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A Cabeça que Esquece
Eu quero aprender.
Juro que quero.
No começo, o fogo pega:
caderno aberto, olho brilhando,
cada palavra parece caber.
Eu tento.
Anoto, repito, marco, volto.
Por um tempo, eu até sei.
Fico orgulhoso — "dessa vez ficou."
Aí o tempo passa
e a mente vira peneira.
O que entrou ontem
escorre hoje,
como se nunca tivesse estado.
E isso me incomoda
mais do que eu admito.
Porque eu sento.
Eu insisto.
E mesmo assim
parece que minha cabeça
esquece de propósito.
Sabe o que ninguém me contou?
Que aprender não é linha reta.
Que o cérebro não guarda tudo
no primeiro dia —
ele guarda quando a gente volta.
Então eu vou voltar.
Com raiva, cansado,
achando que não entra.
Porque eu não sou burro.
Eu só estou no meio do processo —
e processo é repetir dez vezes
a mesma coisa até ela pegar.
Um dia,
o que sumiu hoje
vai ficar.
Porque eu não desisti
no dia em que esqueci.
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O Copo Cheio
Todo mundo corre atrás de copo cheio —
cheio de dinheiro, de like,
de conquista, de sorte.
E passa o dia inteiro
com o pescoço esticado,
olhando o copo do vizinho.
Enquanto olha,
derrama o seu.
Na pressa. Na comparação.
No "nunca é o bastante".
Aí chega a noite
e o copo está vazio —
não porque a vida tirou,
mas porque você esqueceu
de beber o que já tinha.
Agradece o primeiro gole.
O teto. A comida,
mesmo fria,
que matou a fome.
Agradece o simples:
estou vivo hoje.
Tem gente que bebe água limpa
e reclama da sede.
Tem gente que recebe pouco
e olha pro pouco e diz:
"já dá pra seguir."
Cuida do teu copo.
Enche ele primeiro.
Depois, se sobrar água,
você olha pro dos outros.
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A Resposta Demorada
Você acorda com o mundo nas costas.
Conta pra pagar.
Sono atrasado.
Cabeça cheia.
Aí alguém faz uma pergunta boba:
"Almoçou?"
E você cospe fogo.
Mas não foi a pergunta.
Foi a guerra que você trouxe de casa.
Foi o cansaço que não tratou.
Foi a paciência que ficou na gaveta.
Palavra cuspida não volta.
Ela bate, machuca,
e fica quicando
na cabeça do outro
e na sua também.
Por isso, respira.
Conta até três.
Toma água.
Sai da sala por um minuto.
Deixa a raiva passar
antes de deixar a boca falar.
O mundo já está difícil demais
pra gente ser difícil
um com o outro dentro de casa.
Às vezes a melhor resposta
é a que demora —
porque resposta pensada
evita a ferida
que nenhum pedido de desculpa
apaga depois.
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O Balde dos Outros
Você virou especialista
em achar furo no balde alheio.
"Olha como ele gasta."
"Olha como ela fala."
"Olha como ele cria o filho."
E vai catando defeito,
catando,
catando —
enquanto o seu balde
tem três furos
e a água escorre no chão
sem você notar.
Você sabe onde o outro erra,
sabe o que ele deveria fazer,
sabe até como deveria viver.
Mas não vê
o seu próprio vazando.
Então, antes de apontar,
olha pras próprias mãos.
Antes de julgar,
conserta o que está furado.
É fácil contar os buracos do outro.
Difícil é admitir
os três que tem no nosso.
Cuida do teu balde.
Quando ele estiver cheio
e sem vazar,
talvez você tenha água
pra oferecer.
Até lá, cuida do seu.
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O Juros do Silêncio
A gente tem uma mania feia:
deixar pra depois.
"Depois eu ligo pro pai."
"Depois eu peço desculpa."
"Depois eu digo que te amo."
Só que depois cobra juros,
e os juros são caros.
Chamam-se "era pra eu ter falado".
Chamam-se saudade.
Chamam-se porta fechada.
Orgulho é dívida
que se paga com arrependimento.
Silêncio é empréstimo
que volta com dor.
Não espera o enterro
pra falar coisa bonita.
Não espera a briga virar gelo
pra descongelar com abraço.
Não espera perder
pra dar valor.
Fala hoje.
Liga hoje.
Abraça hoje.
Perdoa hoje.
Porque amanhã, às vezes,
não chega.
E quando chega,
pode chegar tarde demais.