Polenta com Frango
Sou servidor velho. Efetivo. Estatutário. Engrenagem insignificante dum órgão esquecido. Mas cargo público é como mulher... A gente tem um, pensa em outro; arruma outro, tem saudade do primeiro. No fim, precisamos da estabilidade para viver como precisamos de mulher bonita para alegrar o coração.
Eu, num buraco aqui do Paraná. Nem no guichê fico mais. Me puseram no administrativo interno, sem ver ninguém. Todo dia, fuçando os sites de concurso. Abre aqui, abre ali. Prefeiturinhas abrindo todos os cargos, órgãos maiores, cargos concorridos.
A ALECE abriu concurso. Muita vaga, salarinho bom, decerto algum benefício. E eu já fiquei imaginando: prestar a prova, me mudar pra Fortaleza, apartamento perto da praia, namorar com a guria que frita peixe no boteco, aprender a falar arrastado, como só o nordeste ensina.
Deixar pra lá esse inverno bravo aqui do sul. Trocar o chimarrão pelo chopinho na beira da água.
E fui fantasiando... uma repartição chique, um povo bonito, gente nova pra conhecer. Levaria até meu cachorrão, meu cachorro preto, companheiro de trabalho e folia. E no carnaval, sair pra rua, todo vestido com plumas e paetês, fantasia toda cor-de-rosa, mas sou homem, muito homem, sim senhor.
Pegava o ônibus, ia lá, fazia a prova, cheirava a noite fortalezense, conhecia gente que não conheço, ficava esperando... na expectativa de passar. Na esperança de mudar de vida.
Ah, esperança! Esperança, que sempre é a penúltima que morre... porque dizem que a última é a sogra.
As horas passam, o sonho se faz na mente. Tem cota, tem vaga, tem jeito. Ganhar um salarião! Recomeçar a vida...
E andar de metrô, que eu nunca andei, porque aqui no Paraná, debaixo da terra só tatu e defunto.
Mas sei que não vou. Nunca vou. Só sonho.
A copa esvaziou. Vou esquentar a marmita. Polenta com frango.