u/Dull_Owl9153

▲ 3 r/HQMC

Monda mística

Durante cerca de uma década fui presença regular numa quinta muito bonita para as bandas de Idanha-a-Nova. Os proprietários eram alemães e, como é típico, geriam-na como se esta fosse uma embaixada rural-alternativa da Alemanha.

Certo dia, quando os donos estavam ausentes, apareceu um bando de putos “iluminados”, estilo ariano Hare Krishna. Deveriam fazer algum trabalho voluntário (como combinado), mas só ficavam meditando e enchendo a barriga à custa do meu árduo trabalho na horta (o calendário acabara de anunciar a chegada do Verão e as temperaturas beiravam os 40Cº!) e com os animais (havia muita variedade de bichos domesticados; e eu mesmo ordenhava as ovelhas, fazia o queijo e curava-o por meses, para apreço de todos).

Durante uma semana fiquei calado com tamanho abuso dos folgados pseudoesotéricos. Até que o “meu sangue ferveu”! Mesmo procurando manter a calma, dei-lhes um ultimato: eu deveria sair no dia seguinte e só regressaria à noite; e eles teriam que fazer algum trabalho na horta (rega e monda manual, basicamente) durante a minha ausência. Se não fizessem isso, eu pegaria na mochila e partiria, deixando-os entregues à sua sorte.

Pois bem, de volta ao crepúsculo, fui direto verificar a horta, constatando que nenhum trabalho tinha sido ali feito desde a última vez que eu lá estivera. Fiquei agastado! Percorrer as restantes duas centenas de metros que separam a horta da casa principal (depois de uma prazenteira caminhada que me ocupou o dia inteiro), por entre um denso montado, àquela hora vibrante de encantadores cantos da avifauna e de insetos, permitiu-me acalmar. Mesmo assim, reuni-me com os jovens em causa (todos burguesinhos que se achavam desmedidamente especiais para trabalhar duro). Apenas tinha começado a dar-lhes conta do meu desapontamento, eles interromperam-me, atestando (com sinceridade quase lacrimejante) que tinham mondado a horta. Tal mentira agravou de sobremaneira o meu estado de espírito, convencido de que me achavam o maior imbecil do mundo. Os “seres de luz” explicaram-me que se tinham reunido, sentados em posição de lótus, ao redor da horta, e rezaram em uníssono para que a Mãe Natureza não fizesse brotar ervas “daninhas” naquele espaço. E logo se foram embora com a sensação do dever cumprido, a caminho de assaltar a bem suprida dispensa. Palhaçada! Uns dias depois, ri-me bastante. Naquela hora, não vendo a utilidade de me envolver em acaloradas discussões, cumpri a minha palavra, deixando-os por conta própria num local bem remoto e praticamente sem comunicação com o exterior (foi num tempo pré telemóveis e eles não falavam uma palavra de português).

Mas que raio de comunidade de merda é esta?! Não há um(a) FDP que compre o meu livro – recheado destes episódios caricatos e onde até é revelado o sentido da vida! Só aqui vêm debicar amostras grátis (que não são os melhores produtos). Raízes Expostas - Bookmundo

reddit.com
u/Dull_Owl9153 — 1 day ago
▲ 1 r/HQMC

Inconsistências entre críticos de arte académica

No meu oitavo ano do liceu, em Santarém, eu e a professora de matemática tínhamos um acordo tácito bastante conveniente para ambas as partes: desde que eu não perturbasse o resto a sala, sentado na última carteira junto duma janela, eu poderia passar aquelas horas chatas e improdutivas desenhando, lendo banda desenhada, ou simplesmente olhando lá para fora. E nos dias de teste, nada mais me era exigido do que limitar-me a assinar o meu nome e sair, ganhando uma hora de semi liberdade.

Só que essa professora já era velhota e, por alguma razão, a meio do ano, desapareceu em combate. A veterana amoldada foi substituída por uma novinha empertigada, querendo impor a sua autoridade. Logo de rompante, presenteou-nos um teste surpresa.  Eu reagi com a minha rotina de rebeldia displicente, a caminho da porta, entreguei-lhe o questionário com apenas o meu nome assinado. Ela deteve-me.

- Mas o que é isto?! – Mostrou-se agastada.

- É que normalmente basta-me assinar o nome e sair.

- Ah, comigo não é assim, não! – Com assertiva autoridade, esclareceu-me sobre as novas regras:

- Vais ficar aqui até ao final da hora, esforçando-te por fazer o teste.

E apontou para uma carteira vazia junto da sua, convidando-me a sentar.

Contrariado, assim o fiz.

Decidi transformar aquela contrariedade em divertimento. Ostensivamente, perscrutava-a e depois simulava que a estava a desenhar, deixando escapar risinhos abafados e irritantes. Ela, por seu turno, imersa na correção de provas, dissimulava a consciência do que achava que eu estava a fazer. Dando conta das minhas movimentações provocadoras pelo rabo do olho, num crescendo de desconforto, tardou pouco a sucumbir à pressão da curiosidade ofendida, revendo as suas ordens:

- Podes entregar o teste a sair.

Não foi só a mim que aquele recuou suou a uma declaração de rendição, mesmo tendo a minha adversária a faca e o queijo na mão. Percebi o potencial de comicidade, no momento em que ela mostrou o seu calcanhar de Aquiles. Com a tranquilidade confiante de um gozão que conseguiu virar o jogo, respondi-lhe:

- Pode deixar. Agora apetece-me finalizar o teste.

E foi quando a retratei de verdade, claro que não de um modo lisonjeiro. Imaginem a cena horrenda:  a sua cabeça (bastante identificável, modéstia à parte) decapitada, caída no chão sobre uma poça de sangue e umas quantas ratazanas a alimentar-se desses restos mortais. Foi o que lhe entreguei em mãos.

Na aula seguinte com ela, assim que entrei na sala, a stôra de matemática mandou-me para o Conselho Diretivo, onde eu tinha uma entrevista marcada. Conhecia bem o caminho. Não era a primeira vez, nem seria a última, que para lá me encaminharam.

Surpreendeu-me ter sido recebido não pela diretora temida por todos, mas sim por um professor até simpático que percebeu que eu não passava de uma criança orgulhosa da sua travessura e sem real consciência das suas consequências. A bem dizer, estava-me a lixar para aquilo tudo e não via a hora de ter uma vida de verdade.

Na sua frente, o meu teste encimava a secretária que nos separava. Perguntou-me se tinha sido eu a fazer o polémico desenho. Eu confirmei sem hesitar. Entregou-mo com o ditame de, em silêncio, analisar e refletir sobre o que eu tinha feito.

Uns segundos depois, fez uma pergunta perfeitamente escusada para o entendimento da situação, mas que ele precisava para a concretização da piada que tinha pronta:

- Quanto é que ela te deu?

- Zero, como de costume.

- Hummm, se fosse comigo, eu teria te dado 15 ou 20% só pela qualidade do desenho, que está muito bem feito. – Teve dificuldade em controlar o riso.

Momentaneamente, uniu-nos um sorriso cúmplice.

Tendo mais do que fazer, autorizou-me a regressar à minha sala de aulas, recomendando-me a entrar lá com uma cara triste, para contento da professora.

Mas que raio de comunidade de merda é esta?! Não há um(a) FDP que compre o meu livro – recheado destes episódios caricatos e onde até é revelado o sentido da vida! Só aqui vêm debicar amostras grátis (que não são os melhores produtos). Raízes Expostas - Bookmundo

reddit.com
u/Dull_Owl9153 — 6 days ago
▲ 5 r/HQMC

(2009-10)

Sentei-me na varanda para assistir ao nascer do sol, enquanto degustava um sumo de laranjas acabadas de espremer e um pão de queijo ainda fumegante. O nosso astro-rei estava meio cortado pelo horizonte boscoso. Nisto, passaram na minha frente (seguindo em direção a sul) uma fila de peões montados em cavalos magriços. Espiralando ao sabor do vento suave e morno, na poeira levantada pelo atrito dos cascos, projetavam-se os raios horizontais de um sol intensamente acobreado, parecendo que os cavaleiros deixavam um rasto de labaredas no solo ressequido. A beleza dramática daquela cena era traída pela comicidade irónica, devido à lentidão da sua marcha.

Respeitando a vontade das clientes que pretendiam recuperar do Jet lag, dormindo até um pouco mais tarde, saí para passarinhar sozinho ao raiar do dia. Regressei à pousada rústica e decadente (cujas instalações e serviços eram sofríveis e que, entretanto, já fechou) a tempo de me juntar para o pequeno almoço com o grupo de raparigas alemãs entusiastas da vida selvagem e todas sócias do Greenpeace, que eu estava a guiar.

Enquanto nos abastecíamos de calorias, fui chamado à parte pelo velhote que geria a pousada e o tempo todo se babava sobre as minhas clientes.  Disse-me:

- Daqui a uns 5 ou 10 minutos, traz as moças aqui para fora que eu tenho uma surpresa que elas vão gostar muito de ver e fotografar! Nossa, vão adorar!

Ponderando sobre o que eu conhecia desses fazendeiros recém-convertidos ao ecoturismo, incapazes de falar diretamente com os seus clientes estrangeiros e jamais tendo viajado para fora do Brasil, optei pela precaução e perguntei-lhe o que de especial tinha preparado para nós. Ele sorriu, mantendo o secretismo divertido. Daí a pouco eu vi uns funcionários dele arrastar uma vaca até junto de nós, amarrando-a bem na frente do refeitório. Um deles começou a afiar uma faca, cuja lâmina tinha quase dois palmos. Percebendo o que ia acontecer, apressei-me a regressar à mesa das belas valquírias e avisei-as que, daí a pouco iriam matar uma vaca como um espetáculo para elas! Se não quisessem assistir, o melhor seria rasparem-se para os seus quartos. Dali a uns 20 minutos eu esperaria por elas nas traseiras da pousada, dando início a uma caminhada pela mata. Fiz as habituais recomendações para essa atividade, e saí de fininho. Ao nos afastarmos, ainda escutámos os gritos da vaca perdendo a vida brutalmente.

No ano seguinte, noutra pousada que costuma estar lotada, e numa situação análoga, enquanto finalizava o pequeno almoço na companhia da família de estadunidenses que eu estava a guiar, escutei uma grande comoção equídea ali perto. Saí para ver o que se tratava. Estavam a capar cavalos – sem anestesia; usando uma faca ferrugenta, que o capador limpava o sangue nas calças, de cada vez que extraia os testículos aos pobres animais, amarrados no chão! (Pelo menos passava um pouco de desinfetante nas feridas abertas, antes de os soltar) Os outros cavalos à volta relinchavam de pavor, com os olhos querendo sair das órbitas, empinavam-se, tentando rebentar as cordas que os seguravam a postes, percebendo que seriam as seguintes vítimas.  

Dirigi-me aos peões e, com humildade e tato, perguntei-lhes se seria possível adiarem aquela atividade cruel por uns minutos, até eu sair de passeio com os meus clientes; ou, então, não caparem os cavalos junto do refeitório e dos apartamentos dos turistas.  O capador olhou-me com perplexidade incomodada e respondeu-me ; “ágah, chômano, se os gringo[s] não gosta[m] de ver isto, imagina o que diriam se aqui estivessem há uns 30 anos!”...

Pedi-lhe pormenores sobre as atrocidades de antanho a que ele vagamente aludia.

- Ah, houve um peão que se engraçou com a filha do patrão, querendo namorar. Aí o patrão mandou nóis pegá ele, amarrá no poste a capar. Nóis fez isso mesmo. O disgraçado levô dois dias p´rà morrê, sangrando ao sol. E ninguém pôde desamarrar ele, não!...

Posso estar enganado, mas fiquei com a sensação de que havia nostalgia no seu tom de voz. O que não falta no Brasil rural são neocapitães do mato ao serviço de latifundiários que agem como senhores feudais. E assim a humanidade vai progredindo, com passinhos de bebé...E às vezes é um passo para a frente e dois para trás...

Existem leis que proíbem estas práticas cruéis na pecuária. O problema é o ainda instransponível fosso entre o país legal e o país real. Neste fim do mundo, as leis mal valem para os homens, quanto mais para os bichos!  (Recentemente, no Porto Jofre, um piloteiro - de trato extremamente difícil - assassinou outro colega, esfaqueando-o pelas costas. Não foi um ato reflexo, mas sim premeditado e por motivo fútil. Houve bastantes testemunhas desse crime bárbaro que ficou impune. Ao que parece, as autoridades policiais consideraram que a vida de negros pobres não justifica o trabalho de se deslocarem até ao fim da estrada para prender um assassino, e cagaram no assunto.)

Nas vizinhanças, assisti a uma patacoada dessas que esteve perto de criar um incidente diplomático, tendo sido protagonizado por outro dono de pousada, que é um bem sucedido homem de negócios, considerando-se duma cepa superior, oriundo de cidade grande do litoral, mais cosmopolita e que até reivindica ter sangue azul de alguma obscura região europeia; reconhecido pelo seu narcisismo maligno ( ao nível de um Donald Trump), que a cocaína que consome em quantidades industriais funciona como combustível de foguetão para o seu ego hiperbólico, gostando de se pavonear e humilhar aos gritos gente humilde.  À semelhança do que acontece com a generalidade dos donos de pousadas e de barcos-hotéis no Pantanal, este mergulhou de cabeça e de olhos fechados na cloaca da extrema direita.

Digo isto apenas para que compreendam o quão difícil é para esse homem escutar vozes discordantes que o critiquem diretamente. E foi assim que, preparando-se para receber uma delegação indiana de umas das maiores ONGA mundiais, decidiu “homenageá-la” com a organização de uma vaquejada, seguindo-se um churrasco pantaneiro. Pretendia, deste modo descabido, cimentar uma parceria comercial com pessoas que têm as vacas como animais sagrados!...

E não há um fdp sequer nesta comunidade que compre o meu livro! Caceta! Raízes Expostas - Bookmundo

reddit.com
u/Dull_Owl9153 — 20 days ago