▲ 8 r/escritacriativaptpt+4 crossposts

Mystra

Quando lucio morreu ele não encontrou as cornetas dos anjos que seus dogmas o faziam crer
na realidade, se viu frente a uma escuridão tão abismal que só poderia ser descrita como a própria ausência
Ao fundo existe um poste de luz, e ele iluminava um velho moribundo que fazia de tudo para que suas pernas coubessem na pequena toalha de rosto que usava para se cobrir.
— Ei! — gritou Lúcio.
O velho não respondeu.
Lúcio se aproximou. Somente quando entrou no círculo de luz o homem levantou os olhos, assustado.
— Como lhe chamam, meu jovem?
— Lúcio. Você sabe onde estamos?
O velho franziu a testa.
— Você não se chama Lúcio. Chamaram você de Lúcio.
Ajeitou novamente a toalha sobre os joelhos.
— Quanto à segunda pergunta, a resposta é tão óbvia quanto a primeira. Você está morto.
Lúcio já sabia. Ainda assim, ouvir aquilo lhe fez recuar.
— E as outras pessoas?
— Foram embora. Algumas se vão. Outras ainda irão.
— Para onde?
O velho deu de ombros.
— Isso, meu filho, nem eu sei.
Lúcio olhou ao redor. Não havia estrada, porta ou horizonte. Apenas aquele poste, o velho e a escuridão.
— Então quem é o senhor?
Pela primeira vez, o velho sorriu.
— Sou o pensamento de que seu filho talvez seja um belo bife depois que o último pão foi dividido. Sou aquilo que os homens enxergaram em Helena antes de atravessarem o mar. Sou a faca que matou Abel. Sou a cicuta que Sócrates levou aos lábios.
O velho se sentou com dificuldade e estalou o pescoço, como se não o fizesse havia séculos.
Lúcio deu um passo para trás.
— Se o senhor é tudo isso... por que está aqui, tremendo debaixo de uma toalha?
O velho olhou para as próprias pernas descobertas.
— Porque também sou pouco.
Puxou novamente a toalha. Cobriu os joelhos e descobriu os pés.
— Sou o espaço que ficou ao lado de Julieta quando Romeu já não estava. Sou o frio no último círculo de Dante. Sou aquilo que sobra quando alguma coisa que deveria estar...
O velho interrompeu a frase.
Ainda ajustando sua manta, olhou para Lúcio com um olhar que lhe atravessava e por fim acrescentou.
— Também sou você. 
— Fui você naquele aniversário. Todos estavam à mesa. Você passou a noite olhando para a cadeira vazia do seu irmão.
O velho puxou a toalha até os tornozelos.
— E estive com você naquele prédio, quando procurou em Deus uma justificativa para o que havia decidido fazer. Estive com você até o último segundo.
Lúcio finalmente o encarou.
— Você não é eu.
O velho respirou fundo.
Puxou novamente a toalha sobre os joelhos.
— Não preciso ser mais.

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u/0_monomania_0 — 3 days ago
▲ 12 r/escritacriativaptpt+4 crossposts

Culpa sua

Era doce menino, mas tinha um defeito:
nunca errava, visto que, para corrigi-lo, 
não podia ter errado.

Premissa simples, e de simples aplicação:
como podia o professor corrigi-lo 
se, no seu terno, ainda faltava abotoar um botão? 

a diretora o chamou, 
Por que não entregou a lição?

Olha, diretora, a senhora deixou sua bolsa no chão.

Qualquer trabalho em grupo 
não precisava fazê-lo
já que seus colegas
catavam meleca com o dedo.
Anos passaram 
Os colegas já não catavam mais melecas
Quando conversava com chefe:
Mas todo o dia você chega atrasado

Entendo, chefe. Mas e o Joaquim, que faltou por causa do resfriado?

Por fim outros anos se passaram
Já não havia chefes ou empregados
Com a médica dizia
Estou doente por causa desses remédios que me deram. Sempre tive saúde ótima. Vocês que me adoeceram.

E, quando a hora chegar, diante de Deus
com certeza vai encontrar algo fora do lugar

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u/0_monomania_0 — 8 days ago
▲ 4 r/EscritoresBrasil+2 crossposts

Esqueci de mim

Chorava num canto para que ninguém o consolasse.
Assim vivia.

Rezava sozinho para que não o escutassem.
Assim vivia.

Reclamava com o espelho para que o reflexo entendesse.
Assim sobrevivia.

Apoiava a cadeira devagar, para que a senhora do 201 não se incomodasse.
Se pôs sobre ela com o peso de uma carta nunca enviada.

Pulou da janela para o lado do beco,
para que as crianças do 501 não reparassem.

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u/0_monomania_0 — 10 days ago
▲ 12 r/escritacriativaptpt+6 crossposts

Homenagem a minha vó

Minha avó Leda sempre manteve um hábito. Enquanto dava aulas de português para estrangeiros, adorava escrever cartas para seus correspondentes: França, Espanha, Inglaterra... Todos acessíveis por meio de seus envelopes.

Logo, já era difícil enxergar a mesa sob um oceano de cartas: sempre um selo diferente, sempre um país diferente. Todas aquelas vozes pareciam conhecer minha avó melhor do que eu.

Passavam-se Natais, Páscoas, verões e invernos. A única certeza era que novas cartas sairiam e outras tantas chegariam. Eu acompanhava as aventuras que seus correspondentes viviam através das histórias que ela me contava. Conheci países inteiros sem jamais sair do escritório da minha avó.
Os anos passaram, e ela continuou escrevendo. Até que a caneta ficou mais lenta que a lingua. Foi então que assumi o papel de sua caneta, colocando em palavras aquilo que suas mãos trêmulas já relutavam em escrever. Lembro-me de explicar a vários correspondentes por que a voz no papel agora tinha outro sotaque. As palavras mudavam de caligrafia, mas as intenções continuavam as mesmas.

Desde então, aproximei-me ainda mais da minha avó, traçando as linhas que suas mãos já não conseguiam desenhar. Mesmo assim, ela fazia questão de levar pessoalmente as cartas aos Correios. Cumprimentava a atendente e recitava, de memória, o nome e o endereço de cada destinatário.

Passaram-se mais alguns anos, até que suas pernas deixaram de acompanhar a mente. Foi então que comecei a ir sozinho aos Correios. Precisei explicar à atendente por que sua cliente fiel de todas as terças-feiras já não podia entregar as próprias cartas, assim assumia o papel de suas pernas.

Outros tantos anos passaram, agora a mente sempre afiada como navalha já relutava no corte assim e as frases se embaralhavam antes mesmos de tocaram a boca, mesmo assim continuava querendo escrever suas cartas, e comecei a assumir o papel de seu interprete, admito, as vezes falhava em transmitir a esperteza e rapidez que minha vó sempre demonstrava em suas cartas citando dante e novela das 9:00 com a mesma naturalidade de uma conversa com um amigo Mas suas cartas continuavam indo e vindo com a mesma frequência e intensidade de sempre,

tempos passaram e as palavras de minha vó pararam de chegar e sua mente afiada e sua navalha parou de cortar. As cartas pararam de sair por algum tempo, mas continuavam chegando com frequência, então decidi continuar sua fábrica de selos usados e envelopes lacrados, e continuei escrevendo cartas a cada um dos muitos correspondentes com quem não tive coragem de contar oque aconteceu.

Com o passar do tempo, cada vez menos cartas chegavam. Uma a uma, desapareceram da pilha sobre a escrivaninha. Cada vez menos eu precisava responder.

Quando chegou a última, demorei alguns minutos antes de abri-la. Reconheci a caligrafia antes mesmo de ler o remetente.

Era uma carta como tantas outras. Contava sobre um neto que havia começado a universidade, sobre um inverno rigoroso, sobre um cachorro já velho demais para correr pelo jardim. Terminava perguntando por que minha avó havia demorado tanto para responder.

Pela primeira vez, respondi assinando apenas o meu nome.

Nunca mais outra carta chegou.

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u/0_monomania_0 — 23 days ago
▲ 6 r/u_0_monomania_0+3 crossposts

Ode ao tempo

Já vou a mais velórios que aniversários.

O vinho, que aguardava uma grande festa,
hoje é vinagre ainda guardado.

As brigas que atravessavam
a sala,
a cozinha
e o quarto
já não têm qualquer significado.

Da casa que nos viu crescer,
sobraram poeira
e cortinas rasgadas.

Os relacionamentos de vidro,
hoje despedaçados na prateleira.

Um caixão que perdeu a memória.

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u/0_monomania_0 — 1 month ago
▲ 3 r/Poemas

Faltam dias de chuvA

Achei um recibo
na minha capa de chuva

os valores já estavam borrados
só sobrou o dia

tinha aquela sua torta
de chocolate meio amargo

pra mim, um banoffee
e um café gelado

lembro de planejarmos ir
conhecer o lugar inteiro

e, justo naquele dia,
São Pedro fez cair
o céu inteiro

chegando lá, era:
caro
feio
barulhento

mesmo assim, você riu

e eu já não ouvi
O barulho do lugar

hoje, este recibo molhado
é tudo o que sobrou

daquele dia

que a chuva não molhou

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u/0_monomania_0 — 2 months ago
▲ 13 r/EscritoresBrasil+8 crossposts

Faltam dias de chuva

Achei um recibo
na minha capa de chuva

os valores já estavam borrados
só sobrou o dia

tinha aquela sua torta
de chocolate meio amargo

pra mim, um banoffee
e um café gelado

lembro de planejarmos ir
conhecer o lugar inteiro

e, justo naquele dia,

São Pedro fez cair
o céu inteiro

chegando lá, era:
caro
feio
barulhento

mesmo assim, você riu
e eu já não ouvi
o barulho do lugar

hoje, este recibo molhado
é tudo o que sobrou

daquele dia

que a chuva não molhou

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u/0_monomania_0 — 2 months ago

A última vez

Essa vai ser a última vez,

a última vez que atendo
ao seu chamado

e grito seu nome
no interfone.

Nunca mais vou cumprimentar o porteiro,
nem apertar o doze,
que é o seu andar.

Quero distância
do seu corredor,

com todo aquele azul
que sempre me incomodou.

É a última vez
que toco sua campainha.

Não quero mais olhar
pros quadros da sua sala,

nem fazer cafuné
no seu gato.

A última vez que me pego
Sentindo seu cheiro no sofá
Enquanto te espero sair do banho

Não vou mais fingir que olho a TV
ao te ver sair de toalha

Nem vou te beijar devagar
até ficarmos nus.
a última vez que gemo
seu nome.

Nem vou te levar
café da manhã.
Quero que fique bem claro:

essa é a última vez.

É.

A última vez…

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u/0_monomania_0 — 2 months ago
▲ 1 r/Poemas

A última vez

Essa vai ser a última vez,

a última vez que atendo
ao seu chamado

e grito seu nome
no interfone.

Nunca mais vou cumprimentar o porteiro,
nem apertar o doze,
que é o seu andar.

Quero distância
do seu corredor,

com todo aquele azul
que sempre me incomodou.

É a última vez
que toco sua campainha.

Não quero mais olhar
pros quadros da sua sala,

nem fazer cafuné
no seu gato.

A última vez que me pego
Sentindo seu cheiro no sofá
Enquanto te espero sair do banho

Não vou mais fingir que olho a TV
ao te ver sair de toalha

Nem vou te beijar devagar
até ficarmos nus.
a última vez que gemo
seu nome.

Nem vou te levar
café da manhã.
Quero que fique bem claro:

essa é a última vez.

É.

A última vez…

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u/0_monomania_0 — 2 months ago

A última vez

Essa vai ser a última vez,

a última vez que atendo
ao seu chamado

e grito seu nome
no interfone.

Nunca mais vou cumprimentar o porteiro,
nem apertar o doze,
que é o seu andar.

Quero distância
do seu corredor,

com todo aquele azul
que sempre me incomodou.

É a última vez
que toco sua campainha.

Não quero mais olhar
pros quadros da sua sala,

nem fazer cafuné
no seu gato.

A última vez que me pego
Sentindo seu cheiro no sofá
Enquanto te espero sair do banho

Não vou mais fingir que olho a TV
ao te ver sair de toalha

Nem vou te beijar devagar
até ficarmos nus.
a última vez que gemo
seu nome.

Nem vou te levar
café da manhã.
Quero que fique bem claro:

essa é a última vez.

É.

A última vez…

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u/0_monomania_0 — 2 months ago
▲ 2 r/u_0_monomania_0+1 crossposts

A última vez

Essa vai ser a última vez,

a última vez que atendo
ao seu chamado

e grito seu nome
no interfone.

Nunca mais vou cumprimentar o porteiro,
nem apertar o doze,
que é o seu andar.

Quero distância
do seu corredor,

com todo aquele azul
que sempre me incomodou.

É a última vez
que toco sua campainha.

Não quero mais olhar
pros quadros da sua sala,

nem fazer cafuné
no seu gato.

A última vez que me pego
Sentindo seu cheiro no sofá
Enquanto te espero sair do banho

Não vou mais fingir que olho a TV
ao te ver sair de toalha

Nem vou te beijar devagar
até ficarmos nus.
a última vez que gemo
seu nome.

Nem vou te levar
café da manhã.
Quero que fique bem claro:

essa é a última vez.

É.

A última vez…

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u/0_monomania_0 — 2 months ago
▲ 3 r/Poemas

Só mais um silva

Era só mais um silva
mais um oliveira

outro alves
outro ferreira

muitos lima
pisados por um moreira

quase nenhum safra
nenhum marinho

destino traçado por um desconhecido

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u/0_monomania_0 — 2 months ago
▲ 8 r/EscritoresBrasil+3 crossposts

Distorção espelhada

No espelho,
alguém.
Nas fotos,
também.

Estranho
que ocupa meu corpo.

oqroɔ uɘm ɘbivid ɘup
oʜnɒɿɈƨƎ

mɘdmɒɈ
ƨoɈoʇ ƨɒИ
mɘυϱlɒ
oʜlɘqƨɘ oИ

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u/0_monomania_0 — 2 months ago
▲ 8 r/EscritoresBrasil+1 crossposts

O homem de chapéu-coco

Era uma quarta-feira comum.
Cheguei pouco depois das oito, entreguei alguns relatórios ao Alex e, perto das nove, fui tomar café com a Ana.
Ela falava sobre o marido. Não lembro exatamente o quê. Foi quando notei o homem.
Estava parado no estacionamento.
Usava um chapéu-coco, daqueles que a gente só vê em fotografias antigas. O estranho não era o chapéu.
Era o fato de ele estar olhando para cima.
Nosso escritório ficava no sétimo andar.
Havia centenas de janelas naquele prédio.
Mesmo assim, tive a impressão desagradável de que ele me encarava.
— Você está vendo aquele homem ali? — interrompi a Ana.
— Que homem?
— O do chapéu.
Ela olhou pela janela.
— Não tem ninguém ali.
Ri de nervoso.
— É… deve ser impressão minha.
Quando voltei a olhar para o estacionamento, ele continuava parado.
E, pela primeira vez, levantou a mão em um cumprimento lento e desconcertante.
Quando deram quatro horas, recolhi minhas coisas, me despedi do Alex e da Ana e caminhei até o estacionamento para pegar meu carro.
Enquanto procurava as chaves dentro da bolsa, ouvi uma batida no vidro do passageiro.
Era ele.
Abri o vidro, já irritada por não encontrar as chaves.
— Senhor, estou cansada e não acho minhas chaves. Se puder se afastar do carro, agradeço.
Ele deu dois passos para trás.
Mas continuou sorrindo.
Não era um sorriso simpático.
Era um sorriso educado.
Como o de alguém esperando sua vez numa fila.
Finalmente encontrei as chaves.
Antes de ligar o carro, por educação, olhei para ele mais uma vez.
— O senhor precisa de alguma coisa?
O homem ajeitou o chapéu-coco.
— Não.
Sorriu.
— Só queria saber se desta vez você ia me reconhecer.
Cheguei em casa, joguei a bolsa no sofá e deitei na cama.
Quando acordei, já passava das dez da noite.
Fui para a cozinha preparar o jantar. Coloquei uma lasanha congelada no micro-ondas e liguei a televisão em mais um filme de comédia ruim qualquer.
O micro-ondas apitou.
Parei o filme e fui até a cozinha.
Abri a porta e senti o cheiro da lasanha.
Sem saber por quê, olhei pela janela.
Sob a luz amarela de um poste, do outro lado da rua, estava o homem de chapéu-coco.
As mãos cruzadas nas costas.
Sorrindo.
Quando nossos olhos se encontraram, levantou a mão devagar.
O mesmo cumprimento educado daquela manhã.
Dei um salto para trás, derrubando o prato no chão.
Liguei para a polícia.
Quando ouvi as sirenes e vi as luzes vermelhas e azuis refletindo na sala, finalmente me senti aliviada.
Expliquei tudo a um policial ruivo.
Ele parecia confuso, mas foi até o homem.
Os dois trocaram algumas palavras.
Então o policial voltou.
Mas havia algo diferente em seu olhar.
— Senhora, não estamos aqui para resolver bobagens. Se voltar a ligar sem motivo, vamos prendê-la por utilização indevida dos recursos da polícia.
Fiquei sem palavras.
Virei o rosto.
Aquela altura, o homem já estava perto demais.
Continuava sorrindo.
— Como está a Ana? Ainda fala muito do marido?
Meu corpo inteiro gelou.
— Como você sabe disso?
Pela primeira vez, o sorriso desapareceu.
Ele parecia confuso.
Quase magoado.
— Foi você quem me contou.
— Eu nunca vi você na vida!
O homem abaixou a cabeça.
Suspirou.
E perguntou baixinho:
— Outra vez?
Corri para dentro.
Mas algo começou a me inquietar.
Não era apenas o homem parado na minha rua.
Era uma sensação estranha.
Como se eu já tivesse vivido tudo aquilo.
Como se aquela não fosse a primeira vez.
Sem conseguir dormir, liguei para o Alex e pedi que viesse ficar comigo.
Só consegui respirar de novo quando ouvi a buzina do carro dele.
Desci, abri a garagem e, quando ele entrou no apartamento, o abracei.
— Oi… está tudo bem?
— Alex, você não faz ideia do quanto isso está me apavorando.
Fomos até a janela.
Não havia ninguém.
Só a rua vazia.
Alex suspirou.
— Está vendo? Não tem ninguém.
Respirei aliviada.
— Acho que estou ficando maluca.
— Não — respondeu ele. — Você só anda esquecendo das coisas.
— Como assim?
— Faz meses.
— Meses?
— Desde o acidente.
Silêncio.
— Que acidente?
Alex empalideceu.
— Você está brincando, né?
— Alex… que acidente?
Ele começou a tremer.
— Meu Deus…
— Alex?
Os olhos dele se encheram de lágrimas.
— Outra vez.
— O que?
— Outra vez.
— Alex, do que você está falando?
Ele fechou os olhos.
E começou a chorar.
— Você esqueceu outra vez.
Fiquei parada.
— Esqueci o quê?
Alex respirou fundo.
Mas antes que pudesse responder, senti um arrepio.
Olhei pela janela.
Sob a luz amarela do poste, do outro lado da rua, o homem de chapéu-coco continuava parado.
Sorrindo.
Pacientemente.
Esperando.
Outra vez.

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u/0_monomania_0 — 2 months ago

Mania

Como banalizar seu nome se ele é tao unico
Mal consigo andar pela cidade 
sem tropeçar na sua imagem
Quero torna-la menos que nada
Como vou te esquecer se suas manias ainda moram
Nas minhas

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u/0_monomania_0 — 2 months ago