
A rotina cômoda
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Uma vez decidi entrevistar algumas cuidadoras por curiosidade. Queria entender as histórias que elas carregavam consigo e, talvez, descobrir por que algumas pessoas parecem preferir a segurança da rotina ao risco do novo. Clarice foi uma das entrevistadas cuja história me deixou estranhamente apática e reflexiva ao mesmo tempo.
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Clarice
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— Estive cuidando de um senhor muito peculiar nos últimos meses.
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Ela abaixou a cabeça e entrelaçou os dedos das mãos, como se estivesse prestes a fazer uma oração.
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— Ele usava óculos de armação grossa e a mesma camisa todos os dias. Eu sei que muitos idosos têm hábitos repetitivos, mas havia algo diferente nele. Sua rotina era tão rígida que parecia um protocolo.
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Depois do café da manhã, ele se sentava na calçada de casa, encostava as costas na parede e permanecia ali até a hora do almoço. Então entrava, caminhava lentamente pelo corredor até a cozinha, sentava-se à mesa e esperava que eu colocasse um prato vazio à sua frente.
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O curioso era que ele nunca almoçava.
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No início tentei servi-lo normalmente, mas isso lhe causava uma angústia enorme. Se eu colocasse comida no prato, ele ficava inquieto, às vezes à beira de uma crise de ansiedade. Com o tempo, aprendi que certos hábitos, para algumas pessoas, são tão sagrados quanto tradições de família.
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À tarde, ele se sentava diante de uma escrivaninha e dizia que estava estudando. Porém, o livro que mantinha aberto permanecia sempre no mesmo capítulo. Todos os dias ele lia as mesmas páginas, repetindo-as dezenas de vezes.
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Quando sentia fome, descia as escadas até o andar de baixo. Eu precisava estar sentada no sofá da sala assistindo televisão. Ele me olhava em silêncio, e eu perguntava:
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— Quer algumas torradas e um café com leite?
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Ele balançava a cabeça afirmativamente e me seguia até a cozinha.
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Depois de comer, caminhava até a janela e fazia a mesma pergunta:
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— Podemos sair?
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Eu podia responder sim ou não. Não fazia diferença. Ele saía de qualquer maneira, e eu o acompanhava. Ainda assim, considerava aquilo algo positivo; a maioria dos idosos de quem cuidei não gostava nem de sair de casa.
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Caminhávamos algumas quadras até uma pequena loja de móveis usados. Ao chegar lá, ele se ajoelhava na calçada e permanecia observando a fachada por longos minutos, como se esperasse algo acontecer.
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Depois voltávamos para casa.
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Ele se sentava novamente no sofá da sala e adormecia. Nunca dormia na cama. Sempre no sofá.
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Clarice fez uma pausa antes de continuar.
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— Depois de algum tempo, conversei com a cuidadora anterior. Foi ela quem me explicou tudo.
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O único familiar que cuidava dele era o pai. Todos os dias, quando criança, ele o esperava voltar do trabalho. Sentava-se na calçada até a hora do almoço. Depois ficava à mesa aguardando sua chegada. À tarde tentava estudar para passar o tempo. Quando a fome apertava, pedia café com leite e torradas. Mais tarde, saía para encontrar o pai na loja onde ele trabalhava.
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Anos se passaram, mas aqueles gestos nunca mudaram.
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Infelizmente, o pai sofria de problemas cardíacos. Certa noite, morreu sentado no sofá da sala, assistindo televisão.
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O filho jamais compreendeu completamente a perda.
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E assim continuou esperando.
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Esperando o almoço que nunca viria.
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Esperando a saída da tarde.
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Esperando em frente à loja.
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Esperando que o pai voltasse para casa.