Hoje percebi
Nenhuma vela se consome
por acender outra ao lado.
O fogo muda de nome,
mas nunca fica apagado.
Talvez aconteça assim
com tudo o que alguém escreveu
uma centelha sem fim
que noutro poema ardeu.
Nenhuma vela se consome
por acender outra ao lado.
O fogo muda de nome,
mas nunca fica apagado.
Talvez aconteça assim
com tudo o que alguém escreveu
uma centelha sem fim
que noutro poema ardeu.
Queria pedir-vos ajuda como escritores/leitores.
Estou a compor um pequeno livro e procuro quem o possa ler e dar feedback honesto sobre se isto tem pernas para andar.
Parei no poema O Interior e ainda faltam alguns textos.
Procuro opiniões sinceras sobre o que sentem ao ler.
Ando à procura do meu país nas histórias de um povo que ainda está por se compreender. Não procuro reis nem grandes nomes, mas histórias pequenas, as nossas. Se quiseres partilhar algumas, agradeço-te imenso.
Isabela cresceu na aldeia
onde o tempo não corria.
Toda a gente via tudo,
toda a gente o sabia.
O pai bebia vinho,
bebia até anoitecer.
Quando a voz dele subia,
deixava a casa a tremer.
Fugia Isabela mais a mãe
pela sombra do caminho
de porta em porta, em silêncio,
acolhia-as um vizinho.
Havia portas que se abriam,
havia lume e companhia.
Mas ninguém dizia o nome
daquilo que ali se via.
Um dia morreu a mãe.
Isabela ficou sozinha.
Isabela, quem te aquece
quando a noite arrefece?
Quem te abraça quando o medo
à tua porta aparece?
Quando o pai se ausentava,
outro homem lá entrava.
E a menina não sabia,
mas o corpo já sentia.
Depois houve uma gravidez.
Não chegou a haver criança.
Ficou um berço por fazer,
ficou mais curta a esperança.
Um dia fez-se ao caminho.
Sem anúncio nem razão.
Levou a roupa do corpo
e um nó no coração.
Vai-se embora quem tem de ir.
Fica na terra quem quer fingir.
Houve homens sem nome.
Houve quartos de passagem.
Houve noites sem descanso.
Houve dias de coragem.
Houve mãos sobre o seu corpo.
Houve beijos sem amor.
Houve noites de silêncio.
Houve dias de suor.
Há caminhos que são regresso,
há caminhos que são perda,
há caminhos que se inventam
quando já não resta terra.
A aldeia ficou calada,
como sempre ali vivia,
sabe tudo, mas não fala,
sabe tudo e não dizia.
E Isabela foi-se embora.
Sem regresso nem valia.
Há raízes que alimentam
Há raízes que trazem dor
Há partidas que nos mudam
Há regressos sem valor.
Isabela cresceu na aldeia
onde o tempo não corria.
Toda a gente via tudo,
toda a gente o sabia.
O pai bebia vinho,
bebia até anoitecer.
Quando a voz dele subia,
deixava a casa a tremer.
Fugia Isabela mais a mãe
pela sombra do caminho
de porta em porta, em silêncio,
acolhia-as um vizinho.
Havia portas que se abriam,
havia lume e companhia.
Mas ninguém dizia o nome
daquilo que ali se via.
Um dia morreu a mãe.
Isabela ficou sozinha.
Isabela, quem te aquece
quando a noite arrefece?
Quem te abraça quando o medo
à tua porta aparece?
Quando o pai se ausentava,
outro homem lá entrava.
E a menina não sabia,
mas o corpo já sentia.
Depois houve uma gravidez.
Não chegou a haver criança.
Ficou um berço por fazer,
ficou mais curta a esperança.
Um dia fez-se ao caminho.
Sem anúncio nem razão.
Levou a roupa do corpo
e um nó no coração.
Vai-se embora quem tem de ir.
Fica na terra quem quer fingir.
Houve homens sem nome.
Houve quartos de passagem.
Houve noites sem descanso.
Houve dias de coragem.
Houve mãos sobre o seu corpo.
Houve beijos sem amor.
Houve noites de silêncio.
Houve dias de suor.
Há caminhos que são regresso,
há caminhos que são perda,
há caminhos que se inventam
quando já não resta terra.
A aldeia ficou calada,
como sempre ali vivia,
sabe tudo, mas não fala,
sabe tudo e não dizia.
E Isabela foi-se embora.
Sem regresso nem valia.
Há raízes que alimentam
Há raízes que trazem dor
Há partidas que nos mudam
Há regressos sem valor.
Isabela cresceu na aldeia
onde o tempo não corria.
Toda a gente via tudo,
toda a gente o sabia.
O pai bebia vinho,
bebia até anoitecer.
Quando a voz dele subia,
deixava a casa a tremer.
Fugia Isabela mais a mãe
pela sombra do caminho
de porta em porta, em silêncio,
acolhia-as um vizinho.
Havia portas que se abriam,
havia lume e companhia.
Mas ninguém dizia o nome
daquilo que ali se via.
Um dia morreu a mãe.
Isabela ficou sozinha.
Isabela, quem te aquece
quando a noite arrefece?
Quem te abraça quando o medo
à tua porta aparece?
Quando o pai se ausentava,
outro homem lá entrava.
E a menina não sabia,
mas o corpo já sentia.
Depois houve uma gravidez.
Não chegou a haver criança.
Ficou um berço por fazer,
ficou mais curta a esperança.
Um dia fez-se ao caminho.
Sem anúncio nem razão.
Levou a roupa do corpo
e um nó no coração.
Vai-se embora quem tem de ir.
Fica na terra quem quer fingir.
Houve homens sem nome.
Houve quartos de passagem.
Houve noites sem descanso.
Houve dias de coragem.
Houve mãos sobre o seu corpo.
Houve beijos sem amor.
Houve noites de silêncio.
Houve dias de suor.
Há caminhos que são regresso,
há caminhos que são perda,
há caminhos que se inventam
quando já não resta terra.
A aldeia ficou calada,
como sempre ali vivia,
sabe tudo, mas não fala,
sabe tudo e não dizia.
E Isabela foi-se embora.
Sem regresso nem valia.
Há raízes que alimentam
Há raízes que trazem dor
Há partidas que nos mudam
Há regressos sem valor.
Isabela cresceu na aldeia
onde o tempo não corria.
Toda a gente via tudo,
toda a gente o sabia.
O pai bebia vinho,
bebia até anoitecer.
Quando a voz dele subia,
deixava a casa a tremer.
Fugia Isabela mais a mãe
pela sombra do caminho
de porta em porta, em silêncio,
acolhia-as um vizinho.
Havia portas que se abriam,
havia lume e companhia.
Mas ninguém dizia o nome
daquilo que ali se via.
Um dia morreu a mãe.
Isabela ficou sozinha.
Isabela, quem te aquece
quando a noite arrefece?
Quem te abraça quando o medo
à tua porta aparece?
Quando o pai se ausentava,
outro homem lá entrava.
E a menina não sabia,
mas o corpo já sentia.
Depois houve uma gravidez.
Não chegou a haver criança.
Ficou um berço por fazer,
ficou mais curta a esperança.
Um dia fez-se ao caminho.
Sem anúncio nem razão.
Levou a roupa do corpo
e um nó no coração.
Vai-se embora quem tem de ir.
Fica na terra quem quer fingir.
Houve homens sem nome.
Houve quartos de passagem.
Houve noites sem descanso.
Houve dias de coragem.
Houve mãos sobre o seu corpo.
Houve beijos sem amor.
Houve noites de silêncio.
Houve dias de suor.
Há caminhos que são regresso,
há caminhos que são perda,
há caminhos que se inventam
quando já não resta terra.
A aldeia ficou calada,
como sempre ali vivia,
sabe tudo, mas não fala,
sabe tudo e não dizia.
E Isabela foi-se embora.
Sem regresso nem valia.
Há raízes que alimentam
Há raízes que trazem dor
Há partidas que nos mudam
Há regressos sem valor.
A família juntou dinheiro.
Compraram-lhe a passagem.
Disseram:
- Agora voltas para casa.
Tinha passado anos no Brasil.
Não fizera fortuna.
Voltava apenas.
Quando chegou,
reconheceu a igreja.
Reconheceu a praça.
Reconheceu o rio.
Mas demorava a reconhecer as pessoas.
E mais ainda
a reconhecer-se nelas.
As ruas pareciam mais pequenas.
As conversas mais curtas.
Os dias mais lentos.
Passou um mês.
Depois comprou outra passagem.
Desta vez sozinho.
Quando embarcou,
um familiar perguntou:
- Então a tua terra é o Brasil?
Ele olhou-os.
Havia mais água nos olhos
do que no mar à sua frente.
- Não sei.
Mas já não é aqui.
A família juntou dinheiro.
Compraram-lhe a passagem.
Disseram:
- Agora voltas para casa.
Tinha passado anos no Brasil.
Não fizera fortuna.
Voltava apenas.
Quando chegou,
reconheceu a igreja.
Reconheceu a praça.
Reconheceu o rio.
Mas demorava a reconhecer as pessoas.
E mais ainda
a reconhecer-se nelas.
As ruas pareciam mais pequenas.
As conversas mais curtas.
Os dias mais lentos.
Passou um mês.
Depois comprou outra passagem.
Desta vez sozinho.
Quando embarcou,
um familiar perguntou:
- Então a tua terra é o Brasil?
Ele olhou-os.
Havia mais água nos olhos
do que no mar à sua frente.
- Não sei.
Mas já não é aqui.
A família juntou dinheiro.
Compraram-lhe a passagem.
Disseram:
- Agora voltas para casa.
Tinha passado anos no Brasil.
Não fizera fortuna.
Voltava apenas.
Quando chegou,
reconheceu a igreja.
Reconheceu a praça.
Reconheceu o rio.
Mas demorava a reconhecer as pessoas.
E mais ainda
a reconhecer-se nelas.
As ruas pareciam mais pequenas.
As conversas mais curtas.
Os dias mais lentos.
Passou um mês.
Depois comprou outra passagem.
Desta vez sozinho.
Quando embarcou,
um familiar perguntou:
- Então a tua terra é o Brasil?
Ele olhou-os.
Havia mais água nos olhos
do que no mar à sua frente.
- Não sei.
Mas já não é aqui.
A família juntou dinheiro.
Compraram-lhe a passagem.
Disseram:
- Agora voltas para casa.
Tinha passado anos no Brasil.
Não fizera fortuna.
Voltava apenas.
Quando chegou,
reconheceu a igreja.
Reconheceu a praça.
Reconheceu o rio.
Mas demorava a reconhecer as pessoas.
E mais ainda
a reconhecer-se nelas.
As ruas pareciam mais pequenas.
As conversas mais curtas.
Os dias mais lentos.
Passou um mês.
Depois comprou outra passagem.
Desta vez sozinho.
Quando embarcou,
um familiar perguntou:
- Então a tua terra é o Brasil?
Ele olhou-os.
Havia mais água nos olhos
do que no mar à sua frente.
- Não sei.
Mas já não é aqui.
A família juntou dinheiro.
Compraram-lhe a passagem.
Disseram:
- Agora voltas para casa.
Tinha passado anos no Brasil.
Não fizera fortuna.
Voltava apenas.
Quando chegou,
reconheceu a igreja.
Reconheceu a praça.
Reconheceu o rio.
Mas demorava a reconhecer as pessoas.
E mais ainda
a reconhecer-se nelas.
As ruas pareciam mais pequenas.
As conversas mais curtas.
Os dias mais lentos.
Passou um mês.
Depois comprou outra passagem.
Desta vez sozinho.
Quando embarcou,
um familiar perguntou:
- Então a tua terra é o Brasil?
Ele olhou-os.
Havia mais água nos olhos
do que no mar à sua frente.
- Não sei.
Mas já não é aqui.
Chegou ao Porto.
Veio de fora.
Vinha casada com alguém daqui.
A cidade viveu nela, devagar.
Teve uma filha.
E os dias repetiram-se, sem nome.
Depois veio o divórcio.
O nome dele deixou de estar nas rotinas.
Mas a cidade ficou.
As ruas.
O rio.
As pontes.
Trabalhou.
Criou a filha.
E recomeçou.
A cidade sem ele.
A cidade apesar dele.
Mas a cidade ficou.
Chegou ao Porto.
Veio de fora.
Vinha casada com alguém daqui.
A cidade viveu nela, devagar.
Teve uma filha.
E os dias repetiram-se, sem nome.
Depois veio o divórcio.
O nome dele deixou de estar nas rotinas.
Mas a cidade ficou.
As ruas.
O rio.
As pontes.
Trabalhou.
Criou a filha.
E recomeçou.
A cidade sem ele.
A cidade apesar dele.
Mas a cidade ficou.
Chegou ao Porto.
Veio de fora.
Vinha casada com alguém daqui.
A cidade viveu nela, devagar.
Teve uma filha.
E os dias repetiram-se, sem nome.
Depois veio o divórcio.
O nome dele deixou de estar nas rotinas.
Mas a cidade ficou.
As ruas.
O rio.
As pontes.
Trabalhou.
Criou a filha.
E recomeçou.
A cidade sem ele.
A cidade apesar dele.
Mas a cidade ficou.
Chegou ao Porto.
Veio de fora.
Vinha casada com alguém daqui.
A cidade viveu nela, devagar.
Teve uma filha.
E os dias repetiram-se, sem nome.
Depois veio o divórcio.
O nome dele deixou de estar nas rotinas.
Mas a cidade ficou.
As ruas.
O rio.
As pontes.
Trabalhou.
Criou a filha.
E recomeçou.
A cidade sem ele.
A cidade apesar dele.
Mas a cidade ficou.
Num tempo antigo,
o vinho da ilha da Madeira
partia em barris para o mar.
No porão,
entre madeira seca e calor,
seguia em silêncio.
O navio rangia.
O mar não descansava.
Meses ou anos depois,
abria-se o barril.
Já não era o mesmo vinho.
Nem outro.
O mar passara por dentro
sem lhe tocar na forma.
A viagem ficara nele.
Havia no vinho
uma demora de mar.
E ao prová-lo,
havia distância.
Havia o que não regressa inteiro.
Num tempo antigo,
o vinho da ilha da Madeira
partia em barris para o mar.
No porão,
entre madeira seca e calor,
seguia em silêncio.
O navio rangia.
O mar não descansava.
Meses ou anos depois,
abria-se o barril.
Já não era o mesmo vinho.
Nem outro.
O mar passara por dentro
sem lhe tocar na forma.
A viagem ficara nele.
Havia no vinho
uma demora de mar.
E ao prová-lo,
havia distância.
Havia o que não regressa inteiro.
Num tempo antigo,
o vinho da ilha da Madeira
partia em barris para o mar.
No porão,
entre madeira seca e calor,
seguia em silêncio.
O navio rangia.
O mar não descansava.
Meses ou anos depois,
abria-se o barril.
Já não era o mesmo vinho.
Nem outro.
O mar passara por dentro
sem lhe tocar na forma.
A viagem ficara nele.
Havia no vinho
uma demora de mar.
E ao prová-lo,
havia distância.
Havia o que não regressa inteiro.
Num tempo antigo,
o vinho da ilha da Madeira
partia em barris para o mar.
No porão,
entre madeira seca e calor,
seguia em silêncio.
O navio rangia.
O mar não descansava.
Meses ou anos depois,
abria-se o barril.
Já não era o mesmo vinho.
Nem outro.
O mar passara por dentro
sem lhe tocar na forma.
A viagem ficara nele.
Havia no vinho
uma demora de mar.
E ao prová-lo,
havia distância.
Havia o que não regressa inteiro.
— A casa do teu bisavô era aquela.
Ele ficou parado.
Tinha atravessado o Atlântico.
Uma casa de pedra.
Uma porta fechada.
Duas janelas pequenas.
Nada que reconhecesse.
Como poderia reconhecer?
Nunca ali vivera.
Nunca ali correra.
E, no entanto, alguém disse:
— João, foi aqui que a tua história começou.