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Capítulo três: Panóptico

Capítulo três: Panóptico

(“Caso esteja confuso para vocês, leitores. Deixe-me fornecer alguns detalhes. Aparentemente existem coisas que o ser humano não é capaz de ver. Ao menos não em condições ideais. E é sobre isso que essa história quer contar.”)

Esse menino simplesmente chegou no meio da nossa pequena entropia de pensamentos. E, graças a ele, conseguimos ter um ponto focal para não entrar em total parafuso. Quase como uma quebra na tensão ali presente, sabe?

Ele parecia saber o que nós somos — digo “nós”, pois o garoto miúdo, que outrora foi alvo de bullying, compartilhava certos traços semelhantes aos meus.
E aparentemente, nós também sabemos o que ele é.

Mas o que de fato está acontecendo? Isso é alucinação, só pode ser. Não há outra explicação plausível…né?..

A garota, amiga do franzino, que por ora chamaremos de fulana, criou força e teve brio. Em poucos instantes, levou nos até ao auditório da escola. Lá, paramos, e respiramos fundo. Tentávamos entender a situação sem olhares curiosos.

(“Esquisita falando do esquisito…Olá, olha eu pensando de novo.”)

Nos sentamos e nossos pés formavam uma pequena banda acústica, a gola do franzino parecia mais apertada, fulana se abanou na pressa, e eu segurei até onde pude pra não roer meu dedo por inteiro, já o dragonete estava tranquilo. Parecia que tudo isso era rotina. Mal conseguiámos prestar atenção em coisa alguma. Ninguém se prontificou a falar. E cheguei a pensar que a garota falaria.

Mas o primeiro a romper o silêncio foi, por incrível que pareça, o menos falante:
— O-o-olha…eu acho que vocês me confundiram com alguém. Vamos embora, Isa. A-a-cho que a comida da escola tava estragada, sei lá…e estamos vendo coisas. Va-vamos voltar pro intervalo, e tu-t-tudo vai passar ta, né? Sim?.

— Alto lá, caro amigo e parceiro de interespécie. Não há motivo para pânico, pois eu, Askriel Ignis, irei sanar as dúvidas de vocês!

Neste momento parei de hiperventilar e considerei seriamente a possibilidade de me desligar dessa existência. Sei lá, qualquer alternativa que aparecesse. Tudo, exceto ouvir mais uma palavra vinda desse cara..

Consegue imaginar? Por um momento, imagine que tudo aquilo que você acreditava ser coisa da sua cabeça, aparentemente tem uma certa porcentagem de ser real. E, ao invés de conversar seriamente sobre isso, temos um otaku aspirante a protagonista como possível “voz da razão”?!

Meus pensamentos foram encerrados pela fulana. Ela percebeu, assim como eu, a loucura disso tudo e tentou alí, meio sem jeito, formular algo coerente:
— Ok, aparentemente você é uma versão mais jovem e barata de Gregor Samsa. Se eu não soubesse, acharia que saiu de algum livro. Com o tamanho e características humanas… Não sei por que você é assim, mas é o que é. Deixa eu pensar um pouco… E você parece um calango com orelhas pontiagudas — disse ela, enquanto andava em círculos pelo auditório. — Tá, eu sabia que um dia isso chegaria. Os Eguns da minha família já vinham se comunicando comigo há algum tempo, e tudo bem ouvir voz do além. Agora ver ao vivo, seres não humanos, racionais e que falam. Isso sim assusta. E assusta muito!

Logo o franzino retomou sua prerrogativa:
— Co-como assim, Isa? Eguns? Tudo bem, respeito sua fé, seu credo ou o que quer que seja. Ma-ma-mas você tá me dizendo que tem uma explicação possivelmente LÓGICA?! — Sinceramente, não acho que exista alguma razoabilidade nessa situação. Minha única hipótese, se assim posso dizer, é que possivelmente a comida da escola estava estragada ou tudo isso é um grande e não engraçado sonho.

Isabela retrucou:
— Não tem uma explicação lógica. Mas talvez mágica? É, nessa eu não me ajudei nem um pouco. Mas faz sentido? – escorregou as mãos testa abaixo enquanto revirava os olhos.

Porém veio a personificação da “otakice”:
— Colegas e confederados! Está tudo bem, eu os vejo com meu incrível e inestimável OLHO DO DRAGÃO, e pude notar precisamente a minha colega não humana, mas você, frangote, é mais sutil. Observo pequena protuberância nas extremidades superiores de vossa orelha! — Exclamou ele, em pose triunfal. — E tenho um ditado que carrego comigo bravamente: NADA PASSA PELO MEU OLHO DE DRAGÃO.

— Como é? Que protuberância é essa Tae? Do que ele ta falando… NÃAAAO. Te conheço há quatorze anos e só agora eu descubro que você também é igual esses dois? – disse Isabela, incrédula.

(“Bom, agora é a hora que vocês esperem que eu entre hehe. Beleza, vamos lá..”)

— Sim, sou uma monstruosidade gigante. Eu sabia que não estava louca! Sabia que os remédios não serviam de nada, exceto me deixar grogue. — Nunca, durante toda minha vida, quis estar tão certa e tão errada ao mesmo tempo. — Meu pai amado, é muita coisa para processar em tão pouco tempo. Acho que to surtando! — disse euzinha, lelé da cuca.

(“Aparentemente a fulana se chama Isa. Deve ser diminutivo de Isabela, vai saber. Bom, agora sabem o nome dela.”)

A conversa durou tempo suficiente para que as trombetas anunciando o fim dos tempos pudessem tocar, assim sinalizando o fim do intervalo.

Voltamos para nossa sala, e me vi debruçada na mesa, cobrindo todo o ambiente que meus olhos podiam ver. E pelas frestas dos meus braços, pude notar que meus “novos colegas” esquisitos também não conseguiam manter o foco na aula.

Contava as horas para sair daquele lugar, mas faltando dez minutos do sinal tocar, ouvimos da Caixa de Som Geral* a voz da diretora noticiando-nos sobre algo importante:

— Boa tarde, alunos e alunas, espero que estejam bem. Por motivos maiores, nesta semana que se seguirá, peço a todos que estejam nos ônibus escolares precisamente quando saírem da escola — anunciou a diretora, com a voz visivelmente trêmula. — Nós, da diretoria, fomos notificados de desaparecimentos pela cidade. Os números tendem a aumentar. Mas, felizmente, colocaremos um policial em frente aos portões.

*Caixa de Som Geral: Termo popular para o sistema de Public Address ou um tipo de Interfone Escolar. É uma central de microfone localizada na diretoria e conectada a alto-falantes espalhados pelas salas e corredores.

Todos da sala pararam o que estavam fazendo e escutaram atentamente ao comunicado. Não pude deixar de notar o olhar de pânico em algumas alunas, e um olhar de medo misturado com curiosidade por parte dos alunos.

Eu particularmente fiquei um pouco abalada com isso, porém estava cansada demais para digerir mais uma merda que aconteceu/acontecendo.
Peguei minhas coisas, enfiei rápido na mochila e fiquei em frente aos portões da escola esperando o papai.

Eram 16h30, e eu sabia que ele chegaria às 17h. Com a ressalva de possíveis atrasos, 17h30. Meus pés batiam rapidamente contra o chão. Observava os alunos entrando em seus respectivos ônibus, carros e motos. A multidão começou a diminuir pouco a pouco, restando apenas eu e o policial.

Perguntei-lhe como se deu os desaparecimentos, se seguia algum padrão de idade, local ou horário. Obviamente não me respondeu, e segui me com os pés inquietos, esperando minha carona.

Depois da meia hora mais constrangedora que já passei, o carro do papai chegou, mas nele estava a mamãe.

Abri a porta traseira e joguei minha mochila atrás. Fechei-a e abri a porta do passageiro da frente. Sentei-me, coloquei o cinto e, ali mesmo, desabei. Mal pude conversar com a minha mãe ou perguntar por que meu pai não veio me buscar. 
Acordei já em casa, deitada na minha cama com meu cobertor favorito.
Era 19h40. Saí do quarto e desci as escadas para a cozinha, estava morrendo de sede. Peguei uma garrafa d’água na geladeira, e ao fechar a porta, me deparei mais uma vez com meu reflexo estampado. Conseguia sentir o odor na minha pele. Um cheiro de podre, que lembrava fruta azeda. Como não havia almoçado na escola, meu hálito parecia esgoto a céu aberto. Naquele estágio, me encontrava na “forma perfeita”.

O reflexo mostrou a podridão presente em mim. Não sou um humano, e mesmo que fosse, não seria dos bons. Sou essa monstruosidade, essa carapaça ambulante.

Levei comigo a garrafa e procurei pela minha mãe. Ela estava na sala tomando seu vinho e assistindo a algum programa de ricaças tendo problemas para gastar dinheiro. Procurei meu pai para perguntar por que não fora me buscar. Encontrei-o em seu escritório, ao lado do meu quarto, no segundo andar da casa. Ele estava preparando o próximo plano de aula; eu o interrompi e pedi por um abraço.
(“...quentinho…posso dormir de novo…papai é bom…”)

Dormi e acordei no dia seguinte sem ter jantado ou me banhado. Por praticidade, e porque obviamente dormi com a mesma roupa do dia anterior, ganhei alguns segundos a mais para me atrasar com calma..

Peguei minha mochila, amarrei meu cabelo da maneira que deu. 
Entrei no carro, sentei-me no banco e esperei ser levada para a escola. Eram 06h40. Saímos do condomínio e, pela estrada, havia campos e canaviais. Por entre eles, podia ser visto um nascer do sol bem singelo, quase humilde. Será que como eu, ele estava com vergonha de ser quem era?
Ví corujas terminando suas caçadas e retornando ao ninho. Uma em particular pode ser avistada alimentando seu filhote. Muito bonito, se me perguntar.

No trajeto, o verde foi se esvaindo e emergiu a selva de pedra, com algumas lojinhas abrindo, alguns bares já em funcionamento, padarias, enquanto papelarias ainda fechadas.
Chegamos na escola, e desci do carro. Me dirigi até os portões, onde foi observado um guarda de prontidão. 

Adentrando o prédio, vi os três “novos colegas” que achava ter feito. Eles me encararam e ainda mantinham uma certa cara de medo, mas não de nojo. Isso era novo, até para mim.

Tentei puxar assunto com o franzino, junto da Isabela, a amiga dele:
— Bom dia…vocês dormiram bem?!
(“Que droga de pergunta é essa.”)
O mirrado se escondeu atrás de sua amiga alta, e ela devolveu a tentativa falha de comunicação:
— Oi, bom dia! É..dormir eu dormi, mas bem, bem… Não. Passei a noite em claro. Achei que fosse algum tipo de sonho maluco, ou alguma provação mística que precisava passar, qualquer coisa, menos saber que realmente existe o outro lado. Claro que eu sou Oloriṣa, mas ainda sim, é muito estranho tudo isso — disse Isabela, meio sem jeito, enquanto finalizava seus cachos com os dedos. — E me desculpe pela reação de ontem. Não é sempre que eu vejo uma…

— Isa, acho que po-pode ser um pouco grosseiro da sua parte falar o que acho que iria falar. — Ele pigarreou, puxando a gola da camisa e ajeitando os óculos, antes de se dirigir a mim: — Bo-bom, eu não dormi muito bem essa noite, mas também não durmo bem quase noite alguma… Co-com simulados, provinhas e essas co-coisas. E desculpe por ontem. O que mais me deixou sem jeito não foi sua aparência, é só que garotas no geral me deixam nervoso… A pro-pro…propósito, qual é o seu nome?

— Azura. Pensei que tivesse dito meu nome no dia em que a Professora Solange me apresentou para a turma. Mas, para ser sincera, acho que falei baixo. De qualquer forma, prazer… É… Qual seu nome? Tenho certeza de que não me disse até agora.

Finalmente, o garoto baixinho disse:
— Me chamo Kang-Tae-Moo, mas p-pode me chamar de Tae, se quiser…A Isa me chama de Tae..

(“Finalmente sabemos o nome de dois personagens já. Isabela e Tae.”)

Iria puxar assunto com o terceiro esquisitão, o tal do “Askriel Ignis”, do qual tenho quase cem por cento de certeza não ser o nome real dele. Mas o sinal das sete tocou, e nos dirigimos para a sala.

Chegando, procurei pela mesma carteira de ontem para me sentar. Passei horas divagando, viajando na maionese. Em tudo que aconteceu. Em tudo que está acontecendo. E o que ainda podia acontecer.
Mas aparentemente, não sou permitida a ter um tempo de sonhar acordada, pois fui interrompida pelo Askriel, que queria a todo custo puxar conversa comigo:
— Ei, psiu! Amiga  interespécie, quer saber um fato incrivelmente incrível? — sussurrou mais alto do que se estivesse falando normalmente. — Sabia que sou o maior herói dessa escola, ou desta cidade, quiçá do mundo todo? Mas fique tranquila, irei proteger você e seus amados amigos de todo mal.

Olhei para ele. Por alguns segundos pensei em socá-lo, pensei mesmo. Mas, em vez disso:
— É? Aaaah, sim… E quem te contou isso? A Organização Supersecreta dos Maiores Heróis do Mundo? Tem algum formulário para preencher e poder se candidatar? É por meio de concurso? É necessário fazer algum cursinho preparatório pra isso? E tem que usar algum chapéu de alumínio também? Por que não conta para os esquisitões ali também? Aposto que vão amar saber tudinho.

Askriel, com o bom senso de uma porta, piscou lentamente um olho após o outro:
— Aaaaaaahn… Ninguém. Não, não, não. Deveria, mas não. Necas. Claro! Quem não amaria ser meu amigo?!

E o energúmeno deixou de se escorar na minha cadeira, procurando um próximo coitado para atazanar.
O sinal tocou, encerrando assim mais uma aula e o início do intervalo. Ao chegar no pátio, vi uma multidão aglomerada em um ponto específico: o mural de avisos.
Nele, havia alguns informativos referentes à escola, trabalhos complementares e algumas fotos das pessoas desaparecidas, bem como o local onde foram vistas pela última vez e um telefone para fornecer quaisquer informações.

Observei que, dos três “desajustados”, dois foram para o refeitório normalmente. Porém, Askriel foi o único da patotinha que decidiu olhar o mural e analisar os desaparecidos. Vi-o esperar a legião de alunos se afastar para pegar um dos cartazes e guardá-lo no bolso.

Ou ele conhece alguém das fotos, ou talvez queira fazer alguma porcaria de herói. Talvez seja interessante ficar de olho nele? Veremos…

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u/Anunciadore — 2 days ago

Capítulo um: Noite escura da Alma

Hoje começo mais um dia. Vejamos: qual psiquiatra ou psicólogo vai ser o sorteado da vez? Vamos fuxicar no menu… Acho que vou querer o Dr. Henrique ao molho rosé.
— Vai continuar brincando até quando? Sabe o quanto gastamos com os psicólogos? Se você não levar isso a sério, vamos parar. Nosso dinheiro não dá em árvore. — disse minha mãe.

— Eu tô cansada. Todo dia é um psicólogo diferente. Você e o papai sabem muito bem que nada muda — tirando, é claro, o CRP*. 

— Sabe que só queremos o melhor pra você, filha. E você mesma que pediu para ter tratamento. Lembra que começou a dizer que tinha asas? Ou que parecia um monstro?
Enquanto era pequena, relevamos por ser criança — e crianças têm dessas. Mas, no dia em que tentou fazer aquilo… – seus olhos não conseguiam se voltar para mim; um sabor acre e amargo preenchia as palavras dela.

Enquanto me arrumava para o “restaurante” dos doidos, escutei minha mãe comentando com papai que ela tá esgotada – e, bom, não é pra menos! 
Coloquei minhas meias do Snoopy, meu tênis mais surrado que lutador de boxe clandestino, uma bermuda cargo, uma camisa branca bem velha e um suéter listrado por cima. O look tá impecável, tenho que admitir.

Ao entrar no carro, e seguir caminho para ver o psi..o psi.. VER O DOUTOR, pensei em tudo que queria dizer pra ele. Tudo que tenho entalado na garganta há anos e anos.
Mas, obviamente, nada disso resolveria. Seria mais tempo gasto, mais dinheiro gasto, mais amor gasto…Quando me vi mergulhando em meus pensamentos, fui abruptamente trazida para a realidade com o chacoalhão do papai.
— Azura, daijōbu? Amari kangaesuginaide . — disse papai. Mas, para vocês, a partir de agora, ele falará o idioma universal: a metalinguagem. Então entenderão. Basicamente ele disse “Azura, você tá bem? Tenta não pensar demais.”

Papai me avisou que tínhamos chegado e que a consulta começaria em alguns minutos. Levantei do banco do carro, ajeitei minhas roupas e encarei o edifício como um grande e poderoso dragão a ser combatido — e as pessoinhas lá dentro, como lacaios que faziam tudo isso funcionar.
Mais uma vez, os pensamentos foram interrompidos, só que pela colisão da minha cara com a porta de vidro.
Ele abriu a porta para mim. Me olhou como uma tonta, mas passeou seus dedos sobre o meu cabelo.

Ao adentrar no grande e poderoso “dragão” de pedra, fui recepcionada pela goblin local.
Quer um café, querida? Vamos, tome deste café nada suspeito!. 

Tá, ela não falou DESSE jeito, mas a história é minha e eu exagero da maneira que quiser.

Peguei o café nada suspeito e tomei. Definitivamente, café não é tão bom assim. Imagino que exista uma seita por aí que faz  ótimas propagandas sobre café ser gostoso e tudo mais.
Sentei-me na cadeira, que, a propósito, é feita única e objetivamente para ser desconfortável. E fiquei esperando por mais ou menos quinze minutos. Tenho que admitir, psicólogos particulares são mais eficientes do que esperar vaga no SUS. 

Azura Akitsu Fontenele, pode entrar na sala de torturas, querida. Vamos, não tenha medo. 
Juntei coragem, arregacei as mangas da camisa junto ao suéter e soltei um:
 — Dr. Henrique…MEU ARQUI NÊMESIS! HOJE VOCÊ SAIRÁ DAQUI PEDINDO ARREGO PRA MAMÃE!. 

Tá, não disse EXATAMENTE isso… soou mais como um:
 — tá bom… tô indo.

Na sala torturante havia muito cacareco e coisas de psicólogo. Quase como se gritando ao mundo: “Ei, eu sou um bom psicólogo. Olhem pra mim.”
Sentei na cadeirinha, e fiquei encarando-o por uns cinco minutos. Tudo que podia ouvir era a respiração dele e a minha, junto ao compasso dos ponteiros do relógio.

Reparei na vítima da vez: um homem na casa dos quarenta, um suéter marrom, calça social preta — chuto que seja de numeração cinquenta e dois —, meias brancas e um sapato social preto. 
(“Esse cara parou no tempo ou o que? Meu jesus…”)

Logo  veio com a frase mais clichê de todas — e olha que eu sou basicamente a personificação dos clichês:

— Como você está hoje, Azura? Como tem lidado com a nova medicação? – perguntou e aguardou bons minutos pela minha resposta. Tic tac…

— Bem, eu acho. E o senhor, como está? Imagino que não deva ter muitos planos para hoje, exceto ter que lidar com pessoas problemáticas ou desajustadas. Plena segunda-feira e você gastando o seu tempo, meu tempo, o tempo dos meus pais —  e, não sendo ganancioso o suficiente, gastando o suado dinheirinho deles. — respondi, de maneira sarcástica, como podem ver.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
Sorriu e disse:

— Você tem razão. Sou ganancioso e pretendo sugar todo o dinheiro da sua família. E, realmente, eu poderia estar fazendo algo melhor da minha vida. Mas estou aqui, tendo que lidar com a personificação de uma jovem rebelde que, ao que me parece, tenha saído de alguma série teen genérica dos anos 90. — É isso que quer ouvir? Te faria bem? Imagino que eu seja mais um profissional da saúde que você tenta desesperadamente afugentar. Infelizmente não tenho insígnia alguma para lhe dar. Mas tenho meus ouvidos. E ouvi dizer que sou um bom ouvinte.

— Já se passaram dez minutos, e você tem olhado para meu consultório com certo desdém e minhas roupas também. Mas fazer isso que você fez hoje é difícil. E com “isso” digo terapia. Não é fácil levantar, se trocar, e vir até aqui. Exige coragem, e saiba que se quiser manter o direito de ficar em silêncio, por mim tudo bem..

Mais vinte minutos se passaram…

— Não que eu me ache superior a tudo isso, mas sei lá… é sempre o mesmo protocolo: conto minha vida para uma pessoa que é paga pra isso, ela usa Freud para ligar todos meus problemas à minha mãe ou ao meu pai. E, francamente, meu nome não é Elektra, e muito menos Édipo. — Meu problema é mais sobre o que vejo no espelho. Tenho nojo, repulsa e decepção.

— Ao que me parece, o problema pode estar enraizado na sua autopercepção, em como se enxerga — ou em como acha que as pessoas te enxergam. – levantou-se da cadeira e começou a mexer nos cacarecos antes mencionados. — Tudo o que vejo é uma garota assustada e,  pelo que consta na sua ficha, uma pessoa que passou seis meses na Fundação CASA…

Nesse momento, vi a cara assustada do quarentão. Uma pena vocês não poderem ver exatamente o que tá acontecendo, mas é hilário, eu juro!
Notei que ele ficou um pouco inquieto, tentando caçar palavras no além, tentando sustentar a conversa de algum jeito, mas tudo isso foi interrompido pela GOBLIN RECEPCIONISTA. (“Droga, quase fiz ele sair correndo da sala…Espera, esse aqui é meu pensamento? Que legal, ele fica dentro de parênteses e aspas. Obrigada, escritor.”)

Saí da sala de torturas e peguei mais um café nada suspeito, e me direcionei à porta que dá para o estacionamento — a mesma de quem um dia me vingarei, por ter colidido com a minha cara!
Entrei no carro e olhei no celular. Eram 9h30, e já estava a caminho da nova escola. Porque, sabe, tem o lance da FEBEM (“Tecnicamente se chama Fundação CASA agora. Olha meus pensamentos de novo. Legal né?”) e fui expulsa da antiga. 
Mamãe e papai acharam que seria legal pra mim entrar numa escola nova, onde ninguém sabe do meu passado e tal.

No trajeto, coloquei para tocar alguma música aleatória no meu celular.E fiquei divagando nos  pensamentos, no pouco que conversei com o psicólogo e em como eu me vejo talvez não seja o que sou de verdade, sei lá…

Cheguei na escola, portões fechados. Afinal, as aulas já tinham começado. Entrei pela parte de trás, e notei, de relance, uma estatueta do busto de algum homem velho. Deve ser do fundador da escola ou algo assim.
Eu e meu pai fomos recebidos por uma fada muito gentil – a inspetora –, que nos informou para irmos à sala da diretora, encerrando assim as burocracias chatas de transferência e termos técnicos ao qual desconheço.

Após encerrar toda a papelada, meu pai se despediu e disse que, por volta das 17h, estaria aqui para me buscar. Explicou que poderia se atrasar alguns minutos porque precisa dar aulas e que,  normalmente, algum aluno fica um pouco mais para tirar eventuais dúvidas. Papai é importante.

Procurei minha sala — hmm… 1° ano A… 3°andar… segunda sala à direita.
Segui as coordenadas escritas no papel, e cheguei finalmente no covil de diabretes. Alguns prestavam atenção ao que a professora falava; outros apenas tiravam meleca do nariz. Uma porção mexia no celular ou dormia.
O caos que reinava ali foi cessado pela embaraçosa e desanimadora apresentação de minha pessoa. 
(“Hmm, acho que eu sou uma das protagonistas, interessante…Note como meu pensamento é em itálico também!”)

A professora – Solange – me apresentou para os pequenos diabinhos e disse:

— Vamos nos ajeitando, pessoal, vamos fazer silêncio. Quero que todos conheçam a… qual é seu nome mesmo flor?

— Azura Akitsu Fontenele… — murmurei em um tom quase inaudível enquanto pegava um gorro da mochila e cobria o rosto. (***“***É, eu sou tímida também, algum problema, leitores?”)

Um silêncio veio logo depois, e na primeira carteira que vi, me enfie

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u/Anunciadore — 3 days ago