Casca vazia
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Sou uma arquitetura de superfície — um rosto lapidado em gestos exatos, uma máscara que respira por hábito. Por dentro, não há carne, nem pulsação: apenas o pó morno de um incêndio antigo, cinzas que ainda guardam a memória do que já foi chama.
Algo ardeu aqui. Algo viveu, consumiu, iluminou.
Agora resta o eco térmico daquilo que não sou mais.
A casca não sente — ela simula. Não pensa — repete. Move-se como um mecanismo obediente, enquanto ao redor se forma um oceano de pequenas ruínas: mágoas deixadas como destroços de tudo o que ela toca sem perceber que fere.
E quem ousa atravessar essa superfície… encontra apenas fragmentos.
Cacos de um interior que já foi inteiro, agora disperso, cortante, irreconhecível.
Há um exílio silencioso em habitar a própria mente.
Sou estrangeiro nos meus pensamentos, visitante nas minhas emoções. Nada me pertence completamente — tudo me atravessa como vento em um espaço abandonado.
E ainda assim, falo.
E ainda assim, escuto.
Talvez seja isso que somos no fim:
estruturas ocas trocando ecos,
abismos tentando dialogar,
vazios que, por um instante, fingem preencher uns aos outros —
antes de voltarem ao seu silêncio original.