
u/OkEntrepreneur5704

Nupcial do vulto (autoral)
Nupcial, o ato. E ele interdito. Como um cão que fareja o próprio osso através do vidro, assim me ladra a alma esta fome absurda: querer o vínculo, a pública jura, o leito bento, mas sem o corpo que os complete. Pois o Amado, eis o torvo, não me é dado conhecer. Dele só possuo a sombra espessa, o vulto decalcado de quimeras, o rosto que burilei em ânsias de desvelo. Ah, nunca o tateei na carne. Nunca lhe sorvi o hálito entre o gáudio e o brônquio. Minha boca apenas beija a lacuna, e minhas mãos carpem o vazio onde ele deveria estar.
Idealizo-o, sim. Em espasmos de lúcida insânia, forjo cada palavra que jamais lhe ouvi, cada gesto que não lhe vi fazer. E ele me surge desmedido, perfeito, incandescido de todas as virtudes que a minha sede lhe atribui. Contudo, esta perfeição é o meu cárcere. Porque o Amado que invento não respira, não tresanda, não se esquece de mim. É uma arquitetura de éter, uma covardia divina. E nunca, nunca se assentará à minha mesa, nem partirá o pão com a sua mão de terra.
Terei, então, as núpcias com o espectro. E a celebração mais casta é a mais infecunda. Minh’alma, grávida de vento, geme por um parto que a dissolva. Mas não há rebento, não há amor, não há outro senão esta vertigem de existir, condenada à eterna prelibação do que não toco. Ah, como é tristonha e bela a fera que me habita: quero casar-me com a ausência. E faço dela a minha mais doce, a minha mais abjura prometida.
Clamor aos escombros (autoral)
Clamo, pois, às abóbadas indiferentes do céu ou ao vulto que supuseste habitar nelas:
Misericórdia? Não a invoco. Não a quero. Tua piedade, se é que te resta algum resquício de brandura, é o escárnio que mais me ofende. Rasga-me, antes. Rasga-me inteira não deixes fibra que se sustenha, não poupes membrana que ainda se creia íntegra. Arranca da minha carne o revestimento vil dessa pele que ainda ousa separar-me do nada. Destrói-me como outrora os altares pagãos foram entregues ao ferro dos missionários: não como quem castiga, mas como quem converte às avessas que minha queda seja um espetáculo mais santo que qualquer salvação. Que minhas pedras se espalhem pelo pó, que minhas imagens sejam desfeitas a golpes de cruz invertida, que o incenso do meu sacrifício suba como blasfêmia ao invés de prece. Pois se há deuses, que me devorem; se há missionários, que não encontrem em mim senão matéria para demolição. Quero ser o templo que tomba, não o que se ajoelha. Quero ser a estátua que se estilhaça, não a alma que se rende. E depois, nada. Somente o silêncio dos escombros, e sobre eles, teu pé pisando, indiferente, como se nunca houvesse ali existido nada digno de ser salvo ou condenado. Amém.
Galeria do Sacrilégio (autoral)
Eis o que me lançais como um veredito, e eu recolho como um espelho trincado:
Dizeis que sou profana, eis que toco o que não deveria ser tocado, e minhas mãos, impuras, violam a fronteira do sagrado. Dizeis que sou herética, e meu pensamento, como serpe, desvia-se do dogma, recusando a corrente que amarra os fiéis à obediência muda. E, como coroa de espinhos que craveis sobre mim, ainda acrescentais: tudo que jaz sob o domínio do abominável, do nefando, do execrável, tudo isso é "a minha cara". Como se meu rosto fosse a galeria onde se expõe o sacrilégio; como se minha essência fosse o caldeirão onde fervem a blasfêmia e a profanação; como se eu fosse, em carne e osso, a própria coisa impura, o objeto de execração, o que é digno de anátema. Pois bem: se essa é a imagem que de mim construíste, que assim seja. Tomo o insulto e faço dele minha armadura. Prefiro ser aquilo que arde na fronteira do interdito a ser sombra apagada no reino dos que nunca ousaram.
I was and I'm fighting against an ed, I was also heavily bullied in high-school as an indian girl, I guess i learned how to take care of myself, to the bare minimum, but i did