u/lobocelestino15

Amyl

Sou um ser extradimensional.

Tenho algo em torno de quatrocentos e oitenta anos — talvez mais. Depois de certo tempo, séculos começam a parecer apenas intervalos longos entre bebedeiras.

Como vim parar aqui?

Não faço ideia.

Só sei que existe dentro de mim uma necessidade absurda de encher a cara, fumar qualquer porcaria disponível e tocar guitarra até meus dedos sangrarem.

Minha família ainda está em algum lugar do universo.Às vezes sinto isso.

Como um reflexo distante atravessando o vazio.

Vaguei durante séculos pelo espaço morto. Planetas sem nome. Estruturas orbitando estrelas apagadas. Coisas antigas demais até para serem chamadas de ruínas.

Então ouvi a voz dela.

Amyl.

Não exatamente uma voz.

Mais como um rasgo.

Uma frequência atravessando dimensões.

Despertei.Precisava daquilo outra vez.

Daquela loucura.

Daquela sujeira viva.

Então caí neste mundo.

Na Terra.

Passei semanas vagando entre cidades úmidas, bares decadentes e apartamentos infestados de mofo, procurando o grito daquela mulher como um fanático religioso atrás de uma divindade perdida.

Onde você está, Amyl?Numa madrugada qualquer, sentado numa calçada imunda de Glasgow, o vento trouxe um papel até meus pés.

Um flyer.

SHOW ÚNICO.

Sorri sozinho.

Antes de me liquidar, vou cheirar a noite inteira até vomitar.

O lugar estava lotado.

Corpos apertados uns contra os outros, suor escorrendo pelas paredes, cheiro de cigarro, cerveja quente e desejo humano apodrecendo no ar.

Aquilo era lindo.A bebida já tentava me nocautear quando fui ao banheiro e enfiei dois dedos na garganta. Vomitei uma mistura negra na pia rachada enquanto as luzes vermelhas piscavam sobre minha cabeça.

Então ouvi novamente.

A voz.

Amyl.

Meu coração — ou qualquer coisa equivalente a isso — disparou.

Saí tropeçando pelo corredor.

Empurrei pessoas.

Derrubei alguém.

E então a vi.No palco.

Magnífica.

Violenta.

Pequena demais para conter aquela presença absurda.

Os shorts curtos.

As pernas cobertas de suor.

O mullet sacudindo sob as luzes.

E aquele sorriso…

Aquele sorriso sacana de quem sabe exatamente o efeito que causa no mundo.

Ela gritava no microfone como se estivesse rasgando a própria realidade.

E talvez estivesse.Porque naquele instante tive certeza:

foi aquela voz que me puxou através do vazio entre os mundos.

Corri até ela.

Queria tocá-la.

Beijá-la.

Talvez morrer ali mesmo.

O segurança me agarrou pelo pescoço antes que eu alcançasse o palco.

Fui arremessado no chão como lixo.

Ainda tentei levantar, rindo sozinho enquanto sangue escorria da minha boca.

Do palco, Amyl me viu.E sorriu.

Juro que sorriu para mim.

Depois fui jogado de volta na sarjeta molhada de Glasgow.

Fiquei deitado olhando o céu cinza da Terra enquanto o som das guitarras atravessava as paredes do clube e vibrava dentro dos meus ossos.

Depois de séculos vagando pelo vazio absoluto…

Finalmente senti alguma coisa.

reddit.com
u/lobocelestino15 — 6 days ago

Às portas do rei

Nota encontrada junto aos documentos do caso

Os textos a seguir foram encontrados em um caderno de anotações na residência onde dois homens foram localizados mortos na madrugada de 14 de outubro.

Grande parte das páginas apresentava manchas de umidade, trechos ilegíveis e forte odor de deterioração. Algumas datas aparentam ter sido escritas posteriormente ou alteradas pelo próprio autor.

Não foi possível determinar se os relatos descrevem eventos reais, episódios de transtorno psicológico progressivo ou algum tipo de delírio induzido.

As anotações foram organizadas cronologicamente na medida do possível.

O conteúdo integral foi preservado.

17 de setembro

O que mais me surpreendeu não foi descobrir que meu pai estava vivo.

Foi vê-lo voltar.

Como?

Seu avião desaparecera enquanto sobrevoava o Triângulo das Bermudas. Nenhum destroço. Nenhum corpo. Nenhum sinal.

Vinte anos de silêncio.

Vinte anos esperando uma ligação impossível.

Minha mãe não suportou. Durante anos fingiu acreditar que ele apareceria na porta numa manhã qualquer, carregando malas e sorrindo como quem volta de uma viagem banal.

Cinco anos depois do desaparecimento, morreu dormindo.

Agora estou aqui.

O homem sentado diante de mim usa o rosto do meu pai, mas parece vazio por dentro. Os olhos permanecem perdidos em algum ponto distante, como se ainda observassem algo que não consigo ver.

Um vegetal.

Mesmo assim, seguro suas mãos ossudas e pergunto:

— O que aconteceu com você? Onde esteve esse tempo todo?

Nenhuma resposta.

Apenas respiração.

Inclino a cabeça e sorrio sem vontade.

— Não importa. Vou cuidar de você até o fim.

18 de setembro

Enquanto desfazia suas bagagens, encontrei um pequeno livro de bolso escondido entre roupas úmidas e objetos deteriorados pelo tempo.

A capa amarela estava enrugada. As páginas tinham manchas escuras e um cheiro estranho, parecido com mofo e ferrugem.

Na primeira folha havia apenas um título rabiscado à mão:

As Portas do Rei

Folheei algumas páginas. O texto parecia desconexo, escrito como um delírio febril.

Guardei o livro no criado-mudo.

Talvez eu o lesse depois.

21 de setembro — 4h12 da manhã

Acordei com os gritos do velho.

Corri até seu quarto e o encontrei sentado na cama, tremendo.

— Ele está me olhando — sussurrava. — O rei… o rei me encontrou de novo…

Tentei acalmá-lo, mas ele agarrou meu braço com uma força absurda para alguém naquela condição.

— Ele vai me levar.

Passei o restante da madrugada sentado ao lado dele.

29 de setembro

Faz um mês que cuido do meu pai.

É difícil.

Às vezes sinto raiva dele sem motivo.

Outras vezes me pego encarando seu rosto por longos minutos, tentando descobrir em que momento alguém deixa de ser humano e se transforma apenas em carne esperando a morte.

Mas vou aguentar.

Preciso aguentar.

2 de outubro

Comecei a ler o livro.

5 de outubro — madrugada

Acordei com a sensação de que havia alguém no quarto.

Uma figura alta me observava ao lado da porta.

Vestia um manto amarelo esfarrapado que parecia se mover sozinho dentro da escuridão.

Meu coração disparou.

Peguei a carabina escondida sob a cama e apontei para o vulto.

Então acendi a luz.

Era meu pai.

Estava imóvel no meio do quarto, encarando-me.

Por alguns segundos permaneci sem conseguir respirar.

Depois ri nervosamente.

— Caralho, velho… quase estouro os miolos que ainda sobraram aí dentro.

Ele não reagiu.

Continuou apenas olhando.

Não dormi

O livro era estranho.

Hipnótico.

Devorei-o em poucos dias.

Agora sinto um vazio difícil de explicar.

Como se algo tivesse sido arrancado de dentro de mim enquanto eu lia.

Às vezes tenho a impressão de que existe alguém parado atrás de mim.

Sempre que me viro, não há ninguém.

10 de outubro

Precisei sair para resolver algumas coisas na cidade e pedi para minha vizinha cuidar do velho por algumas horas.

Ela aceitou.

Boa mulher.

Ainda existem pessoas boas no mundo.

Poucas.

Mais tarde

Quando voltei, encontrei-a sentada na varanda da casa dela, chorando.

Assim que me viu, levantou rapidamente.

— Eu não consegui ficar lá dentro.

Perguntei o que havia acontecido.

Ela esfregou os braços, trêmula.

— Aquele cheiro… meu Deus… parecia carne podre. E seu pai… ele ficava me olhando… não consegui nem chegar perto dele.

Olhei para dentro da minha casa.

Tudo parecia normal.

Nenhum odor.

Nada.

Agradeci pela ajuda e entrei.

Ela nunca mais voltou ali.

12 de outubro

Enquanto dava banho no velho, ele se inclinou lentamente em direção ao meu ouvido.

Sua voz saiu baixa, úmida.

— Não olhe agora… mas ele acabou de chegar.

Naquele instante o ambiente mudou.

Foi como mergulhar num lugar sem ar.

Senti uma pressão esmagadora dentro da cabeça. Meu peito travou. O cheiro de podridão tomou conta do banheiro.

Alguma coisa estava atrás de mim.

Eu sabia.

Não conseguia me mover.

Meu pai sorria.

Um sorriso horrível.

Então ouvi passos.

Lentos.

Pesados.

Cada vez mais próximos.

Antes que aquilo me tocasse, desmaiei.

Não sei quanto tempo passou

Quando acordei, estava sozinho no banheiro.

Meu pai havia voltado ao estado vegetativo de sempre.

Coloquei-o na cama e fui fumar na varanda.

Minhas mãos não paravam de tremer.

13 de outubro

A polícia esteve aqui hoje.

Minha vizinha se matou.

Perguntaram se notei algo estranho nela nos últimos dias.

Menti.

Não mencionei o cheiro.

Nem o livro.

Nem a luz.

Noite

Enquanto fumava no jardim, fiquei observando a casa vazia da vizinha.

Todas as janelas estavam fechadas.

Menos uma.

A do andar superior.

Enquanto encarava a escuridão lá dentro, percebi uma luz âmbar surgir lentamente no quarto.

Meu corpo inteiro gelou.

A luz ficou mais forte.

Mais intensa.

Não consegui ignorar.

Atravessei a rua, tentei abrir a porta da frente, mas estava trancada.

Então peguei uma escada e subi até a janela aberta.

O quarto estava vazio.

Mas a parede…

A parede inteira havia sido pintada de amarelo.

No centro dela, escrito com letras enormes e tortas:

O REI ESTÁ AQUI

Logo abaixo havia um círculo negro desenhado de maneira frenética, como se alguém tivesse enlouquecido enquanto o fazia.

Senti vontade de vomitar.

Então ouvi passos.

Olhei pela janela.

Meu pai caminhava lentamente dentro da minha casa.

Não encontro meu pai.

E alguém está tentando entrar.

3h da manhã

As batidas começaram há horas.

Estou sentado no escuro com a carabina apoiada no colo.

Seja lá o que estiver lá fora, não vai me pegar fácil.

5h da manhã

A energia acabou.

As batidas ficaram mais fortes.

Ouço a porta da frente ceder.

Passos pela casa.

Lentos.

Arrastados.

Agora estão diante do quarto.

TOC.

TOC.

TOC.

Levanto devagar e aponto a arma para a porta.

— Quem está aí?

Silêncio.

Então:

— Filho… sou eu…

Meu pai.

Sinto as pernas fraquejarem.

— Pai?

— Abra a porta. Estou bem agora.

Algo dentro de mim grita para que eu não faça isso.

— Venha nos ver.

Nos.

Meu sangue congela.

— Quem está com você?

Silêncio.

Depois:

— O rei.

Aperto a arma com tanta força que os dedos doem.

— Abra, filho. Meu tempo acabou. Ele veio me buscar.

Fecho os olhos.

Quero acreditar que ainda existe alguma parte do meu pai ali fora.

Mesmo depois de tudo.

Mesmo sabendo.

Destranco a porta.

Uma corrente de ar invade o quarto.

O cheiro.

Meu Deus.

Aquele cheiro impossível.

Então vejo a luz âmbar pulsando na escuridão da sala.

Meu pai está parado nela.

Segurando a mão de alguma coisa.

Uma figura alta.

Coberta por mantos amarelos apodrecidos.

Ela estende a outra mão para mim.

E naquele instante compreendo que meu pai nunca voltou sozinho.

°°°°°

Relatório policial

Indivíduo masculino, aproximadamente quarenta anos, encontrado morto em decúbito dorsal na sala de estar.

Possível suicídio por disparo de arma de fogo abaixo da mandíbula.

Indivíduo masculino, aproximadamente oitenta anos, encontrado morto em decúbito ventral a cerca de cinco metros do primeiro corpo.

Possível homicídio por disparo de arma de fogo na região torácica.

Cena apresentava sinais severos de deterioração e odor pútrido incompatível com o estado dos cadáveres.

Frase encontrada pintada na parede com tinta amarela:

O REI ESTÁ AQUI.

reddit.com
u/lobocelestino15 — 6 days ago

Às portas do rei

Nota encontrada junto aos documentos do caso

Os textos a seguir foram encontrados em um caderno de anotações na residência onde dois homens foram localizados mortos na madrugada de 14 de outubro.

Grande parte das páginas apresentava manchas de umidade, trechos ilegíveis e forte odor de deterioração. Algumas datas aparentam ter sido escritas posteriormente ou alteradas pelo próprio autor.

Não foi possível determinar se os relatos descrevem eventos reais, episódios de transtorno psicológico progressivo ou algum tipo de delírio induzido.

As anotações foram organizadas cronologicamente na medida do possível.

O conteúdo integral foi preservado.

17 de setembro

O que mais me surpreendeu não foi descobrir que meu pai estava vivo.

Foi vê-lo voltar.

Como?

Seu avião desaparecera enquanto sobrevoava o Triângulo das Bermudas. Nenhum destroço. Nenhum corpo. Nenhum sinal.

Vinte anos de silêncio.

Vinte anos esperando uma ligação impossível.

Minha mãe não suportou. Durante anos fingiu acreditar que ele apareceria na porta numa manhã qualquer, carregando malas e sorrindo como quem volta de uma viagem banal.

Cinco anos depois do desaparecimento, morreu dormindo.

Agora estou aqui.

O homem sentado diante de mim usa o rosto do meu pai, mas parece vazio por dentro. Os olhos permanecem perdidos em algum ponto distante, como se ainda observassem algo que não consigo ver.

Um vegetal.

Mesmo assim, seguro suas mãos ossudas e pergunto:

— O que aconteceu com você? Onde esteve esse tempo todo?

Nenhuma resposta.

Apenas respiração.

Inclino a cabeça e sorrio sem vontade.

— Não importa. Vou cuidar de você até o fim.

18 de setembro

Enquanto desfazia suas bagagens, encontrei um pequeno livro de bolso escondido entre roupas úmidas e objetos deteriorados pelo tempo.

A capa amarela estava enrugada. As páginas tinham manchas escuras e um cheiro estranho, parecido com mofo e ferrugem.

Na primeira folha havia apenas um título rabiscado à mão:

As Portas do Rei

Folheei algumas páginas. O texto parecia desconexo, escrito como um delírio febril.

Guardei o livro no criado-mudo.

Talvez eu o lesse depois.

21 de setembro — 4h12 da manhã

Acordei com os gritos do velho.

Corri até seu quarto e o encontrei sentado na cama, tremendo.

— Ele está me olhando — sussurrava. — O rei… o rei me encontrou de novo…

Tentei acalmá-lo, mas ele agarrou meu braço com uma força absurda para alguém naquela condição.

— Ele vai me levar.

Passei o restante da madrugada sentado ao lado dele.

29 de setembro

Faz um mês que cuido do meu pai.

É difícil.

Às vezes sinto raiva dele sem motivo.

Outras vezes me pego encarando seu rosto por longos minutos, tentando descobrir em que momento alguém deixa de ser humano e se transforma apenas em carne esperando a morte.

Mas vou aguentar.

Preciso aguentar.

2 de outubro

Comecei a ler o livro.

5 de outubro — madrugada

Acordei com a sensação de que havia alguém no quarto.

Uma figura alta me observava ao lado da porta.

Vestia um manto amarelo esfarrapado que parecia se mover sozinho dentro da escuridão.

Meu coração disparou.

Peguei a carabina escondida sob a cama e apontei para o vulto.

Então acendi a luz.

Era meu pai.

Estava imóvel no meio do quarto, encarando-me.

Por alguns segundos permaneci sem conseguir respirar.

Depois ri nervosamente.

— Caralho, velho… quase estouro os miolos que ainda sobraram aí dentro.

Ele não reagiu.

Continuou apenas olhando.

Não dormi

O livro era estranho.

Hipnótico.

Devorei-o em poucos dias.

Agora sinto um vazio difícil de explicar.

Como se algo tivesse sido arrancado de dentro de mim enquanto eu lia.

Às vezes tenho a impressão de que existe alguém parado atrás de mim.

Sempre que me viro, não há ninguém.

10 de outubro

Precisei sair para resolver algumas coisas na cidade e pedi para minha vizinha cuidar do velho por algumas horas.

Ela aceitou.

Boa mulher.

Ainda existem pessoas boas no mundo.

Poucas.

Mais tarde

Quando voltei, encontrei-a sentada na varanda da casa dela, chorando.

Assim que me viu, levantou rapidamente.

— Eu não consegui ficar lá dentro.

Perguntei o que havia acontecido.

Ela esfregou os braços, trêmula.

— Aquele cheiro… meu Deus… parecia carne podre. E seu pai… ele ficava me olhando… não consegui nem chegar perto dele.

Olhei para dentro da minha casa.

Tudo parecia normal.

Nenhum odor.

Nada.

Agradeci pela ajuda e entrei.

Ela nunca mais voltou ali.

12 de outubro

Enquanto dava banho no velho, ele se inclinou lentamente em direção ao meu ouvido.

Sua voz saiu baixa, úmida.

— Não olhe agora… mas ele acabou de chegar.

Naquele instante o ambiente mudou.

Foi como mergulhar num lugar sem ar.

Senti uma pressão esmagadora dentro da cabeça. Meu peito travou. O cheiro de podridão tomou conta do banheiro.

Alguma coisa estava atrás de mim.

Eu sabia.

Não conseguia me mover.

Meu pai sorria.

Um sorriso horrível.

Então ouvi passos.

Lentos.

Pesados.

Cada vez mais próximos.

Antes que aquilo me tocasse, desmaiei.

Não sei quanto tempo passou

Quando acordei, estava sozinho no banheiro.

Meu pai havia voltado ao estado vegetativo de sempre.

Coloquei-o na cama e fui fumar na varanda.

Minhas mãos não paravam de tremer.

13 de outubro

A polícia esteve aqui hoje.

Minha vizinha se matou.

Perguntaram se notei algo estranho nela nos últimos dias.

Menti.

Não mencionei o cheiro.

Nem o livro.

Nem a luz.

Noite

Enquanto fumava no jardim, fiquei observando a casa vazia da vizinha.

Todas as janelas estavam fechadas.

Menos uma.

A do andar superior.

Enquanto encarava a escuridão lá dentro, percebi uma luz âmbar surgir lentamente no quarto.

Meu corpo inteiro gelou.

A luz ficou mais forte.

Mais intensa.

Não consegui ignorar.

Atravessei a rua, tentei abrir a porta da frente, mas estava trancada.

Então peguei uma escada e subi até a janela aberta.

O quarto estava vazio.

Mas a parede…

A parede inteira havia sido pintada de amarelo.

No centro dela, escrito com letras enormes e tortas:

O REI ESTÁ AQUI

Logo abaixo havia um círculo negro desenhado de maneira frenética, como se alguém tivesse enlouquecido enquanto o fazia.

Senti vontade de vomitar.

Então ouvi passos.

Olhei pela janela.

Meu pai caminhava lentamente dentro da minha casa.

Não encontro meu pai.

E alguém está tentando entrar.

3h da manhã

As batidas começaram há horas.

Estou sentado no escuro com a carabina apoiada no colo.

Seja lá o que estiver lá fora, não vai me pegar fácil.

5h da manhã

A energia acabou.

As batidas ficaram mais fortes.

Ouço a porta da frente ceder.

Passos pela casa.

Lentos.

Arrastados.

Agora estão diante do quarto.

TOC.

TOC.

TOC.

Levanto devagar e aponto a arma para a porta.

— Quem está aí?

Silêncio.

Então:

— Filho… sou eu…

Meu pai.

Sinto as pernas fraquejarem.

— Pai?

— Abra a porta. Estou bem agora.

Algo dentro de mim grita para que eu não faça isso.

— Venha nos ver.

Nos.

Meu sangue congela.

— Quem está com você?

Silêncio.

Depois:

— O rei.

Aperto a arma com tanta força que os dedos doem.

— Abra, filho. Meu tempo acabou. Ele veio me buscar.

Fecho os olhos.

Quero acreditar que ainda existe alguma parte do meu pai ali fora.

Mesmo depois de tudo.

Mesmo sabendo.

Destranco a porta.

Uma corrente de ar invade o quarto.

O cheiro.

Meu Deus.

Aquele cheiro impossível.

Então vejo a luz âmbar pulsando na escuridão da sala.

Meu pai está parado nela.

Segurando a mão de alguma coisa.

Uma figura alta.

Coberta por mantos amarelos apodrecidos.

Ela estende a outra mão para mim.

E naquele instante compreendo que meu pai nunca voltou sozinho.

°°°°°

Relatório policial

Indivíduo masculino, aproximadamente quarenta anos, encontrado morto em decúbito dorsal na sala de estar.

Possível suicídio por disparo de arma de fogo abaixo da mandíbula.

Indivíduo masculino, aproximadamente oitenta anos, encontrado morto em decúbito ventral a cerca de cinco metros do primeiro corpo.

Possível homicídio por disparo de arma de fogo na região torácica.

Cena apresentava sinais severos de deterioração e odor pútrido incompatível com o estado dos cadáveres.

Frase encontrada pintada na parede com tinta amarela:

O REI ESTÁ AQUI.

reddit.com
u/lobocelestino15 — 6 days ago

As coisas apodrecem na água

Acordei com o som da chuva golpeando a janela.

Minha cachorrinha dormia encolhida no pé da cama, respirando rápido enquanto sonhava. Minha esposa já havia saído para trabalhar. O lado dela no colchão ainda guardava um pouco de calor.

Fiquei alguns segundos olhando o teto escurecido do apartamento. Havia algo estranho naquela manhã. Talvez a ausência de pássaros. Talvez o modo como a luz parecia doente.

Ou talvez eu apenas estivesse cansado de existir.

Levantei, vesti-me e saí para o trabalho.

No corredor, minha vizinha fechava a porta do apartamento dela. Era uma mulher magra demais, olhos fundos demais, silenciosa demais. Sempre me olhava como se soubesse alguma coisa sobre mim que eu próprio desconhecia.

Quando me viu, desviou os olhos imediatamente.

— Bom dia pra você também... — murmurei.

Ela não respondeu.

O elevador demorou uma eternidade. Quando cheguei ao saguão do prédio, encontrei dezenas de moradores aglomerados perto da entrada. O porteiro tentava inutilmente conter a multidão.

A chuva despencava lá fora como um muro cinza.

— O que houve? — perguntei.

Um homem de barba malfeita respondeu sem sequer me encarar:

— A avenida inundou. A água tá subindo rápido demais.

Fiquei observando a rua. Os carros boiavam lentamente correnteza abaixo, girando como brinquedos esquecidos. Sem buzinas. Sem gritos. Apenas água.

As horas passaram.

Ninguém conseguiu sair do prédio.

No começo, todos ainda agiam como pessoas civilizadas. Alguns riam nervosamente, outros faziam piadas sobre o “fim do mundo”. Mas o riso humano dura pouco diante do inevitável.

Voltei para o apartamento quando anoiteceu.

Liguei para minha esposa.

Nada.

Nem chamada. Nem caixa postal. Apenas silêncio.

Minha cachorrinha me observava da cozinha, imóvel, orelhas baixas.

— Ei... calma. É só chuva.

Minha voz saiu fraca até para mim.

Ela soltou um gemido baixo.

Naquela noite, a energia caiu.

E não voltou mais.

Os dias seguintes dissolveram-se uns dentro dos outros. A chuva permanecia constante, brutal, infinita. Dormíamos ouvindo água. Acordávamos ouvindo água. Comíamos ouvindo água.

O prédio começou a apodrecer.

As paredes criaram manchas escuras. O teto pingava sem parar. O mofo espalhava-se pelos corredores como uma doença viva. O cheiro de umidade impregnava roupas, pele, comida.

A água subiu além das avenidas.

Depois além dos semáforos.

Depois além do primeiro andar.

As pessoas pararam de perguntar quando aquilo acabaria.

O síndico organizou reuniões para racionar alimentos. Falava com firmeza, tentando manter alguma aparência de ordem. Mas bastou a fome apertar para todos mostrarem o que realmente eram.

Os mais fortes roubavam.

Os mais fracos desapareciam.

Às vezes alguém gritava durante a madrugada. Às vezes alguém se jogava da cobertura. Depois de um tempo, ninguém mais corria para impedir.

A morte tornou-se apenas parte da rotina do condomínio.

Continuei esperando minha esposa voltar.

No começo, eu ainda acreditava.

Depois, apenas fingia acreditar.

Minha cachorrinha tornou-se a única presença viva que ainda parecia me reconhecer naquele mundo afogado. Ela dormia ao meu lado enquanto eu observava a chuva pela janela, tentando lembrar como era o som do sol.

Certa tarde, voltei de uma caminhada pelos corredores escuros do prédio e encontrei a porta do apartamento entreaberta.

Senti imediatamente o cheiro.

Ferrugem.

Carne.

Podridão.

— Olá...? Tem alguém aí?

Nenhuma resposta.

Então ouvi um som abafado vindo do quarto.

Um ganido fraco.

Corri.

E parei na porta.

Minha vizinha estava ajoelhada no chão.

Comia minha cachorrinha.

Abocanhava o pescoço dela lentamente, os dentes rasgando a pele úmida. Os olhos da mulher estavam vazios, fundos, distantes. Não havia raiva nem prazer ali.

Apenas fome.

Minha cachorrinha ainda se mexia.

As patas tremiam fraco contra o piso.

Não consegui fazer nada.

Meu corpo simplesmente desligou.

Fiquei parado olhando enquanto aquela mulher mastigava pedaços da única criatura que ainda me amava naquele mundo.

Depois de algum tempo, ela se levantou.

Passou por mim sem dizer palavra.

Sem sequer me enxergar.

Como um cadáver andando.

Não sei quanto tempo fiquei ali.

Horas talvez.

Dias talvez.

O apartamento inteiro cheirava à decomposição quando finalmente consegui me mover.

Enrolei o pequeno corpo num lençol.

Subi até a cobertura.

A chuva continuava.

Imensa.

Infinita.

A cidade desaparecera sob a água havia muito tempo. Fortaleza agora era apenas um oceano escuro salpicado por prédios moribundos. Nenhuma luz existia mais. Nenhum som humano. Apenas chuva.

Sempre chuva.

Aproximei-me da borda e olhei para baixo.

A antiga avenida, onde pessoas corriam atrasadas para o trabalho, onde motos buzinavam e crianças atravessavam segurando mochilas, agora era um rio negro carregando destroços.

Respirei fundo.

E joguei o corpinho dela.

Fiquei observando o lençol branco desaparecer lentamente na correnteza.

Sentei ali mesmo e chorei.

Deixei a chuva lavar minha dor.

E talvez me levasse junto também.

reddit.com
u/lobocelestino15 — 6 days ago

As coisas apodrecem na água

Acordei com o som da chuva golpeando a janela.

Minha cachorrinha dormia encolhida no pé da cama, respirando rápido enquanto sonhava. Minha esposa já havia saído para trabalhar. O lado dela no colchão ainda guardava um pouco de calor.

Fiquei alguns segundos olhando o teto escurecido do apartamento. Havia algo estranho naquela manhã. Talvez a ausência de pássaros. Talvez o modo como a luz parecia doente.

Ou talvez eu apenas estivesse cansado de existir.

Levantei, vesti-me e saí para o trabalho.

No corredor, minha vizinha fechava a porta do apartamento dela. Era uma mulher magra demais, olhos fundos demais, silenciosa demais. Sempre me olhava como se soubesse alguma coisa sobre mim que eu próprio desconhecia.

Quando me viu, desviou os olhos imediatamente.

— Bom dia pra você também... — murmurei.

Ela não respondeu.

O elevador demorou uma eternidade. Quando cheguei ao saguão do prédio, encontrei dezenas de moradores aglomerados perto da entrada. O porteiro tentava inutilmente conter a multidão.

A chuva despencava lá fora como um muro cinza.

— O que houve? — perguntei.

Um homem de barba malfeita respondeu sem sequer me encarar:

— A avenida inundou. A água tá subindo rápido demais.

Fiquei observando a rua. Os carros boiavam lentamente correnteza abaixo, girando como brinquedos esquecidos. Sem buzinas. Sem gritos. Apenas água.

As horas passaram.

Ninguém conseguiu sair do prédio.

No começo, todos ainda agiam como pessoas civilizadas. Alguns riam nervosamente, outros faziam piadas sobre o “fim do mundo”. Mas o riso humano dura pouco diante do inevitável.

Voltei para o apartamento quando anoiteceu.

Liguei para minha esposa.

Nada.

Nem chamada. Nem caixa postal. Apenas silêncio.

Minha cachorrinha me observava da cozinha, imóvel, orelhas baixas.

— Ei... calma. É só chuva.

Minha voz saiu fraca até para mim.

Ela soltou um gemido baixo.

Naquela noite, a energia caiu.

E não voltou mais.

Os dias seguintes dissolveram-se uns dentro dos outros. A chuva permanecia constante, brutal, infinita. Dormíamos ouvindo água. Acordávamos ouvindo água. Comíamos ouvindo água.

O prédio começou a apodrecer.

As paredes criaram manchas escuras. O teto pingava sem parar. O mofo espalhava-se pelos corredores como uma doença viva. O cheiro de umidade impregnava roupas, pele, comida.

A água subiu além das avenidas.

Depois além dos semáforos.

Depois além do primeiro andar.

As pessoas pararam de perguntar quando aquilo acabaria.

O síndico organizou reuniões para racionar alimentos. Falava com firmeza, tentando manter alguma aparência de ordem. Mas bastou a fome apertar para todos mostrarem o que realmente eram.

Os mais fortes roubavam.

Os mais fracos desapareciam.

Às vezes alguém gritava durante a madrugada. Às vezes alguém se jogava da cobertura. Depois de um tempo, ninguém mais corria para impedir.

A morte tornou-se apenas parte da rotina do condomínio.

Continuei esperando minha esposa voltar.

No começo, eu ainda acreditava.

Depois, apenas fingia acreditar.

Minha cachorrinha tornou-se a única presença viva que ainda parecia me reconhecer naquele mundo afogado. Ela dormia ao meu lado enquanto eu observava a chuva pela janela, tentando lembrar como era o som do sol.

Certa tarde, voltei de uma caminhada pelos corredores escuros do prédio e encontrei a porta do apartamento entreaberta.

Senti imediatamente o cheiro.

Ferrugem.

Carne.

Podridão.

— Olá...? Tem alguém aí?

Nenhuma resposta.

Então ouvi um som abafado vindo do quarto.

Um ganido fraco.

Corri.

E parei na porta.

Minha vizinha estava ajoelhada no chão.

Comia minha cachorrinha.

Abocanhava o pescoço dela lentamente, os dentes rasgando a pele úmida. Os olhos da mulher estavam vazios, fundos, distantes. Não havia raiva nem prazer ali.

Apenas fome.

Minha cachorrinha ainda se mexia.

As patas tremiam fraco contra o piso.

Não consegui fazer nada.

Meu corpo simplesmente desligou.

Fiquei parado olhando enquanto aquela mulher mastigava pedaços da única criatura que ainda me amava naquele mundo.

Depois de algum tempo, ela se levantou.

Passou por mim sem dizer palavra.

Sem sequer me enxergar.

Como um cadáver andando.

Não sei quanto tempo fiquei ali.

Horas talvez.

Dias talvez.

O apartamento inteiro cheirava à decomposição quando finalmente consegui me mover.

Enrolei o pequeno corpo num lençol.

Subi até a cobertura.

A chuva continuava.

Imensa.

Infinita.

A cidade desaparecera sob a água havia muito tempo. Fortaleza agora era apenas um oceano escuro salpicado por prédios moribundos. Nenhuma luz existia mais. Nenhum som humano. Apenas chuva.

Sempre chuva.

Aproximei-me da borda e olhei para baixo.

A antiga avenida, onde pessoas corriam atrasadas para o trabalho, onde motos buzinavam e crianças atravessavam segurando mochilas, agora era um rio negro carregando destroços.

Respirei fundo.

E joguei o corpinho dela.

Fiquei observando o lençol branco desaparecer lentamente na correnteza.

Sentei ali mesmo e chorei.

Deixei a chuva lavar minha dor.

E talvez me levasse junto também.

reddit.com
u/lobocelestino15 — 7 days ago

Três da manhã

A neve caía silenciosa sobre a cidade vazia, como cinzas cobrindo um cadáver.

Elias caminhava sem destino havia horas. Talvez dias. O frio atravessava o casaco velho e mordia a carne, mas ele já não distinguia desconforto de hábito. Algumas dores permanecem tempo suficiente para se tornarem parte do corpo.

Três da manhã.

Os postes lançavam uma luz amarelada sobre a rua deserta. Nenhum carro. Nenhuma janela acesa. Apenas o som abafado dos próprios passos esmagando a neve fresca.

Um ano desde o desaparecimento de Clara.

A polícia desistira após o terceiro mês. Os jornais esqueceram após o segundo. Amigos pararam de telefonar depois do primeiro. O mundo possuía uma velocidade cruel; até tragédias apodreciam rápido demais para permanecer importantes.

Mas Elias continuou andando.

Todas as noites.

Como um homem atrasado para o próprio funeral.

No começo havia esperança. Cartazes pregados em muros. Perguntas feitas a desconhecidos. Delegacias. Becos. Rostos confundidos na multidão. Depois vieram os boatos. Um homem disse tê-la visto numa rodoviária. Uma mulher jurou ouvir uma criança chorando perto do rio durante a madrugada. Nada restou além de ecos.

E então veio o inverno.

Elias parou diante de um parquinho coberto de neve. Os balanços imóveis rangiam devagar com o vento. Clara gostava daquele lugar quando pequena. Ele se lembrava das luvas vermelhas dela, do nariz congelado, das risadas.

Agora só restavam estruturas enferrujadas enterradas no branco.

Ele acendeu um cigarro com dedos trêmulos. A fumaça subiu lenta e desapareceu no escuro.

Tudo desaparecia.

Era essa a verdadeira natureza das coisas.

As pessoas falavam sobre memória como se fosse resistência, mas até as lembranças apodreciam. O rosto da filha começava a falhar em sua mente. Às vezes ele esquecia o tom exato da voz dela. Outras vezes precisava olhar fotografias para lembrar dos olhos.

Isso o aterrorizava mais do que a morte.

Porque morrer era simples.

Ser apagado era pior.

Continuou andando.

As ruas pareciam diferentes naquela noite. Vazias demais até para uma cidade morta pelo inverno. Não havia vento agora. Nem som. Apenas a neve caindo em silêncio absoluto.

Então ele ouviu.

Passos.

Parou imediatamente.

Atrás dele.

Lentos.

Pequenos.

Seu coração disparou com violência. Pela primeira vez em meses sentiu algo parecido com esperança — aquela coisa miserável que nunca morria completamente.

Virou-se rápido.

Nada.

Somente a rua branca se perdendo na nevasca.

Elias ficou imóvel por alguns segundos, respirando vapor no escuro.

Então ouviu de novo.

Passos.

Mais próximos.

Crunch.

Crunch.

Como pés pequenos afundando na neve.

— Clara...? — a voz saiu quebrada.

Nenhuma resposta.

Ele começou a seguir o som rua adentro, atravessando a tempestade. As luzes dos postes ficaram para trás pouco a pouco, engolidas pela neve. O mundo tornou-se branco e preto.

Os passos continuavam.

Sempre à frente.

Às vezes ele achava ver uma silhueta pequena no meio da nevasca. Um casaco escuro. Cabelos longos. Mas quando acelerava, ela desaparecia.

— Clara!

A voz sumiu no vazio.

Ele tropeçou num meio-fio coberto de neve e caiu de joelhos. As mãos afundaram no gelo. A respiração ardia nos pulmões.

E então viu.

Pegadas.

Pequenas.

Recentes.

Seguiam em direção a um beco estreito entre dois prédios abandonados.

Elias levantou devagar.

O beco parecia impossível de escuro.

Como uma abertura cortada diretamente na realidade.

As pegadas entravam nele.

Mas não saíam.

O homem ficou parado observando aquilo por muito tempo. A neve pousava sobre seus ombros como poeira funerária.

Talvez houvesse alguém ali.

Talvez não houvesse nada.

Talvez Clara estivesse viva.

Talvez estivesse morta havia um ano e aquilo fosse apenas a mente de um homem finalmente quebrando no frio.

No fim, pouco importava.

O sofrimento prolongado transforma qualquer verdade em algo irrelevante.

Elias deu um passo em direção ao beco.

Depois outro.

A escuridão o recebeu em silêncio.

Na manhã seguinte, a neve continuou caindo sobre a cidade.

E não havia mais pegadas na rua.

reddit.com
u/lobocelestino15 — 7 days ago

Ajudei minha mãe com as compras.
Sacola por sacola, levei tudo para dentro. Organizei os mantimentos com cuidado, como se aquele gesto simples pudesse, de alguma forma, me aproximar dela.

Ela permaneceu em sua cadeira de rodas.
Olhar vazio. Expressão ausente.
Como se já não estivesse mais ali.

Sorri para ela — um sorriso discreto, quase infantil — esperando algo em troca. Um mínimo sinal. Um reconhecimento.
Nada veio.

Subi, então, para o quarto da bagunça.
Que antes ela insistia em chamar de sótão, como se aquilo ainda guardasse algum valor, alguma memória digna de nome.

Enquanto afastava caixas e poeira, minha mente se perdeu.
Vieram meus filhos. Vieram amigos que já não vejo há anos. Veio a infância — inteira, intacta — como se ainda existisse em algum lugar.

E, de repente, voltei.

Voltei para ela.
Imóvel. Silenciosa. Distante.

Um incômodo nasceu no fundo da minha cabeça.
Cresceu rápido. Violento.
Uma dor aguda, insuportável — como se algo dentro de mim estivesse se partindo.

Não resisti.

Quando abri os olhos, já era noite.
Ou parecia ser.

Levantei atordoado, lembrando dela sozinha lá embaixo. Corri.

Mas não havia ninguém.

A casa estava vazia.
Uma névoa fria invadia os cômodos, engolindo tudo — móveis, paredes, memórias.

Gritei por ela.
Mas o silêncio já me dizia a verdade:
ela não responderia.

Nunca mais.

Olhei pela janela. A névoa se espalhava pelo gramado como um organismo vivo.

Saí.

Caminhei sem direção. Por minutos — ou horas.
O tempo já não fazia diferença.

Até me perder completamente.

Continuei.

Então, um rasgo de luz atravessou a névoa.
O sol.

E, diante de mim, ergueu-se um paredão colossal — impossível, absoluto.

Sentei-me ao pé dele, exausto.
Encostei as costas na pedra fria.

Perdoe-me, mãe, pensei.

— Ela está bem.

A voz veio do alto.

— Você é que não parece estar tão bem assim.

Fiquei imóvel. O medo me travou a garganta.

— Suba — disse a voz. — Venha.

— Quem é você? — consegui perguntar.

— Apenas suba.

Uma escadaria surgiu diante de mim.
Interminável.

Subi.

Cada degrau pesava mais que o anterior. Minhas pernas tremiam, o ar faltava, mas algo me empurrava para cima.

A paisagem se abria ao redor — vasta, impossível, quase bela demais para ser real.

— Continue — dizia a voz. — Está perto.

Quando finalmente alcancei o topo, minhas pernas cederam.

Um riso ecoou.

— Muito bem… filho.

Olhei ao redor.

E então vi.

A voz vinha de uma estátua.
Um velho esculpido em pedra, imóvel — e ainda assim… vivo.

— O que está acontecendo? — perguntei.

— Você chegou — disse ela. — Ao começo… e ao fim.

— Eu preciso encontrar minha mãe. Isso não é real.

— Já lhe disse. Ela está bem.
E, para ser sincero… vocês não se verão mais.

Nunca mais.

Desabei.

O choro veio sem controle, sem dignidade.

— Não chore — continuou a estátua. — A realidade que você conhecia não existe mais aqui.
Sua vida terminou… naquele sótão.

Silêncio.

— Você foi um bom filho.
Ela sabe disso. Ela é grata.

Respirei fundo, tentando me agarrar a algo.

— Quem é você?

— Isso não importa.
O que importa… é que você chegou.
E, com isso, nos completou.

— Eu quero voltar.

A estátua não respondeu.

Apenas voltou seu olhar para o sol avermelhado no horizonte — como se eu já não estivesse ali.

Deitei-me.

Fechei os olhos.

A névoa voltou — fria, densa, quase viva.
Por um instante, tive a sensação de que ela me atravessava, como se procurasse algo… ou levasse.

Quando acordei, minha cabeça repousava no colo da minha mãe.

O cheiro da casa estava ali.
O silêncio também.

Ela olhava para o nada — como sempre.
Ou talvez… não exatamente como antes.

Fiquei imóvel por alguns segundos, tentando lembrar.

O paredão.
A escada.
A voz.

Nada parecia inteiro agora — como um sonho que se desfaz rápido demais.

— Mãe? — chamei, baixo.

Nenhuma resposta.

Mas algo em sua expressão me fez hesitar.
Não era movimento.
Não era som.

Talvez só impressão.

Levantei devagar.
As sacolas ainda estavam sobre a mesa, exatamente onde eu as havia deixado.

Ou quase.

Toquei uma delas. Estava fria.

Olhei ao redor. A casa parecia a mesma — e, ainda assim, havia algo deslocado, como se tudo tivesse sido levemente rearranjado enquanto eu não via.

Respirei fundo.

Segurei outra sacola.

Antes de subir, olhei mais uma vez para minha mãe.

Por um instante — um instante breve demais para ter certeza — tive a impressão de que seus olhos estavam voltados para mim.

Ou talvez sempre estivessem.

Subi.

No meio da escada, parei.

A mão ainda apoiada no corrimão, o corpo suspenso entre um andar e outro.

Senti um arrepio.

Como se alguém — ou algo — ainda me observasse.

Ou esperasse.

Fechei os olhos por um segundo.

E, por um motivo que não soube explicar, não tive certeza se, ao abri-los novamente…
tudo ainda estaria ali.

reddit.com
u/lobocelestino15 — 1 month ago