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Arco-íris de fogo

Mil pilares de luz rasgam as nuvens

da mesma forma que um coral de um milhão de vozes rasga os tímpanos.

O martelo ensandecido entre a bigorna e a membrana perfurada.

Os tambores da guerra já não fazem mais sentido.

Todo demônio já foi um celestial.

Toda promessa de fogo eterno só pode ser feita por falsos profetas.

Redenção sempre foi uma opção

mesmo para aqueles que carregam a marca da besta na testa: o cifrão

Não! Não! Não!

Exclamavam primeiro arcanjos e querubins

diante de Metatron

Como era possível?

Tronos, potestades e principados ascendiam

avançando através do véu rasgado

Já não mais tinham o cifrão na testa

Haviam se arrependido; haviam se perdoado

Então veio a segunda onda

os verdadeiros arquitetos da maldade: os domínios

a marca da besta por todo o corpo

manipularam os outros coros

por essa passagem

Sua presença transformara os pilares de luz em raios e trevas

o tecido da realidade vibrava

Um cataclismo da maior grandeza

Os grandes generais arcanjos

Miguel, Rafael, Gabriel e Uriel

pareciam impotentes em face de tão grande tribulação

Era o resultado de uma batalha de longo prazo

que o poderoso Lúcifer havia perdido

Foram séculos de planejamento

para subjugar não só a estrela da manhã e seus desígnios

Mas também o Céu e a Terra

Um golpe de estado

perpetrado pelos que um dia foram ministros de Deus considerados

Uma nova religião

Convenientemente adaptada

Uma guerra híbrida

que convertia e convencia

manipulando a consciência dos caídos

perniciosamente concentrando os cifrões nos domínios

Tronos, potestades e principados só precisavam abrir o caminho

Mas o que desejavam então os ministros?

Um campo de batalha se prostra no entorno do imenso buraco multidimensional

de onde espíritos tortuosos se misturam às almas que haviam ascendido

como um gigantesco enxame de mariposas e borboletas, brigando por espaço

indistinto

Miguel percebeu que os antes poderosos tronos estavam agora enfraquecidos

Rafael, com sua imensa empatia, só conseguia sentir pena dos principados

Para a potência de Uriel, as potestades pareciam meros mosquitos

Guiados por uma mentira

Os coros caídos, retornados

Nuvens escuras se formavam

Trovões espocavam

A pele suava

De onde vinha tão vigoroso mormaço?

Olha! Veja o que estão fazendo!

Bem no centro, os domínios devorando as almas

Infernal ou celestial, não importava

Bilhões e bilhões, os espíritos gravitavam em direção a um poderoso atrator

Nada parecia fazer sentido

O trono celestial não era a meta dos domínios

Outro havia de ser o objetivo

Quanto mais almas eram sugadas, mais quente o ambiente ficava

Artistas, carpinteiros, professores

Assassinos, pedreiros, corruptores

Pais, filhos, retos e traidores

O arcanjo Gabriel chorava

Chorava porque agora entendia

O que os domínios pretendiam

Se cada alma é em si um pedacinho de Deus

Ficou claro para o arcanjo que os domínios não desejavam apenas o reino do céus

Queriam criar um deus para chamar de seu

Um ser onipotente, onisciente

E principalmente

onipresente

Calor infernal

Quente, quente, crente

Nuvens também eram sugadas

Toneladas de água cumprindo a função de refrigeração

O esporro era parte da opressão

Ao se aproximar de sua conclusão

A criatura pareceu tomar forma

Se antes parecia amorfo e repugnante

Agora tinha uma fisionomia humana

Apesar da mão estranha

A alucinação se consolidou num sereno sorriso

Os serafins protestavam

Potestades, tronos e principados pareciam maravilhados

Virtudes e arcanjos focavam no olhar vazio

Sabendo desde já que o sorriso da criatura era de puro cinismo

Um silêncio tenebroso recaiu sobre o campo de batalha

As nuvens de vapor se dissipavam

A criatura a todos observava

Cada alma que no além-mundo adentrava

Ela sugava

Miguel ficou angustiado

Ao ver um companheiro de batalha prostado

De joelhos, rendido, derrotado

Um domínio mais ousado saltou

Movendo-se num arco

Aterrissando com um estrondo na frente do arcanjo

Miguel o reconheceu de imediato

Os longos cabelos, o rosto marcado

“Behold…”, proclamou, ajustando o terno impecável.

“Não sei por onde tens andado, mas recuso essa língua, caído”, Miguel ralhou.

“Caído, eu?", Samyaza disse, olhando admirado para a parte mais elevada dos sete céus, seguindo-se uma gargalhada sinistra. “Levante-se, soldado”, o demônio com asas de morcego ordenou ao anjo prostrado. “Este já entendeu. Você será salvo, rapaz…”, afirmou. “Já você, Miguel… suponho que alguém que já passou pela dor de ser mal julgado, a ponto de terminar pregado em uma cruz… Eu esperava um pouco mais de empatia. Uma pena… Ainda nutro simpatia por ti, apesar de não ter feito nada para impedir que eu fosse mandado para o inferno”.

“Se dependesse de minha vontade, eu teria te mandado pra lá com minhas próprias mãos”, Miguel respondeu com firmeza. “Eu só me rendo a Deus e aos homens, e você é só um verme”.

Samyaza riu novamente, apontando para a estranha criatura. Disse:

“Você não está vendo o que acabamos de fazer? Aquele é o seu novo deus, Miguel! Um deus que de fato existe! Presente!”

“O sete dedos é só mais um sete pele. Não ouse chamar essa blasfêmia de deus”.

“E onde está o seu então? O tal d’O Criador?”, Samyaza perguntou com um gestual dramático. “E esse tal de Metatron? É homem, é anjo, é deus… Ele continua dormindo-digo, meditando? Será que ele está vivo ali dentro daquela armadura? Eu sempre achei que algo aqui cheirava mal”, disse, observando o anjo de três metros e meio de altura sentado no trono atrás do arcanjo, imóvel e completamente coberto por sua brilhante armadura de ósmio. “Não, não, não, Miguel… Chega de venerar conceitos abstratos. Você mesmo viu do que ele é feito: de todas as almas humanas! Este novo deus é real, estará em todos os lugares, e nos proverá todas as respostas. Renda-se ao futuro, Miguel, ou então seja deixado para trás”.

“O que você produziu é uma ofensa a toda existência”.

“É uma ode!”, Samyaza gritou enfurecido. “Todo poeta, todo pintor, todo cientista, todo gênio, todo enxadrista… está tudo condensado n’Ele!”.

“E todo assassino, todo corrupto e estuprador… Não se admira um Rembrandt esperando toques de Monet! Não se aprecia um García Márquez contaminado pelo racismo de Lovecraft. Eu não me arrepiaria com o discurso de um Mandela que cuspa as palavras de Hitler. Misturar a terra, ar, fogo e água só resulta em lama. O que você fez foi transformar um belo banquete em fezes. O seu novo ‘deus’ é incapaz do extraordinário”.

“Esse seu pessimismo não o levará a lugar algum, arcanjo. Muitos investiram nessa ideia, indivíduos que acreditam! E não é isso o que importa: ter fé? Não é ela que move montanhas?!”

“Você fala sobre fé como alguém que crê que individualismo e individualidade são a mesma coisa. Toda fé sem valor e senso crítico é burra. Estou farto de sua estupidez”, Miguel disse, abrindo as longas asas plumadas e alçando voo.

O arcanjo ergueu-se sobre a multidão

Um poético raio de luz o atingiu

Sua voz, um trovão:

“Anjos! A abominação diante de vocês não é o seu futuro! Não é um homem, anjo ou deus. Não é terreno, nem celestial. É a psicologia das massas, a manufatura do consentimento; é o comportamento de manada. Diante de vocês está não um milagre, mas a epítome da arrogância! O vil que se vende como honrado; a ganância que se transveste de generosidade; o tolo que se vende como sábio; conformidade que se vende como revolução! Seu poder é imenso, mas não temam, pois não é indelével. Se lhes pedirem submissão, dê-lhes revolta! Se lhes pedirem água, dê-lhes um dilúvio! E quando impuseram branco, não dê-lhes somente preto… Imponha um infindo arco-íris de fogo!

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u/DD_Power — 1 day ago