
Malditos dentes azuis
Leandro gostava de ouvir música. Ele sentia que era um grande conhecedor. Gostava de partilhar este facto com toda a gente, partilhando músicas que vai encontrando, músicas que lhe enviavam e músicas que são a novidade da semana. Podemos dizer que Leandro era um melómano, mas ele já foi ao médico que lhe disse que as suas últimas análises não detectaram nada disso.
Costumava ouvir a sua música pelo altifalante do seu telemóvel. Um dia cruzou-se com um indivíduo, mas que soava como um colectivo. Ele tinha a música mais alta do que a de Leandro. E como Leandro concluiu nesse dia, não podia acontecer.
Leandro comprou uma coluna portátil. É portátil porque venderam-lhe assim na loja, quem vê as suas dimensões não parece assim tão portátil. Por vezes não era fácil transportá-la, mas Leandro sentia muita vontade de ouvir música. Ele e quem o rodeava mal podiam esperar para ouvir a sua nova playlist. Foi o grande motivo pelo qual comprou a coluna.
Mal saiu de casa Leandro ligou a sua coluna nova. Não correu bem à primeira. Nunca o rei Harold I, da Dinamarca recebeu tantos impropérios, mais conhecido como Harold Bluetooth. O telemóvel não queria ligar à sua nova coluna, detetava tudo, desde a televisão do café perto de casa, à escova dos dentes do vizinho. Ainda que lhe parecera um bom equipamento para partilhar música, a televisão do café não lhe daria o público que queria, e limitava-o em termos de mobilidade.
Após 40 minutos para ligar a coluna ao seu telemóvel, Leandro lá conseguiu fazer a conexão que tanto queria. Não com outras pessoas, mas entre a sua coluna e o seu telemóvel, ele não conseguia evitar, sempre tinha sido um casamenteiro. Chegou até a unir a senhora da cantina da sua escola com o senhor Claúdio, responsável de manutenção, tudo isto graças à música vinda do seu telemóvel. Toques polifónicos servem sempre para quebrar o gelo entre duas pessoas. Para quebrar o silêncio também.
Já com o telemóvel ligado à coluna, Leandro entra no autocarro. Estava a quantidade de pessoas ideal para escutarem o seu som. Leandro entra na sua playlist, escolhe a música perfeita e animada, como qualquer viagem de autocarro deveria ser. A música começa a soar na coluna, num tom ainda contido. Leandro também começa a suar, ao ver que ninguém estava a dançar ou a mostrar sinais de prazer. Resolve então meter a música bastante mais alto. Agora sim. Todos olham para ele. Missão cumprida.
Ainda no autocarro, toda a gente olhava para Leandro quando entravam e quando saíam. Quando entravam era mais uma surpresa, ao sair pareciam dirigir-se a Leandro a dizer-lhe coisas, mas ele não percebia porque a música estava bastante alta. Provavelmente a congratulá-lo pelas suas escolhas musicais.
Leandro já estava perto do seu destino, quando avistou alguém que não tinha olhado uma única vez para ele. Ele estava…de fones. O que queria dizer que não ouviu uma única música que Leandro emitiu. Este ser, completamente imune ao seu poder, era um novo desafio para Leandro, que ele não tinha antecipado isto quando comprou a coluna.
Saiu na sua paragem. Pensava, ainda, no que poderia fazer para impedir estes vilões que se mantinham alheios ao seu grande gosto musical. Aceitou que algumas batalhas poderia perder, mas a guerra seria ganha por si, dia a dia a espalhar a sua música em todo o lado.
Ao andar até à escola, Leandro começa a ouvir um som que se aproxima cada vez mais. Era Baltazar, também tinha uma coluna. E era substancialmente mais potente do que a Leandro. Mais uma batalha, mais uma derrota.
No mesmo dia, Leandro foi à loja onde tinha comprado a coluna portátil. Falou com o senhor da loja, para isso teve de meter a sua música um pouco mais baixo. Perguntou se havia algum dispositivo que lhe permitisse fazer com que a sua música fosse ouvida por toda a gente. O senhor da loja perguntou se era ele que andava por aí com a música alta. Ele, muito orgulhoso, anuiu. Depois foi convidado a sair da loja pelos seguranças. Deve ter sido por acharem que ele iria devolver a coluna, achou ele. Melhor compra de sempre, também achou ele, e só ele.
No dia seguinte, voltou à loja, fez a mesma questão, desta vez a outro funcionário. O funcionário perguntou se era da sua coluna que vinha a música alta, que se tinha ouvido quando Leandro entrou na loja. Leandro confirmou novamente com orgulho. O funcionário aconselhou-lhe a comprar fones. Leandro acabou por perder a guerra.
Obrigado por lerem.
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