser café.

Tinha que ser café.

Segui meu caminho pelo corredor e encontrei o quarto dos livros.

Eu precisava ver se o livro que Beverly queria ainda estava lá. Para isso, deveria procurar por ele no lugar que ela havia escondido.

Se o livro estivesse lá, significaria que ela nem chegou a ir à livraria.

Se não estivesse… bom… ficaria mais difícil para descobrir o que realmente aconteceu.

Entrei no quarto e soltei um suspiro, olhando ao redor.

Eu não lembrava exatamente onde ela havia o escondido.

Imaginei que fosse em uma estante específica e dei o primeiro passo em direção a ela, mas… meus pés tocaram algo.

Quando olhei para o chão vi que era… o maldito The King in Yellow.

Me abaixei, pegando o livro e me levantei com ele em mãos.

Meus olhos não podiam acreditar no que eu estava vendo.

Era um livro raro, não poderia haver mais de um. Bev havia o escondido, então como ele poderia estar jogado no chão daquela forma?

Então eu notei algo que me deixou ainda mais tonto do que eu já estava.

Uma mancha…

Uma mancha vermelha na capa.

Senti meu coração bater mais forte e a sensação de ter me metido numa fria me dominou.

Balancei a cabeça em negação e de modo automático levei meu dedo até a mancha e raspei com a unha, esperando que fosse parte do desenho da capa.

Mas não era.

Senti minha cabeça girando com as mil possibilidades terríveis que surgiram e cambaleei para fora do quarto, pronto para questionar aquele homem sobre tudo aquilo.

Mas antes que eu pudesse chegar até ele, algo me chamou mais atenção.

A porta daquele quarto que ele não deixou que Beverly e eu entrássemos… estava entreaberta.

Caminhei até lá e empurrei a porta ruidosa enquanto olhava para o fim do corredor, esperando que aquele homem surgisse para impedir.

Mas ele não apareceu.

Acho que… acho que eu nem queria entrar lá, mas algo dizia que eu deveria e o meu corpo só obedecia.

Assim que entrei e tive a visão completa do cômodo…

Senti vontade de gritar com o que vi, mas nada saiu.

— Q-que porra é essa… — Sussurrei.

O quarto estava repleto de… bonecas.

Mas… elas não eram realmente bonecas.

Eram pessoas, pessoas transformadas em aberrações.

E elas eram praticamente irreconhecíveis.

Suas cabeças estavam cobertas por algo que parecia cera, mas o produto não era capaz de esconder a decomposição ou suas expressões de sofrimento.

Algumas estavam mais decompostas que outras, o sangue seco emoldurando suas faces desumanas, os olhos completamente sem vida olhando diretamente para mim e seus cabelos secos caindo sobre os ombros de plástico cobertos por vestidos floridos.

O cheiro de morte e podridão me fez ter vontade de vomitar.

Mas antes que eu fizesse isso, meus olhos encontraram os dela… e eu senti meu coração afundar.

O livro escorregou das minhas mãos produzindo um baque surdo ao tocar o chão e eu cambaleei para a frente, para mais perto dela, esperando que de alguma forma aquela imagem se desfizesse e fosse tudo um pesadelo.

— Babsi.

Mal notei quando seu nome verdadeiro escapou pelos meus lábios.

Dei um passo para trás, sentindo as lágrimas caindo de meus olhos.

— N-não… não… NÃO!

Eu podia sentir o horror em cada extremidade do meu corpo, mas ainda assim, não era capaz de acreditar que tudo aquilo era real.

Estava entorpecido quando o som de passos pesados no corredor cortou aquele silêncio doloroso, então não fiz nada além de ficar paralisado no meio de todo aquele caos, sentindo cada gota de dor e culpa transbordando dentro de mim.

E quando a porta finalmente se abriu, produzindo um grunhido moribundo, eu não ousei me virar para trás, não ousei olhar para ele.

— Eu disse para não vir aqui.

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u/gioreoli — 11 days ago