Amyl
Sou um ser extradimensional.
Tenho algo em torno de quatrocentos e oitenta anos — talvez mais. Depois de certo tempo, séculos começam a parecer apenas intervalos longos entre bebedeiras.
Como vim parar aqui?
Não faço ideia.
Só sei que existe dentro de mim uma necessidade absurda de encher a cara, fumar qualquer porcaria disponível e tocar guitarra até meus dedos sangrarem.
Minha família ainda está em algum lugar do universo.Às vezes sinto isso.
Como um reflexo distante atravessando o vazio.
Vaguei durante séculos pelo espaço morto. Planetas sem nome. Estruturas orbitando estrelas apagadas. Coisas antigas demais até para serem chamadas de ruínas.
Então ouvi a voz dela.
Amyl.
Não exatamente uma voz.
Mais como um rasgo.
Uma frequência atravessando dimensões.
Despertei.Precisava daquilo outra vez.
Daquela loucura.
Daquela sujeira viva.
Então caí neste mundo.
Na Terra.
Passei semanas vagando entre cidades úmidas, bares decadentes e apartamentos infestados de mofo, procurando o grito daquela mulher como um fanático religioso atrás de uma divindade perdida.
Onde você está, Amyl?Numa madrugada qualquer, sentado numa calçada imunda de Glasgow, o vento trouxe um papel até meus pés.
Um flyer.
SHOW ÚNICO.
Sorri sozinho.
Antes de me liquidar, vou cheirar a noite inteira até vomitar.
O lugar estava lotado.
Corpos apertados uns contra os outros, suor escorrendo pelas paredes, cheiro de cigarro, cerveja quente e desejo humano apodrecendo no ar.
Aquilo era lindo.A bebida já tentava me nocautear quando fui ao banheiro e enfiei dois dedos na garganta. Vomitei uma mistura negra na pia rachada enquanto as luzes vermelhas piscavam sobre minha cabeça.
Então ouvi novamente.
A voz.
Amyl.
Meu coração — ou qualquer coisa equivalente a isso — disparou.
Saí tropeçando pelo corredor.
Empurrei pessoas.
Derrubei alguém.
E então a vi.No palco.
Magnífica.
Violenta.
Pequena demais para conter aquela presença absurda.
Os shorts curtos.
As pernas cobertas de suor.
O mullet sacudindo sob as luzes.
E aquele sorriso…
Aquele sorriso sacana de quem sabe exatamente o efeito que causa no mundo.
Ela gritava no microfone como se estivesse rasgando a própria realidade.
E talvez estivesse.Porque naquele instante tive certeza:
foi aquela voz que me puxou através do vazio entre os mundos.
Corri até ela.
Queria tocá-la.
Beijá-la.
Talvez morrer ali mesmo.
O segurança me agarrou pelo pescoço antes que eu alcançasse o palco.
Fui arremessado no chão como lixo.
Ainda tentei levantar, rindo sozinho enquanto sangue escorria da minha boca.
Do palco, Amyl me viu.E sorriu.
Juro que sorriu para mim.
Depois fui jogado de volta na sarjeta molhada de Glasgow.
Fiquei deitado olhando o céu cinza da Terra enquanto o som das guitarras atravessava as paredes do clube e vibrava dentro dos meus ossos.
Depois de séculos vagando pelo vazio absoluto…
Finalmente senti alguma coisa.