Médico recém-formado/ não especialista: você é lixo descartável
Você passou a vida toda estudando pra realizar o seu sonho e o da família. Ser médico. Ou não, tinha outras ideias mas fez medicina pensando em estabilidade financeira e status.
Você se dedicou, passou numa pública de renome, se envolveu em bolsa de pesquisa logo cedo, teve uma formação com boas notas e conseguiu sobreviver ao internato se expondo nos serviços, aprendendo procedimentos, ganhando confiança (auto e dos outros).
Você se formou e trabalha já há uns bons anos em diversos tipos de serviço, já estava adaptado a rotina de plantões. Serviços particulares pagando melhor que a maioria dos outros locais da região. Atende emergências com segurança, faz iot, central, sorensen, dreno de tórax, renova acls, estuda atualizações da clínica, os pacientes gostam de vc pq vc é resolutivo e presta atendimento humanizado.
Você pode não ser O MELHOR médico do mundo tecnicamente, mas com certeza é respeitado na área, é chamado pra consertar pepino em plantão alheio em outros setores.
Tudo parece ótimo. Você sabe que o plantão tá desvalorizado e que precisa sair pra uma residência se quiser melhorar o plano de carreira. Mas os plantões te dão uma condição legal (não de rico, mas legal). Se exercita, come bem, separa tempo pra família e estuda.
Aí um dia o destino decide pregar uma peça e você desenvolve uma doença autoimune, daquelas que não tem como esconder, daquelas de evolução insidiosa e que acabam aos poucos com sua rotina e tiram você do eixo da saúde mental. Você precisa passar vários plantões pra investigar o que tá acontecendo e poder se adaptar aos tratamentos. Você aparece em alguns plantões cansado e visualmente em sofrimento/crises associadas ao quadro. Em alguns meses sua imagem de médico respeitado começa a ir mudando pra de médico doente, e onde você esperava acolhimento por ser um ambiente da saúde, as pessoas passam a te tratar com pena ou querendo questionar sua capacidade. Você começa a receber indiretas de superiores, começa a ser questionado sobre diversas coisas sobre a doença que é rara e mesmo médicos desconhecem. Começa a ser sugestionado a passar plantoes. Qualquer coisa vira motivo de reclamação ou de deboche. E aí, então, acontece. Seus chefes te ligam ou pessoalmente passam de forma bem fria que você está sendo desligado da escala. Vários motivos que nunca foram problema de repente se tornaram. Mesmo que você esteja tratado, você ouve novamente isso como motivo ‘a chefia não gosta de quem fica passando muito plantão’ (até parece, todo mundo da escala faz isso)
Acho que ficou óbvio a essa altura que essa é minha história, e exatamente hoje aconteceu no segundo e último serviço fixo que eu tinha. Oficialmente um médico desempregado. Tratado como lixo descartável por empresas que dei o sangue e alma como pj (mas claro, com obrigações clt, pagando do bolso pelos cursos como todos e inclusive tendo salvado familiares de chefes lá dentro algumas vezes).
A sensação é exatamente essa de ser um lixo descartável. O próprio coordenador mencionou ‘se fosse clt seria mais problema, mas você é pj e sabe como funciona’. Irônico né?
Fica o relato aí
Façam residência
Não adoeçam
Não deem sangue nem fiquem largando momentos com família pra cobrir plantão extra de última hora em feriado sem adicional.
Sei lá agora vou vender soro colorido, canetinhas da alegria da bariátrica química e vender programa de terapia quântica, fodam-se os críticos e minha própria ética agora, tenho q botar comida em casa
(Foi mal o desabafo grande, to guardando isso há um tempão e não tenho com quem falar sobre)