u/Living_Double_1146
Sítio da Ajuda, São Martinho - 1920/1940
Hoje em dia o Forum Madeira fica ali, atrás das pessoas da foto. A casa com a abóboda ainda existe.
À espera
Este é o gato com quem me cruzei um dia destes. Segundo me contaram, é um gato sem dono. Todos os dias entra na sala de espera da Segurança Social e senta-se numa das cadeiras. É extremamente afável e fica ali o dia todo até a hora de encerrar. No dia seguinte repete o ritual. Já tem lá um cantinho para a sua água e ração dadas pelas funcionárias.
É caso para dizer que tem uma paciência de gato...
O espelho
Como seria bom
Que a imagem do espelho
Pudesse desprender-se do vidro
Como seria bom
Que se sentasse diante de mim
E, num sussurro sem defesa,
Confessasse os segredos mais íntimos
Como seria bom
Não ter de guardar silêncio sobre nada
Derramar, sem medo, todas as verdades
Que o coração esconde na vergonha.
Como seria bom
Esses instantes de comunhão absoluta
Entre quem sou
E quem apenas o espelho conhece e reflete
E depois no fim da partilha
Voltar a imagem para o espelho
Mansa e reconciliada
Serena e calma
Silenciosa.
Ode a coisa nenhuma
Carrego-me como quem arrasta a própria casa às costas.
Sou as mãos que lavam, cozinham, dobram o silêncio.
Há dias em que um chá lembra a conquista de uma montanha,
e um abraço, um mundo distante que não conheço.
No espelho encontro apenas
a única pessoa que aqui ficou de guarda.
E cansa, ser para mim
tudo aquilo que ninguém foi.
Às vezes olho os outros
a felicidade deles acesa nas janelas
como quem passa na rua à noite
e vê casas quentes onde nunca foi convidado.
Passo do lado de fora,
com as mãos enfiadas nos bolsos do silêncio.
Como posso dizer
Não ouso confessar que te amo.
A última vez que ousei, fui inteiro.
Não guardei sombras, nem segredos;
abri o peito como quem abre uma ferida
e deixei que vissem o que ali pulsava.
Mas mãos cruéis arrancaram o meu coração
como quem colhe uma flor ainda viva,
sem piedade, sem luto.
Não morri.
Não da forma que os corpos entendem.
O meu peito ainda se infla ao respirar,
os dias ainda passam pela minha pele
como chuva fria nas pedras dos túmulos.
Continuo a caminhar entre os vivos.
Como. Durmo. Falo.
Mas tudo isso é apenas eco.
Porque dentro de mim
num sarcófago silencioso
algo foi sepultado.
Uma chama antiga extinguiu-se
sem funeral, sem oração.
E desde então carrego este inverno
no lugar onde antes havia luz.
Por isso não consigo dizer que te amo.
Como poderia?
Se procuro amor em mim
e encontro apenas ruínas,
punhados de cinzas
e o fantasma
daquilo que fui um dia.
Se tivessem oportunidade de visitar Chernobyl - com todas as medidas de segurança, claro - iam ou preferiam não arriscar?
Atualmente em quase estado de ruína, foi desde 1666, abrigo a “fêmeas arriscadas a enganos do mundo e moças pobres arriscadas”.
Até a década de 1990, altura em que deixou de cumprir o seu propósito, corriam relatos de uma gestão pautada como "medieval e de abusos de maus tratos".
Dêem-me aí exemplos dos vossos "é pra amanhã, deixa lá não faças hoje. Porque amanhã sempre voltas a adiar"