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Desabafo

 

Estou cansado, sabes?

Não daquele cansaço que se cura com uma noite de sono,
nem do que o trabalho deixa nos ossos.
Não.

Estou cansado de uma fadiga sem nome,
daquela que se instala na alma
e faz de cada manhã uma batalha silenciosa.

As noites chegam vazias de promessas,
carregadas apenas de perguntas
que o dia nunca teve coragem de responder.

Levanto-me porque a vida insiste,
não porque a esperança me acompanhe.
Visto os mesmos gestos,
as mesmas palavras,
como quem representa um papel
que há muito deixou de acreditar.

Estou cansado de procurar sentido
em dias que se repetem,
de esperar por um amanhã
que chega sempre vestido de ontem.

Porque existir pesa.
Pesa mais quando se vê demasiado,
quando se sente em excesso,
quando o coração continua a bater
mesmo depois de perder o rumo.

E, ainda assim, continuo.

Não por coragem.
Talvez por hábito.
Ou porque até desistir
exige uma certeza
que nunca encontrei.

Estou cansado, sabes?

Não da vida.

Mas do peso imenso
de continuar a existir dentro dela.

 

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u/Living_Double_1146 — 16 hours ago
▲ 10 r/EscritaPortugal+3 crossposts

Deslocado

Hoje reparei

que as sombras
nunca se encontram.

Que os pássaros
não deixam pegadas no céu.

Que as nuvens
nunca regressam.

Que o último degrau
é sempre o mais esquecido.

E que os olhos
são o único lugar
onde duas pessoas
podem cair
sem fazer barulho.

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u/miguelborges99 — 1 day ago
▲ 9 r/EscritaPortugal+3 crossposts

Desenfreado

Locomotiva do mundo novo,
carregas céus e inferno.

Demónios saltam nos espaços,
sobram banalidades.

Euforia,
fúria e eu,
maquinista da engrenagem,
sozinho,
desenfreado.

Admiro pela janela,
o descontrole vicia,
as novidades hibernam.

A máquina ecoa,
ficam vapor,

dor.

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u/Select_Equal_9493 — 4 days ago
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Girassóis

Quando morrer,

ficam vénias,

girassóis,

gira-discos,

um peão que gira,

giro flé, giro flá,

galáxias,

gira, gira,

roda, roda,

volta a girar

ao centro,

no centro.

nunca existiram

girassóis,

gira-discos,

peões,

galáxias,

nem morte.

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u/Select_Equal_9493 — 4 days ago
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Sem bater

Sou olhar dos olhos que veem,

que ascende à montanha e reconhece o vale.

Evade a penumbra, descobre e quer regressar;

Condenado que aguarda a sentença,

deixou de crer no acreditar.

 

Emprestou a liberdade

a um ilusionista sem escrúpulos,

e não a pode resgatar.

Foi chamado a jogar, logo pousou o naipe,

saiu sem bater.

 

A quem confiaram as chaves do cofre

E recusou abrir

O que tem por confidente o seu oposto.

 

Que nasceu hipótese,

e findou dúvida.

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u/Select_Equal_9493 — 7 days ago

O Interior

Isabela cresceu na aldeia
onde o tempo não corria.
Toda a gente via tudo,
toda a gente o sabia.

O pai bebia vinho,
bebia até anoitecer.
Quando a voz dele subia,
deixava a casa a tremer.

Fugia Isabela mais a mãe
pela sombra do caminho
de porta em porta, em silêncio,
acolhia-as um vizinho.

Havia portas que se abriam,
havia lume e companhia.
Mas ninguém dizia o nome
daquilo que ali se via.

Um dia morreu a mãe.
Isabela ficou sozinha.

Isabela, quem te aquece
quando a noite arrefece?
Quem te abraça quando o medo
à tua porta aparece?

Quando o pai se ausentava,
outro homem lá entrava.
E a menina não sabia,
mas o corpo já sentia.

Depois houve uma gravidez.
Não chegou a haver criança.
Ficou um berço por fazer,
ficou mais curta a esperança.

Um dia fez-se ao caminho.
Sem anúncio nem razão.
Levou a roupa do corpo
e um nó no coração.

Vai-se embora quem tem de ir.

Fica na terra quem quer fingir.

Houve homens sem nome.
Houve quartos de passagem.
Houve noites sem descanso.
Houve dias de coragem.

Houve mãos sobre o seu corpo.
Houve beijos sem amor.
Houve noites de silêncio.
Houve dias de suor.

Há caminhos que são regresso,
há caminhos que são perda,
há caminhos que se inventam
quando já não resta terra.

A aldeia ficou calada,
como sempre ali vivia,
sabe tudo, mas não fala,
sabe tudo e não dizia.

E Isabela foi-se embora.
Sem regresso nem valia.

Há raízes que alimentam
Há raízes que trazem dor
Há partidas que nos mudam
Há regressos sem valor.

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u/LucioVerissimo — 9 days ago
▲ 11 r/EscritaPortugal+1 crossposts

Angústia

Parto para a batalha, pela tarde,
Com o coração veloz,
E um além por conquistar.

As dúvidas que me acenam
Iluminam o caminho
E ofuscam o ser.

O perigo maior:
Perder a angústia,
Que enlouquece os covardes
E anestesia o peito aberto.

Corro para o inimigo,
Encaro-o de frente.
E o que vejo?

Calma.
Ventos das montanhas
E oceanos... sem fim.

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u/Select_Equal_9493 — 11 days ago
▲ 19 r/EscritaPortugal+1 crossposts

A rotina cômoda

Link da imagem - https://pin.it/7AMDXbP38

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Uma vez decidi entrevistar algumas cuidadoras por curiosidade. Queria entender as histórias que elas carregavam consigo e, talvez, descobrir por que algumas pessoas parecem preferir a segurança da rotina ao risco do novo. Clarice foi uma das entrevistadas cuja história me deixou estranhamente apática e reflexiva ao mesmo tempo.

​

Clarice

​

— Estive cuidando de um senhor muito peculiar nos últimos meses.

​

Ela abaixou a cabeça e entrelaçou os dedos das mãos, como se estivesse prestes a fazer uma oração.

​

— Ele usava óculos de armação grossa e a mesma camisa todos os dias. Eu sei que muitos idosos têm hábitos repetitivos, mas havia algo diferente nele. Sua rotina era tão rígida que parecia um protocolo.

​

Depois do café da manhã, ele se sentava na calçada de casa, encostava as costas na parede e permanecia ali até a hora do almoço. Então entrava, caminhava lentamente pelo corredor até a cozinha, sentava-se à mesa e esperava que eu colocasse um prato vazio à sua frente.

​

O curioso era que ele nunca almoçava.

​

No início tentei servi-lo normalmente, mas isso lhe causava uma angústia enorme. Se eu colocasse comida no prato, ele ficava inquieto, às vezes à beira de uma crise de ansiedade. Com o tempo, aprendi que certos hábitos, para algumas pessoas, são tão sagrados quanto tradições de família.

​

À tarde, ele se sentava diante de uma escrivaninha e dizia que estava estudando. Porém, o livro que mantinha aberto permanecia sempre no mesmo capítulo. Todos os dias ele lia as mesmas páginas, repetindo-as dezenas de vezes.

​

Quando sentia fome, descia as escadas até o andar de baixo. Eu precisava estar sentada no sofá da sala assistindo televisão. Ele me olhava em silêncio, e eu perguntava:

​

— Quer algumas torradas e um café com leite?

​

Ele balançava a cabeça afirmativamente e me seguia até a cozinha.

​

Depois de comer, caminhava até a janela e fazia a mesma pergunta:

​

— Podemos sair?

​

Eu podia responder sim ou não. Não fazia diferença. Ele saía de qualquer maneira, e eu o acompanhava. Ainda assim, considerava aquilo algo positivo; a maioria dos idosos de quem cuidei não gostava nem de sair de casa.

​

Caminhávamos algumas quadras até uma pequena loja de móveis usados. Ao chegar lá, ele se ajoelhava na calçada e permanecia observando a fachada por longos minutos, como se esperasse algo acontecer.

​

Depois voltávamos para casa.

​

Ele se sentava novamente no sofá da sala e adormecia. Nunca dormia na cama. Sempre no sofá.

​

Clarice fez uma pausa antes de continuar.

​

— Depois de algum tempo, conversei com a cuidadora anterior. Foi ela quem me explicou tudo.

​

O único familiar que cuidava dele era o pai. Todos os dias, quando criança, ele o esperava voltar do trabalho. Sentava-se na calçada até a hora do almoço. Depois ficava à mesa aguardando sua chegada. À tarde tentava estudar para passar o tempo. Quando a fome apertava, pedia café com leite e torradas. Mais tarde, saía para encontrar o pai na loja onde ele trabalhava.

​

Anos se passaram, mas aqueles gestos nunca mudaram.

​

Infelizmente, o pai sofria de problemas cardíacos. Certa noite, morreu sentado no sofá da sala, assistindo televisão.

​

O filho jamais compreendeu completamente a perda.

​

E assim continuou esperando.

​

Esperando o almoço que nunca viria.

​

Esperando a saída da tarde.

​

Esperando em frente à loja.

​

Esperando que o pai voltasse para casa.

u/Ceu_Estrelado_1922 — 14 days ago