Quero começar na poesia, como posso começar?
Desde sempre tive interesse em começar a escrever poemas, de vez em quando eu tento, na verdade. Escrevo coisas curtas para passar o tempo, mas gostaria de me aprofundar mais. Alguma dica?
Desde sempre tive interesse em começar a escrever poemas, de vez em quando eu tento, na verdade. Escrevo coisas curtas para passar o tempo, mas gostaria de me aprofundar mais. Alguma dica?
não tem você
mas o desejo insiste
acontece no corpo
sem pedir permissão de entrada
o pau late sem toque
cresce antes da mão
tudo vem antes da intenção
e cresce
você nem pensa
já está em ação
você se contorce
e sai um jato de porra quente
a respiração ofegante
o corpo inteiro vira uma glande
latejante
o escorrido quente desce o dorso
tudo perde forma no meio
sem alvo
sem alguém definido
esporrei em mim
depois o pau amolece
molhado
meio mole
quase duro
amolece
fica ali
sujo
sem tesão
–Tetris
você chega sempre
bonitinha
limpinha
arrumada por natureza
sem cuspe
sem baba
sem cheiro de buceta
eu encosto e recuo
precisa de algum defeito, alguma imperfeição que me conecte contigo
no deslize o outro vira gente, no detalhe que destoa eu reconheço o humano
perfeição absoluta não convida
–despede
beleza de vitrine
eu fico aqui
numa pau-molescelência sem fim
olho a vitrine do shopping, achando bonitinho.
vou embora sem gastar dinheiro com material decorativo
–Tetris
Eis o que me lançais como um veredito, e eu recolho como um espelho trincado:
Dizeis que sou profana, eis que toco o que não deveria ser tocado, e minhas mãos, impuras, violam a fronteira do sagrado. Dizeis que sou herética, e meu pensamento, como serpe, desvia-se do dogma, recusando a corrente que amarra os fiéis à obediência muda. E, como coroa de espinhos que craveis sobre mim, ainda acrescentais: tudo que jaz sob o domínio do abominável, do nefando, do execrável, tudo isso é "a minha cara". Como se meu rosto fosse a galeria onde se expõe o sacrilégio; como se minha essência fosse o caldeirão onde fervem a blasfêmia e a profanação; como se eu fosse, em carne e osso, a própria coisa impura, o objeto de execração, o que é digno de anátema. Pois bem: se essa é a imagem que de mim construíste, que assim seja. Tomo o insulto e faço dele minha armadura. Prefiro ser aquilo que arde na fronteira do interdito a ser sombra apagada no reino dos que nunca ousaram.
cocô é presente que se entrega entrega
não é bosta
qualquer bosta
uma merda
ou resto
é completude
o bebê que foste cagou na fralda
sem nome
nem nojo
a criança que entrega o cocôzinho pra mãe em cheiro e textura
ela rabiscou no papel um desenho torto
e entregou com a melhor intenção
aquele rabisco
é o primeiro presente possível
cagar é natural
prender é neurose anal
o corpo que acumula
adoece
cagar não é perder
é parir
o corpo se livra do que já não é mais ele
é obra pronta
é assinatura do real
–Tetris
Ai de mim!
Ai de mim que me perca!
Ai de mim que me perca a mim mesmo!
Ai de mim que a mim construa meu próprio cavalo,
Que em falso conforto aceite da feiticeira o regalo;
Ai de mim que em mim ouça o canto das sereias,
Que de ninfas aceite as promessas alheias.
Ai de mim! Ai de mim!
Que em tardio desalento,
Por em mim mais profundo lamento,
Deixe a mim de ser a mim o meu Argos;
Ai de mim! Ai de mim!
Que em Ítaca distante,
Esqueça de mim em ser navegante,
Deixe a mim ser de mim tais embargos.