Ñe'ẽ (Palavra guarani)
No idioma dos ventos e da terra,
ñe'ẽ é “palavra”, é “alma”.
Um homem sem palavra
é um corpo sem fogo,
é a sombra que o sol abandonou.
Falar é soprar o espírito,
é dar forma ao invisível,
é acender a pele do silêncio
com o fulgor da voz.
Se a poesia é um jogo de palavras,
não será também um jogo da alma?
Cada verso, um feitiço sussurrado,
cada estrofe, um ritual de luz e sombra,
o poeta, um xamã errante,
tecendo encantos na página vazia,
conjurando mundos com o hálito do verbo.
Uma biblioteca seria templo?
Um altar onde o tempo dorme,
onde os mortos murmuram segredos,
onde os livros respiram na penumbra
como estrelas de papel.
E o livreiro, alquimista de sonhos,
oferece antídotos de silêncio,
destila histórias como bálsamos sagrados.
O tradutor, um oráculo secreto,
que escuta o eco das línguas,
faz do estrangeiro uma morada.
E o leitor, peregrino e sacerdote,
busca revelações ocultas
nas entrelinhas do infinito.
E o marca-páginas, meu rosário,
conta histórias como preces,
como se cada palavra fosse um astro
e cada livro, um universo por nascer.
Mas se a palavra é alma
e a estante repousa em silêncio,
não seria então a estante parada
um cemitério de estrelas apagadas?