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Casca vazia

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Sou uma arquitetura de superfície — um rosto lapidado em gestos exatos, uma máscara que respira por hábito. Por dentro, não há carne, nem pulsação: apenas o pó morno de um incêndio antigo, cinzas que ainda guardam a memória do que já foi chama.

Algo ardeu aqui. Algo viveu, consumiu, iluminou.

Agora resta o eco térmico daquilo que não sou mais.

A casca não sente — ela simula. Não pensa — repete. Move-se como um mecanismo obediente, enquanto ao redor se forma um oceano de pequenas ruínas: mágoas deixadas como destroços de tudo o que ela toca sem perceber que fere.

E quem ousa atravessar essa superfície… encontra apenas fragmentos.

Cacos de um interior que já foi inteiro, agora disperso, cortante, irreconhecível.

Há um exílio silencioso em habitar a própria mente.

Sou estrangeiro nos meus pensamentos, visitante nas minhas emoções. Nada me pertence completamente — tudo me atravessa como vento em um espaço abandonado.

E ainda assim, falo.

E ainda assim, escuto.

Talvez seja isso que somos no fim:

estruturas ocas trocando ecos,

abismos tentando dialogar,

vazios que, por um instante, fingem preencher uns aos outros —

antes de voltarem ao seu silêncio original.

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u/Such_Neighborhood612 — 4 days ago

Carta pra amy

Não é de hoje que a vida arma para mim. Eu sei, eu sei que ela trama um caminho no fio da navalha, no tipo 8 ou 80, tudo ou nada. Numa hora eu tô num mar de pétalas, no mar de rosas, depois eu tô na lâmina, na mira da maldade dos filha da puta. Enfim, Brasil. Brasil, Brasil, meu amor, minha dor, meu país, a faca que me fura, a flor que me feitiça. E aí a gente vai vivendo, dia a próxima semana, sangrando até pegar a manha e monta nosso lance, nosso esquema, nossa sobrevivência, nossa maracutaia. Eu sei, eu sei que ela guarda flores e facas para mim. Enfim,

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u/aneRandread — 5 days ago

Amyl

Sou um ser extradimensional.

Tenho algo em torno de quatrocentos e oitenta anos — talvez mais. Depois de certo tempo, séculos começam a parecer apenas intervalos longos entre bebedeiras.

Como vim parar aqui?

Não faço ideia.

Só sei que existe dentro de mim uma necessidade absurda de encher a cara, fumar qualquer porcaria disponível e tocar guitarra até meus dedos sangrarem.

Minha família ainda está em algum lugar do universo.Às vezes sinto isso.

Como um reflexo distante atravessando o vazio.

Vaguei durante séculos pelo espaço morto. Planetas sem nome. Estruturas orbitando estrelas apagadas. Coisas antigas demais até para serem chamadas de ruínas.

Então ouvi a voz dela.

Amyl.

Não exatamente uma voz.

Mais como um rasgo.

Uma frequência atravessando dimensões.

Despertei.Precisava daquilo outra vez.

Daquela loucura.

Daquela sujeira viva.

Então caí neste mundo.

Na Terra.

Passei semanas vagando entre cidades úmidas, bares decadentes e apartamentos infestados de mofo, procurando o grito daquela mulher como um fanático religioso atrás de uma divindade perdida.

Onde você está, Amyl?Numa madrugada qualquer, sentado numa calçada imunda de Glasgow, o vento trouxe um papel até meus pés.

Um flyer.

SHOW ÚNICO.

Sorri sozinho.

Antes de me liquidar, vou cheirar a noite inteira até vomitar.

O lugar estava lotado.

Corpos apertados uns contra os outros, suor escorrendo pelas paredes, cheiro de cigarro, cerveja quente e desejo humano apodrecendo no ar.

Aquilo era lindo.A bebida já tentava me nocautear quando fui ao banheiro e enfiei dois dedos na garganta. Vomitei uma mistura negra na pia rachada enquanto as luzes vermelhas piscavam sobre minha cabeça.

Então ouvi novamente.

A voz.

Amyl.

Meu coração — ou qualquer coisa equivalente a isso — disparou.

Saí tropeçando pelo corredor.

Empurrei pessoas.

Derrubei alguém.

E então a vi.No palco.

Magnífica.

Violenta.

Pequena demais para conter aquela presença absurda.

Os shorts curtos.

As pernas cobertas de suor.

O mullet sacudindo sob as luzes.

E aquele sorriso…

Aquele sorriso sacana de quem sabe exatamente o efeito que causa no mundo.

Ela gritava no microfone como se estivesse rasgando a própria realidade.

E talvez estivesse.Porque naquele instante tive certeza:

foi aquela voz que me puxou através do vazio entre os mundos.

Corri até ela.

Queria tocá-la.

Beijá-la.

Talvez morrer ali mesmo.

O segurança me agarrou pelo pescoço antes que eu alcançasse o palco.

Fui arremessado no chão como lixo.

Ainda tentei levantar, rindo sozinho enquanto sangue escorria da minha boca.

Do palco, Amyl me viu.E sorriu.

Juro que sorriu para mim.

Depois fui jogado de volta na sarjeta molhada de Glasgow.

Fiquei deitado olhando o céu cinza da Terra enquanto o som das guitarras atravessava as paredes do clube e vibrava dentro dos meus ossos.

Depois de séculos vagando pelo vazio absoluto…

Finalmente senti alguma coisa.

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u/lobocelestino15 — 6 days ago

Poesia pública aqui, só chegar!

Quero propor uma experiência de poesia colaborativa para todas pessoas daqui que sentem falta de mais interação na comunidade, algo nem melhor nem pior só diferente de apenas ver a própria poesia e a das outras pessoas na vitrine fria do feed do dia a dia. Não tem nenhuma regra só continuar como quiser.

....:

boto muita fé em boa parte dos autores aqui e sei que vai aparecer alguém, tem muita gente genial cheio de coisas para serem ditas. Mas se eu pudesse escolher entre up vote e uma pequena frase iria pedir pra você a frase. Qual é poetas e poetisas não sejam tímidos!?

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u/ComprehensiveFun6914 — 7 days ago

As coisas apodrecem na água

Acordei com o som da chuva golpeando a janela.

Minha cachorrinha dormia encolhida no pé da cama, respirando rápido enquanto sonhava. Minha esposa já havia saído para trabalhar. O lado dela no colchão ainda guardava um pouco de calor.

Fiquei alguns segundos olhando o teto escurecido do apartamento. Havia algo estranho naquela manhã. Talvez a ausência de pássaros. Talvez o modo como a luz parecia doente.

Ou talvez eu apenas estivesse cansado de existir.

Levantei, vesti-me e saí para o trabalho.

No corredor, minha vizinha fechava a porta do apartamento dela. Era uma mulher magra demais, olhos fundos demais, silenciosa demais. Sempre me olhava como se soubesse alguma coisa sobre mim que eu próprio desconhecia.

Quando me viu, desviou os olhos imediatamente.

— Bom dia pra você também... — murmurei.

Ela não respondeu.

O elevador demorou uma eternidade. Quando cheguei ao saguão do prédio, encontrei dezenas de moradores aglomerados perto da entrada. O porteiro tentava inutilmente conter a multidão.

A chuva despencava lá fora como um muro cinza.

— O que houve? — perguntei.

Um homem de barba malfeita respondeu sem sequer me encarar:

— A avenida inundou. A água tá subindo rápido demais.

Fiquei observando a rua. Os carros boiavam lentamente correnteza abaixo, girando como brinquedos esquecidos. Sem buzinas. Sem gritos. Apenas água.

As horas passaram.

Ninguém conseguiu sair do prédio.

No começo, todos ainda agiam como pessoas civilizadas. Alguns riam nervosamente, outros faziam piadas sobre o “fim do mundo”. Mas o riso humano dura pouco diante do inevitável.

Voltei para o apartamento quando anoiteceu.

Liguei para minha esposa.

Nada.

Nem chamada. Nem caixa postal. Apenas silêncio.

Minha cachorrinha me observava da cozinha, imóvel, orelhas baixas.

— Ei... calma. É só chuva.

Minha voz saiu fraca até para mim.

Ela soltou um gemido baixo.

Naquela noite, a energia caiu.

E não voltou mais.

Os dias seguintes dissolveram-se uns dentro dos outros. A chuva permanecia constante, brutal, infinita. Dormíamos ouvindo água. Acordávamos ouvindo água. Comíamos ouvindo água.

O prédio começou a apodrecer.

As paredes criaram manchas escuras. O teto pingava sem parar. O mofo espalhava-se pelos corredores como uma doença viva. O cheiro de umidade impregnava roupas, pele, comida.

A água subiu além das avenidas.

Depois além dos semáforos.

Depois além do primeiro andar.

As pessoas pararam de perguntar quando aquilo acabaria.

O síndico organizou reuniões para racionar alimentos. Falava com firmeza, tentando manter alguma aparência de ordem. Mas bastou a fome apertar para todos mostrarem o que realmente eram.

Os mais fortes roubavam.

Os mais fracos desapareciam.

Às vezes alguém gritava durante a madrugada. Às vezes alguém se jogava da cobertura. Depois de um tempo, ninguém mais corria para impedir.

A morte tornou-se apenas parte da rotina do condomínio.

Continuei esperando minha esposa voltar.

No começo, eu ainda acreditava.

Depois, apenas fingia acreditar.

Minha cachorrinha tornou-se a única presença viva que ainda parecia me reconhecer naquele mundo afogado. Ela dormia ao meu lado enquanto eu observava a chuva pela janela, tentando lembrar como era o som do sol.

Certa tarde, voltei de uma caminhada pelos corredores escuros do prédio e encontrei a porta do apartamento entreaberta.

Senti imediatamente o cheiro.

Ferrugem.

Carne.

Podridão.

— Olá...? Tem alguém aí?

Nenhuma resposta.

Então ouvi um som abafado vindo do quarto.

Um ganido fraco.

Corri.

E parei na porta.

Minha vizinha estava ajoelhada no chão.

Comia minha cachorrinha.

Abocanhava o pescoço dela lentamente, os dentes rasgando a pele úmida. Os olhos da mulher estavam vazios, fundos, distantes. Não havia raiva nem prazer ali.

Apenas fome.

Minha cachorrinha ainda se mexia.

As patas tremiam fraco contra o piso.

Não consegui fazer nada.

Meu corpo simplesmente desligou.

Fiquei parado olhando enquanto aquela mulher mastigava pedaços da única criatura que ainda me amava naquele mundo.

Depois de algum tempo, ela se levantou.

Passou por mim sem dizer palavra.

Sem sequer me enxergar.

Como um cadáver andando.

Não sei quanto tempo fiquei ali.

Horas talvez.

Dias talvez.

O apartamento inteiro cheirava à decomposição quando finalmente consegui me mover.

Enrolei o pequeno corpo num lençol.

Subi até a cobertura.

A chuva continuava.

Imensa.

Infinita.

A cidade desaparecera sob a água havia muito tempo. Fortaleza agora era apenas um oceano escuro salpicado por prédios moribundos. Nenhuma luz existia mais. Nenhum som humano. Apenas chuva.

Sempre chuva.

Aproximei-me da borda e olhei para baixo.

A antiga avenida, onde pessoas corriam atrasadas para o trabalho, onde motos buzinavam e crianças atravessavam segurando mochilas, agora era um rio negro carregando destroços.

Respirei fundo.

E joguei o corpinho dela.

Fiquei observando o lençol branco desaparecer lentamente na correnteza.

Sentei ali mesmo e chorei.

Deixei a chuva lavar minha dor.

E talvez me levasse junto também.

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u/lobocelestino15 — 7 days ago

Pensamentos do álcool

​

Morte, venha até mim

Eu te aguardo

Corri de ti por muito tempo

E hoje medo de ti não tenho

Pois tu és uma condição inevitável do ser

E eu hei de te encontrar algum dia

Então venha

Pois medo não tenho

Mas saiba que,

se a mim não vieres hoje,

eu hei de viver

E viverei bem

Pois medo não mais tenho de ti

Afinal, como temer o inevitável?

E você nada mais é do que um ponto

Mas sempre após um ponto há a contemplação

A mim, tu não me assustas mais

Tu não me tornas incapaz de sonhar

Pois sonhos transcendem o medo

Sonhos são eternos e eles vivem

Seja aqui ou no depois,

são matérias do pensamento que se destacam

Talvez pela audaciosidade

Mas enfim,

esses escritos são para mim

Quero lembrar do dia em que finalmente entendi

Que você nada mais é do que a manifestação do medo que reside no ser

Que ama tanto a vida que um dia temeu morrer

Mas por quê?

Por que viver com medo,

se ele coíbe o viver

E mina o ser?

Quero a mim pertencer e não mais temer

Então a ti digo: que se foda

Não irei abaixar a cabeça para medos novamente

Traga a mim o seu pior, que irei encarar sem medo

E, se algum dia inevitavelmente te encontrar,

Quero que saibas que a cabeça não irei abaixar

Vou te encarar e recontar

A vida que você ousou tirar

E eu, já sem ar, vou respirar novamente

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u/Far-Patient2345 — 10 days ago
▲ 8 r/rapidinhapoetica+1 crossposts

Estou amando

estou amando

o que eu sinto por você é real

— agora tenho asas

é melhor parar

— rosnou um bêbado sabido

"essa estrada eu conheço

não tem caminho de volta,

é beco sem saída"

você comprou o bilhete de ida

— suas asas foram cortadas

na alegria e

na tristeza

na saúde e

na doença

na riqueza e

na pobreza

— você não tem escolha

"pobrezinho" bocejou em silêncio

um outro bêbado que acompanhava a cerimônia sem entusiasmo

"ele ainda acredita que pode escolher"

até que a morte os separe

— você perdeu a identidade

o amor é algo sobrenatural e você

você é

corpo

alma

espírito

barulho

sussurro

fumaça

neblina

sombra

eco

desconhecido

sem forma

sem definição

alma

sem definição

alma

sem forma

-Tetris

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u/Itchy-Composer-8156 — 13 days ago

Quase

do que você

do que você

do que você

não é repetição

não é repetição

é o que sobra quando se tenta lembrar sem poder escolher o que ficando–fica

se aproxima

escorre

tateia

mas não pega

segura mas

não captura

captura mas

foge

o que volta

não volta

fica parecido com voltar

mas tudo insiste em orbitar um lugar que deixou de existir

do que eu estava falando mesmo?

LEMBREI

do que mesmo?

do que não lembro

deslembro

volta um dia

não sei

volta?

–Tetris

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u/Itchy-Composer-8156 — 12 days ago