Desabafo
Estou cansado, sabes?
Não daquele cansaço que se cura com uma noite de sono,
nem do que o trabalho deixa nos ossos.
Não.
Estou cansado de uma fadiga sem nome,
daquela que se instala na alma
e faz de cada manhã uma batalha silenciosa.
As noites chegam vazias de promessas,
carregadas apenas de perguntas
que o dia nunca teve coragem de responder.
Levanto-me porque a vida insiste,
não porque a esperança me acompanhe.
Visto os mesmos gestos,
as mesmas palavras,
como quem representa um papel
que há muito deixou de acreditar.
Estou cansado de procurar sentido
em dias que se repetem,
de esperar por um amanhã
que chega sempre vestido de ontem.
Porque existir pesa.
Pesa mais quando se vê demasiado,
quando se sente em excesso,
quando o coração continua a bater
mesmo depois de perder o rumo.
E, ainda assim, continuo.
Não por coragem.
Talvez por hábito.
Ou porque até desistir
exige uma certeza
que nunca encontrei.
Estou cansado, sabes?
Não da vida.
Mas do peso imenso
de continuar a existir dentro dela.