peço que caia devagar
preciso te confessar uma coisa.
eu nunca gostei de chuva.
me deixa molhada e estressada.
e sempre me indignou um pouco cair água do céu.
sei lá.
me traz uma certa impotência.
mas eu passei a gostar mais quando você disse que combinava comigo.
que o meu mistério combinava com chuva.
mistério esse que eu sempre chamei de timidez, fechamento ou até antipatia.
amo como você brinca com isso.
com essa versão meio performática de mim.
como se eu vestisse uma capa de chuva mesmo quando o céu tá limpo.
sempre foi defesa, eu sei
mas gostei de chamar de figurino
sinto que tudo bem eu usar
e talvez até me despir depois, quem sabe
deixar a água cair.
eu gosto de falar as maiores besteiras
enquanto a gente deixa passar
o próximo
e o próximo do próximo metrô.
o lugar vira detalhe.
a idade vira detalhe.
a impotência sobre o mundo vira detalhe.
só tá aqui já basta.
molhada.
boba.
perdida.
até que o tempo se imponha
e a gente vá.
mas espero que ele possa ao menos
aprender a cair devagar