u/Such_Neighborhood612

Casca vazia

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Sou uma arquitetura de superfície — um rosto lapidado em gestos exatos, uma máscara que respira por hábito. Por dentro, não há carne, nem pulsação: apenas o pó morno de um incêndio antigo, cinzas que ainda guardam a memória do que já foi chama.

Algo ardeu aqui. Algo viveu, consumiu, iluminou.

Agora resta o eco térmico daquilo que não sou mais.

A casca não sente — ela simula. Não pensa — repete. Move-se como um mecanismo obediente, enquanto ao redor se forma um oceano de pequenas ruínas: mágoas deixadas como destroços de tudo o que ela toca sem perceber que fere.

E quem ousa atravessar essa superfície… encontra apenas fragmentos.

Cacos de um interior que já foi inteiro, agora disperso, cortante, irreconhecível.

Há um exílio silencioso em habitar a própria mente.

Sou estrangeiro nos meus pensamentos, visitante nas minhas emoções. Nada me pertence completamente — tudo me atravessa como vento em um espaço abandonado.

E ainda assim, falo.

E ainda assim, escuto.

Talvez seja isso que somos no fim:

estruturas ocas trocando ecos,

abismos tentando dialogar,

vazios que, por um instante, fingem preencher uns aos outros —

antes de voltarem ao seu silêncio original.

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u/Such_Neighborhood612 — 4 days ago

Castelo mental

Desde pequena eu carrego uma desconexão profunda com a realidade. Nunca consegui aceitar verdadeiramente o mundo, a maneira como as coisas funcionam, a própria essência do universo me causava estranhamento. Existir sempre pareceu artificial dentro de mim, como se eu tivesse sido colocada em um lugar incompatível com aquilo que sou.

Coisas consideradas simples para os outros, como relacionamentos, afeto ou pertencimento, nunca fizeram sentido aos meus olhos. Eu observava as pessoas vivendo naturalmente dentro da realidade enquanto, dentro de mim, tudo parecia distante, quase incompreensível. Era como assistir a humanidade através de um vidro grosso, incapaz de realmente tocar aquilo.

Então comecei a construir um lugar dentro da minha mente.

Um pequeno castelo silencioso, moldado para suportar minha existência. Um mundo que se adaptava a mim da forma que a realidade nunca conseguiu. E eu vivi nele por tanto tempo que suas paredes cresceram junto comigo. Quanto mais eu crescia, mais complexo ele se tornava. Corredores infinitos, pensamentos infinitos, versões infinitas de uma vida onde eu finalmente conseguia respirar.

Eu me apeguei tanto àquela falsa morada que comecei a rejeitar o mundo ao meu redor. A realidade passou a soar invasiva, cruel, insuportavelmente rígida. E daquela desconexão nasceu um ódio profundo — não necessariamente pelas pessoas, mas pela própria estrutura da existência.

Mas com o tempo até o ódio se desgastou.

Ele deixou de ser fogo e se transformou em algo pior: uma agonia silenciosa. Uma sensação constante de estar presa em um lugar onde minha alma jamais conseguiu criar raízes. Como um corpo ocupando um espaço que nunca lhe pertenceu.

Durante muito tempo busquei a morte compulsivamente, acreditando que ela seria a saída definitiva para tudo aquilo. Mas um dia compreendi algo que me destruiu de maneira diferente: a morte ainda faz parte da realidade. Ela ainda pertence ao universo que sempre me causou estranhamento.

E então percebi que nunca foi a morte que eu realmente desejei.

O que eu buscava, no fundo, era a não existência.

Não sentir. Não nascer. Não ter sido lançada dentro dessa consciência.

E aquele castelo que construí durante tantos anos… eu finalmente entendi o que ele era. Não um lar, não um refúgio verdadeiro, mas um filtro delicado entre mim e a realidade. Uma estrutura criada pela minha mente para tornar suportável continuar existindo.

Sem ele, restou apenas a percepção crua da existência.

E eu sei que não posso voltar atrás. Sei que desejar nunca ter nascido é um pensamento impossível, sem solução real. Então transformo isso em palavras. Escrevo histórias, poemas, fragmentos. Porque escrever é a única maneira que encontrei de dar forma ao vazio sem ser completamente consumida por ele.

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u/Such_Neighborhood612 — 4 days ago

Por favor leia, não vai levar muito tempo so quero saber que alguém ta escutando.

Por quanto tempo um peixe consegue viver fora da água ate ficar sem ar?

Nao era para eu existir em meio a tanta agonia.

Nunca consegui pertencer ao universo, à terra, às pessoas, nem mesmo ao ventre que me trouxe até aqui. Existe um fantasma preso dentro desta casca desde o primeiro instante, uma presença cansada demais para continuar respirando entre ossos e carne.

A cada dia, ele sente as paredes ficando menores, como se o próprio corpo tentasse expulsá-lo de si mesmo. Como se esta pele apertada não suportasse mais guardar algo tão antigo e ferido. Talvez esse seja o verdadeiro nascimento: não o momento em que se chega ao mundo, mas o instante em que a alma já não consegue permanecer aprisionada naquilo que a sufoca.

Mas a mudança o apavora.

Ele nunca soube caminhar entre despedidas. Nunca soube abandonar ruínas, mesmo quando elas o esmagavam lentamente.

Ainda assim, este parece ser o único caminho restante.

Partir desta casa. Partir desta vida que o prende pelos tornozelos como correntes invisíveis.

E então surge o medo:

quanto tempo levaria para que os outros parassem de repudiar sua existência?

Quanto tempo até seu nome desaparecer da boca das pessoas como poeira levada pelo vento?

Viver tem machucado de um jeito cruel.

Às vezes tudo o que ele deseja é se esconder debaixo da cama, encolhido no escuro, até que a tempestade dentro do peito finalmente cesse.

Ele não quer ser amado.

Não quer ser cuidado.

Não quer ser odiado.

Só quer, pela primeira vez, ser compreendido.

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u/Such_Neighborhood612 — 4 days ago