Para salvar Deus, alguns cristãos diminuem Deus
Há uma ironia na defesa cristã do problema do mal: para preservar a bondade de Deus, alguns argumentos reduzem seu poder.
O exemplo mais sofisticado é a Defesa do Livre-Arbítrio, de Alvin Plantinga. Ele não pretende explicar por que Deus realmente permite o mal, mas bloquear uma contradição lógica entre estas afirmações: “Deus é onipotente, onisciente e perfeitamente bom” e “o mal existe”.
Para isso, Plantinga distingue um mundo possível de um mundo atualizável por Deus. “Atualizar” significa tornar real uma possibilidade completa. Pode haver um mundo logicamente possível no qual criaturas livres sempre escolhem o bem; ainda assim, talvez Deus não consiga torná-lo real. Se determinasse as escolhas, eliminaria a liberdade; e talvez toda criatura livre que pudesse criar escolhesse o mal pelo menos uma vez — hipótese chamada depravação transmundana.
Aqui está minha provocação:
Para salvar Deus do problema do mal, Plantinga não acaba diminuindo Deus?
A defesa admite possibilidades genuínas fora do alcance do Todo-Poderoso. Deus poderia conhecer um mundo possível em que todos escolhem livremente o bem e, mesmo assim, não possuir o poder de realizá-lo.
Isso não é apenas dizer que Deus não cria “círculos quadrados”. O cenário é reconhecido como logicamente possível. O problema é que seria possível, porém inacessível a Deus.
Temos então um dilema.
- A relação entre liberdade e possibilidade do mal não foi criada por Deus.
Nesse caso, existe uma estrutura lógica ou modal que Deus não criou, não escolheu e não pode modificar. Ele não seria absolutamente onipotente, mas maximamente poderoso dentro de regras que encontrou prontas.
Um soberano absoluto — desde que respeite a constituição metafísica que não escreveu e não pode emendar.
- Deus criou essa estrutura.
Nesse caso, escolheu uma forma de liberdade que permite estupros, torturas, genocídios e sofrimentos extremos. Não pode depois alegar que “não havia alternativa” por causa de uma regra que ele próprio estabeleceu.
- Essa estrutura decorre necessariamente da natureza de Deus.
Aqui surge outra dificuldade: o cristianismo normalmente afirma que Deus é livre e, ao mesmo tempo, necessariamente bom, incapaz de pecar.
Se Deus pode ser livre sem ter a possibilidade real de escolher o mal, então a possibilidade do mal não é condição necessária de toda liberdade. Por que não criar criaturas com uma liberdade semelhante à divina: livres, mas necessariamente orientadas ao bem?
Esse dilema — a liberdade para escolher o mal ser considerada um grande bem nos seres humanos, mas aparentemente não constituir uma perfeição necessária em Deus — já foi explorado por Wes Morriston.
O mesmo problema aparece no céu.
Os salvos serão livres? Se forem livres e não pecarem, liberdade sem mal é possível. Se não forem livres, então a liberdade não é tão indispensável assim, pois o estado considerado perfeito e eterno não a preserva.
Além disso, escolher o mal e conseguir produzir suas consequências são coisas diferentes.
Deus poderia permitir que alguém decidisse livremente matar, apertasse o gatilho e revelasse sua intenção moral — mas fazer a arma falhar. A escolha continuaria sendo má; a vítima continuaria viva.
O livre-arbítrio talvez explique por que Deus permite intenções malignas. Não explica automaticamente por que permite que se convertam em crianças mortas, povos exterminados e vítimas torturadas. Intervir seletivamente contra danos extremos não eliminaria todas as escolhas humanas.
Também não é necessário criar robôs. Poderiam existir agentes livres escolhendo entre diferentes bens: qual pessoa ajudar primeiro, qual obra criar, qual caminho explorar, qual conhecimento buscar. Por que a liberdade só seria “significativa” quando inclui o poder de destruir outra pessoa?
Plantinga pode ter mostrado que Deus e algum mal são compatíveis sob uma definição específica e condicionada de onipotência. Mas não mostrou essa compatibilidade com um Deus absolutamente soberano sobre a lógica, a liberdade, as possibilidades e as consequências.
Minha crítica não prova que Deus não existe. Ela questiona o preço pago para preservá-lo:
um Deus todo-poderoso, desde que não precise realizar tudo o que é realmente possível; criador de tudo, exceto das regras que delimitam seu próprio poder.
Então deixo três perguntas:
Deus criou a estrutura da liberdade ou a encontrou pronta?
Deus é livre mesmo sendo necessariamente bom?
E, se há mundos logicamente possíveis que Deus não pode tornar reais, em que sentido ele ainda é onipotente?
Referências: Alvin Plantinga, God, Freedom, and Evil; Alvin Plantinga, “Which Worlds Could God Have Created?”; J. L. Mackie, “Evil and Omnipotence”; Wes Morriston, “What Is So Good About Moral Freedom?”.