r/escritacriativaptpt

Eu sou mal

Eu sou má influência para as crianças ,

Má companhia para os homens,

Mal amor para as mulheres,

Mal educado para os idosos.

Eu sou poeta,

Eu minto,

Eu roubo,

Eu mato,

Eu sou maldito!

Eu sou mal

E malvada é minha alegria,

Eu sou dinamite!

Eu

Sou!

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u/Surtado13 — 16 hours ago
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ANATOMIA DO PODER: A NUDEZ DO EGO MASCULINO

ANATOMIA DO PODER: A NUDEZ DO EGO MASCULINO

O olhar masculino está estruturado na sétima arte, enraizado com sua postura hegemônica, dita convenções e naturaliza comportamentos.

Emoldurado de hipocrisia e moralismo, romantiza exageros prejudiciais tanto para os homens quanto para as mulheres, exalando força física, dominação e repressão emocional.

Atrofiado em seu próprio ego, o conceito hétero normativo vai de encontro com um olhar crítico opositivo, questionador dessa fisiologia que, na tentativa de desconstruir esse pensamento, busca por igualdade entre os gêneros.

A normalização da sexualização das mulheres, seja em poses sensuais em posteres ou cenas de nudez em geral, chega a ser asqueroso, por ir além da arte, além do que a situação naquele contexto pede, mas porque simplesmente podem.

Vulgarizar o corpo da mulher com cenas de sexo, explorando o feminino desnecessariamente a fim de atrair público e aumentar vendas, evidencia como essa forte conduta é não só dominante, mas sufocante.

Quando por uma lente feminina, raramente vemos essas práticas acontecerem, e quando vemos, percebe-se que, na maioria das vezes, é mais pelo viés comercial do que pela proposta narrativa.

O fim dessa sobrepujante hegemonia não virá apenas de quem está atrás das câmeras, mas também do espectador se recusando a validar esse conceito de poder fantasiado de entretenimento, quebrando o capital erótico, conseguindo enxergar o humano ali presente.

Desconstruir essa estrutura é mais do que um ato de crítica cinematográfica, é ir além de um espelho do ego masculino, é um ato de libertação. Ganhando assim, finalmente, a chance de ser uma obra que nos permite ver o mundo não como ele é imposto, mas como ele poderia ser.

Sem transformar a dignidade em lucro e sem subjugar corpos, uma arte que dispensa a opressão para se vender pode até não lotar salas de cinema, mas jamais se esvazia de sentido, pelo contrário, ela se preenche tanto de si que transborda para o público.

u/rcoli7 — 2 days ago
▲ 9 r/escritacriativaptpt+3 crossposts

Ñe'ẽ (Palavra guarani)

No idioma dos ventos e da terra,
ñe'ẽ é “palavra”, é “alma”.
Um homem sem palavra
é um corpo sem fogo,
é a sombra que o sol abandonou.

Falar é soprar o espírito,
é dar forma ao invisível,
é acender a pele do silêncio
com o fulgor da voz.

Se a poesia é um jogo de palavras,
não será também um jogo da alma?
Cada verso, um feitiço sussurrado,
cada estrofe, um ritual de luz e sombra,
o poeta, um xamã errante,
tecendo encantos na página vazia,
conjurando mundos com o hálito do verbo.

Uma biblioteca seria templo?
Um altar onde o tempo dorme,
onde os mortos murmuram segredos,
onde os livros respiram na penumbra
como estrelas de papel.

E o livreiro, alquimista de sonhos,
oferece antídotos de silêncio,
destila histórias como bálsamos sagrados.

O tradutor, um oráculo secreto,
que escuta o eco das línguas,
faz do estrangeiro uma morada.

E o leitor, peregrino e sacerdote,
  busca revelações ocultas
nas entrelinhas do infinito.

E o marca-páginas, meu rosário,
conta histórias como preces,
como se cada palavra fosse um astro
e cada livro, um universo por nascer.

Mas se a palavra é alma
e a estante repousa em silêncio,
não seria então a estante parada
um cemitério de estrelas apagadas?

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u/birdcleric — 3 days ago

Escrevi um poema pra colocar no meu livro, "usando ninguém está vendo", aceito críticas

Eu mudei por você

Troquei algumas roupas

Algumas músicas

Alguns amigos

E sem perceber

Troquei meu nome pelo seu

Achei bonito

Na época

Hoje eu não sei

Qual dos dois nomes

Ainda me pertence

Depois que você foi embora

Eu continuei mudando

Só que dessa vez

Não tinha ninguém

Para me dizer

No que eu deveria me transformar

Então virei um pouco de tudo

Um pouco do garoto

Que você amou

Um pouco do homem

Que eu queria ter sido

E muito daquele filho da puta

Que eu finjo não conhecer

Eu fiz coisas

Que não cabem em pedido de desculpas

E existem pessoas

Que eu gostaria de encontrar

Só para poder dizer

Que eu sinto muito

Mas talvez algumas portas

Tenham sido feitas

Para permanecer fechadas

E eu fui quem jogou a chave fora

Às vezes penso

Que poderia voltar

Não para consertar

Só para olhar

Por alguns minutos

Para aquele idiota

Que ainda não sabia

O estrago que estava fazendo

Mas o tempo é covarde

Ele deixa a casa de pé

E leva embora

Quem morava nela

Os porta-retratos continuam guardando fotos

As chaves continuam sendo apenas chaves

E eu continuo abrindo portas

Que não levam mais

A lugar nenhum

De madrugada

Minha cabeça vira uma casa abandonada

Cada pensamento acende uma luz

Eu entro

Um quarto

Uma lembrança

Outro quarto

Vejo apenas bagunça

E em todos eles

Sou eu

Me esperando

Com a mesma cara

De quem sabe

Que não pode voltar

Eu queria esquecer algumas coisas

Mas tenho medo

Porque esquecer o que fiz

Seria fácil demais

E talvez eu precise lembrar

Não para sofrer

Mas para nunca mais

Confundir mudança

Com virar outra pessoa

Porque quando ninguém está vendo

Eu ainda não sei quem sou

Só sei quem eu fui

E talvez

Por enquanto

Isso tenha que bastar

Por enquanto, sigo sozinho

Sigo porque o passado não aceita devolução.

Porque há erros que só podem ser carregados.

Porque pedir perdão não apaga o que aconteceu.

E porque, no fim,

Talvez crescer seja isso:

Olhar para todas as versões de si mesmo que você gostaria de matar, sentar ao lado delas e admitir,

Sem desculpa, sem orgulho, sem ninguém olhando:

Eu fui você.

E sinto muito.

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u/ManoDacruz — 3 days ago
▲ 11 r/escritacriativaptpt+5 crossposts

Mais um poema. Opiniões e sugestões ajudam muito. Estou meio mal, e por isso talvez não esteja como eu queira. Mas Obrigado!

Amigos de infância

Era uma vez uma criança eufórica,
aquela que pula e se alegra entre laços de amizades,
laçados entre duas tílias. 
aquela que vê as maravilhas 
das cores, 
Onde o azul encontra o amarelo, 
O verde encontra o vermelho, 
e sorrimos pelas histórias
que só nós sabíamos imaginar. 

Brincando em um carrossel
e olhando para o céu, 
protegido pelo véu dos anjinhos.

Amizades puras como as nuvens no céu. 

Sonhando em ser heroi,
heroi para proteger,
proteger para ser heroi.

Lembranças se perdem na mente emaranhada,
dissonância de uma infância colorida,
mas que se perdeu pela ausência 
das cores.

E o nó se desfaz.
Talvez a criança não tenha apertado o bastante.
Força... faltou força. 

Mas ainda amo todos vocês.
Ainda fazem parte da minha paleta de cores.

A criança que fazia as outras crianças felizes.
Essa criança era eu.

Mas agora eu me pergunto:
essa criança me reconheceria?

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u/ArmandoPintoPrimeiro — 3 days ago
▲ 6 r/escritacriativaptpt+1 crossposts

Cicatriz Escalarte

Sinto falta de ser feliz

Saudades de sentir o calor

Saudades de viver um sonho

Saudades do vermelho

Sinto falta daquilo que quis

Saudades de sentir o ardor

Saudades de um ganho

Não aguento olhar no espelho

Parece ser uma cicatriz

Do tipo que volta a dor

Chega a ser medonho

Nada conhecido é parelho

Minha tristeza é um chafariz

Que leva a alma desse pecador

Tenho ficado tristonho

Mas não quero um conselho

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u/Filipau — 4 days ago
▲ 15 r/escritacriativaptpt+1 crossposts

Dessexualizar o pensamento permite a entrada do erotismo

Hoje na hipersexualização maioritariamente visual, esconde-se a travessura da solitude que nada mais é que um alívio. O desejo e o erotismo perdem-se na medida em que despe se a roupa mais depressa do que se entrega a alma. Neste despir de roupa não existe um desejo, nem existe prazer. Dá-se um alívio momentâneo que representa a solidão de procurar o que não se encontra sozinho nem no corpo visual.

Entristece-me que nunca tenha vivido o prazer e o desejo, o erotismo na sua profundidade. Receio nunca poder vir a vivê-lo, não neste mundo e não nesta vida.

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u/Odd-Temperature8905 — 5 days ago

Eu quero um amor feito mar

Eu quero um amor feito mar, que chegue sem pressa, mas fique para sempre.

Que tenha a força das ondas, e a calma de um fim de tarde.

Quero alguém que saiba ficar, mesmo quando o vento mudar, que segure minha mão quando a vida parecer tempestade e me abrace depois que ela passar.

Quero um amor sem medo de profundidade, que mergulhe em mim sem medo de se perder.

Um amor que seja porto, mas também aventura, porque eu não quero um amor passageiro, desses, que a maré leva embora.

Eu quero um amor feito mar, profundo, lindo, livre, intenso, e impossível de esquecer.

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u/Double-Trouble-4868 — 6 days ago

De eu

Cansado de eu,

o previsível

sem imprevisível.

Procuras respostas

e perguntas,

demais.

Se soubesses,

não saberias

a quem responder.

Esqueci-me de perguntar,

se sou eu que pergunto,

e que pergunto,

eu cansado.

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u/Select_Equal_9493 — 4 days ago

Malditos dentes azuis

Leandro gostava de ouvir música. Ele sentia que era um grande conhecedor. Gostava de partilhar este facto com toda a gente, partilhando músicas que vai encontrando, músicas que lhe enviavam e músicas que são a novidade da semana. Podemos dizer que Leandro era um melómano, mas ele já foi ao médico que lhe disse que as suas últimas análises não detectaram nada disso.

Costumava ouvir a sua música pelo altifalante do seu telemóvel. Um dia cruzou-se com um indivíduo, mas que soava como um colectivo. Ele tinha a música mais alta do que a de Leandro. E como Leandro concluiu nesse dia, não podia acontecer.

Leandro comprou uma coluna portátil. É portátil porque venderam-lhe assim na loja, quem vê as suas dimensões não parece assim tão portátil. Por vezes não era fácil transportá-la, mas Leandro sentia muita vontade de ouvir música. Ele e quem o rodeava mal podiam esperar para ouvir a sua nova playlist. Foi o grande motivo pelo qual comprou a coluna.

Mal saiu de casa Leandro ligou a sua coluna nova. Não correu bem à primeira. Nunca o rei Harold I, da Dinamarca recebeu tantos impropérios, mais conhecido como Harold Bluetooth. O telemóvel não queria ligar à sua nova coluna, detetava tudo, desde a televisão do café perto de casa, à escova dos dentes do vizinho. Ainda que lhe parecera um bom equipamento para partilhar música, a televisão do café não lhe daria o público que queria, e limitava-o em termos de mobilidade.

Após 40 minutos para ligar a coluna ao seu telemóvel, Leandro lá conseguiu fazer a conexão que tanto queria. Não com outras pessoas, mas entre a sua coluna e o seu telemóvel, ele não conseguia evitar, sempre tinha sido um casamenteiro. Chegou até a unir a senhora da cantina da sua escola com o senhor Claúdio, responsável de manutenção, tudo isto graças à música vinda do seu telemóvel. Toques polifónicos servem sempre para quebrar o gelo entre duas pessoas. Para quebrar o silêncio também.

Já com o telemóvel ligado à coluna, Leandro entra no autocarro. Estava a quantidade de pessoas ideal para escutarem o seu som. Leandro entra na sua playlist, escolhe a música perfeita e animada, como qualquer viagem de autocarro deveria ser. A música começa a soar na coluna, num tom ainda contido. Leandro também começa a suar, ao ver que ninguém estava a dançar ou a mostrar sinais de prazer. Resolve então meter a música bastante mais alto. Agora sim. Todos olham para ele. Missão cumprida.

Ainda no autocarro, toda a gente olhava para Leandro quando entravam e quando saíam. Quando entravam era mais uma surpresa, ao sair pareciam dirigir-se a Leandro a dizer-lhe coisas, mas ele não percebia porque a música estava bastante alta. Provavelmente a congratulá-lo pelas suas escolhas musicais.

Leandro já estava perto do seu destino, quando avistou alguém que não tinha olhado uma única vez para ele. Ele estava…de fones. O que queria dizer que não ouviu uma única música que Leandro emitiu. Este ser, completamente imune ao seu poder, era um novo desafio para Leandro, que ele não tinha antecipado isto quando comprou a coluna.

Saiu na sua paragem. Pensava, ainda, no que poderia fazer para impedir estes vilões que se mantinham alheios ao seu grande gosto musical. Aceitou que algumas batalhas poderia perder, mas a guerra seria ganha por si, dia a dia a espalhar a sua música em todo o lado.

Ao andar até à escola, Leandro começa a ouvir um som que se aproxima cada vez mais. Era Baltazar, também tinha uma coluna. E era substancialmente mais potente do que a Leandro. Mais uma batalha, mais uma derrota.

No mesmo dia, Leandro foi à loja onde tinha comprado a coluna portátil. Falou com o senhor da loja, para isso teve de meter a sua música um pouco mais baixo. Perguntou se havia algum dispositivo que lhe permitisse fazer com que a sua música fosse ouvida por toda a gente. O senhor da loja perguntou se era ele que andava por aí com a música alta. Ele, muito orgulhoso, anuiu. Depois foi convidado a sair da loja pelos seguranças. Deve ter sido por acharem que ele iria devolver a coluna, achou ele. Melhor compra de sempre, também achou ele, e só ele.

No dia seguinte, voltou à loja, fez a mesma questão, desta vez a outro funcionário. O funcionário perguntou se era da sua coluna que vinha a música alta, que se tinha ouvido quando Leandro entrou na loja. Leandro confirmou novamente com orgulho. O funcionário aconselhou-lhe a comprar fones. Leandro acabou por perder a guerra.

Obrigado por lerem.

Mais textos como este no meu substack: https://unsquaisquer.substack.com/

u/OCoisitodali — 6 days ago
▲ 9 r/escritacriativaptpt+4 crossposts

Mais um poema. Esse aqui eu tentei fazer um pouco diferente, então qualquer opinião e sugestão ajudam demais. Muito Obrigado.

Gato Preto

Me olhou com esses olhos verdes
E notou que estou de preto
Passou do seu lado, como um gato preto

Ficou admirada com o meu feitio
Senti um arrepio, sumiu…
Afinal sou um gato preto

Olha o gato preto!

Olha como eu te vejo 
E não perca seu desejo
Já que o gato preto tem medo

Eita!

Olha seu olho verde
a clichê do gato preto
E não tenha medo.

No pelo preto se esconde meu medo
Como um gato preto

Gato!!

Olha o gato preto,
Olhando para seu medo
No fundo do peito
Ele carrega um peso
Então eu me sinto como um gato preto

Cadê meu gato preto ?
No pelo preto deixado na pele branca
sob o verde dos teus olhos. 
O gato corre em posição de brigar,
de ladinho
contra a bola de pelo preto
Que está há tempos no caminho do gato preto

Mas por trás da bola de pelo preto 
há aquilo que mais desejo: 
A pele branca,
o verde dos teus olhos

Então não perca seu desejo 
por aquele que está 
Por trás do gato preto. 

Mas… 
Pode me chamar de Gato preto.

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u/ArmandoPintoPrimeiro — 6 days ago

Aceno

Aquele adeus,

eternizado em mim,

aceno minguante.

Olho no retrovisor,

em fuga,

em reta,

com o que resta:

A chave de casa,

e a alma adormecida.

Desperto,

coberto de cinza e lava,

que ainda ardem.

Nunca devia ter sido,

aquele adeus.

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u/Select_Equal_9493 — 6 days ago
▲ 13 r/escritacriativaptpt+5 crossposts

Fragmentos sobre amor, apostas e (in)conformidades

>

Pesquisa de campo

Dê um rolê por aí e observe os casais.

Repare: sozinhos, assim como você, porém a dois. Alguns, certamente, sustentando algo que talvez já não valha a pena. Uma relação suspensa por aparelhos: filhos, rotina, medo de se dar mal em um divórcio.

“O que seria, para você, a coisa mais insuportável se tivesse de voltar a estar solteiro?”, você poderia perguntar a eles.

“É para um trabalho acadêmico.”

As mais variadas respostas virão, mas ninguém saberá ser tão certeiro admitindo que é:

“Não ter mais com quem compartilhar suas solidões.”

Considerações acerca da teimosia

Não há sinal algum de uma regra ou lei em vigor nesta realidade que prometa a sorte aos que a “merecem”.

Perante essa constatação, muitos amargam, enquanto outros muitos podem fazer as pazes com sua existência (“O que não tem solução, solucionado está”).

Acontece que a razão resolve a questão em si, mas não o indivíduo.

O incômodo não cessa nunca.

O mantra “Eu mereço!”“Eu mereço!” não precisa ser entoado em voz alta ou mentalmente para dirigir sua vida.

Assim, teimamos, pois é mais forte que nós.

Do vício em caça-níqueis

Certa vez, num cassino clandestino de fundo de bar — nosso ponto de encontro —, virei-me para meus companheiros e cometi o que fui descobrir ser uma heresia. Expressei em voz alta:

“Lavaram nossos cérebros para pensarmos no amor como alinhamento do cosmos, como ressonância de almas... ou qualquer outra baboseira messiânica de mesma estirpe. Tudo para que continuemos escravos em vícios feito este, amigos. Tudo para que vivamos nessa busca incansável por um jackpot.”

Nesse dia eu tomei um cacete.

Nenhum discurso antivício poderia ser expresso naquele lugar.

No limbo

Queria voltar ao tempo em que escutar o quanto eu era “bom” me envaidecia...

Uma vez mais ela atraca no cais.

Uma vez mais... e eu sinto todo resquício de honra que eu ainda tinha escoar

enquanto tento negociar minha passagem.

“Só quero atravessar. Tanto faz se irei para o céu ou o inferno.”

Como quem pede desculpas, ela diz o quão bom e o quão incrível sou, enquanto rema a barca para longe novamente, até mais uma vez desaparecer no nevoeiro.

...

Concluí, desta vez, que tenho que investir em qualidades imediatamente opostas às que construí até aqui.

Só para ser destinado a algum fim, vou ser mais canalha.

Eu era um sujeito bem mais romântico num passado não muito distante. Verdade! Nem sempre fui esse cínico “pós-romântico” que escreve coisas como esta:

“Prezados(as): se é preciso, todo santo dia, conquistar alguém que você chama de ‘seu’ ou ‘sua’, então você não conquistou #@$💀 nenhuma.”

Esta:

“Só o amor mesmo para fazer alguém dizer, com orgulho, que está ‘comprometido’, ou seja, avariado, danificado, sem salvação.”

Ou esta:

“’Fazer amor’ é apenas sexo enfeitado — romantizado e mascarado como transcendência.”

Não me considero, embora possa lhe parecer, um amargurado. Na real, sinto que estou bem longe disso.

Hoje estou solteiro — como sempre estive, aliás. A falta de perspectiva de sair desse estado civil algum dia dói, mas consigo achar consolações nessa condição. Quem me garante que, se eu hoje estivesse namorando ou casado, estaria mais feliz? Menos estressado? Relacionamentos não livram ninguém das aporrinhações e infortúnios da vida. E, já que, vivendo, querendo ou não, eu vou ter que sofrer, que ao menos eu saiba transformar minhas desilusões em matéria para minhas artes e reformas pessoais.

_robsings

Post original feito no Substack
https://zonasliminares.substack.com/

u/rob_sings — 7 days ago
▲ 12 r/escritacriativaptpt+4 crossposts

Culpa sua

Era doce menino, mas tinha um defeito:
nunca errava, visto que, para corrigi-lo, 
não podia ter errado.

Premissa simples, e de simples aplicação:
como podia o professor corrigi-lo 
se, no seu terno, ainda faltava abotoar um botão? 

a diretora o chamou, 
Por que não entregou a lição?

Olha, diretora, a senhora deixou sua bolsa no chão.

Qualquer trabalho em grupo 
não precisava fazê-lo
já que seus colegas
catavam meleca com o dedo.
Anos passaram 
Os colegas já não catavam mais melecas
Quando conversava com chefe:
Mas todo o dia você chega atrasado

Entendo, chefe. Mas e o Joaquim, que faltou por causa do resfriado?

Por fim outros anos se passaram
Já não havia chefes ou empregados
Com a médica dizia
Estou doente por causa desses remédios que me deram. Sempre tive saúde ótima. Vocês que me adoeceram.

E, quando a hora chegar, diante de Deus
com certeza vai encontrar algo fora do lugar

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u/0_monomania_0 — 6 days ago
▲ 15 r/escritacriativaptpt+1 crossposts

Treinando escrita. Compartilhem suas opiniões, por favor!

A brisa primaveril balançava os galhos robustos, porém gastos, da árvore predileta dos Sasaki. O sol de meia tarde refletia na água límpida do lago abaixo da sombra da mesma árvore. Naquele momento, apenas se ouvia o som dos pássaros cantando ao longe, do farfalhar das plantas ao vento e das risadas genuínas do velho casal que estava ali.

— Cuidado, Haruki! Está molhando todo o meu kimono. — exclamou a senhora de idade já avançada.

— Ume, não dê importância para coisas tão triviais. Estou perto de alcançar o peixinho que vi mais cedo!

Os dois riram, e isso fez Ume lembrar dos velhos tempos.

— É como se eu estivesse olhando para o Haruki de 22 anos de idade. Lembra quando você acompanhava meu pai em suas tardes de pesca no rio perto de casa? — ela sorriu enquanto arrumava seu kimono desajeitado, ao mesmo tempo que tentava recordar da juventude — Eu pensava "quem é esse jovem bobo que deixa os peixes roubarem a isca toda vez que lança a linha?".

— Ora, não precisava lembrar dessa parte... — Haruki, envergonhado, acaba desistindo do peixinho que estava tentando apanhar e sentou no gramado ao lado de Ume — Porém, o que me levou a visitar a moradia de sua família com tanta frequência não eram as tardes de pesca, e sim os olhos meigos da filha mais velha daquela casa.

Haruki segurou as mãos de sua amada. Os dois ficariam ali, apreciando a vista da sua casa. Uma casinha simples e tradicional, mas aconchegante e que carregava todas as lembranças mais doces das suas vidas. E, naquele mesmo jardim onde estavam, viveram incontáveis tardes como esta.

— Sou imensamente grato por ter sido presenteado nesta vida com uma mulher virtuosa e gentil como você. Meus dias foram coloridos pelo brilho dos seus olhos e a beleza de seu sorriso.

Ume, como de costume, apoiou a cabeça no ombro de seu companheiro.

— E, mesmo incapaz de gerar filhos, nunca me senti sozinha vivendo ao seu lado, querido.

u/maracujah_ — 8 days ago
▲ 9 r/escritacriativaptpt+5 crossposts

Mais um poema "Solidão". Opiniões e Sugestões ajudam muito. Muito Obrigado!

Solidão

Na amizade encontrei felicidade
Mas foi na saudade
Que conheci a Solidão

Da solidão encontrei a imaginação
Da imaginação imaginei amigos
Dos amigos imaginei e amei

Sonhei.
Gostei.
Pensei.
Pensei…

Um mundo mágico, eu e eu
Eu e você, você e a Solidão
Solidão, eu e você
Foi o'que eu imaginei

Mas quando percebo que imaginei até demais
Você não tá lá
Ninguem ta la 
Sozinho eu tô

A angústia de viver só 
Preso em um Nó
Sentindo dó de mim

Mas tinha paz e nada para se preocupa
Sentimentos e emoções novas que nunca vivi
Enquanto se divertem, eu me divirto com eu
1…2…3…4…5…10… Anos … Sem ninguém
Porque o mundo é tão injusto ? Eu era apenas uma criança

Inseguranças e medos. Porque você não me protegeu
Solidão?
Talvez me apeguei demais a você
Na escuridão do meu quarto 
Eu sorrio… De mim mesmo

Porém sempre que preciso você está aqui
Do meu lado
Do lado meu 
Meu amigo, minha solidão
Obrigado! 

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u/ArmandoPintoPrimeiro — 7 days ago
▲ 13 r/escritacriativaptpt+3 crossposts

O Balde Furado

​

Zé acordava antes do galo

e só parava depois da lua.

Mas chegava o fim do mês

e o bolso continuava mudo.

— Eu ralo e não sobra — dizia.

— O mundo é injusto comigo.

Um velho na feira,

mãos grossas de quem já cavou muito poço,

vendeu pra ele um balde furado.

Três furos no fundo,

um bilhete em cada um.

**Furo um:**

*O vazamento que você não vê.*

Café. Cigarro. Mototáxi.

— É só cinco reais.

Cinco, cinco, cinco —

no fim da semana

viravam cento e oitenta.

Cento e oitenta

que podiam ser gás,

comida,

ou uma reserva guardada.

Dinheiro miúdo

é gota d'água:

sozinho não pesa,

mas enche o chão.

**Furo dois:**

*O vazamento que você empresta.*

— Me empresta até sexta.

— Me adianta aí.

Zé devia pra todo mundo.

Todo mundo devia pra Zé.

Ninguém pagava ninguém.

Dinheiro que sai

e não volta

não é ajuda.

É vazamento com sotaque de gentileza.

**Furo três:**

*O vazamento que você troca por tempo.*

Três horas de tela,

rolando a vida dos outros

pra não sentir a própria parada.

Três horas

que podiam ser trabalho,

estudo,

descanso,

ou pão na mesa.

Tempo gasto não volta.

E o relógio, diferente do dinheiro,

não aceita empréstimo — nem juros, nem prazo, nem fiador.

O velho pegou barro

e tampou os três furos com os dedos,

devagar, como quem cose um corte.

— Enche agora.

Zé encheu.

E, pela primeira vez,

a água ficou.

O velho limpou as mãos no calção e disse:

— Escuta, Zé.

Ninguém fica rico

só porque começa a ganhar mais.

Primeiro aprende a não perder

o que já tem na mão.

Conserta o pequeno

antes de procurar o grande.

Seis meses depois,

Zé não virou rei.

Mas pagou a dívida.

Comprou o gás.

E passou a vender marmita

na hora em que antes entregava a tela.

Na porta da casa dele

ficou pendurado o balde velho.

Sem água.

Só três marcas de barro

onde antes havia os furos.

Quando alguém perguntava

o que aquilo significava,

Zé sorria:

— Não é falta de sorte, não.

É balde furado.

E balde furado

a gente conserta.

---

Anota o miúdo. Cobra o emprestado. Valoriza tua hora.

Dinheiro que entra não adianta muito se encontra um furo antes de chegar ao fundo.

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u/Final-Shift- — 7 days ago

Conto

Te contei sobre aquilo que me falta

Te contei sobre aquilo que nem sei

Mas não sinto que já te contei

Como uma frase que chega ao fim

Sinto que venho te contando

Como um dizer que passeia por mim

Te conto como quem se deixa descobrir

Aos pouquinhos

Em pedaços

E como quem vai se descobrindo também

Em cada fala

Em cada olhar

Não que eu que tenha contado

Não que eu que tenha escolhido

Mas sim, eu tenho me permitido

E hoje é algo que transparece ainda que não seja dito

Não teve um inicio ao certo

E também não me parece que vai ter um fim

Quando poderemos dizer que você sabe o que falta em mim

E nem eu pretendo por você ser desvendada assim

Não precisa me entender

Não precisa me completar

Pode me deixar sofrer

Pode me deixar faltar

Quando te conto o que me falta

Não é pra solucionar

Nem dá pra preencher

Não pense que espero isso de você

Com tudo que contei e tenho te contado

Só peço que me deixe

faltar ao seu lado

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u/obolofofo — 7 days ago

Olhando pro Mar

Olhei pro mar em silêncio,

enquanto o sol se escondia no horizonte,

e deixei que as ondas levassem

um pouco do peso que eu carregava.

Pensei em tudo que passou,

nas pessoas que ficaram pelo caminho,

nos abraços que hoje são lembranças

e nos sonhos que ainda vivem em mim.

O mar não perguntou o motivo da minha tristeza,

apenas continuou indo e voltando,

como se dissesse baixinho:

“Tudo passa, até a dor.”

E eu fiquei ali, olhando o infinito,

entendendo que algumas coisas

não precisam de respostas…

só precisam de tempo

e de um coração disposto a continuar.

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u/Double-Trouble-4868 — 8 days ago