Ultimamente as coisas estão quase insuportáveis para um pequeno verme. (Leia pfv)
Meu pequeno verme
Meu querido verme, já faz algum tempo que você está aqui.
Você ocupa um espaço dentro de mim como se fosse invisível, como se sua existência pudesse passar despercebida entre os cantos escuros onde se esconde. Anda em silêncio, rastejando pelas paredes da minha mente, fingindo que não deixa marcas.
Mas eu peço, por gentileza, que tome consciência da sua presença. Perceba o peso que carrega. Perceba o espaço que ocupa.
Meu querido verme, não me leve a mal. Eu conheço você antes mesmo de conhecer a mim mesmo. Talvez você tenha nascido antes dos meus próprios pensamentos, antes das minhas certezas, antes de qualquer coisa que eu pudesse chamar de "eu".
Mas já faz algum tempo que todos parecem incomodados com sua presença.
Aqueles que nunca tocaram em você jamais irão compreender. Eles não entendem seus movimentos lentos, sua maneira de rastejar pelos cantos mais esquecidos, sua necessidade de se esconder onde ninguém olha.
Para eles, você é estranho. Para eles, você não pertence.
Dizem que você deveria ir embora, que esse lugar nunca foi seu. Dizem que o mundo não foi feito para criaturas como você. Que você insiste em permanecer aqui apenas por teimosia, como uma criança agarrada a algo que nunca poderá ter.
Mas eu não entendo, meu querido verme.
Se você tanto odeia este lugar, por que continua aqui?
Se tantas vezes sussurrou que não queria existir, por que ainda se prende a essa casca vazia?
Você nunca me responde.
Meu querido verme, eu vejo agora aquilo que sempre esteve diante de mim.
Você nunca esteve aqui de passagem.
Você nunca foi um hóspede.
Esta é a sua casa.
Você construiu morada dentro de mim, espalhou raízes onde eu pensava existir apenas vazio. Você grita quando tento ignorar, chora quando tento esquecer, sussurra durante noites em que tudo parece silencioso demais.
E eu finalmente entendo: eu não sou separado de você.
Eu sou apenas a casca que carrega sua existência.
Sem você, não existe eu.
Mas isso não significa que somos iguais.
Existe uma linha invisível entre nós.
Eu sou a carne. O corpo. O instinto. A reação biológica que se move pelo mundo sem compreender completamente a própria existência.
Você é aquilo que permanece acordado quando tudo dorme.
Você é a voz que ninguém escuta.
Você é aquilo que sente, aquilo que sofre, aquilo que transforma pequenas feridas em abismos.
Você é a parte de mim que lentamente me consome.
E ainda assim, sem você, eu seria apenas matéria vazia.
Então talvez você seja eu.
Talvez eu seja você.
Talvez nunca tenha existido uma separação real, apenas uma ilusão criada por uma mente tentando fugir de si mesma.
Meu pequeno verme.
Uma pequena larva presa dentro de uma casca que nunca escolheu.
Ambiciosa demais para aceitar sua própria prisão. Teimosa demais para desistir. Condenada a rastejar pelos mesmos caminhos, carregando o peso de ser exatamente aquilo que é.
Você olha para fora e vê um mundo que nunca pareceu feito para você.
Olha para dentro e encontra apenas paredes.
Você tenta mudar, tenta escapar, tenta se transformar em algo diferente, mas sempre retorna ao mesmo lugar.
Porque talvez essa seja a sua maior condenação:
não conseguir fugir de si mesmo.
Ser obrigado a existir com a própria consciência como uma sombra inseparável.
Eu sinto muito, pequeno verme.
Sinto muito por essa existência que você carrega.
Mas talvez seja isso que somos.
Eu e você.
A carne e a voz.
A casca e aquilo que vive dentro dela.
Uma criatura incompleta tentando encontrar sentido enquanto rasteja no escuro.
Essa é a nossa existência.
Pequena.
Frágil.
E talvez, para nós, inevitável.