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socorro
▲ 28 r/aquelequetudove+2 crossposts

socorro

Há alguns meses venho percebendo coisas estranhas na minha vida e já não sei mais o que fazer sobre isso. Achei esse sub por acaso e talvez aqui alguém acredite em mim, porque sempre que tento conversar sobre isso com alguém, as pessoas dizem que estou cansado, estressado ou ficando paranoico. Mas eu sei o que estou vendo. Algo está me perseguindo há meses. Algo que eu não consigo enxergar direito, mas sei que está ali.

Tudo começou há algum tempo, enquanto eu lavava a louça. Era de noite, eu estava sozinho em casa e lembro de ter visto claramente alguma coisa entrando na cozinha pelo canto do meu olho. Foi apenas uma sombra, passou rápido pela entrada, rápido o suficiente para eu pensar que talvez tivesse sido impressão minha. Virei na mesma hora, mas não havia ninguém. Olhei atrás da geladeira, no corredor, até abri a porta de casa para conferir se alguém tinha entrado, mas nada. Naquela noite achei estranho, mas acabei ignorando.

Eu não deveria ter ignorado.

Depois daquele dia, minha vida virou uma mistura de insegurança e medo. A todo momento eu conseguia ver alguma coisa pelo canto do olho. Às vezes parecia uma pessoa parada no final de um corredor, outras vezes era apenas uma cabeça desaparecendo atrás de uma porta. No trabalho eu via aquilo entre as mesas. Na faculdade, sentado algumas fileiras atrás de mim. Em casa era ainda pior, porque parecia gostar de ficar nas portas, sempre parado, sempre me observando. Quando eu virava para olhar, não tinha nada.

Meus amigos começaram a perceber que eu não estava dormindo direito. Eu ficava assustado por qualquer coisa, evitava ficar sozinho e comecei a faltar na faculdade. O problema é que dormir tinha se tornado quase impossível. Toda vez que fechava os olhos, eu tinha a sensação de que aquilo finalmente poderia se aproximar sem que eu percebesse. Algumas noites eu ficava acordado até o sol nascer, sentado na cama e olhando para a porta do quarto.

Eu tentei de tudo.

Coloquei câmeras pela casa, deixei meu celular gravando enquanto dormia, tentei usar espelhos para enxergar aquilo sem precisar virar o rosto. Nunca aparecia nada. Nas gravações eu estava sempre sozinho. Nos espelhos também. Às vezes eu passava horas revendo os vídeos procurando qualquer movimento estranho, mas só encontrava eu mesmo andando pela casa feito um maluco.

Comecei realmente a acreditar que estava ficando louco.

Até algumas semanas atrás.

Eu estava assistindo televisão de madrugada porque, como sempre, não conseguia dormir. A sala estava escura, só com a luz da TV iluminando um pouco o ambiente. Eu estava sentado no sofá quando senti alguma coisa ao lado do meu rosto.

Não foi impressão.

Eu senti alguém ali.

Tão perto que por alguns segundos fiquei completamente imóvel. Primeiro senti o ar frio perto da minha orelha. Depois veio um cheiro podre, forte, como carne deixada por dias em algum lugar quente. Meu estômago embrulhou. Eu queria virar o rosto, mas estava com medo demais.

Então olhei apenas com o canto dos olhos.

Foi a primeira vez que consegui ver uma parte dele.

Um pedaço de rosto extremamente pálido estava ao lado do meu. A pele parecia lisa demais, quase sem expressão, e eu não conseguia enxergar o resto. Era como se meu próprio olho se recusasse a focar naquela coisa.

Virei rapidamente.

Não tinha nada.

Levantei do sofá e quase tropecei tentando acender a luz. Olhei atrás de mim, procurei pela sala inteira, fui até a cozinha. Nada. Voltei para a televisão e olhei para o reflexo da tela preta.

Eu estava sozinho.

Depois daquela noite tudo começou a piorar.

Minha casa tem apenas três cômodos. O quarto, a sala e a cozinha, sendo que a sala e a cozinha são separadas apenas por um pequeno muro com uma bancada. Uma noite acordei com sede e fui beber água. Não acendi todas as luzes porque já estava começando a tentar me convencer de que aquilo não existia.

Abri a geladeira, peguei uma garrafa e, quando fechei a porta, vi alguma coisa do outro lado da bancada.

Dessa vez não foi uma sombra.

Eram olhos.

Dois olhos me observando por cima da bancada.

O resto da cabeça estava escondido.

Eu fiquei paralisado olhando para eles pelo canto da visão. Não sei explicar como eram exatamente, porque quanto mais eu tentava prestar atenção, mais minha visão parecia falhar. Mas tenho certeza de uma coisa.

Eles estavam olhando diretamente para mim.

Eu virei.

Não tinha nada.

Caí para trás e comecei a gritar. Meu coração parecia que ia sair pela boca. Levantei e corri para olhar atrás da bancada, mesmo sem querer chegar perto daquele lugar.

Não havia ninguém.

Naquela mesma semana decidi sair de casa. Passei alguns dias na casa de um amigo, depois fui para a casa da minha mãe e, por fim, aluguei outro lugar. Eu realmente achei que pudesse haver alguma coisa naquela casa.

Não adiantou.

Ele veio comigo.

Na primeira noite no apartamento novo eu o vi parado no corredor.

Depois no banheiro.

Depois atrás de mim no reflexo de uma janela, mesmo que os espelhos continuassem não mostrando nada.

Comecei a tentar ignorar.

Essa foi provavelmente a pior decisão que tomei.

Quanto mais eu fingia que não via, mais perto ele aparecia.

Ontem eu estava deitado mexendo no celular quando percebi uma figura parada na porta do meu quarto. Eu conseguia ver pelo canto esquerdo do olho. Era alta, quase chegando no topo da porta, e dessa vez eu conseguia distinguir o formato dos braços.

Continuei olhando para o celular.

Fingi que não tinha nada ali.

Meu coração estava disparado, mas eu continuei passando os vídeos como se estivesse tudo normal.

Olhei novamente de canto.

Ele não estava mais na porta.

Por alguns segundos achei que tinha funcionado.

Então percebi duas pernas na minha frente.

Aquela coisa estava parada ao lado da cama.

Eu conseguia ver os pés, as pernas extremamente finas e uma parte do corpo desaparecendo acima do limite da minha visão. Estava tão perto que, se esticasse o braço, provavelmente conseguiria tocar nela.

Dei um pulo da cama.

Não havia nada ali.

Não dormi.

E hoje aconteceu uma coisa diferente.

Eu não sei explicar isso sem parecer completamente louco, mas desde que acordei sinto meu corpo mais pesado. Não ganhei peso, não estou doente. É diferente.

Parece que estou carregando alguém.

Às vezes sinto pressão nos meus ombros, como se duas mãos estivessem apoiadas neles. Quando estou sentado, sinto alguma coisa pressionando minhas costas. Quando ando, sinto o peso mudar de posição.

Há algumas horas entrei no banheiro e fiquei olhando para o chão enquanto escovava os dentes. Foi quando percebi uma coisa pelo canto do olho.

Um braço.

Ele estava passando por cima do meu ombro.

Não vi a criatura atrás de mim.

Só o braço.

Comprido, pálido, apoiado sobre meu peito como se alguém estivesse agarrado às minhas costas.

Virei imediatamente.

Nada.

Mas o peso continuou.

É por isso que estou escrevendo isso agora.

Ele não desaparece mais quando eu olho.

Eu apenas não consigo vê-lo.

Enquanto digito, consigo sentir alguma coisa respirando perto da minha nuca. Meu ombro esquerdo está ficando cada vez mais pesado e, de vez em quando, alguma coisa encosta no meu cabelo.

Eu não sei mais se ele está me seguindo.

Acho que ele nunca esteve me seguindo.

Acho que estava chegando mais perto.

E acho que agora chegou.

Há poucos minutos tentei levantar da cadeira e não consegui. Alguma coisa me empurrou de volta. Depois senti dedos fechando devagar em volta do meu pescoço.

Ainda consigo respirar.

Por enquanto.

O mais estranho é que agora não vejo mais vultos pelos cantos dos olhos.

Não vejo nada atrás das portas.

Nada nos corredores.

Nada perto da cama.

Talvez porque ele não precise mais ficar longe.

Enquanto termino de escrever isso, consigo sentir o peso inteiro dele sobre minhas costas.

E alguma coisa acabou de encostar o rosto no meu.

espero que isso sirva de aviso para alguém, eu não sei quanto tempo eu tenho, ou o que ele vai fazer comigo, mas saiba, se você ver algum vulto ou sentir alguém observando... não ignore realmente algo te observa.

▲ 31 r/aquelequetudove+2 crossposts

Não assovie

Minha avó sempre foi muito supersticiosa. Dizia para mim e para meus primos que não devíamos deixar o chinelo virado, que nunca deveríamos responder caso alguém nos chamasse sem ter certeza de quem era e, principalmente, que não podíamos assobiar depois que escurecesse. Nunca coloquei muita fé no que ela dizia. Para mim, eram apenas superstições de gente antiga, histórias que ela tinha aprendido com os pais e continuava repetindo para assustar os netos. Mas, há alguns dias, minha avó faleceu. Eu já era um adulto formado, meus primos também, e apesar de todos termos ficado muito abalados com a perda, acabamos ficando responsáveis por esvaziar a casa dela, no interior, já que a família havia decidido vender o lugar.

Assim que chegamos, um sentimento de nostalgia bateu forte. A casa continuava praticamente igual à forma como lembrávamos. Era uma casinha simples de pau a pique, com telhado antigo, cercada por mato e árvores. No quintal ainda estava o enorme pé de manga onde, quando crianças, passávamos praticamente o dia inteiro brincando e comendo manga até nossa avó mandar a gente parar. Quando entramos, uma fina camada de poeira cobria os móveis, mas tudo continuava no mesmo lugar: o velho sofá amarelo com uma manta laranja por cima, o rack vinho, a televisão de tubo que provavelmente nem funcionava mais. Era tudo simples, mas, quando éramos crianças, aquele lugar parecia enorme para nós. Por alguns minutos ninguém falou nada. Apenas olhávamos para aquelas coisas enquanto lembrávamos dos dias que passamos ali. Nancy chegou a enxugar uma lágrima, e eu fiz o mesmo sem que ninguém percebesse.

Começamos a limpar a casa e separar o que seria jogado fora, vendido ou levado pela família. Encontramos caixas cheias de roupas antigas, alguns livros, brinquedos nossos que ainda estavam guardados e até um álbum de fotografias. Perdemos um bom tempo olhando aquelas fotos, rindo das nossas roupas ridículas e lembrando de coisas que nem sabíamos mais que tinham acontecido. Quando percebemos, já estava escurecendo. Havíamos perdido completamente a noção do tempo, e como a cidade mais próxima ficava longe, decidimos dormir por ali mesmo e continuar o trabalho no dia seguinte. Pegamos algumas cervejas que tínhamos levado, juntamos uns pedaços de madeira e acendemos uma fogueira no quintal.

Ficamos sentados ali por bastante tempo falando sobre nossa avó. Nancy dizia que nunca mais tinha comido um bolo tão bom quanto os que ela fazia, enquanto Júlio lembrava das broncas que levávamos sempre que corríamos pelo jardim e pisávamos nas plantas dela. Ríamos dessas coisas, contando histórias que provavelmente já tínhamos contado umas dez vezes, até que acabei lembrando da mania dela com superstições. Comecei a citar algumas: o chinelo virado, não responder quando alguém chama durante a noite, não dormir com os pés apontados para a porta. Então lembrei do assobio. Nossa avó dizia que jamais deveríamos assobiar depois que escurecesse. Eu ri e falei que aquilo era bobagem, coisa de gente antiga. Nancy não concordou. Disse que nossa avó realmente acreditava naquelas coisas e que talvez existisse algum motivo para ela insistir tanto.

Eu quis assustá-la um pouco.

Coloquei dois dedos entre os lábios e assobiei o mais alto que consegui.

Nancy imediatamente mandou eu parar.

Eu comecei a rir da cara dela, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, escutamos outro assobio vindo de dentro do mato.

O sorriso desapareceu do meu rosto.

Nós três ficamos olhando para a escuridão além do quintal. Não havia iluminação em volta da propriedade, e os poucos postes que existiam naquela estrada nem sequer tinham lâmpadas funcionando. Depois da fogueira, tudo além de alguns metros era completamente preto. Perguntei quem estava ali. Minha voz saiu mais fraca do que eu gostaria. Ninguém respondeu. Esperei alguns segundos e perguntei novamente, dessa vez mais alto. Nada. Júlio ficou de pé e tentou enxergar alguma coisa entre as árvores, mas era impossível. Nancy dizia baixinho para a gente entrar, mas eu ainda acreditava que alguém estava tentando nos assustar. Algum vizinho, talvez, ou alguém que tivesse visto nossa chegada. Então, contrariando Nancy, assobiei novamente.

Por alguns segundos, nada aconteceu.

Então veio outro assobio.

Mais próximo.

Dessa vez ninguém riu.

Júlio disse para entrarmos. Se fosse algum ladrão ou alguém querendo fazer alguma coisa, não fazia sentido ficarmos ali esperando. Pegamos nossas coisas e começamos a andar rapidamente em direção à casa, mas antes que conseguíssemos chegar à varanda, um vento muito forte começou a soprar. Não foi aumentando aos poucos. Simplesmente veio de uma vez. A fogueira se apagou quase instantaneamente, nos deixando no escuro, e naquele mesmo momento tive certeza de que ouvi alguma coisa correndo atrás de nós. Eram passos rápidos e pesados batendo contra a terra. Não olhei para trás. Nenhum de nós olhou. Apenas corremos até a casa, entramos e batemos a porta. Tranquei tudo enquanto Júlio acendia as luzes.

Ficamos alguns segundos tentando recuperar o fôlego. O vento continuava soprando lá fora com tanta força que as árvores batiam umas contra as outras. Nancy estava pálida e repetia que tinha avisado, que não devíamos ter feito aquilo. Júlio estava calado, olhando para a janela, e eu ainda tentava encontrar alguma explicação que não me fizesse parecer um completo idiota. Disse que aquilo não tinha nada a ver com o assobio. Provavelmente havia alguém brincando com a gente e o vento não passava de uma coincidência.

Assim que terminei de falar, alguma coisa bateu com força na porta.

Uma única pancada.

Tão forte que a madeira inteira tremeu.

Ninguém se mexeu.

Então veio outra.

E outra.

As janelas começaram a vibrar quase ao mesmo tempo, como se várias pessoas estivessem do lado de fora tentando abri-las. A porta tremia no batente enquanto o vento assobiava pelas frestas da casa. Nancy começou a chorar. Ela cobriu os ouvidos e gritou para aquilo parar, repetindo que sentia muito, que nós não sabíamos o que estávamos fazendo.

De repente, tudo parou.

O vento cessou.

As janelas ficaram imóveis.

Não havia mais pancadas.

Não havia mais barulho nas árvores.

Nada.

O silêncio era tão completo que eu conseguia ouvir minha própria respiração.

Ficamos assim por alguns segundos, parados no meio da sala, esperando alguma coisa acontecer. Pela primeira vez desde que entramos naquela casa, senti um pequeno alívio. Pensei que talvez tivesse acabado.

Então escutamos um assobio.

Baixo.

Longo.

Vindo de algum lugar do lado de fora.

Nancy arregalou os olhos.

No mesmo instante, todas as janelas da casa se abriram com violência.

As folhas bateram contra as paredes ao mesmo tempo e a porta da frente começou a sacudir tão forte que parecia que alguém estava tentando arrancá-la do lugar. O vento voltou ainda mais forte, entrando pelas janelas e espalhando papéis, fotografias e poeira pela casa. As lâmpadas piscaram algumas vezes e então se apagaram.

Ficamos completamente no escuro.

Foi quando vi alguma coisa pela janela da cozinha.

No começo pensei que fosse apenas uma árvore se mexendo com o vento, mas então aquilo saiu lentamente de trás dela.

Era um homem.

Ou pelo menos tinha alguma coisa parecida com um corpo humano.

Não era muito alto, talvez tivesse a altura de uma pessoa comum, mas era magro demais. Seus braços pareciam compridos demais para o próprio corpo e quase chegavam aos joelhos. A postura era torta, lembrando um macaco muito magro tentando ficar de pé. Eu não conseguia enxergar seu rosto. Naquela escuridão, a única coisa que eu conseguia distinguir eram dois pequenos pontos refletindo a pouca luz que vinha de dentro da casa.

Os olhos.

Aquilo ficou parado olhando para nós.

Então começou a caminhar.

Devagar.

Um passo de cada vez.

Em direção à porta.

Nancy começou a rezar. Júlio fez o mesmo. Eu tentei acompanhar, mesmo não conseguindo lembrar direito das palavras. O vento era tão forte que as árvores do quintal se curvavam, e por alguns segundos achei que a casa inteira fosse desabar.

A criatura chegou diante da porta.

Parou.

O vento cessou outra vez.

Então ela assobiou.

A porta se abriu com tanta força que bateu contra a parede.

Aquilo estava ali.

Dentro da casa.

Começamos a gritar, rezar, pedir ajuda, qualquer coisa. Mas ninguém apareceu. Ninguém respondeu. Talvez ninguém pudesse nos ouvir naquele lugar.

A última coisa que lembro foi Nancy gritando meu nome.

Depois senti alguma coisa agarrar meu corpo.

E enquanto aquilo me puxava para a escuridão, eu finalmente entendi por que minha avó dizia apenas para não assobiar à noite.

Porque alguma coisa poderia responder.

u/Worried_Percentage99 — 2 days ago
▲ 26 r/aquelequetudove+3 crossposts

SE LEMBRE DE FECHAR O GUARDA-ROUPA

O celular foi encontrado no chão do banheiro de uma residência.

A porta da casa estava trancada por dentro.

Não havia sinais de arrombamento.

O proprietário não foi encontrado.

Entre os arquivos criados naquela madrugada havia uma fotografia registrada por uma câmera com sensor de movimento e um áudio de oito minutos e quarenta e três segundos.

A fotografia foi tirada às 03:17.

Nela, o proprietário aparece dormindo.

Ao lado da cama existe outra coisa.

A figura lembra um homem vestido inteiramente de preto, mas seu corpo parece ter sido dobrado da maneira errada. As pernas são exageradamente compridas e permanecem quase retas, deixando o quadril muito acima de onde deveria estar. O tronco se curva para frente até quase formar um arco, enquanto os braços descem até o chão.

As mãos são humanas.

Os pés também.

Ambos completamente brancos.

No lugar do rosto há algo parecido com uma máscara lisa, igualmente branca, com dois pequenos buracos escuros no lugar dos olhos e uma abertura fina formando a boca.

A criatura não olha para a câmera.

Ela olha para o homem dormindo.

A porta do guarda-roupa aparece aberta atrás dela.

ARQUIVO DE ÁUDIO — 02:07

PLAY

[chiado baixo]

[ruído do microfone sendo segurado]

[respiração próxima]

Não sei se alguém vai ouvir isso.

Na verdade... espero que não.

Mas se encontraram meu celular, provavelmente eu não consegui sair daqui.

Então escutem.

Só...

Não sei.

Talvez eu ainda consiga avisar alguém.

[respiração trêmula]

Tudo começou por causa de uma história idiota que eu li na internet.

Foi no Reddit.

Eu não estava conseguindo dormir e fiquei passando por aqueles relatos de terror. A maioria era obviamente inventada. Mulher no espelho, criança falando sozinha, demônio no corredor...

[leve ruído ao fundo]

Até que encontrei um post com um título que chamou minha atenção.

“Se lembre de fechar o guarda-roupa.”

Era curto.

O cara dizia que havia alguma coisa vivendo dentro dos armários da casa dele.

E não precisava ser um guarda-roupa.

Armário da cozinha.

Armário do banheiro.

Despensa.

Qualquer lugar com uma porta.

Segundo ele, nunca dava para ver aquela coisa direito. Primeiro vinha aquela sensação de estar sendo observado. Depois você percebia uma porta aberta que tinha certeza de ter fechado.

Às vezes dava para ver alguma coisa pelo reflexo da televisão.

Às vezes pelo espelho.

Às vezes pelo canto do olho.

Mas sempre que você olhava diretamente...

[pausa]

a porta já estava se fechando.

Eu lembro de rir.

Cheguei a comentar no post:

“Se essa coisa quer matar você, por que ela simplesmente não sai daí?”

O autor respondeu.

Só uma frase.

“Porque você não a viu ainda”

[pequena pausa]

Achei que fosse parte da história.

Fechei o aplicativo.

Fui dormir.

E esqueci completamente aquilo.

Até a noite seguinte.

[chiado breve]

Eu estava assistindo televisão na sala.

A cozinha fica atrás do sofá, mas quando a tela da TV fica escura dá para ver o reflexo de parte dela.

Foi aí que percebi que o armário embaixo da pia estava aberto.

Só um pouco.

Talvez uns vinte centímetros.

E tinha alguma coisa lá dentro.

No começo pensei que fosse um pano.

Então aquilo se mexeu.

[respiração mais funda]

Um rosto branco apareceu na fresta.

Não saiu.

Só ficou ali.

Me olhando.

Eu me virei na mesma hora.

Toc.

[porta de armário fechando]

A porta terminou de fechar.

Fiquei parado olhando para o armário.

Ainda lembro de tentar rir.

Sério.

Eu fiquei rindo sozinho, falando que estava ficando impressionado por causa daquela porcaria de história.

Fui até a cozinha.

Abri o armário.

Panelas.

Produtos de limpeza.

Um saco de lixo.

Nada mais.

[chiado breve]

Naquela noite eu dormi normalmente.

No dia seguinte aconteceu no banheiro.

Eu estava tomando banho quando tive aquela sensação.

A mesma.

Como se alguém estivesse parado do outro lado do vidro me observando.

Abri os olhos.

O armário embaixo da pia estava aberto.

Pelo vidro embaçado eu conseguia ver alguma coisa preta diante dele.

Uma forma comprida.

Abaixada.

Puxei a porta do box.

O armário fechou.

[chiado breve]

Depois disso começou a acontecer todo dia.

Cozinha.

Banheiro.

Despensa.

O móvel da sala.

Eu chegava em casa e encontrava alguma porta aberta.

Comecei a fechá-las de propósito antes de dormir.

Uma por uma.

Mesmo assim, de madrugada, eu ouvia as portas se abrindo e fechando logo em seguida

Sempre uma porta abrindo.

Sempre uma porta fechando.

Mas nunca no meu quarto.

O guarda-roupa do quarto nunca abria.

Por algum motivo isso me deixava mais tranquilo.

Até ontem.

[pequena interferência]

Meu irmão Nathan veio dormir aqui.

Eu não contei nada.

Ele ia tirar sarro da minha cara e, sinceramente, eu queria passar pelo menos uma noite com outra pessoa dentro de casa.

Ele colocou um colchão no chão do meu quarto.

Não sei que horas eram quando ele me acordou.

Só lembro dele apertando meu braço.

Forte.

Muito forte.

Quando abri os olhos, ele estava olhando para o lado da minha cama.

Eu perguntei:

— O que foi?

[respiração presa]

Ele colocou o mão na boca.

Estava chorando.

Nathan nunca chora.

Perguntei de novo o que tinha acontecido.

Ele respondeu:

— Tinha alguém aqui.

Eu ainda achei que fosse um ladrão.

Me levantei, E acendi a luz.

Olhei o quarto inteiro.

Nada.

Então perguntei onde a pessoa estava.

Nathan apontou para o guarda-roupa.

[pausa longa]

Foi aí que senti meu estômago afundar.

Perguntei como era.

Ele não queria falar.

Eu insisti.

Nathan disse que parecia uma pessoa...

só que montada errada.

Foi exatamente assim que ele falou.

Montada errado.

Segundo ele, aquela coisa estava ao lado da minha cama.

As pernas eram muito compridas e quase completamente retas. O quadril ficava alto, enquanto o corpo inteiro se dobrava para frente como se a coluna tivesse sido partida ao meio.

Os braços eram tão compridos que as mãos tocavam o chão.

Ela usava alguma coisa preta cobrindo todo o corpo.

Mas as mãos e os pés eram brancos.

E o rosto...

[pequena pausa]

Nathan disse que parecia uma máscara.

Branca.

Lisa.

Com dois buracos escuros.

Ele acordou e encontrou aquilo inclinado sobre mim.

Não estava tocando em mim.

Não estava tentando me machucar.

Só me observava dormir.

Nathan ficou olhando por alguns segundos porque achou que ainda estivesse sonhando.

Então pegou o celular.

Acendeu a lanterna.

E a criatura correu.

Só que Nathan disse que ela não correu como uma pessoa.

As pernas continuaram quase retas.

Ela apoiou as mãos no chão e foi para o guarda-roupa naquela posição torta, como uma aranha tentando imitar um homem.

Eu perguntei como uma coisa daquele tamanho conseguiu entrar lá.

Nathan ficou em silêncio.

Depois respondeu:

— Ela foi entrando.

Disse que primeiro desapareceram as mãos.

Depois a cabeça.

Depois o tronco.

O guarda-roupa tem menos de sessenta centímetros de profundidade.

Mesmo assim, a criatura continuou entrando até os pés desaparecerem.

Então a porta fechou.

Nathan pegou as coisas dele e foi embora.

Não consegui convencer ele a ficar.

Eu deveria ter ido junto.

Mas precisava saber se estava ficando louco.

Comprei uma câmera dessas que tiram fotos quando detectam movimento.

Coloquei em cima da estante.

Ela pegava minha cama inteira e o guarda-roupa.

Naquela noite fechei a porta do guarda-roupa.

Tenho certeza disso.

Chequei três vezes.

[chiado breve]

Na manhã seguinte tirei o cartão de memória.

Havia cento e vinte e sete fotografias.

Nas primeiras, nada.

Eu entrando no quarto.

Apagando a luz.

Deitando.

Dormindo.

Quando o relogio deu03:14.

O guarda-roupa estava aberto.

Na foto seguinte havia uma mão saindo de dentro.

Branca.

Os dedos estavam apoiados no chão.

Na outra apareceu o braço.

Depois o rosto.

Depois...

aquilo.

Quando finalmente saiu por completo, entendi por que Nathan tinha tanta dificuldade para explicar.

Não parecia uma criatura.

Parecia alguém tentando descobrir como um ser humano deveria ficar em pé.

As pernas eram absurdamente compridas.

O quadril ficava alto.

A coluna se dobrava para frente.

Os braços desciam até o chão.

As mãos eram brancas.

Os pés também.

E aquela máscara...

Meu Deus.

Aquela máscara.

Na fotografia das 03:17 ela estava ao lado da minha cama.

O rosto estava virado para mim.

Ela ficou me olhando por mais de três horas.

Sem encostar.

Sem mudar de posição.

Em uma das fotos eu me virei na cama.

Na imagem seguinte...

a cabeça dela estava mais perto.

[respiração falha]

Foi isso que me fez vomitar.

Às 06:26 comecei a acordar.

Na fotografia seguinte, a criatura estava voltando para o guarda-roupa.

Às 06:29 só os pés apareciam para fora.

Na última foto...

a porta estava fechada.

Corri até o guarda-roupa.

Abri.

[chiado breve]

Joguei tudo no chão.

Roupas.

Caixas.

Sapatos.

Arranquei até as gavetas.

Nada.

Era só uma parede.

Não tinha passagem.

Não tinha buraco.

Nada.

[respiração ofegante]

Foi aí que me lembrei do Reddit.

Procurei o post.

Tinha sido apagado.

A conta também.

Mas encontrei cópias.

Screenshots.

Outras pessoas tinham repostado a história.

E comecei a ler os comentários.

Foi quando percebi.

Um comentário dizia:

“Depois que li isso, meu armário começou a abrir sozinho.”

Outro:

“Tem um rosto olhando para mim no reflexo da TV.”

Outro:

“Minha filha disse que existe um homem branco dentro do guarda-roupa.”

Continuei descendo.

Dezenas.

Centenas.

Alguns antigos.

Outros recentes.

Todos tinham uma coisa em comum.

Começava depois que a pessoa conhecia a história.

Não precisava acreditar.

Não precisava comentar.

Não precisava compartilhar.

Só precisava saber.

[pausa]

Foi quando procurei o último comentário feito pelo autor original.

Ele escreveu:

“Eu sinto muito.”

Eu achei que ele estivesse pedindo desculpas por assustar as pessoas.

Agora eu sei pelo que ele estava pedindo desculpas.

O post nunca foi um aviso.

Era uma saída.

Ele contou para alguém...

e aquilo foi embora atrás dessa pessoa.

Foi assim que chegou até mim.

[chiado mais forte]

Eu decidi me mudar hoje.

Liguei para uma transportadora.

Eles só poderiam vir amanhã cedo.

Eu podia ter ido embora sem minhas coisas.

Podia ter ido para um hotel.

Podia ter dormido dentro do carro.

Mas pensei:

“É só mais uma noite.”

Porra...

[respiração]

Nunca existe “só mais uma noite”.

São 02:07 agora.

Estou trancado no banheiro.

[leve eco do banheiro]

Há uns vinte minutos eu estava sentado na sala.

Todas as luzes estavam acesas.

Todas.

Eu nem piscava direito porque estava com medo de abrir os olhos e encontrar algum armário aberto.

Então ouvi.

A porta do guarda-roupa abrindo lentamente ao longe

Veio do meu quarto.

Eu sabia o que era.

A porta do guarda-roupa.

Depois ouvi alguma coisa tocar o chão.

Não eram passos.

Demorei para entender.

Eram quatro apoios.

Duas mãos.

Dois pés.

Ela estava vindo naquela posição.

Fiquei olhando para a porta do quarto.

Primeiro apareceu uma mão segurando o batente.

Branca.

Depois outra, quase encostada no chão.

[respiração presa]

Então as luzes apagaram.

Todas.

Até a televisão.

Até os aparelhos que estavam carregando.

Tudo.

O pior é que a luz da rua também desapareceu.

As janelas ficaram completamente pretas.

Eu não enxergava nada.

Mas ouvi.

Mais perto.

Mais perto.

Depois parou.

Fiquei alguns segundos tentando enxergar.

Quando minha visão começou a se acostumar com o escuro...

o rosto já estava na minha frente.

Bem na minha frente.

A máscara branca.

O corpo curvado atrás dela.

Eu corri.

Entrei no banheiro e tranquei a porta.

Ela não veio atrás.

Não bateu.

Não arranhou.

Não tentou abrir.

Nada.

Estou aqui há quase vinte minutos.

E agora eu entendo por quê.

Ela não precisa entrar pela porta.

[pausa]

Tem um armário embaixo da pia.

Eu esqueci dele.

[ruído baixo]

Não.

Não...

[ruído de dobradiça]

A porta está abrindo.

Bem devagar.

Eu consigo ver os dedos.

Meu Deus.

Tem uma mão saindo de dentro.

[respiração acelerada]

Se alguém encontrar esse celular, não...

Não escuta mais.

Desliga.

Apaga isso.

Não manda para ninguém.

Não escreve sobre isso.

Não conta para ninguém.

[ruído]

Ela está saindo.

A mão está no chão agora.

Tem outra...

[chorando]

Eu entendi.

Eu finalmente entendi.

O cara do Reddit não estava tentando salvar ninguém.

Ele estava tentando salvar a si mesmo.

Quando ele contou a história...

passou aquilo para outra pessoa.

Foi assim que chegou até mim.

E agora...

[longa pausa]

Agora eu contei para você.

Porra.

Eu fiz exatamente a mesma coisa.

[ruído forte]

Me desculpa.

Eu não queria morrer aqui.

Eu só precisava que alguém soubesse.

Talvez seja isso que ela queira.

Talvez ela deixe a gente vivo tempo suficiente justamente para entender.

Para contar.

Para passar adiante.

[voz baixa]

Se você chegou até aqui...

já foi.

Não importa se acredita.

Eu não acreditava.

Não importa se você está lendo isso sozinho ou ouvindo minha voz.

Você sabe que ela existe agora.

E se eu estiver certo...

ela também sabe que você existe.

[armário rangendo]

Eu consigo ver o rosto.

Ela está olhando para mim.

[5 segundos de silêncio]

Tem uma coisa que eu ainda não entendo.

Se ela veio para mim porque eu li a história...

então por que ainda está aqui?

[ruído de algo se movendo]

Espera.

Não.

Não, não, não...

Talvez ela não vá embora quando você conta.

Talvez...

talvez ela só faça outra.

[impacto]

[grito abafado]

[12 segundos de ruído]

...

[voz extremamente baixa]

Se você estiver ouvindo isso...

não olhe para o seu guarda-roupa agora.

Não faça isso.

Porque eu sei que você está com vontade.

Você quer conferir se a porta está fechada.

isso não significa que ela ainda está lá dentro.

Significa que ela já saiu.

[ÁUDIO ENCERRADO]

u/Worried_Percentage99 — 6 days ago
▲ 18 r/aquelequetudove+2 crossposts

Cuidado com o que você leva para casa

Eu nunca tive boas condições. Sempre trabalhei muito, mas o que eu recebia era apenas o suficiente para sobrevivermos. Pagava o aluguel, comprava comida, mantinha as contas em dia como podia, mas quase nunca sobrava dinheiro para dar a minha filha o que ela queria

Nina entendia isso até certo ponto. Ela raramente fazia birra ou reclamava, mas havia uma coisa que ela queria muito: uma boneca daquelas quase do tamanho de uma criança.

Ela me mostrava fotos, vídeos e anúncios todos os dias. Eu sempre dizia a mesma coisa:

— Filha, eu queria muito comprar, mas não tenho condições agora.

Além de caras, aquelas bonecas estavam esgotadas em praticamente todos os lugares. Uma usada facilmente custava entre R$200,00 a R$ 250,00.

Mesmo assim, Nina não desistia.

Até que uma noite, voltando tarde do trabalho, eu passei ao lado de um catador empurrando um carrinho cheio de papelão, latas e algumas coisas velhas.

No meio de toda aquela sujeira, alguma coisa chamou minha atenção.

Cabelos loiros.

Parei e olhei melhor.

Era a boneca.

A mesma que Nina queria.

Chamei o homem. Ele parecia bêbado, cheirava muito a álcool e mal conseguia falar direito. Perguntei quanto queria por ela.

— Vinte reais.

Achei que tinha escutado errado.

— Vinte?

Ele confirmou.

A boneca valia pelo menos dez vezes aquilo.

Peguei ela nas mãos e fiquei ainda mais surpresa. Não estava rasgada, não tinha manchas, não estava quebrada. Pelo contrário. Parecia nova, como se tivesse acabado de sair da caixa.

Perguntei onde ele tinha encontrado aquilo.

Ele apenas apontou para trás e disse:

— Por aí.

Não dei importância.

Paguei os vinte reais e levei a boneca para casa.

Até hoje eu gostaria de poder voltar para aquela noite e continuar andando.

Quando Nina viu a boneca, começou a chorar, ela me abraçou tão forte que quase caí.

— É minha?

— É sua.

Ela passou o resto da noite brincando com ela. Colocou um nome, trocou sua roupa, penteou o cabelo e até separou um espaço na cama, naquela noite, Nina dormiu abraçada com a boneca.

Eu também fui dormir.

E tive um sonho.

No sonho, eu estava parada na porta do quarto de Nina.

A boneca estava sentada sobre o peito dela, suas pequenas mãos de plástico apertavam o pescoço da minha filha enquanto Nina se debatia tentando respirar.

Eu tentei correr até ela, mas não conseguia me mexer.

Então a boneca virou o rosto lentamente para mim, os olhos dela estavam completamente negros.

E ela estava sorrindo.

Um sorriso que uma boneca jamais deveria conseguir fazer, ela abriu a boca.

— Você é a próxima.

Acordei em um pulo.

Meu coração parecia que ia sair pela boca.

Corri até o quarto de Nina.

Ela estava dormindo tranquilamente, respirando normalmente.

Fiquei alguns segundos olhando para ela, tentando me convencer de que tinha sido apenas um pesadelo.

Até perceber a boneca.

Ela estava no chão.

Caída ao lado da cama.

Imaginei que Nina tivesse derrubado durante a noite. Peguei a boneca, coloquei novamente ao lado dela e voltei para o meu quarto.

No dia seguinte, me arrumei para trabalhar e preparei Nina para a escola.

Ela insistiu para levar a boneca.

— Por favor, mãe.

— Hoje não é dia de levar brinquedo.

Ela reclamou um pouco, mas acabou desistindo.

Saímos.

Meu dia foi completamente normal.

Até eu voltar para casa.

Assim que abri a porta, percebi que alguma coisa estava errada.

Tudo estava revirado.

O armário da cozinha estava aberto.

Comida espalhada pelo chão.

Pratos e copos quebrados.

Algumas cadeiras estavam fora do lugar.

Corri para o meu quarto.

Todas as roupas estavam jogadas para fora do guarda-roupa.

Foi aí que comecei a pensar que alguém tinha entrado em casa.

Peguei o telefone e liguei para a polícia.

Antes deles chegarem, fui até o quarto de Nina.

E parei na porta.

As poucas bonecas que ela tinha estavam espalhadas pelo chão.

Todas sem cabeça.

Todas.

Menos uma.

A boneca loira estava sentada sobre a cama.

Intacta.

Os policiais chegaram alguns minutos depois.

Examinaram portas, janelas e fechaduras.

Nenhum sinal de arrombamento.

Nada havia sido roubado.

Quando entraram no quarto de Nina, os dois policiais pararam.

Um deles olhou para a boneca.

Depois olhou para o parceiro.

O outro fez exatamente a mesma coisa.

— O que foi? — perguntei.

— Nada.

Mas não parecia nada.

Eles fizeram algumas perguntas, registraram a ocorrência e disseram que, sem sinais de invasão, não havia muito o que fazer.

Depois foram embora.

Comecei a limpar tudo.

Quando fui pegar a boneca, percebi alguma coisa em seu vestido.

Uma mancha vermelha.

Parecia molho de tomate.

Aquilo me incomodou.

O molho estava na cozinha.

A boneca estava no quarto.

E ninguém tinha ficado em casa.

Mesmo assim, tentei ignorar.

Esse foi meu maior erro.

Depois daquele dia, nossa casa nunca mais ficou normal.

Coisas começaram a mudar de lugar.

Eu deixava um copo na pia e encontrava no corredor.

Fechava uma porta e encontrava aberta.

Objetos sumiam e apareciam dias depois.

À noite, comecei a ouvir passos.

Passos pequenos.

Como os de uma criança andando descalça pela casa.

Às vezes eu levantava e procurava Nina.

Ela estava dormindo.

Mas os passos continuavam.

Uma madrugada, ouvi alguma coisa raspando no corredor.

Abri a porta do quarto.

A boneca estava sentada no chão.

De costas para mim.

Fiquei olhando durante alguns segundos.

Então fechei a porta.

Quando abri novamente...

ela estava olhando para mim.

Comecei a sentir medo daquela coisa.

Mas Nina não.

Ela continuava tratando a boneca como sua melhor amiga.

Até aquela noite.

Já passava da meia-noite quando acordei com um grito.

— MÃE!

Levantei e corri para o quarto dela.

Por um segundo, no escuro, vi uma menina loira descendo da cama.

Não uma boneca.

Uma menina.

Ela correu em direção ao canto do quarto.

Acendi a luz.

Não havia ninguém ali.

Então ouvi Nina chorando.

Seu cabelo estava preso na cabeceira da cama de uma maneira impossível, completamente enrolado e apertado.

Quando consegui soltá-la, percebi outra coisa.

Havia marcas em seu pescoço.

Marcas de mãos. Pequenas.

Pequenas demais para pertencerem a um adulto, olhei para a boneca.

Ela estava sentada no canto do quarto.

Naquele momento eu entendi.

Não sabia o que era, não sabia como funcionava, Só sabia que aquilo não podia continuar dentro da minha casa.

Peguei Nina, levei para o meu quarto e tranquei a porta.

Depois voltei.

Peguei a boneca e saí de casa procurando algum lugar para jogar aquela coisa.

Um terreno abandonado, um mato, um córrego, qualquer lugar.

Foi então que encontrei novamente o catador.

O mesmo homem que tinha me vendido a boneca.

Corri até ele.

— Ei!

Ele me reconheceu.

Mostrei a boneca.

— Pega isso de volta.

O homem recuou.

— Não.

— Eu te pago para levar.

— Não quero.

— Então me fala onde você encontrou isso!

Ele ficou alguns segundos em silêncio.

Depois apontou para a rua atrás de nós.

— Na frente daquela casa cinza.

Meu estômago gelou.

Eu conhecia aquela casa, Todo mundo do bairro conhecia.

Meses antes, uma família inteira havia sido assassinada ali.

Pai, Mãe E duas crianças.

O crime nunca tinha sido resolvido.

Ninguém descobriu quem entrou naquela casa.

Ninguém descobriu quem tinha feito aquilo.

Olhei novamente para a boneca.

— Você encontrou isso lá?

Ele assentiu.

— Na calçada.

Eu não perguntei mais nada.

Saí andando rápido.

Depois comecei a correr.

Quando encontrei um córrego, joguei a boneca o mais longe que consegui.

Vi ela bater na água.

Depois desaparecer.

Voltei para casa.

Durante todo o caminho, tentei me convencer de que tinha acabado.

Que finalmente estávamos livres.

Quando cheguei, a porta estava aberta.

Todas as luzes estavam apagadas.

— Nina?

Nenhuma resposta.

Entrei.

Foi então que vi.

Uma menina loira atravessando o corredor.

Correndo em direção ao quarto da minha filha.

Por alguns segundos achei que fosse Nina.

Então percebi o vestido.

Era a boneca.

Ela estava andando.

Não.

Correndo.

Acendi a luz.

Ela desapareceu.

Corri para o quarto.

— Nina!

Minha filha estava sobre a cama.

Muito machucada.

Havia marcas em seus braços, pernas e pescoço.

Ela mal conseguia responder.

Peguei Nina no colo e corri para o hospital.

Naquele momento, eu não pensei em nada além dela.

Esqueci da boneca.

Esqueci de tudo.

Horas depois, enquanto os médicos atendiam minha filha, percebi que precisava voltar para buscar algumas coisas.

Quando entrei novamente em casa...

a boneca estava na sala.

Sentada.

O cabelo molhado.

Água escorrendo pelo chão.

Eu fiquei olhando para ela.

E senti ódio.

Não medo.

Ódio.

Peguei aquela coisa e levei para fora.

Joguei álcool.

Lembrei de uma série em que diziam que sal grosso ajudava contra coisas ruins.

Eu estava desesperada.

Joguei sal também.

Depois acendi o fogo.

A boneca começou a queimar.

O vestido primeiro.

Depois o cabelo.

O rosto começou a derreter.

E durante alguns segundos...

eu juro que ouvi um grito.

Não parecia o som de plástico queimando.

Parecia uma criança.

Mesmo assim, continuei olhando.

Eu queria ter certeza de que não sobraria nada.

Quando o fogo terminou, voltei para o hospital.

O médico estava me esperando.

Pela expressão dele, eu soube antes que dissesse qualquer coisa.

— Senhora...

Meu coração parou.

— Infelizmente, sua filha faleceu.

Eu não consegui responder.

— Mas... ela estava machucada... mas estava viva.

Ele respirou fundo.

— Nós também não entendemos.

Segundo ele, os ferimentos de Nina não eram suficientes para causar sua morte.

Ela estava sendo estabilizada.

Até acontecer alguma coisa que nenhum deles conseguiu explicar.

A temperatura do corpo dela começou a subir de repente.

Muito.

Rápido demais.

Os médicos tentaram controlar.

Não conseguiram.

Não havia fogo.

Não havia queimadura externa inicialmente.

Mas era como se alguma coisa estivesse queimando Nina por dentro.

Foi quando eu entendi.

A boneca.

Quando coloquei fogo nela...

eu coloquei fogo na minha filha também.

De alguma forma, aquela coisa estava ligada a Nina.

E fui eu que terminei o que ela tinha começado.

Eu só queria dar um presente para minha filha.

Só queria vê-la feliz.

Agora minha casa está vazia.

Não existem mais passos durante a noite.

Não existem objetos mudando de lugar.

Não existe mais aquela boneca.

Só existe silêncio.

E eu não consigo mais viver com ele.

Passei os últimos dias tentando encontrar uma razão para continuar.

Não encontrei.

Quando vocês estiverem lendo isso, provavelmente eu já terei ido encontrar minha filha.

Não estou escrevendo para que sintam pena de mim.

Só quero deixar um aviso.

Se vocês encontrarem alguma coisa abandonada na rua, por mais bonita que seja, por mais cara que pareça, por mais que alguém que vocês amam queira aquilo...

deixem onde está.

Porque algumas coisas não foram jogadas fora por estarem velhas.

Algumas coisas foram abandonadas porque alguém estava tentando se livrar delas.

u/Worried_Percentage99 — 7 days ago
▲ 42 r/aquelequetudove+2 crossposts

EXPLORAÇÃO URBANA

Tenho um canal no YouTube no qual entro em prédios abandonados, casas mal-assombradas, hospitais e qualquer lugar que tenha uma história estranha por trás. Já passei por muita coisa fazendo isso, encontrei moradores de rua, viciados, animais mortos e até algumas coisas que até hoje não sei explicar, mas alguns meses atrás ouvi uma história sobre uma casa que havia sido palco de um assassinato extremamente violento.

Segundo a história, a mãe teve algum tipo de surto psicológico e matou as duas filhas. O marido conseguiu fugir naquela noite, mas alguns dias depois foi encontrado morto em uma floresta, enforcado. A mulher desapareceu e nunca mais foi vista.

Decidimos que exploraríamos aquela casa quando o canal chegasse a um milhão de inscritos.

E esse dia finalmente chegou.

Eu e mais dois amigos, Nicholas e Michael, nos equipamos e seguimos para lá. Levamos lanternas, câmeras, algumas coisas para primeiros socorros e armas de airsoft, mais por segurança caso algum morador de rua ou algum viciado tentasse atacar a gente. A casa não ficava muito longe de onde morávamos, mas era em uma região bem isolada. Depois do ocorrido, muitas pessoas começaram a abandonar as casas ao redor e, com o passar dos anos, praticamente ninguém mais ficou por ali.

Assim que chegamos, parecia uma pequena cidade pós-apocalíptica.

As casas tinham os vidros quebrados, paredes pichadas, algumas nem tinham mais portas, vários telhados haviam cedido e parecia que saqueadores tinham feito a festa por ali durante anos.

Inclusive na casa que íamos entrar.

Ela tinha dois andares. O mato já cobria praticamente todo o quintal, algumas janelas estavam quebradas e havia várias pichações espalhadas pelas paredes. A maioria era coisa idiota, nomes, desenhos e palavrões, mas algumas diziam simplesmente:

FIQUE LONGE.

Paramos um pouco afastados, onde conseguíamos ter uma visão completa da casa, e começamos o vídeo.

— Galera, hoje estamos aqui com o Mike... e o Nicholas.

Michael respondeu normalmente para a câmera, mas Nicholas não falou nada.

Ele estava olhando fixamente para uma das janelas da casa.

— Que foi? — perguntei.

Ele continuou olhando por alguns segundos antes de responder.

— Eu vi alguém passando na janela.

Na mesma hora virei a câmera naquela direção e fiquei olhando, mas não vi absolutamente nada.

Falei que talvez fosse algum mendigo, algum animal ou até nossa própria visão enganando a gente por causa da escuridão. Nicholas continuou encarando aquela janela por mais alguns segundos, mas depois aceitou que provavelmente tinha sido isso mesmo.

Saímos do carro, pegamos nossos equipamentos e seguimos até a casa.

Assim que chegamos perto da entrada, um forte cheiro de podre atingiu nós três. Michael quase vomitou ali mesmo, mas seguimos dando risada da reação dele.

Subimos os degraus da varanda e tentei abrir a porta.

Ela não abriu.

Parecia que alguma coisa segurava do outro lado.

Joguei o ombro contra ela uma vez.

Nada.

Na segunda vez, a porta abriu de repente e ouvimos um barulho enorme vindo de dentro. Uma estante caiu no chão. Ela estava encostada contra a porta, provavelmente impedindo que ela abrisse.

Foi nessa hora que o cheiro ficou ainda pior.

Michael realmente vomitou.

Eu e Nicholas ficamos esperando ele terminar, zoando ele enquanto gravávamos, até que finalmente entramos.

A casa estava completamente destruída. Havia lixo por todo lado, móveis revirados, paredes tomadas pelo mofo e sujeira. No meio da sala existia um grande buraco no chão, provavelmente porque o teto do porão havia cedido.

Passamos com cuidado ao lado dele e seguimos por um corredor.

Algumas fotografias da família ainda estavam penduradas na parede.

Em uma delas estavam o pai, a mãe e as duas meninas.

Nicholas ficou olhando para a foto.

— Como alguém consegue fazer uma maldade dessas com os próprios filhos?

Respirei fundo.

— Só Deus sabe.

Continuamos.

Passamos ao lado de uma escada que levava para o segundo andar. O topo dela estava completamente escuro e alguns degraus estavam quebrados.

Foi quando ouvimos.

Alguém estava correndo lá em cima.

Paramos na hora.

Não eram passos pesados.

Eram rápidos e leves.

Pareciam passos de crianças.

— Tem alguém aí? — gritei.

Nenhuma resposta.

— A gente sabe que tem alguém aí! — Michael falou.

Nada.

Ficamos alguns segundos esperando, mas o barulho simplesmente parou.

Combinamos de verificar a cozinha primeiro e depois subir.

Assim que entramos nela, a luz da lua atravessava uma das janelas quebradas e iluminava parte do ambiente.

Foi quando vimos alguém sentado no final da mesa.

Uma mulher ou que costumava ser uma, era enorme com os cabelos negros, os braços maiores que o normal.

Ela estava completamente imóvel, com a cabeça baixa.

Tomamos um susto e imediatamente apontamos as armas para ela.

— Quem é você?

Sem resposta.

— Senhora?

Nada.

Foi então que percebi um pequeno fio de sangue descendo pela testa dela.

Nicholas abaixou um pouco a arma.

— Senhora, você está bem?

Michael estava olhando para alguma coisa perto dele.

Um retrato.

— Pessoal...

O jeito que ele falou fez nós dois olharmos.

Ele levantou a fotografia.

Era ela.

A mesma mulher.

A mãe, mas completamente deformada.

Olhei novamente para aquela coisa sentada.

Ela levantou a cabeça.

Os olhos estavam completamente esbranquiçados e um sorriso torto apareceu no rosto dela. com desntes completamente podres. Era só aquele sorriso enorme, aberto de um jeito estranho demais.

Então ela se levantou e saltou por cima da mesa.

Aquilo aconteceu rápido demais.

Saímos correndo sem nem pensar para onde estávamos indo.

Só lembro de ouvir Michael gritando atrás de mim e, no segundo seguinte, o chão desapareceu.

Nós três caímos dentro do buraco da sala.

Eu apaguei.

Não sei quanto tempo fiquei desacordado.

Quando acordei, sentia uma dor absurda na cabeça. Passei a mão e percebi um pouco de sangue escorrendo.

Nicholas estava caído perto de mim.

Michael também.

Acordei os dois.

Eles levantaram ainda meio desnorteados.

Foi quando olhei para cima.

Pude ver a mulher nos observando do buraco no porão

Ela estava quase toda escondida.

Só parte do rosto aparecia.

Pisquei.

Ela havia sumido.

Minha câmera ainda estava ligada.

Então tive a ideia de abrir uma live. Se alguma coisa acontecesse, pelo menos milhares de pessoas saberiam onde tínhamos entrado.

Assim que entrei ao vivo, os comentários começaram a aparecer.

Perguntavam onde estávamos, o que tinha acontecido, por que eu estava sangrando.

Contei rapidamente que havíamos caído no porão e que estávamos procurando uma saída.

Enquanto Michael e Nicholas ainda tentavam se recuperar, comecei a iluminar o lugar.

O cheiro vinha dali.

Tinha certeza.

Passei a lanterna pelas paredes até perceber uma lona no canto cobrindo alguma coisa.

Me aproximei.

Puxei.

Um rosto apareceu.

Branco.

Inchado.

Algumas larvas se mexiam perto dos olhos e da boca.

Caí para trás no susto e acabei puxando ainda mais a lona.

O corpo ficou exposto.

O abdômen estava praticamente vazio, como se alguma coisa tivesse aberto aquele homem e se alimentado dele.

Michael e Nicholas voltaram a si na mesma hora.

Os comentários da live ficaram uma loucura.

Algumas pessoas perguntavam o endereço para chamar a polícia, outras diziam para sairmos dali imediatamente.

Só que não tinha como.

Não havia nenhuma saída visível além do buraco no teto, e ele era alto demais para alcançarmos.

Foi Nicholas quem encontrou alguma coisa.

Uma corda saindo de dentro da parede.

— Que porra é essa?

Ele puxou.

Uma parte da parede se abriu.

Atrás dela havia uma passagem escondida.

Por alguns segundos pensei que talvez levasse para fora.

Não levava.

Havia uma escada.

Descendo.

Iluminei com a lanterna.

Não conseguia ver o final.

Não tínhamos outra opção.

Começamos a descer.

Descemos por tanto tempo que aquilo começou a não fazer sentido. Aquela escada parecia ir muito mais fundo do que qualquer porão deveria ir.

Até que finalmente chegamos ao fim.

Havia um grande túnel subterrâneo.

Ele se dividia em dois caminhos.

Direita e esquerda.

Decidimos seguir pela esquerda, não sei exatamente por quê. Naquele momento parecia a escolha certa.

Seguimos durante alguns minutos em completo silêncio.

Só dava para ouvir nossas respirações e nossos passos ecoando pelo túnel.

Estávamos cansados.

Muito cansados.

Depois de descer aquela escada, nós quatro praticamente arrastávamos os pés.

...

Espera.

Quatro?

Parei na hora.

Michael e Nicholas também.

— Que foi? — Nicholas perguntou.

Meu coração começou a acelerar.

Olhei para Michael.

Depois para Nicholas.

Nós tínhamos entrado em três.

Virei devagar.

Ela estava bem atrás de nós.

A mãe.

Dessa vez consegui ver ela por completo.

Era muito alta, provavelmente mais de dois metros, mas aquele túnel era baixo demais para ela, então permanecia curvada, com a cabeça inclinada quase encostando no próprio ombro. Era extremamente magra. Os braços pareciam longos demais para o corpo e os dedos quase tocavam o chão.

A pele era pálida, quase cinza.

O cabelo preto e sujo cobria partes do rosto.

Os olhos eram completamente claros.

E ela sorria.

Um sorriso enorme.

Aberto demais.

A pele nos cantos da boca parecia rasgada de tanto aquele sorriso se esticar.

O corpo inteiro estava coberto por alguma coisa preta e viscosa.

Ela estava tão próxima que eu conseguia ouvir a respiração dela.

Antes que qualquer um de nós pudesse reagir, ela agarrou Nicholas.

Foi muito rápido.

Ouvi Nicholas gritar.

Depois aquele grito animalesco saiu da boca dela.

Quando percebi, Nicholas estava no chão tentando segurar o próprio pescoço.

Michael tentou voltar.

Eu puxei ele.

— CORRE!

Nós dois começamos a correr.

Atrás de nós, aquela coisa veio também.

Ela corria completamente desengonçada, quase como se não soubesse usar o próprio corpo. Batia os braços nas paredes, às vezes corria curvada, às vezes parecia usar as mãos no chão para ganhar velocidade.

O barulho dela se aproximava cada vez mais.

Foi quando vimos uma porta de madeira no fim do corredor.

Corremos até ela.

A criatura parou alguns metros atrás de nós.

Não entendi o motivo.

Começamos a forçar a porta.

Michael estava desesperado.

— ABRE ESSA PORRA!

A live já tinha caído fazia algum tempo. Não havia sinal ali embaixo, mas a câmera continuava gravando.

Enquanto tentava abrir a porta, olhei para trás.

A mulher estava escondida parcialmente atrás de uma parte de madeira que saía da parede.

Só metade do corpo aparecia.

E aquele rosto.

Os olhos brancos completamente abertos.

O sorriso.

Ela não piscava.

Só observava.

Como se soubesse exatamente o que havia naquele quarto.

Finalmente conseguimos abrir a porta.

Entramos e fechamos.

Era uma sala pequena, quadrada, com pouco mais de um metro e oitenta de altura. Ali dentro havia apenas uma cama, uma câmera antiga, algumas correntes presas na parede, duas pequenas coleiras e uma estante cheia de fitas.

Todas estavam marcadas apenas com datas.

A coisa continuava do lado de fora.

Mas não entrava.

Não sei por quê.

Michael pegou uma das fitas.

— Talvez tenha alguma coisa aqui que explique isso.

Colocamos no aparelho.

A imagem começou.

Era aquela mesma sala.

A mesma cama.

A mesma câmera.

A gravação era antiga.

Depois de alguns segundos, apareceu o pai.

E depois uma das meninas.

Não vou dizer o que tinha naquela fita.

Nem quero lembrar.

Só sei que Michael desligou quase imediatamente.

Ficamos alguns segundos em completo silêncio.

Olhei para a cama.

Para as correntes.

Depois para aquelas duas pequenas coleiras.

Ninguém precisava falar nada.

Finalmente começávamos a entender por que aquela mulher havia enlouquecido naquela noite.

E talvez ela nunca tivesse enlouquecido de verdade.

Talvez simplesmente tivesse chegado ao limite.

Precisávamos sair dali.

Ainda estava com minha airsoft.

Não ia matar aquela coisa, eu sabia disso, mas talvez desse alguns segundos.

Abrimos a porta.

Ela não estava mais ali.

Começamos a andar.

Depois de alguns metros, ouvimos aquele som novamente.

Ela apareceu no corredor.

Atirei.

Uma vez.

Duas.

Depois descarreguei praticamente tudo.

As primeiras balas acertaram o corpo e ela nem reagiu.

Quando algumas atingiram o rosto, principalmente perto dos olhos, ela recuou e levantou os braços.

Era nossa chance.

Corremos.

Chegamos novamente à bifurcação.

A criatura veio atrás.

Por algum motivo, correu para a escada por onde tínhamos descido.

Nós fomos para o caminho da direita.

Corremos por vários corredores.

Passamos por algumas salas.

E havia corpos.

Muitos.

Alguns eram antigos.

Outros nem tanto.

Provavelmente moradores de rua, drogados ou curiosos que entraram naquela casa pensando que estava vazia.

Agora eu sabia de onde vinha aquele cheiro.

Aquilo estava se alimentando deles.

Depois de algum tempo encontramos outra escada.

Ela subia.

Nem pensamos.

Subimos correndo.

No final havia um alçapão.

Empurramos.

Abriu.

Saímos no meio de uma floresta.

Eu não fazia ideia de onde estávamos.

Tentamos chamar a polícia, mas a ligação mal completava e, quando conseguimos explicar alguma coisa, ninguém parecia acreditar.

Também percebemos que minha câmera principal tinha caído enquanto subíamos.

Ela fazia backups automáticos de tempos em tempos para o computador que estava no carro, então talvez alguma coisa tivesse sido salva.

Mas não existia chance nenhuma de voltarmos naquele lugar para buscar.

Começamos a caminhar pela floresta.

Demorou muito até começarmos a reconhecer alguma coisa.

Em determinado momento encontramos uma estrada velha.

Seguimos por ela.

E finalmente vimos as primeiras casas abandonadas.

Estávamos perto.

A casa apareceu alguns minutos depois.

Passamos longe dela.

Nenhum dos dois falou nada.

Só queríamos chegar até o carro.

Quando finalmente vimos ele, quase comecei a rir de alívio.

Michael correu na frente.

Eu fui logo atrás.

Chegamos até o carro.

Michael abriu a porta do passageiro.

Eu estava procurando a chave no bolso quando ele simplesmente congelou.

Olhei para ele.

— O que foi?

Ele não respondeu.

Estava olhando para trás de mim.

Virei.

Ela estava parada no meio da rua.

A mulher.

A mãe.

Agora conseguia enxergar melhor porque a lua iluminava parte do rosto dela.

Era pior do que no túnel.

Ela estava completamente curvada, os braços pendurados quase até os joelhos. O cabelo preto escondia metade do rosto, mas ainda dava para ver aqueles olhos claros olhando diretamente para nós.

E aquele sorriso.

Ela começou a andar.

Devagar.

Um passo.

Depois outro.

Não tínhamos mais munição.

Eu procurava a chave desesperadamente enquanto Michael gritava para eu entrar no carro.

Ela começou a correr.

Foi aí que ouvimos uma risada.

Uma risada de criança.

A criatura parou.

Duas meninas estavam no meio da estrada.

Eu nem vi de onde elas vieram.

As duas estavam de costas para nós.

De frente para ela.

Usavam vestidos claros e estavam de mãos dadas.

Reconheci imediatamente.

Eram as meninas das fotografias.

As filhas dela.

A criatura ficou completamente imóvel.

O sorriso desapareceu.

Pela primeira vez desde que vimos aquela coisa, ela parecia assustada.

Ou triste.

Não sei.

A menina menor apertou a mão da irmã.

A maior deu um passo à frente.

A criatura soltou um som baixo.

Não parecia o grito animalesco que ouvimos antes.

Parecia um choro.

Ela tentou dar mais um passo na nossa direção.

As duas meninas continuaram paradas.

Então a menor virou um pouco o rosto para nós.

Não consegui enxergar direito a face dela.

Mas ouvi claramente:

— Vai.

Encontrei a chave.

Abri o carro e entrei.

Michael entrou junto.

Liguei o motor.

Quando comecei a dirigir, ainda olhei pelo retrovisor.

As duas meninas continuavam no meio da estrada, lado a lado.

A mãe estava alguns metros à frente delas.

As três completamente paradas.

Por um segundo, a mulher pareceu diferente.

O corpo continuava deformado.

A pele continuava pálida.

Mas aquele sorriso havia sumido.

Ela apenas olhava para as filhas.

Então entramos na curva.

E não vimos mais nenhuma delas.

Nunca voltamos naquela casa.

Nicholas foi dado como desaparecido.

A polícia chegou a procurar pela região depois de nossa denúncia, mas não encontrou entrada nenhuma para aqueles túneis. Encontraram a casa, encontraram o buraco no chão, mas disseram que o porão não levava a lugar algum.

Também nunca encontraram Nicholas.

Alguns arquivos conseguiram ser enviados para meu computador antes da câmera cair.

Eu não publiquei todos.

Tem coisas ali que eu realmente prefiro que ninguém veja.

Mas uma parte me incomoda até hoje.

É uma gravação feita pouco antes de entrarmos naquela casa.

Enquanto eu apresentava Michael e Nicholas para o vídeo, a câmera ficou alguns segundos apontada para a janela onde Nicholas disse ter visto alguém.

Na época não percebemos.

Mas depois aumentei o brilho da imagem.

Havia alguém na janela.

Um homem completamente de preto, e um chapéu que parecia de cowboy, nos observava, depois simplesmente desapareceu

u/Worried_Percentage99 — 8 days ago
▲ 37 r/aquelequetudove+2 crossposts

A Mulher do Rio

Desde sempre morei no interior, então cresci ouvindo histórias de assombração, monstros, aparições, vozes no mato e coisas que, segundo os mais velhos, era melhor não duvidar. Mas, para ser sincero, quase nunca senti medo de verdade. Eu ouvia tudo aquilo como quem escuta um caso antigo, desses que o povo conta mais para assustar criança do que por acreditar de fato. Ainda assim, havia uma lenda em específico que sempre me deixava desconfortável. Perto de onde eu morava existia um rio. Não tinha nada de especial durante o dia. Era só um rio comum, com a velha ponte de concreto atravessando por cima, algumas árvores tortas nas margens e aquele silêncio típico de cidade pequena quando a noite caía. Só que as histórias diziam outra coisa. Diziam que ali aparecia uma mulher muito bonita durante a madrugada, sentada perto da ponte ou andando à beira d’água, sempre sozinha, sempre calma, sempre chamando algum homem distraído. E diziam também que quem aceitava a aproximação dela nunca mais voltava.

Desde criança, por mais que eu fingisse não ligar, evitava passar perto daquele rio quando anoitecia. Havia algo naquele lugar que me incomodava. Mesmo de longe, às vezes eu sentia que a água parecia escura demais, parada demais, como se estivesse esperando alguma coisa. Eu sempre voltava por outro caminho, mesmo que fosse mais longo. Só que, naquela noite, eu não tive escolha. Eu estava voltando do serviço, exausto, com o corpo doendo e a cabeça pesada, quando encontrei a rua principal interditada. Havia um acidente logo à frente. Um carro tinha sido atingido por um caminhão e, por causa do risco de explosão, ninguém podia passar (leia a historia herança maldita) . Algumas pessoas estavam reunidas atrás da faixa, outras só observavam em silêncio. O cheiro de combustível tomava o ar, e as luzes dos veículos de emergência pintavam tudo de vermelho e azul. Por um instante, pensei em esperar, mas logo percebi que aquilo iria demorar. Tentei imaginar um caminho alternativo, mas o único que realmente me levava até em casa, sem dar a volta na cidade inteira, passava justamente em frente ao rio.

Naquele momento eu hesitei. Cheguei a olhar para trás, cogitando voltar e procurar outra rota, mas o cansaço pesou mais que a prudência. Eu queria apenas chegar em casa, tomar banho e dormir. Então segui andando. No começo tentei me convencer de que era bobagem, que lenda era lenda e que nada me esperava naquele lugar além da água escura e do barulho dos sapos. Só que, conforme fui me aproximando da ponte, alguma coisa mudou. Ouvi uma música. Era baixa, quase um sussurro, e ainda assim parecia preencher o ar inteiro. Não vinha de rádio algum, nem de casa próxima, nem de carro parado. Era uma melodia lenta, bonita demais para aquele lugar, e estranhamente triste. Tão triste que, em vez de me assustar, me acalmou. Eu sentia o peito afrouxar a cada passo. Meu corpo pareceu ficar leve, e toda a tensão do dia foi se dissolvendo sem que eu percebesse.

Quando cheguei perto da ponte, eu a vi. Havia uma moça sentada sobre a mureta, olhando para a lua refletida na água. Ela era loira, muito bonita, com um vestido branco justo ao corpo, desses que marcavam as curvas sem parecer vulgar. O vento mexia de leve no cabelo dela, e havia algo naquela cena que parecia irreal, quase como um sonho. Fiquei observando por alguns segundos enquanto caminhava devagar, incapaz de desviar os olhos. Então ela virou o rosto na minha direção. Tinha olhos claros, de um azul muito vivo, e a boca rosada desenhou um sorriso discreto, tão pequeno que parecia íntimo, como se ela já me conhecesse. Naquela hora meu coração disparou. Eu senti o rosto esquentar e baixei a cabeça por reflexo, envergonhado como um adolescente. Ela ergueu a mão de leve e me chamou com a voz mais doce que eu já tinha ouvido.

— Ei, menino.

Parei no mesmo instante. Olhei para ela e engoli seco antes de responder.

— Oi... t-tudo bem? O que você faz aqui a essa hora?

Ela voltou os olhos para a água e depois para a lua.

— Estava olhando a luz. Ela não está linda?

A voz dela tinha alguma coisa de macio, de acolhedor. Não era só bonita. Era o tipo de voz que faz a gente baixar a guarda sem perceber. Eu me aproximei mais um pouco. Não pensei na lenda. Não pensei na hora. Não pensei em nada, na verdade. Só nela.

— Senta aqui — ela disse, dando dois tapinhas na mureta ao lado dela. — Fica um pouco comigo.

Eu sentei. Simples assim. Como se aquilo fosse normal. Como se eu não estivesse numa ponte isolada, no meio da noite, ao lado de uma desconhecida. Ficamos alguns instantes em silêncio, olhando o rio. A música continuava, mas agora eu já não sabia dizer se vinha do ambiente ou se ecoava apenas dentro da minha cabeça. O cheiro que vinha dela era suave, floral, quase adocicado, e me deixava tonto de um jeito bom. Lembro de pensar que jamais tinha estado tão perto de uma mulher assim. Mesmo com vinte e três anos, eu ainda era virgem, inexperiente, e a simples proximidade dela já me deixava sem saber onde colocar as mãos.

Foi então que, ao virar o rosto por um segundo, vi alguém do outro lado da ponte. Havia um homem escorado em uma árvore, quase engolido pela escuridão. Usava um sobretudo escuro e um chapéu de cowboy, e estava completamente imóvel, apenas observando. Não consegui ver seu rosto, nem distinguir se era velho ou novo, mas a sensação que ele me causou foi pior do que a própria lenda. Não havia pressa nele, não havia susto, não havia tentativa de aviso. Ele só observava. Como se já soubesse o que estava prestes a acontecer. Eu ia perguntar à mulher se ela conhecia aquele homem, mas antes que abrisse a boca senti os dedos dela se fecharem sobre a minha mão.

Ela olhou bem dentro dos meus olhos e se aproximou devagar. Tão perto que eu conseguia sentir a respiração dela no meu rosto.

— Eu estou tão carente... — ela sussurrou. — Meu namorado me deixou hoje. Será que eu posso te beijar?

Meu coração quase saiu pela boca. Eu mal conseguia respirar.

— C-claro — respondi, sentindo a voz falhar.

Fechei os olhos quando ela se inclinou. Seus lábios tocaram os meus e, por um segundo, aquilo pareceu real demais, macio demais, quente demais. Eu tentei fazer o que já tinha visto em vídeos, sem saber direito como agir, e levei uma das mãos até a cintura dela. Mas, no instante em que a toquei, uma sensação repulsiva percorreu meu corpo inteiro. Aquilo não era pele humana. Não era nem parecido. Era úmido, gelado e viscoso, como tocar num animal tirado da lama. Dei um estremecimento violento e abri os olhos.

A mulher já não existia mais.

No lugar dela havia uma coisa sentada ao meu lado, próxima demais, colada demais, ainda com o rosto encostado no meu. Sua pele era inchada e encharcada, marcada por dobras grossas e irregulares, como carne apodrecida que passou tempo demais dentro da água. Restos de fios negros escorriam pela cabeça, grudados naquilo que um dia talvez tivesse sido um rosto humano. Os olhos eram redondos, brancos demais, esbugalhados, brilhando no escuro com uma fixidez doentia, e a boca se abria em largura impossível, rasgando as laterais da face num sorriso que não era sorriso. Havia pus escorrendo em vários pontos do corpo, misturado com água barrenta, e o cheiro floral tinha dado lugar ao fedor de lodo, peixe morto e carne podre. A criatura ainda vestia os restos daquele vestido branco, agora colado sobre a pele inchada como se fosse uma segunda camada de mofo.

Eu tentei me levantar, mas ela foi mais rápida. Seus dedos se cravaram no meu braço com uma força absurda. A coisa abriu a boca e soltou um som horrível, um coaxar grave, fundo, úmido, que pareceu vir tanto da garganta quanto do rio inteiro ao redor. Foi um barulho tão antinatural que minhas pernas simplesmente pararam de responder. Então, antes que eu pudesse gritar, ela se lançou comigo ponte abaixo.

Caímos de cabeça na água.

O impacto me arrancou o ar na mesma hora. Afundei junto com aquela coisa, debatendo os braços, chutando, tentando me soltar, mas era inútil. Debaixo d’água, a força dela parecia dobrar. A escuridão era quase total. Eu só conseguia ver o brilho leitoso dos olhos dela muito perto do meu rosto. Minhas mãos escorregavam naquele corpo mole e nojento, e toda vez que eu tentava subir, ela me puxava mais para baixo. Minha garganta queimava. Meu peito parecia prestes a explodir. Em algum momento eu abri a boca sem querer, e a água invadiu meus pulmões como fogo gelado. Foi aí que senti a pior parte. A criatura afastou um pouco o rosto, e sua boca começou a se abrir cada vez mais, cada vez mais, muito além do que qualquer mandíbula humana permitiria, até parecer um buraco úmido e vivo. No último instante de consciência, percebi que ela estava me engolindo. Não mordendo. Não rasgando. Engolindo inteiro, devagar, como se eu fosse pequeno o bastante para desaparecer dentro dela.

Quando voltei a abrir os olhos, eu não estava mais no rio.

Eu estava em um lugar escuro, vasto e silencioso, como um salão sem fim mergulhado em penumbra. O chão parecia úmido, frio, e havia no ar um cheiro de mofo, sangue velho e fumaça. Demorei alguns segundos para perceber que não estava sozinho. Havia pessoas espalhadas por toda parte, paradas, sentadas ou de pé, como se estivessem esperando alguma coisa. Ninguém falava. Ninguém chorava. Ninguém se movia além do necessário para respirar. E o mais terrível não era a quantidade de pessoas, mas o estado em que elas estavam.

Reconheci primeiro um homem com a pele enegrecida e rachada, o corpo inteiro marcado por queimaduras horríveis, como se tivesse sido arrancado de dentro de um incêndio ainda vivo. O cheiro de gasolina parecia acompanhá-lo. Um pouco adiante vi figuras costuradas de maneira grotesca, com marcas profundas no rosto e no pescoço, como bonecos humanos mal remendados, os olhos perdidos num vazio infantil e miserável. Mais ao fundo havia jovens cobertos de lama e sangue seco, com roupas rasgadas, expressão de puro pavor congelada nos rostos; um deles segurava o próprio pescoço como se ainda procurasse a cabeça de um amigo que jamais voltou inteiro da mata. Vi também um homem deitado de lado, com o corpo aberto por um golpe brutal, os olhos arregalados como se ainda enxergasse a televisão acesa no instante final. Não muito longe dele, reconheci o olhar vazio de outros rostos que pareciam ter sido roubados de histórias diferentes, todos unidos apenas por uma coisa: haviam morrido com medo.

Foi nesse instante que entendi. Aquele lugar estava cheio dos mortos. Não de mortos quaisquer, mas daqueles que terminaram suas histórias do pior jeito possível. Gente arrastada, enganada, despedaçada, costurada, queimada, devorada, caçada. Gente que parecia ter sido recolhida de cada canto escuro de um mesmo mundo e trazida para ali como peças de uma coleção macabra. E, no centro de tudo, elevado por alguns degraus tortos, havia um trono.

Sentado nele estava um bobo da corte.

Seu corpo parecia imóvel demais para ser humano, mas seu rosto carregava uma alegria tão viva que aquilo doía só de olhar. O sorriso era largo, antinatural, quase infantil, e os olhos brilhavam com uma diversão antiga, insondável. Ele não falava nada. Não precisava. Estava apenas me olhando, como quem observa o fim de uma apresentação particularmente agradável. Senti meu estômago afundar, porque percebi, naquele instante, que ele tinha visto tudo. O rio, a ponte, a mulher, o beijo, a queda, o desespero debaixo d’água. Não como quem descobre depois, mas como quem assiste de camarote. Como quem já sabia o final desde o começo.

Olhei em volta mais uma vez, e o silêncio das outras almas era ainda pior do que qualquer grito. Ninguém tentava fugir. Ninguém implorava. Era como se todos já soubessem que dali não existia saída. Então o bobo levou uma das mãos ao braço do trono e começou a batucar os dedos devagar, num ritmo quase brincalhão. Seu sorriso aumentou. E, pela primeira vez desde que despertei naquele lugar, eu tive certeza absoluta de uma coisa: morrer no rio não tinha sido o fim da minha história.

Tinha sido só a maneira de me trazer até ele.

u/Worried_Percentage99 — 9 days ago
▲ 35 r/aquelequetudove+2 crossposts

A FITA

Eu amo filmes.

Não digo isso como aquelas pessoas que assistem a dois ou três lançamentos por ano e se consideram cinéfilas. Eu realmente amo cinema. Já assisti de tudo: filmes antigos, produções independentes, terror japonês, filme trash, documentário, coisa experimental que nem parecia filme. Sei algumas cenas de O Poderoso Chefão praticamente de trás para frente.

Talvez tenha sido justamente por isso que eu coloquei aquela fita para rodar.

Se eu não gostasse tanto de filmes, provavelmente ainda estaria vivo.

Tudo começou quando decidi sair do Brasil e tentar uma vida nova no Japão. Eu já estudava japonês havia algum tempo, mas estava longe de falar bem. Mesmo assim, consegui um emprego e encontrei uma casa no interior por um preço muito abaixo do normal.

Aquilo deveria ter sido o primeiro aviso.

A casa não era exatamente velha. Devia ter uns trinta ou quarenta anos, mas havia sido malcuidada. Algumas paredes tinham manchas de umidade, parte do telhado precisava de reparos e as janelas emperravam. Nada que me assustasse. Pelo preço que paguei, compensava.

Passei minha primeira semana praticamente só trabalhando nela.

Pintei as paredes, consertei algumas telhas, arrumei vazamentos, troquei tomadas e joguei fora uma quantidade absurda de coisas deixadas pelo antigo proprietário.

Foi assim que cheguei ao sótão.

Havia caixas com roupas, livros, ferramentas enferrujadas, revistas antigas e alguns aparelhos eletrônicos. Em um dos cantos encontrei uma caixa de papelão quase desmanchando por causa da umidade.

Dentro dela havia fitas VHS.

Aquilo imediatamente chamou minha atenção.

Peguei uma.

Era um filme que eu conhecia.

Outra também.

Comecei a vasculhar a caixa e percebi que quase todas eram versões japonesas de filmes antigos. Algumas tinham capas originais, outras estavam gravadas em fitas comuns, com os nomes escritos à mão.

Na lateral da caixa havia algo escrito em japonês.

Como eu ainda estava aprendendo, tirei uma foto e joguei no tradutor.

Meus filmes.

Achei engraçado.

Imaginei que o antigo dono também fosse apaixonado por cinema.

Então encontrei aquela.

Estava no fundo da caixa.

Uma fita completamente preta.

Sem capa.

Sem marca.

Sem qualquer informação sobre duração ou fabricante.

Havia apenas um pequeno pedaço de fita crepe colado nela, já amarelado pelo tempo. No centro, alguém havia escrito um único kanji com caneta preta.

Pesquisei.

A tradução que apareceu foi:

Maldição.

Eu ri.

Até hoje me arrependo disso.

Naquele momento pensei que fosse algum filme de terror antigo. Talvez uma produção caseira. Alguma coisa experimental. O Japão tinha uma quantidade enorme de filmes estranhos lançados diretamente em VHS décadas atrás.

Terminei de arrumar o sótão e levei a fita comigo.

Na sala eu tinha instalado uma televisão e, por coincidência, havia comprado um videocassete usado poucos dias antes. Sempre gostei da imagem imperfeita de VHS, daquele chiado e das falhas da fita.

Coloquei a fita.

Sentei no sofá.

Apertei play.

Por alguns segundos, só apareceram interferências.

Linhas atravessavam a tela.

A imagem piscou.

Preto.

Depois branco.

Preto novamente.

Então o filme começou.

Duas pernas caminhavam por uma floresta.

A câmera estava apontada para baixo, mostrando apenas as botas de quem gravava, folhas mortas e terra molhada. A imagem tremia a cada passo.

Parecia found footage.

Não havia música.

Não havia diálogo.

Só passos.

E respiração.

A pessoa caminhou durante vários minutos.

Tempo demais.

Comecei até a achar aquilo chato.

Então alguma coisa me chamou atenção.

A respiração não acompanhava os passos.

Quando a pessoa que segurava a câmera parava...

a respiração continuava.

Fiquei encarando a televisão.

Talvez fossem duas pessoas.

Era a explicação mais lógica.

Depois de alguns minutos, apareceu um pequeno galpão no meio da floresta.

A pessoa entrou.

A tela ficou preta.

Um corte seco.

Quando a imagem voltou, a câmera estava parada sobre alguma superfície.

Uma mesa, provavelmente.

Do outro lado havia um homem.

Ele devia ter uns cinquenta anos.

Era magro, tinha cabelos compridos e sebosos e vestia uma camisa clara completamente suja. Diante dele havia uma tigela.

Ele estava tomando sopa.

Ao lado dele estava sentada uma mulher.

Ela não se mexia.

Usava uma máscara branca.

Uma máscara simples.

Sem sorriso.

Sem expressão.

Só dois buracos para os olhos.

Durante quase um minuto inteiro, absolutamente nada aconteceu.

O homem apenas comia.

Colher.

Boca.

Tigela.

Colher.

Boca.

Tigela.

Eu já tinha visto muito filme perturbador na vida.

Mas aquela cena começou a me incomodar de uma maneira que eu não sabia explicar.

Talvez fosse o silêncio.

Talvez fosse a mulher.

Ou talvez fosse porque aquilo não parecia atuação.

Então o homem parou de comer.

A colher ficou suspensa no ar.

Devagar...

ele ergueu a cabeça.

E olhou diretamente para a câmera.

Meu estômago gelou.

Os olhos dele eram completamente brancos.

Não esbranquiçados.

Não doentes.

Brancos.

Como duas bolinhas de vidro encaixadas no rosto.

Fiquei alguns segundos sem respirar.

Então ele sorriu.

A imagem cortou.

A mulher estava no chão.

Sem a máscara.

A gravação agora estava em preto e branco.

Ela chorava.

Não gritava.

Isso era o pior.

Ela olhava para alguém atrás da câmera e repetia alguma coisa em japonês.

Eu não entendia tudo naquela época.

Mas entendia uma palavra.

Iya.

Não.

Não.

Não.

Alguma coisa entrou no enquadramento.

Um machado.

Foi quando percebi que aquilo não era um filme.

A primeira pancada me fez levantar do sofá.

Não vou descrever o que aconteceu depois.

Não preciso.

Só digo que, quando terminou, eu já não conseguia reconhecer o rosto daquela mulher.

Desliguei a televisão.

Ou tentei.

A imagem continuou.

Apertei o botão novamente.

Nada.

Peguei o controle.

Nada.

Então a fita cortou mais uma vez.

Apareceu uma casa.

Meu coração começou a bater mais forte.

Reconheci primeiro a parede.

Depois a porta.

Depois o sofá.

Era minha sala.

Aquela sala.

A câmera estava posicionada atrás de mim.

Eu aparecia sentado no sofá olhando para a televisão.

Na gravação.

Na mesma roupa que estava usando naquele momento.

Meu corpo inteiro ficou gelado.

Olhei para trás.

Não havia câmera.

Olhei novamente para a televisão.

A gravação continuava.

Eu estava lá.

Sentado.

Assistindo.

Então percebi outra coisa.

Havia alguém ao lado da televisão.

O homem da fita.

Ele estava parado no canto da sala.

Olhos brancos.

Sorrindo.

Na gravação, ele estava olhando para mim.

Virei rapidamente para aquele canto.

Não havia ninguém.

Voltei para a televisão.

O homem não estava mais lá.

Agora estava atrás do sofá.

Atrás de mim.

Eu me virei.

Nada.

Foi quando ouvi uma risada saindo dos alto-falantes.

Bem baixa.

Quase uma respiração.

Na tela, o homem levantou o machado.

Arranquei o videocassete da tomada.

A televisão apagou.

Durante alguns segundos fiquei parado no meio da sala, segurando o cabo.

Então senti cheiro de plástico queimado.

O videocassete começou a soltar fumaça.

Tentei retirar a fita.

Ela não saía.

O aparelho ficou quente demais para tocar.

A fumaça aumentou.

Depois alguma coisa estalou dentro dele.

Quando finalmente consegui abrir a tampa, a fita havia derretido.

O plástico preto estava completamente deformado.

Acabou, pensei.

A fita acabou.

Passei quase meia hora tentando entender o que tinha acontecido.

Talvez alguém tivesse entrado na casa enquanto eu trabalhava.

Talvez aquela gravação tivesse sido feita antes.

Talvez...

Não.

Não fazia sentido.

Eu estava usando aquela roupa.

A televisão era minha.

O sofá havia sido entregue dois dias antes.

Eu deveria ter saído daquela casa naquele momento.

Mas o cérebro faz coisas estranhas quando você está com medo.

Depois de tudo aquilo, tentei me convencer de que era apenas uma gravação muito bem feita.

Eu precisava acreditar nisso.

Não havia mais fita para levar à polícia. O videocassete estava queimado, o plástico havia derretido lá dentro e, se eu contasse para alguém que tinha acabado de assistir a uma gravação de mim mesmo dentro da minha própria casa, provavelmente achariam que eu estava louco.

Então fiz o possível para seguir normalmente.

Fui ao banheiro, escovei os dentes e evitei olhar para o espelho por muito tempo.

Mesmo assim, enquanto enxaguava a boca, tive a impressão de ver alguma coisa passando atrás de mim.

Virei imediatamente.

Nada.

O corredor estava vazio.

— Foi o filme...

Falei aquilo em voz alta só para ouvir alguma coisa além do silêncio daquela casa.

Voltei para o quarto.

A reforma ainda não estava terminada e a janela continuava com defeito. Eu não conseguia fechá-la completamente, então ela permanecia alguns centímetros aberta durante a noite.

Coloquei uma cadeira contra ela.

Não adiantaria muita coisa, mas me fez sentir melhor.

Deitei.

Deixei o abajur aceso.

Durante quase uma hora fiquei olhando para o teto, ouvindo qualquer pequeno barulho da casa.

Madeira estalando.

Vento.

Galhos raspando do lado de fora.

Aos poucos, o sono começou a vencer o medo.

Até que ouvi.

Clac.

Abri os olhos.

Fiquei imóvel.

Silêncio.

Então novamente.

Clac.

Sentei na cama.

Eu conhecia aquele som.

Era impossível esquecer.

Clac.

O videocassete.

Meu peito apertou.

Ele estava queimado.

Eu havia tirado da tomada.

Mesmo assim, depois de alguns segundos, ouvi outro som vindo da sala.

O chiado de uma fita VHS começando a rodar.

Trrrrrrrrrrr...

Fiquei olhando para a porta do quarto.

Não queria sair.

Mas o som continuava.

Então ouvi a televisão ligar.

Levantei.

Passei pelo corredor devagar.

A sala estava iluminada apenas pela luz azulada da TV.

O videocassete estava ligado.

Sem estar conectado à tomada.

A pequena luz vermelha brilhava na frente dele.

Na televisão havia uma imagem escura.

Demorei alguns segundos para reconhecer o lugar.

Era meu quarto.

A câmera parecia estar posicionada no canto, próxima ao teto.

Meu sangue gelou.

Na gravação, eu estava deitado na cama.

Exatamente como estava alguns minutos antes.

A cadeira ainda estava encostada na janela.

Fiquei parado diante da televisão.

Então alguma coisa apareceu do lado de fora do quarto.

Duas mãos seguraram o parapeito.

Um homem começou a entrar pela janela.

Era ele.

O mesmo homem da fita.

Cabelos compridos.

Roupas sujas.

O machado em uma das mãos.

E aqueles olhos completamente brancos.

Prendi a respiração.

Na gravação, ele entrou lentamente.

Eu continuava dormindo.

O homem ficou alguns segundos parado ao lado da cama.

Só me olhando.

Depois se abaixou.

E desapareceu embaixo dela.

Meu corpo inteiro ficou arrepiado.

Olhei para o corredor.

Meu quarto estava no fim dele.

A porta continuava aberta.

Não consegui me mexer.

Voltei os olhos para a televisão.

Na gravação, alguns segundos se passaram.

Então...

eu acordei.

A pessoa que aparecia na televisão sentou na cama.

Ficou alguns segundos olhando ao redor.

Depois colocou os pés no chão.

Meu coração começou a bater ainda mais rápido.

Na gravação, eu saí do quarto.

Caminhei pelo corredor.

E entrei na sala.

Então apareci diante da televisão.

Exatamente onde eu estava naquele momento.

Eu estava assistindo a mim mesmo assistir à fita.

Foi aí que percebi.

Aquilo não era uma gravação.

Ainda não.

Meus olhos voltaram imediatamente para a imagem do quarto.

Atrás de mim, na televisão, o homem começou a sair lentamente debaixo da cama.

Primeiro uma mão.

Depois a cabeça.

Depois o resto do corpo.

Ele segurava o machado.

Levantei a mão devagar.

Na tela...

eu fiz a mesma coisa.

Meu estômago afundou.

Eu estava vendo alguns segundos à frente.

O homem saiu do quarto.

Entrou no corredor.

Começou a caminhar na direção da sala.

Um passo.

Outro.

Outro.

Eu conseguia vê-lo na televisão.

Mas não conseguia ouvi-lo atrás de mim.

Na tela, ele já estava quase chegando.

Eu queria correr.

Mas minhas pernas simplesmente não respondiam.

Ele entrou na sala.

Parou atrás de mim.

Eu olhava para a televisão.

Ele olhava para mim.

E então...

na gravação...

eu comecei a virar a cabeça.

a televisão desligou.

A sala ficou completamente escura.

Por um instante, não ouvi nada.

Nada.

Então senti uma respiração atrás da minha orelha.

Não deveria ter olhado.

Mas olhei.

Não cheguei a vê-lo.

E depois nada... O nada tomou conta do meu ser ,

a escuridão mais pura que uma pessoa poderia sentir. Vocês sabiam ,que o último sentido a se despedir da vida é a audição?

Sim ,isso mesmo perdido na escuridão da passagem para a morte ,

ouvi o som do machado me golpeando várias vezes, o som úmido misturado com os estalar dos ossos sendo quebrados , e um grunhido de satisfação do meu executor,

agora eu fazia parte, de um filme ... o filme da minha morte.

u/Worried_Percentage99 — 10 days ago
▲ 148 r/aquelequetudove+3 crossposts

ELA ME OBSERVAVA

Meus pais nunca acreditaram em mim.

E agora é tarde demais.

Desde pequeno, eu nunca consegui dormir com a porta do quarto aberta. Não sei explicar direito o motivo. Eu simplesmente sentia que, quando aquela porta ficava aberta durante a noite, alguém me observava.

Contei isso várias vezes para os meus pais. Para os meus irmãos também.

Eles sempre davam risada.

Diziam que era coisa da minha cabeça, medo de criança, pesadelo... essas coisas.

Mas eu sabia que não era.

Eu tinha certeza de que alguma coisa ficava do outro lado daquela porta.

Por isso criei o hábito de trancá-la todas as noites antes de dormir. Podia estar cansado, bêbado, doente... não importava. Antes de deitar, eu fechava a porta e girava a chave.

Só assim conseguia dormir.

Mesmo assim, algumas noites eu acordava de madrugada com um barulho baixo.

A maçaneta mexendo.

Devagar.

Como se alguém estivesse tentando abrir a porta sem fazer barulho.

Às vezes ela mexia uma vez e parava.

Em outras noites, continuava por vários minutos.

Eu ficava debaixo do cobertor, olhando para a porta e esperando.

Nunca tive coragem de abrir.

Quando contava isso para os meus pais pela manhã, meu pai dizia que devia ser algum dos meus irmãos tentando me assustar. Minha mãe dizia que casas velhas faziam barulho durante a noite.

Depois de alguns anos, parei de falar sobre aquilo.

Não porque havia deixado de acontecer.

Eu apenas percebi que ninguém acreditaria em mim.

Com o tempo, aprendi a conviver com aquilo. A porta trancada virou parte da minha rotina e, desde que ela estivesse fechada, eu me sentia seguro.

Até aquela noite.

Eu tinha chegado tarde em casa depois de um dia cansativo. Estava exausto.

Entrei no quarto, joguei minhas coisas em uma cadeira e me deitei ainda com a roupa do corpo.

Nem tirei o tênis.

Eu só queria fechar os olhos por alguns minutos.

E apaguei.

Não sei quanto tempo dormi.

Só lembro de abrir os olhos e perceber que alguma coisa estava errada.

Eu estava deitado exatamente na mesma posição.

Conseguia enxergar meu quarto.

A luz fraca da rua entrava pela janela e iluminava parte da parede.

Tentei virar o corpo.

Não consegui.

Tentei levantar a mão.

Nada.

Foi quando entendi.

Paralisia do sono.

Já tinham me contado sobre aquilo antes. A pessoa acordava, mas o corpo continuava dormindo. Às vezes você podia ouvir coisas, ver vultos...

Então tentei me acalmar.

Até olhar para a porta.

Ela estava aberta.

Meu coração disparou.

Eu não lembrava se tinha trancado a porta antes de deitar.

Na verdade, naquele momento, eu nem sabia se tinha fechado.

Foi então que percebi uma sombra no canto.

No começo pensei que fosse uma roupa pendurada ou algum objeto criando uma forma estranha por causa da pouca luz.

Mas não era.

Tinha alguém ali.

Uma mulher.

Ou pelo menos parecia ser.

Ela estava parada junto à porta, completamente imóvel.

Não respirava.

Não fazia nenhum som.

Apenas me observava.

Eu só conseguia mexer os olhos, então tentei enxergar melhor.

Foi quando percebi que havia alguma coisa errada com o corpo dela.

Ela não era muito alta.

Mas a cabeça quase encostava no teto.

Demorei alguns segundos para entender o que estava vendo.

Seu pescoço.

Era comprido demais.

Saía dos ombros e subia como se tivesse sido esticado. Era tão longo que ela precisava manter a cabeça inclinada para o lado, pressionada contra o teto.

Os cabelos negros caíam sobre o rosto.

Eu não conseguia ver seus olhos.

Mas sabia que ela estava olhando para mim.

Tentei gritar.

Nenhum som saiu.

Ela não se mexeu.

Ficamos daquele jeito por não sei quanto tempo.

Eu olhando para ela.

E ela olhando para mim.

Então acordei.

Dessa vez de verdade.

Meu corpo deu um solavanco e eu puxei o ar com tanta força que meu peito doeu.

Olhei imediatamente para a porta.

Aberta.

Levantei da cama quase tropeçando.

Fechei a porta e girei a chave.

Uma vez.

Depois outra, só para ter certeza.

Encostei as costas nela e fiquei parado por alguns segundos.

Meu coração parecia querer sair pela boca.

— Foi só um sonho...

Falei aquilo em voz alta.

Precisava ouvir minha própria voz.

Paralisia do sono.

Era isso.

Eu tinha chegado cansado, esquecido de fechar a porta e meu cérebro tinha transformado aquele medo de infância em um pesadelo.

Era a explicação mais lógica.

Bebi um pouco de água e me sentei na cama.

Fiquei alguns minutos olhando para a porta.

Nada aconteceu.

Nenhuma maçaneta girou.

Nenhum barulho.

Aos poucos, comecei a me sentir idiota.

Eu já era adulto.

Não podia continuar tendo medo de uma porta aberta como quando tinha oito anos.

Olhei mais uma vez para a fechadura.

Trancada.

Então me deitei.

Puxei a coberta e virei para o lado.

Fechei os olhos.

Não sei quanto tempo passou.

Talvez alguns minutos.

Foi quando senti alguma coisa tocar meu pé.

Abri os olhos.

Fiquei imóvel.

Pensei que talvez fosse a coberta escorregando.

Então senti novamente.

Dessa vez não tive dúvida.

Dedos.

Alguma coisa estava passando a mão pela minha perna.

Bem devagar.

Meu corpo inteiro arrepiou.

Não tive coragem de me mexer.

Abri os olhos apenas o suficiente para conseguir enxergar através dos cílios.

Havia alguém no pé da minha cama.

Meu estômago afundou.

Era ela.

Aquela mulher.

O corpo estava parado diante da cama.

Mas sua cabeça não.

O pescoço se estendia por cima do colchão.

Comprido.

Fino.

Impossível.

Ele passava pelas minhas pernas, pelo meu peito...

Até que o rosto dela ficou exatamente sobre o meu.

Os cabelos caíram ao redor da minha cabeça como uma cortina.

Dessa vez eu conseguia vê-la.

Sua pele era pálida.

Os olhos estavam arregalados.

E ela sorria.

Não era um sorriso enorme.

Isso seria menos assustador.

Era um sorriso pequeno.

Quase normal.

Como se estivesse feliz por finalmente poder chegar perto de mim.

Tentei me levantar.

Ela agarrou meu pescoço.

A mão era gelada.

Tentei gritar, mas o ar não saía.

Segurei seu braço, tentei arrancá-lo de mim, mas ela era muito mais forte do que parecia.

Foi então que seu sorriso começou a aumentar.

Devagar.

Os cantos da boca foram se abrindo enquanto o resto do rosto permanecia completamente parado.

Mais.

E mais.

Até que ouvi um estalo.

O maxilar dela se deslocou.

A boca se abriu de uma forma que nenhum ser humano conseguiria.

Havia dentes lá dentro.

Fileiras deles.

Eu me debati com tudo o que tinha.

Foi inútil.

A última coisa que senti foram os dentes perfurando minha pele.

u/Worried_Percentage99 — 13 days ago
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O CAÇADOR

O CAÇADOR

Meu pai nunca foi um homem carinhoso.

Não me lembro de ter ouvido um “eu te amo” vindo dele, nem de ter recebido um abraço sem precisar pedir. Desde pequeno, ele me ensinou que o mundo não seria gentil comigo e que esperar ajuda era a maneira mais rápida de acabar morto. Era rígido, impaciente e, às vezes, difícil de suportar.

Mesmo assim, eu o amava.

A única coisa que realmente parecia fazê-lo feliz era caçar. Ele viajou por vários países carregando a mesma espingarda velha, uma arma de dois canos com as iniciais dele gravadas no metal. Caçou cervos, javalis, lobos e animais que eu conhecia apenas pelas fotografias que ele guardava em uma caixa no armário.

Quando eu tinha onze anos, ele me contou sobre uma floresta no norte da Inglaterra.

Não havia nome em mapas, coordenadas oficiais ou registros de propriedade. Segundo ele, era como se aquele lugar tivesse sido arrancado do resto do país. As poucas histórias vinham de moradores de um vilarejo próximo. Pessoas desapareciam entre as árvores, caçadores abandonavam seus equipamentos e animais encontrados nas proximidades apresentavam ferimentos que ninguém conseguia explicar.

Meu pai falou da floresta com um brilho nos olhos que eu conhecia bem.

Três semanas depois, ele embarcou para a Inglaterra.

Foi a última vez que o vi.

No começo, minha mãe não demonstrou preocupação. Meu pai costumava passar vários dias sem ligar quando estava caçando. Mas duas semanas se transformaram em três, depois em quatro. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação. O telefone dele permanecia desligado.

Certa tarde, um policial inglês ligou para nossa casa.

Eu estava sentado à mesa quando minha mãe atendeu. Ela não falava inglês muito bem, mas entendeu o suficiente para deixar o telefone escapar de sua mão e cair de joelhos no chão.

Haviam encontrado uma jaqueta ensanguentada próxima a uma floresta. Dentro dela estavam os documentos e o telefone do meu pai. Também encontraram restos humanos espalhados pela região, mas nenhum corpo inteiro que pudesse ser reconhecido.

Para a polícia, aquilo bastava.

Meu pai estava morto.

Enquanto minha mãe chorava, fiquei olhando para minhas próprias mãos. Eu não chorei. Não porque não sentisse nada, mas porque alguma coisa dentro de mim se recusava a aceitar que aquela fosse toda a história.

Naquele dia, decidi que descobriria o que havia acontecido com ele.

Os anos seguintes foram de preparação.

Aprendi a atirar com diferentes tipos de armas, a rastrear animais, montar armadilhas, sobreviver em mata fechada e tratar ferimentos longe de qualquer hospital. Treinei meu corpo até conseguir caminhar durante horas carregando equipamento pesado. Li tudo que encontrei sobre desaparecimentos no interior da Inglaterra.

Sobre a floresta, porém, quase não existia nada.

Era como procurar um lugar que fazia questão de não ser encontrado.

A resposta apareceu muitos anos depois, em um bar que eu frequentava perto de casa.

Eu estava sentado em uma mesa, pesquisando notícias antigas em meu computador, quando um velho bêbado parou atrás de mim. Ele cheirava a cigarro e bebida barata. Ficou olhando para a fotografia de uma região montanhosa na tela e perguntou:

— Está procurando pela floresta, não está?

Fechei o computador.

— Que floresta?

O velho cuspiu no chão.

A garçonete o repreendeu e jogou um pano em sua direção. Enquanto limpava a própria saliva, ele respondeu:

— A floresta que não aparece nos mapas. Aquela maldita floresta.

Puxei uma cadeira para ele.

— O que sabe sobre ela?

— Sei que você deveria desistir.

— Não posso.

— Todo mundo pode. Alguns só descobrem tarde demais.

Coloquei uma nota de cem sobre a mesa.

O velho olhou para o dinheiro, mas não o pegou imediatamente.

— Aquilo não é lugar para caçadores — murmurou. — As coisas que vivem lá não fogem quando escutam um tiro.

— Onde fica?

Ele pegou a nota.

Contou-me sobre uma pequena cidade no norte da Inglaterra. Disse que a floresta começava alguns quilômetros depois da última estrada e que qualquer morador saberia indicar o caminho, embora ninguém aceitasse me acompanhar.

Antes de ir embora, segurou meu braço.

— não faça barulho a noite

Na semana seguinte, voei para Londres.

Aluguei um carro e dirigi durante quase um dia até o vilarejo indicado pelo velho. Cheguei depois do anoitecer e me hospedei em uma pousada simples, administrada por uma mulher que fechou a expressão assim que viu minhas armas.

Naquela noite, fui ao pub da cidade.

Perguntei sobre a floresta.

A reação era sempre a mesma. As pessoas desviavam o olhar, cuspiam no chão e mudavam de assunto. Um homem mais velho chegou a segurar meu casaco e dizer que eu não deveria brincar com coisas que não compreendia.

Não recebi informações úteis, apenas um aviso repetido de formas diferentes:

Ninguém entrava naquela floresta e voltava inteiro.

Esperei o amanhecer.

Carreguei a espingarda, duas pistolas, munição, uma faca de caça, sinalizadores, kit médico, comida, água e uma lanterna. Estacionei no fim de uma estrada de terra e segui a pé até encontrar as primeiras árvores.

A floresta era assustadora, mas também era bonita.

Troncos altos desapareciam dentro de uma neblina branca. A luz do sol mal atravessava os galhos. Não havia canto de pássaros, insetos ou qualquer outro som comum de mata. Apenas meus passos sobre as folhas úmidas.

Depois de algum tempo, percebi que meu relógio havia parado.

O ponteiro dos segundos permanecia imóvel, embora o aparelho estivesse funcionando quando deixei o carro. Guardei-o e continuei andando.

A luz começou a desaparecer rápido demais.

Eu tinha entrado pouco depois do amanhecer, mas o céu já parecia o de um fim de tarde. Não sabia se haviam passado três horas ou dez.

Foi quando encontrei a cabana.

Era uma construção pequena, de madeira escura, cercada por árvores retorcidas. Parte do telhado havia cedido e as janelas estavam cobertas por tábuas. A porta estava trancada, mas não havia pegadas recentes ao redor.

Arrombei a fechadura com o ombro.

Uma camada grossa de poeira cobria tudo. Havia uma cama, uma escrivaninha, uma lareira e alguns móveis quebrados. Perto da parede, apoiada atrás de uma cadeira, estava uma espingarda de dois canos.

Reconheci a arma antes mesmo de tocá-la.

As iniciais do meu pai ainda estavam gravadas no cano.

Passei o polegar sobre as letras e, pela primeira vez desde a ligação do policial, senti vontade de chorar.

A arma estava descarregada, mas conservada. Meu pai havia limpado o mecanismo antes de deixá-la ali. Coloquei dois cartuchos nos canos e acendi a lareira.

Foi então que percebi um caderno sobre a escrivaninha.

A capa estava quase se desfazendo. As mesmas iniciais da espingarda haviam sido escritas no couro.

Era o diário do meu pai.

As primeiras páginas descreviam a viagem e a chegada ao vilarejo. Depois, a escrita começou a ficar apressada. Algumas palavras estavam riscadas, outras eram impossíveis de entender.

Meu pai chamava as criaturas da floresta de cervos.

Não eram animais.

Segundo ele, possuíam corpos semelhantes aos de homens altos e muito magros, mas suas cabeças eram crânios de cervos sem qualquer vestígio de carne. Duas luzes brancas ocupavam o lugar dos olhos. Tinham mãos compridas, garras curvas e pernas que terminavam em cascos.

Eles enxergavam pouco.

Caçavam pelo som.

Meu pai também havia descoberto que aqueles seres não eram os verdadeiros donos da floresta. Eram apenas criaturas inferiores, subordinadas a algo que ele chamava de Servo Alfa.

Em uma das páginas, havia uma frase sublinhada diversas vezes:

Os cervos não caçam para comer. Caçam para levar alimento até ele.

Continuei lendo.

Meu pai havia passado três noites naquela cabana. Matara dois cervos e ferira um terceiro. Depois disso, eles começaram a cercá-lo.

Na última página, havia somente quatro palavras:

Eles finalmente me viram.

Ouvi algo bater na porta.

Fechei o caderno.

Peguei a espingarda do meu pai e apontei para a entrada.

— Quem está aí?

Ninguém respondeu.

Houve outra batida, mais forte.

— Estou armado. Abra essa porta e eu atiro.

A maçaneta se moveu lentamente.

A porta abriu apenas alguns centímetros, revelando a escuridão do lado de fora. Durante alguns segundos, não vi nada.

Então dois pontos brancos surgiram no breu.

Peguei a lanterna e iluminei a entrada.

A criatura era mais alta do que qualquer homem que eu já tivesse visto. O corpo magro estava coberto por uma pele escura, esticada sobre os ossos. Os braços quase tocavam o chão. Sobre o pescoço havia um crânio de cervo, com enormes galhadas raspando no batente da porta.

As duas luzes dentro das órbitas se contraíram quando a lanterna atingiu seu rosto.

Ela abriu a mandíbula.

Não havia língua, garganta ou qualquer coisa dentro daquela boca. Mesmo assim, o grito que saiu dali fez as janelas da cabana tremerem.

O cervo saltou sobre mim.

Eu não tive tempo de mirar.

Coloquei o braço esquerdo na frente do rosto e senti os dentes atravessarem minha jaqueta. A mordida arrancou pele e carne. Caí de costas com a criatura sobre meu peito.

Seu cheiro era uma mistura de terra molhada e carne apodrecida.

Tentei empurrá-la, mas aquilo era muito mais forte. Uma das garras desceu em direção ao meu pescoço. Segurei o pulso da criatura com uma mão e procurei a espingarda com a outra.

Meus dedos alcançaram a coronha.

Encostei o cano no lado da cabeça daquele demônio e apertei o gatilho.

O disparo destruiu parte do crânio.

A criatura foi jogada contra a parede, derrubando a escrivaninha. Caiu no chão se debatendo, as pernas chutando os móveis. Peguei a arma, me levantei e disparei o segundo cano em seu peito.

Ela parou de se mover.

O tiro ecoou pela floresta.

Logo depois, ouvi cascos.

Muitos.

Eles vinham de todas as direções.

Fechei a porta e arrastei a cama para bloqueá-la. As primeiras pancadas fizeram a madeira se curvar. Vultos passavam diante das janelas, rápidos demais para que eu pudesse contá-los.

Corri até minha mochila, peguei as pistolas e fiz um curativo apertado no braço. O sangue já havia encharcado minha manga. Não teria tempo para algo melhor.

As tábuas de uma das janelas começaram a se soltar.

Peguei um sinalizador de emergência, risquei a ponta e esperei. Assim que uma garra atravessou a madeira, joguei o sinalizador para fora pela abertura.

A luz vermelha caiu entre as árvores, produzindo um chiado alto.

Os cascos mudaram de direção.

A maioria das criaturas correu atrás do som.

A maioria.

Retirei a cama da porta, abri e saí.

Um cervo estava me esperando sobre o telhado.

Ele caiu atrás de mim e tentou agarrar meu pescoço. Girei o corpo, encostei a pistola sob sua mandíbula e disparei três vezes. A cabeça da criatura se abriu, espalhando fragmentos de osso sobre a parede da cabana.

Não parei para conferir se estava morta.

Corri.

Os cervos que haviam seguido o sinalizador perceberam o novo som. Escutei os cascos voltando.

Um deles surgiu entre as árvores à minha direita. Atirei enquanto corria. O primeiro disparo atingiu seu ombro. O segundo entrou em uma das órbitas brilhantes.

A criatura caiu, mas outras três apareceram atrás dela.

Eu precisava parar de fazer barulho.

Guardei a pistola, abandonei a trilha e me joguei por uma descida coberta de lama. Rolei entre raízes e pedras até bater contra um tronco caído. Meu braço ferido ardia, mas não estava quebrado.

Os cervos passaram correndo acima de mim.

Fiquei imóvel.

Um deles parou.

O crânio se virou lentamente para o barranco. As luzes brancas percorreram a escuridão. A criatura não conseguia me ver, mas ouviu minha respiração.

Ela desceu.

Esperei até que estivesse perto.

Quando estendeu a mão, agarrei uma das galhadas e puxei sua cabeça para baixo. Enterrei minha faca na base do crânio. A criatura se debateu, derrubando-me no chão. Girei a lâmina até sentir alguma coisa se romper.

O cervo caiu sobre mim.

Empurrei o corpo e continuei andando.

Passei o restante da noite fugindo.

Sempre que escutava os cascos se aproximando, atirava uma pedra para longe ou quebrava algum galho em outra direção.

Quando a luz do amanhecer apareceu entre as árvores, encontrei a estrada.

Saí da floresta coberto de sangue, lama e pedaços de pele que não eram meus. Três moradores estavam próximos a um caminhão. Nenhum deles tentou me ajudar.

Apenas me observaram.

Um dos homens cuspiu no chão.

Voltei à pousada, costurei meu próprio braço e dormi durante quase vinte horas.

Quando acordei, coloquei sobre a cama tudo que havia trazido da floresta: o diário, a faca quebrada e a espingarda do meu pai.

Eu já sabia o que havia acontecido com ele.

Também sabia que os cervos podiam morrer.

Passei os três dias seguintes comprando munição.

A dona da pousada perguntou se eu estava indo embora.

— Ainda não.

— Você já teve sorte uma vez.

— Não foi sorte.

Ela me encarou por alguns segundos.

— Então o que foi?

Coloquei um cartucho na espingarda do meu pai.

— A primeira tentativa.

Na segunda vez, entrei na floresta antes do amanhecer.

Levei duas espingardas, duas pistolas, um machado curto, facas, sinalizadores e pequenos despertadores que comprei no vilarejo. Também carregava linha de pesca, armadilhas de caça e munição suficiente para iniciar uma guerra.

Durante o caminho, deixei os despertadores presos às árvores, programados para tocar em horários diferentes. Amarrei cartuchos vazios em fios baixos para que funcionassem como alarmes. Marquei as árvores com tinta e memorizei cada bifurcação.

Na primeira vez, eu havia entrado procurando respostas.

Na segunda, entrei para caçar.

O primeiro despertador tocou pouco depois do anoitecer.

Quatro cervos correram em direção ao som.

Eu estava deitado sobre uma formação de pedras, a quase cinquenta metros dali. Esperei até que as criaturas se aproximassem umas das outras e disparei.

A bala atravessou o crânio da primeira.

A segunda recebeu um tiro no peito e caiu de joelhos. Troquei de alvo antes que ela tocasse o chão. A terceira tentou subir pelas pedras, mas acertei uma de suas pernas.

A quarta desapareceu na mata.

Desci para terminar o serviço.

O cervo ferido tentou se levantar. Pisei sobre sua mão e afundei o machado no encontro entre o crânio e a coluna. O corpo estremeceu e ficou mole.

A criatura que havia desaparecido voltou por trás.

Senti uma das galhadas rasgar minha mochila. Girei, segurei o cano da espingarda com as duas mãos e bati contra sua mandíbula. O osso se partiu, mas o cervo continuou avançando.

Ele me prensou contra uma árvore.

Uma das pontas da galhada atravessou meu ombro e ficou presa no tronco. A dor fez minha visão escurecer. A criatura tentou aproximar os dentes do meu rosto.

Soltei a espingarda.

Saquei a pistola e enfiei o cano em uma de suas órbitas.

Atirei até a arma ficar vazia.

O cervo desabou, deixando parte da galhada enterrada em meu ombro. Quebrei a ponta com o cabo do machado, puxei o restante e fechei o ferimento.

Continuei.

Durante dois dias, segui os rastros das criaturas. Matei outras quatro. Algumas caíram em armadilhas. Outras vieram diretamente até mim.

A floresta começou a reagir.

A neblina se fechava sempre que eu tentava voltar pelo mesmo caminho, tentando fazer eu me perder

Na terceira noite, encontrei pegadas humanas misturadas às marcas dos cascos.

Havia marcas de pneus perto de uma trilha e sangue fresco sobre as folhas.

Segui o rastro até uma abertura entre as pedras.

Era a entrada de uma caverna.

O cheiro chegou antes dos sons.

Sangue, fezes e carne em decomposição.

Liguei a lanterna, verifiquei as armas e entrei.

Havia ossos espalhados pelo chão. Alguns eram antigos, amarelados pelo tempo. Outros ainda tinham carne. Quanto mais eu avançava, mais estreito o caminho ficava.

Então escutei alguém gritando.

Apaguei a lanterna e segui a voz.

A caverna se abriu em uma grande câmara. Havia vários cervos reunidos ao redor de alguma coisa no chão. Eles rasgavam um corpo humano e levavam pedaços de carne para um buraco mais profundo.

Um rapaz ainda estava vivo perto da parede.

Seu rosto estava coberto de sangue. Uma das pernas parecia machucada. Ao lado dele, havia a cabeça de outro jovem, com os olhos ainda abertos.

Um dos cervos segurava o rapaz pelo cabelo.

A criatura puxou sua cabeça para trás e abriu a mandíbula.

Atirei.

A bala atravessou o crânio do cervo e espalhou fragmentos sobre a parede.

Todos se viraram em minha direção.

Contei seis.

Talvez sete.

— Abaixe a cabeça! — gritei.

O rapaz se jogou no chão.

Disparei os dois canos da espingarda. Dois cervos caíram. Joguei a arma vazia para o lado e saquei as pistolas.

As criaturas avançaram.

Atirei na primeira até ela tombar. A segunda saltou sobre uma pedra e veio por cima. Rolei para o lado, senti suas garras passarem pelo meu casaco e disparei contra suas costas.

Outra me atingiu antes que eu pudesse levantar.

Caí próximo ao corpo que elas estavam devorando. O rapaz gritou um nome.

— Marlon!

Não havia mais como salvá-lo.

O cervo tentou morder meu pescoço. Coloquei o antebraço contra sua garganta, saquei a faca e enfiei a lâmina entre suas costelas. Ela não parou.

Então enterrei o dedo na luz branca dentro de sua órbita.

A criatura recuou.

Peguei o machado e golpeei seu pescoço. Uma vez. Duas. Na terceira, a cabeça se soltou e rolou entre os ossos.

Um cervo agarrou minha perna.

Disparei contra o chão. A bala atravessou sua mão. Chutei o crânio e continuei atirando até ouvir somente o clique da arma vazia.

Restavam dois.

O primeiro correu em direção ao rapaz.

Joguei o machado.

A lâmina atingiu a parte de trás de seu joelho. O cervo caiu. O rapaz pegou uma pedra e começou a bater no crânio da criatura, desesperado.

O último veio em minha direção.

Não havia tempo para recarregar.

Segurei a espingarda vazia pelo cano e usei a coronha como um porrete. Acertei a lateral do crânio. A criatura cambaleou. Golpeei novamente, quebrando uma das galhadas.

Ela tentou me agarrar.

Peguei a ponta quebrada no chão e a enfiei através de sua boca.

Empurrei até atravessar a parte de trás do crânio.

A criatura ficou imóvel.

Por alguns segundos, só consegui ouvir minha respiração e o choro do rapaz.

Então alguma coisa rugiu no fundo da caverna.

Não parecia um animal.

O som era tão grave que senti as pedras vibrarem sob meus pés.

Os cervos mortos começaram a se contorcer, mesmo com os crânios destruídos.

Por alguns segundos, só consegui ouvir minha respiração e o choro do rapaz.

Então alguma coisa se moveu no fundo da caverna.

Não foi um rugido. Foi uma espécie de gemido profundo, longo demais para sair da garganta de qualquer animal. O som atravessou as pedras e fez meus dentes vibrarem.

Os cervos mortos começaram a se contorcer.

O que estava sem cabeça bateu os cascos no chão. Outro tentou se levantar com a coluna quebrada. As luzes brancas dentro das órbitas destruídas piscaram ao mesmo tempo, como se alguma coisa estivesse olhando para nós através daqueles corpos.

Lembrei-me da frase no diário do meu pai:

Os cervos não caçam para comer. Caçam para levar alimento até ele.

A escuridão no fundo da caverna se abriu.

Primeiro surgiram as galhadas.

Elas se arrastaram pelo teto, riscando a pedra e derrubando poeira sobre nós. Eram tão grandes e deformadas que pareciam raízes arrancadas de uma árvore morta.

Depois veio a cabeça.

O crânio não pertencia a um cervo comum. Era comprido, rachado e coberto por restos de carne negra. Havia vários pares de órbitas espalhados pelo osso, cada um ocupado por uma pequena luz branca. A mandíbula era dividida ao meio e se abria para os lados, revelando fileiras de dentes humanos.

O corpo precisou se curvar para passar pelo túnel.

Era largo demais, alto demais. Diferente dos outros, aquele ser não parecia magro ou faminto. Seus músculos se moviam sob uma pele grossa, costurada por cicatrizes. Os braços terminavam em mãos enormes, com dedos compridos o bastante para envolver o tronco de um homem.

Ele carregava alguma coisa presa às galhadas.

Quando a luz da minha lanterna alcançou o objeto, percebi que era uma espingarda velha, enferrujada e retorcida.

Outra espingarda.

Não era a do meu pai. Era uma entre muitas armas quebradas, pedaços de roupas e ossos humanos presos às galhadas como troféus.

O Cervo Alfa deu um passo.

A câmara inteira tremeu.

Pela primeira vez desde que voltei à floresta, compreendi que estava diante de algo que não poderia matar.

Eu havia enfrentado os cervos porque sabia como atraí-los, como fazê-los errar e onde atirar. Mesmo assim, cada um deles era mais rápido e mais forte do que eu. Se colocasse minhas mãos contra as deles, perderia. Se tentasse segurá-los no chão, seria despedaçado.

Eu não vencia porque era mais forte.

Vencia porque eles atacavam como animais.

Eu pensava como um caçador.

Mas aquilo que saía do buraco não era um animal.

Era a razão pela qual os outros obedeciam.

Peguei o rapaz pelo braço.

— Consegue correr?

Ele olhou para a própria perna.

— Acho que está quebrada.

— Não perguntei isso.

O Alfa aproximou uma das mãos do chão. Os dedos rasparam os corpos dos cervos mortos e os puxaram para perto. As criaturas começaram a desaparecer dentro da abertura de sua mandíbula.

Ossos estalaram.

A carne foi arrancada.

As luzes nos olhos do Alfa ficaram mais fortes.

— Consegue correr? — repeti.

O rapaz olhou para aquilo e respondeu:

— Consigo.

— Então corra.

Disparei um sinalizador contra o teto.

A luz vermelha atingiu uma formação de pedras acima da entrada do túnel. O Alfa ergueu a cabeça e soltou aquele gemido novamente.

O som me fez perder o equilíbrio.

O rapaz caiu de joelhos e levou as mãos aos ouvidos. Sangue começou a escorrer entre seus dedos.

O Alfa avançou.

Não correu. Não precisou.

Um único movimento de seu braço atravessou quase toda a câmara. A mão passou por cima de mim e atingiu a parede. A pedra se partiu como madeira podre.

Segurei o rapaz pelo casaco e o arrastei para longe.

A mão voltou.

Dessa vez, um dos dedos me acertou nas costas.

Fui lançado contra o chão e perdi o ar. Minha espingarda escapou de minhas mãos. Antes que pudesse me levantar, o Alfa agarrou minha perna.

Seus dedos se fecharam ao redor da minha bota.

Senti a pressão subir pelo tornozelo. Mais alguns segundos e os ossos teriam virado pó.

Não tentei puxar a perna.

Peguei uma das pistolas vazias e a joguei dentro da boca aberta do Alfa.

A criatura hesitou.

Foi pouco mais de um segundo, mas era tudo de que eu precisava.

Puxei o último sinalizador preso ao meu cinto, acendi e enfiei entre os dedos que seguravam minha perna.

A chama explodiu contra sua mão.

O Alfa me soltou.

Rolei pelo chão, agarrei a espingarda e me levantei.

Eu sabia que aquilo não o havia ferido de verdade. A pele estava queimada, mas a criatura não demonstrava dor.

Demonstrava raiva.

— Saia daqui! — gritei para o rapaz.

Ele começou a mancar em direção ao túnel.

O Alfa veio atrás de nós.

Atirei contra uma rachadura no teto.

O disparo não fez nada.

Carreguei o segundo cano e atirei outra vez. Alguns fragmentos caíram, mas a passagem continuou aberta.

O Alfa estendeu a mão.

Abaixei-me no último instante. As garras passaram tão perto que arrancaram parte da minha mochila.

Corri até um dos corpos dos cervos, puxei o machado que ainda estava preso em sua perna e golpeei uma coluna estreita de pedra ao lado do túnel.

Uma vez.

Duas.

Na terceira, o cabo rachou.

O Alfa entrou na câmara por completo.

Ergui os olhos e percebi que jamais sairíamos dali correndo. Ele nos alcançaria antes que chegássemos à metade do corredor.

Então vi uma rachadura na parede da caverna

Não precisava matar o Alfa.

Só precisava impedi-lo de passar.

Joguei o machado para o rapaz.

— acerte a rachadura.

— O quê?

— Quando eu mandar!

Corri na direção contrária.

O Alfa me seguiu.

As várias luzes em seu crânio acompanharam cada movimento. Ao contrário dos cervos, ele não dependia apenas do som. Ele conseguia me ver.

Disparei perto de seus pés.

A criatura avançou.

Esperei.

Mais um passo.

Mais outro.

O Alfa ergueu o braço para me atingir.

Joguei-me para o lado.

A mão esmagou o chão onde eu estava e abriu uma rachadura na pedra. Rolei, levantei e corri por baixo .

— Agora!

O rapaz golpeou a parede.

O primeiro golpe não foi suficiente.

O Alfa percebeu o movimento e se virou para ele.

— Outra vez! — gritei.

O machado desceu.

pedras cairam, e o teto começou a desabar.

pedras cairam sobre as costas do Alfa.

A criatura não caiu.

Por alguns segundos, permaneceu de pé sob todo aquele peso.

Então começou a erguer a estrutura.

Era muito mais forte do que eu imaginava.

Corri até uma das colunas que sustentavam o teto e usei a espingarda como alavanca dentro de uma rachadura. A madeira da coronha começou a estalar.

Não era qualquer espingarda.

Era a arma do meu pai.

Olhei para as iniciais gravadas no cano.

Depois forcei com tudo que ainda tinha.

A coronha se partiu.

A coluna cedeu.

O teto terminou de desabar.

Uma avalanche de pedras separou o Alfa da entrada da câmara. A última coisa que vi antes de a passagem desaparecer foi uma das mãos da criatura atravessando os escombros, tentando nos alcançar.

Corremos.

Atrás de nós, o Alfa golpeava as pedras.

Cada impacto fazia a caverna tremer.

Ele não estava morto.

Eu sabia que aquilo não o manteria preso por muito tempo.

O rapaz tropeçou. Passei o braço dele sobre meu ombro e continuei puxando-o pelo corredor.

— Qual é o seu nome? — perguntei.

— Rayan.

— Como veio parar aqui?

— Os policiais nos trouxeram.

— Policiais?

— Eles disseram que as criaturas precisavam se alimentar. Disseram que éramos nós ou eles.

Outro impacto sacudiu a caverna.

Uma rachadura percorreu a parede ao nosso lado.

— Quantos estavam com você?

Rayan demorou a responder.

—eramos 3.

Olhei para o sangue cobrindo suas roupas.

Não perguntei mais nada.

Quando saímos da caverna, os cervos já estavam esperando.

Havia dezenas entre as árvores.

Alguns se moviam de quatro. Outros permaneciam de pé, imóveis, acompanhando-nos com as luzes brancas dentro dos crânios.

Rayan parou.

— Não vamos conseguir.

— Eles são mais rápidos do que nós — respondi. — Por isso não vamos correr ainda.

Retirei do bolso um pequeno controle improvisado.

Durante a entrada na floresta, eu havia espalhado despertadores, fios, cartuchos vazios e sinalizadores em diferentes pontos da trilha. Não eram armadilhas capazes de matar aquelas criaturas.

Eram caminhos falsos.

Apertei o primeiro botão.

Um despertador começou a tocar à nossa esquerda.

Metade dos cervos correu em direção ao som.

Apertei o segundo.

Mais adiante, vários cartuchos presos a um fio caíram sobre pedras e produziram uma sequência de estalos.

Outras criaturas mudaram de direção.

As que permaneceram não se deixaram enganar.

Cinco vieram atrás de nós.

— Agora corra.

Seguimos entre as árvores.

Rayan mal conseguia apoiar uma das pernas. Eu o mantinha de pé enquanto tentava carregar a espingarda quebrada com a outra mão.

O primeiro cervo nos alcançou em poucos segundos.

Ele me atingiu pelas costas.

Caí de rosto no chão. A criatura segurou meu casaco e me ergueu como se eu não pesasse nada.

Tentei acertá-la com o cotovelo.

Ela nem recuou.

O cervo me lançou contra uma árvore.

Senti algo estalar em minhas costelas.

Ele avançou novamente.

Esperei até que estivesse perto, tirei uma faca do cinto e não tentei golpeá-lo. Sabia que não conseguiria atravessar seu peito antes que ele arrancasse meu braço.

Em vez disso, cortei o fio preso entre duas árvores.

Uma tora coberta de pontas desceu do alto.

O cervo ouviu o movimento e virou a cabeça, mas tarde demais. A tora atingiu seu corpo e o prensou contra o tronco.

Mesmo esmagado, ele ainda tentou se libertar.

Rayan me ajudou a levantar.

— Você sabia que ele viria por aqui?

— Eu sabia que alguma coisa viria.

Continuamos.

Outro cervo saltou sobre nós.

Empurrei Rayan para o chão e recebi o impacto. A criatura caiu por cima de mim e tentou fechar a mandíbula em meu rosto.

Segurei suas galhadas, mas meus braços começaram a ceder imediatamente.

Ela era mais forte.

Muito mais forte.

Eu não conseguiria mantê-la afastada por mais de alguns segundos.

— O sinalizador! — gritei.

Rayan pegou um dos sinalizadores caídos da minha mochila, acendeu e o pressionou contra o lado do crânio da criatura.

O cervo se afastou, desorientado pela luz e pelo chiado.

Não esperei que ele se recuperasse.

Enfiei o cano quebrado da espingarda dentro de sua mandíbula e disparei.

A parte de trás do crânio explodiu.

A força do tiro arrancou a arma das minhas mãos.

Os demais cervos estavam próximos.

Não havia mais munição.

Apertei o último botão.

Durante alguns segundos, nada aconteceu.

Então todos os despertadores restantes começaram a tocar ao mesmo tempo, cada um em uma direção diferente da floresta.

Os cervos pararam.

Seus crânios se moveram de um lado para o outro, tentando localizar os sons.

Foi o bastante.

Eu e Rayan corremos.

A neblina começou a clarear. As árvores ficaram mais afastadas e o terreno passou a descer. Reconheci uma das marcas de tinta no tronco de um carvalho.

A saída estava próxima.

Atrás de nós, o chão tremeu.

O Alfa havia saído da caverna.

O gemido atravessou a floresta.

Os cervos abandonaram os despertadores e responderam ao chamado. Centenas de cascos golpearam a terra.

Não conseguiríamos alcançar a estrada antes deles.

Avistamos uma trilha estreita entre duas formações de pedra. Eu havia passado por ali durante a primeira fuga.

Naquela ocasião, quase fiquei preso.

Dessa vez, era exatamente o que precisava.

Puxei Rayan para dentro da passagem.

Os cervos vieram atrás.

O primeiro tentou atravessar e suas galhadas ficaram presas entre as pedras. Os outros se chocaram contra ele, empilhando-se na entrada.

As criaturas eram mais rápidas, fortes e resistentes.

Mas eram grandes demais.

Eu já sabia disso.

Peguei Rayan pelo braço e seguimos pelo corredor estreito até sair do outro lado.

Quando alcançamos a última fileira de árvores, não fomos em direção ao vilarejo.

Sabíamos o que os moradores e os policiais faziam.

Sabíamos que entregavam viajantes à floresta para manter as criaturas alimentadas e longe de suas casas. Voltar para lá seria trocar os cervos por homens armados.

Seguimos pela mata paralela à estrada até encontrar o lugar onde eu havia escondido um segundo veículo, distante do caminho principal.

Rayan caiu de joelhos antes de chegarmos.

— Não consigo mais.

— Consegue, sim.

— Como sabe?

Olhei para os cervos que surgiam entre as árvores atrás de nós.

— Porque a outra opção é ficar.

Coloquei o braço dele sobre meu ombro e o arrastei nos últimos metros.

Foi então que percebi que não estávamos sozinhos.

No alto de uma elevação, entre duas árvores, havia um homem.

Usava um chapéu de cowboy preto e um casaco comprido. Cabelos brancos apareciam sob a aba do chapéu. Uma cicatriz atravessava seu rosto, mas a distância não me permitia enxergar onde começava ou terminava.

Havia um pequeno livro aberto em sua mão esquerda.

Na cintura, carregava um revólver de cano longo.

Ele havia observado tudo.

A entrada na caverna.

O desabamento.

A fuga.

Mesmo assim, suas roupas estavam limpas. Sua respiração parecia tranquila. Nenhum cervo se aproximava dele.

O homem não levantou a arma.

Não tentou ajudar.

Apenas virou uma página.

Por um instante, nossos olhos se encontraram.

Não havia surpresa em seu rosto.

Também não havia aprovação.

Era o olhar de alguém que acabara de confirmar uma suspeita.

Ele fechou o livro.

Uma das criaturas surgiu atrás dele, movimentando-se entre as árvores.

O homem sequer olhou para trás.

Quando o cervo saltou, a neblina atravessou a elevação.

Por um segundo, não enxerguei nada.

Quando o vento afastou a névoa, o homem havia desaparecido.

O cervo também.

— Quem era ele? — perguntou Rayan.

Abri a porta do carro.

— Alguém que poderia ter ajudado.

— Mas não ajudou.

Olhei uma última vez para a elevação vazia.

— Não. Ele só queria saber se eu conseguiria sair.

Coloquei Rayan no banco do passageiro e assumi o volante.

Ao longe, o Alfa rugiu novamente.

Dessa vez, o som não me fez sentir raiva.

Meu pai estava morto. Eu não podia mudar isso. Mas havia encontrado sua arma, seu diário e a verdade sobre o que acontecera naquela floresta.

Não precisava provar mais nada.

Liguei o motor.

— Vai voltar? — perguntou Rayan.

Olhei para minhas mãos cobertas de sangue. Depois para o que restava da espingarda do meu pai, quebrada no banco traseiro.

— Não.

— Mesmo sabendo que aquelas coisas continuam vivas?

— Eu entrei lá para descobrir o que aconteceu com meu pai. Descobri.

Engatei a marcha.

— E matei tudo que ficou entre mim e a resposta.

Seguimos pela estrada secundária, na direção oposta ao vilarejo.

Atrás de nós, a floresta desapareceu dentro da neblina.

Eu não havia vencido aquele lugar.

Ninguém vencia.

Mas havia entrado duas vezes, matado seus servos, encarado aquilo que os comandava e saído carregando alguém que deveria ter morrido.

Para mim, era o bastante.

u/Worried_Percentage99 — 14 days ago