▲ 7 r/Livros

O morro dos ventos uivantes

Li a edição da Antofagica, e que edição! Tradução primorosa de Stephanie Fernandes, muito boa mesmo!

Quanto a história, é mais profunda do que aparenta. Quem já leu esse clássico, sabe que está muito longe de ser um romance açucarado; é totalmente o contrário dos romances publicados na época. E a autora, Emily Brontë, é uma figura emblemática por si só. Essa, que é sua obra máxima, está rodeada por mistérios que jamais serão desvendados, mas que podem ser imaginados por múltiplas lentes. Existe um lado oculto nessa história, fantasmagórico; e a melancolia, o peso incalculável que os personagens carregam dentro de si, são sentidos em profundidade pelo leitor, que se vê também assombrado pelos demônios que rondam as duas casas e aquele campo aberto, que remete a um vazio sem fim.

Eu poderia deixar essa resenha mais longa, destrinchando os personagens à minha maneira. Mas opto por ser breve. Apenas leiam, mas leiam com a mente e o coração abertos. Permitam-se ser assombrados pelos fantasmas e pelo oculto intrínseco nessa história estupenda.

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u/Ewer1111 — 2 days ago

Oii

Tô apaixonado. Tenho 29 anos. É uma sensação muito boa e muito incômoda ao mesmo tempo. Trabalho em um mercado como fiscal, e esse rapaz (que aparenta ser poucos anos mais novo que eu) é operador de caixa. A gente se cumprimenta, já conversamos rapidamente uma ou duas vezes. E assim, acontece de a gente se olhar de um jeito diferente um pro outro, eu consigo notar, sentir isso. Por exemplo, na saída, quando ele me mostra a bolsa, eu sorrio e olho direto nos olhos dele, e ele sustenta meu olhar por alguns segundos e retribui o sorriso. Eu continuo sorrindo sozinho depois que ele vai embora. Hoje é minha folga e tenho vontade de ir trabalhar só pra ter a oportunidade de falar com ele. Sério, eu fico imaginando a gente conversando por horas a fio e se conhecendo. Outro dia nossas mãos se tocaram quando eu passei no caixa dele. Foi um toque repentino e rápido, mas foi o suficiente pra me deixar sem jeito. E ele ainda é simpático e todo fofo, falou comigo de forma descontraída e bem humorada, e eu lá, sem saber o que responder e falando qualquer coisa. Era pra eu estar dormindo, mas estou pensando nele, e me veio a ideia de escrever este post; não sei ao certo com qual intenção... Ah, e detalhe: Estou no período de experiência, levou menos de 1 mês pra eu me apaixonar kk. O que vcs fariam se estivessem no meu lugar?

reddit.com
u/Ewer1111 — 3 days ago

Imagens Estranhas

Uketsu está ganhando bastante notoriedade aqui no Brasil, hein!

É um autor que despertou muito o meu interesse desde Imagens Estranhas, e sinto que vou querer consumir qualquer obra que ele venha a lançar.

u/Ewer1111 — 2 months ago
▲ 1 r/Livros

A professora de abstinência

Resenha — Professora de Abstinência (Parte 1)

Nem sei direito como começar esta resenha. Mas vamos lá!

Logo nas primeiras páginas, o livro nos apresenta uma introdução que parece indicar qual será seu foco. A impressão inicial é a de que a história abordará temas importantes e atuais, como preconceito, intolerância religiosa, fanatismo, sexualidade, família e o impacto de tudo isso na formação das crianças.

Só que, conforme a leitura avança, tive a forte impressão de que a história não sabe muito bem o que quer ser. Ela começa propondo uma discussão, mas, aos poucos, vai atirando para todos os lados.

Conhecemos Ruth Ramsey, professora de educação sexual do ensino médio, que vê sua reputação desmoronar depois que o conteúdo de uma de suas aulas vem à tona. Pais conservadores e membros da igreja local, liderados pelo pastor Dennis, pressionam a direção da escola para alterar o currículo. Na visão deles, Ruth está desvirtuando os alunos e promovendo algo contrário aos ensinamentos cristãos.

Seu nome e sua imagem passam a ser alvo de críticas na fictícia cidade de Stonewood, em Nova Jersey. Diante da pressão, ela é obrigada a aceitar as mudanças impostas pela direção da escola e passa a ensinar justamente o contrário daquilo em que acredita. É daí que surge o título Professora de Abstinência.

O problema é que, na minha opinião, esse título perde completamente o sentido conforme a narrativa avança. O autor apresenta esse conflito, mas rapidamente o deixa de lado. O assunto, que parecia ser o eixo central da história, acaba sendo revisitado apenas em momentos pontuais, enquanto a trama toma outro rumo.

É justamente aí que, para mim, aparece o maior problema do livro.

A narrativa se fragmenta de tal forma que, em vários momentos, eu tinha a sensação de estar lendo dois ou três livros diferentes ao mesmo tempo. Além disso, falta aprofundamento. O autor introduz diversas ideias, mas poucas recebem o desenvolvimento que mereciam.

É então que somos apresentados ao coprotagonista, Tom Mason.

Tom é o típico anti-herói: um homem emocionalmente e mentalmente quebrado, ex-roqueiro, ex-dependente químico, divorciado e pai de uma menina de aproximadamente onze ou doze anos.

A partir da entrada dele, a história muda completamente de direção. Tom passa a ocupar quase todo o espaço da narrativa, enquanto Ruth vai perdendo protagonismo. E, junto com ela, desaparece justamente o tema que parecia justificar a existência do livro.

Outro aspecto que me incomodou bastante foi a estrutura da narrativa.

Em um momento, estamos acompanhando uma conversa descontraída entre Ruth e seus dois amigos gays, que formam um casal. No instante seguinte, sem qualquer preparação, somos jogados nas lembranças de Ruth, depois nas de Tom e, logo depois, no passado do pastor Dennis.

Essas mudanças constantes de foco quebram o ritmo da leitura. Em diversos momentos precisei parar para entender onde a história estava e quem estava sendo acompanhado naquele capítulo.

Além disso, senti que o livro tem muito conteúdo dispensável. Há passagens longas que simplesmente não levam a lugar nenhum. Em determinado momento, por exemplo, o autor dedica quase uma página inteira para descrever a empresa onde Tom trabalha, mas essa informação praticamente não tem função dentro da narrativa.

Os três personagens centrais — Ruth, Tom e o pastor Dennis — têm seus passados revisitados.

O de Ruth mostra sua adolescência, a perda da virgindade com um rapaz nerd que tocava trompete e a relação com a irmã mais velha, por quem nutria grande admiração justamente pela autoconfiança que ela demonstrava.

Já o passado de Tom ocupa boa parte do romance e, sinceramente, funciona muito melhor. É nele que o livro encontra sua maior força.

Você entende seus conflitos, compra seu drama e consegue se colocar em seu lugar.

Após se converter ao cristianismo, sua vida muda completamente. Mesmo assim, ele continua enfrentando questionamentos existenciais sobre a própria fé, sobre o passado e sobre quem realmente é.

Seu primeiro casamento termina em razão do envolvimento com drogas e do comportamento autodestrutivo. A esposa o expulsa de casa e, algum tempo depois, se casa com um advogado bem-sucedido. Ela e a filha de Tom, Maggie, passam a viver uma realidade completamente diferente da dele.

Resenha — Professora de Abstinência (Parte 2)

É em um desses jogos de futebol que Tom e Ruth acabam se conhecendo. Após uma grande partida, movido pela emoção e sem pensar nas consequências, Tom reúne as meninas do seu time, as Stars, em um círculo e começa a orar com elas.

Nesse momento, Ruth se aproxima do grupo e, visivelmente alterada, interrompe o que estava acontecendo. Sua filha, envergonhada com a atitude da mãe, reage com raiva e, a partir dali, decide fazer um voto de silêncio, recusando-se a falar com ela.

Enquanto tenta lidar com a situação, Ruth passa a refletir sobre o ocorrido. Para ela, a atitude de Tom foi completamente inadequada. Afinal, ao conduzir aquela oração, acabou impondo sua crença às crianças, entre as quais havia meninas muçulmanas, judias e de outras religiões. Convicta de que aquilo não poderia passar despercebido, ela decide escrever uma carta para a associação de futebol.

Mas, por algum motivo, ela desiste da ideia. No fundo, prefere resolver tudo pessoalmente com Tom. Quer entender por que ele fez aquilo. Além disso, é impossível ignorar a atração que passa a sentir por ele, mesmo sabendo que ele é casado.

A partir daí, os dois têm algumas conversas, mas nada muito significativo. E, mais uma vez, a história deixa Ruth em segundo plano para voltar aos dilemas de Tom.

Tom se casa novamente, desta vez com uma mulher da congregação do pastor Dennis. O problema é que ele não a ama. Os dois tentam reacender a relação de diferentes maneiras, mas nada parece funcionar. São aquele típico casal sem química, unido muito mais pelas circunstâncias do que pelo afeto.

Ao longo da narrativa, Tom vive em constante conflito consigo mesmo. Em diversos momentos, sente vontade de voltar ao passado: entrar em um bar, beber até cair, reencontrar os antigos amigos e reviver aquela sensação familiar que um dia definiu sua vida.

Ao mesmo tempo, ele precisa lidar com a influência quase sufocante do pastor Dennis.

As falas de Dennis são, para mim, um dos aspectos mais incômodos do livro. O personagem é extremamente intolerante e utiliza passagens bíblicas para justificar seus preconceitos contra Ruth, contra pessoas LGBTQIA+ e contra todos aqueles que considera condenados ao inferno por não seguirem Jesus.

É aí que fica evidente o retrato daquela comunidade religiosa: um ambiente que, ao meu ver, parece muito mais preocupado em atacar quem pensa diferente do que em praticar o respeito ao próximo. É um "amor" imposto.

Dennis também desenvolve uma relação quase obsessiva com Tom. Vive monitorando cada passo dele, sempre com medo de que um de seus "guerreiros" abandone a fé e volte para os "braços do capeta". Como se os conflitos pessoais de Tom já não fossem suficientes, ele ainda precisa carregar esse peso constante.

Enquanto isso, sua vida afetiva continua um verdadeiro caos. Em alguns momentos, ele se pega desejando a ex-esposa enquanto está com a atual. Já quando Ruth entra em cena, o interesse amoroso surge praticamente de imediato, embora nunca seja verbalizado pelos dois.

Outro personagem que ganha um espaço considerável é justamente o pastor Dennis. Há um trecho dedicado exclusivamente ao seu passado e à forma como aconteceu sua conversão.

Confesso que achei essa sequência bastante exagerada.

Se não me engano, Dennis trabalhava em uma loja de eletrodomésticos quando recebeu uma Bíblia de presente do gerente. Sem entender o motivo, guardou o livro em uma gaveta e seguiu trabalhando normalmente.

Algum tempo depois, enquanto procurava um objeto qualquer, abre a gaveta e encontra a Bíblia envolta por uma luz intensíssima. Era como se o livro estivesse chamando por ele.

Sem mais nem menos, Dennis pega a Bíblia e começa a gritar no meio da loja. Passa a falar frases desconexas, profecias e mensagens de condenação, conclamando todos a se voltarem para Deus e salvarem suas vidas e a de seus filhos.

Em seguida, começa a derrubar televisores, quebrar produtos e provocar uma enorme confusão, até ser finalmente contido pelos seguranças.

Sinceramente, achei essa cena tão exagerada que tive dificuldade em levá-la a sério.

Resenha — Professora de Abstinência (Parte 3)

E o livro é basicamente isso.

Outros personagens menos importantes, como as filhas de Ruth, passam a se interessar pela igreja e por Jesus, o que a deixa bastante incomodada. Ainda assim, por ter uma postura mais liberal e não querer impor suas próprias crenças às filhas, ela decide não impedi-las.

O problema é que essas subtramas são simplesmente jogadas na narrativa e nunca recebem um desfecho. Essa foi uma das coisas que mais me incomodaram durante a leitura.

E o final... sinceramente, achei ridículo.

Não existe uma conclusão de verdade.

Ruth e Tom Mason não ficam juntos. Depois de um grande evento cristão, Tom aparentemente termina o casamento por telefone, já na casa de Ruth. A tensão entre os dois é evidente durante boa parte da história, mas, em nenhum momento, ele trai a esposa.

Também não há qualquer declaração de amor. Durante todo o livro acompanhamos apenas os pensamentos e sentimentos dos dois; eles nunca conversam abertamente sobre o que sentem um pelo outro.

Pelo que entendi, Tom decide abandonar a congregação e, provavelmente, se declarar para Ruth. Mas o autor simplesmente encerra a história antes que qualquer uma dessas possibilidades aconteça.

O romance termina com o pastor Dennis batendo desesperadamente à porta da casa de Ruth, exigindo falar com Tom. Como ele se recusa a sair, Dennis permanece do lado de fora, sentado no capô do carro, de braços cruzados, numa demonstração de que não aceita a decisão dele.

E é isso.

Acaba.

Dito tudo isso, eu não recomendaria a leitura.

O livro não é um desastre completo. Existem boas ideias, alguns personagens interessantes e momentos em que o drama de Tom realmente funciona. O problema é que tudo parece muito desorganizado. Falta objetividade, falta foco e, principalmente, falta uma direção clara. A impressão que tive foi a de que o autor queria contar muitas histórias ao mesmo tempo, mas acabou não desenvolvendo nenhuma delas com a profundidade necessária.

No fim das contas, fiquei com a sensação de que Professora de Abstinência tinha potencial para discutir temas extremamente interessantes, mas escolheu seguir por um caminho que nunca encontra uma identidade própria.

Alguém aqui já leu esse livro? Percebi que pouquíssimos brasileiros o conhecem, e quase não há informações sobre ele na internet.

Mas, enfim, se você chegou até o final desta resenha, muito obrigado pela leitura.

reddit.com
u/Ewer1111 — 2 months ago

Projeto parado. Bloqueio criativo.

Consegui finalizar o primeiro conto. Mexi e remexi nele várias vezes. Talvez ainda precise de uma revisão, mas fiz o meu melhor, considerando que eu não estava no meu melhor. Não sei se isso faz sentido.

Escrevo diários desde a infância, ou seja, a escrita é algo que me acompanha a vida toda. Nunca publiquei um livro de verdade, mas esse é um sonho que carrego comigo. Não sei se sou bom nisso, mas o fato é que escrever faz parte de quem eu sou, apesar de ter me desabituado por conta de questões pessoais.

Enfim... Gostaram da capa? Alguém teria interesse em ler o primeiro conto e me dar um feedback? Não pretendo mudar a história nem incluir novos elementos. Gostaria que vocês julgassem o conto pelo que ele é. Minha intenção agora é seguir para o próximo.

u/Ewer1111 — 2 months ago

A CASA ESTRANHA

Caramba, descobri agora que o mangá de Uketsu, A Casa Estranha, já está disponível no Brasil em cinco volumes. No Japão, sete volumes já foram publicados. Ainda não se sabe quantos a obra terá ao todo, já que Casas Estranhas fez tanto sucesso que acabou ganhando uma continuação.

Sério, estou com muita vontade de ler. Até que o preço está bom. O problema é que não curto acompanhar obras em publicação; prefiro esperar até que todos os volumes estejam disponíveis. É comum acontecer algum imprevisto, como cancelamento da publicação ou problemas entre as editoras, e aí a coleção acaba ficando incompleta.

Mas quero muito ler!

Alguém aqui já leu ou também tem interesse?

u/Ewer1111 — 2 months ago

Mapas Estranhos, novo lançamento de Uketsu.

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Mais alguém ansioso para conferir a obra?

Já adianto que adorei a capa. Estou em dúvida entre adquirir a versão digital ou a física. Já tenho o hábito de ler livros digitais, mas também gosto da sensação de ter o livro nas mãos.

Como não pretendo adquirir os outros volumes (que já li, exceto o mangá, que ainda será lançado), talvez eu compre este no formato digital mesmo. Por outro lado, gostei tanto da capa e tenho a sensação de que vou gostar bastante da história que, muito provavelmente, vou acabar me coçando até comprar a edição física.

O preço é meio salgado, ainda mais considerando que não é capa dura. Enfim, realmente não sei kk.

u/Ewer1111 — 2 months ago

Mapas Estranhos, novo lançamento de Uketsu no Brasil.

Mais alguém ansioso para conferir a obra?

u/Ewer1111 — 2 months ago

Desenhos Ocultos

Narrativa fluida e intrigante. Boa mistura de suspense, drama e mistério. Escrita simples e, ao mesmo tempo, impecável.

Três plots bem inteligentes. Eu não previ nenhum.

Não é uma história perfeita, tem lá seus clichês e exageros, mas o saldo final, para mim, foi bem positivo, então recomendo. Nota 7.

Eu só não iria com altas expectativas, mas com certeza é um ótimo entretenimento.

u/Ewer1111 — 2 months ago
▲ 2 r/filmes

Obsession

Parece que eu fui um dos poucos que achou esse filme extremamente superestimado. Minhas expectativas não estavam altas, mas eu esperava me impressionar ao menos um pouco. Achei só ok, nada demais. Não achei inovador (não que necessariamente precisasse ser), não achei surpreendente, chocante, nada disso. É só mais um filme ok dentre tantos que já vi.

SPOILER!!

Não existe nenhuma explicação sobre a origem do tal objeto, graveto, sei lá. Ele apenas está ali, sendo vendido ao público em uma lojinha de itens para quem é ligado à espiritualidade e tals. O rapaz entra ali para comprar um colar de pedras porque o da amiga/crush quebrou. Ele acaba comprando o tal graveto mágico, amaldiçoado, que realiza qualquer desejo da pessoa, mas que tem consequências.

Ele pensa: "Ah, não custa tentar, né? Bora lá." E, instantaneamente, como num passe de mágica, a garota fica caidinha por ele, no sentido mais literal da palavra que você puder imaginar. Ela começa a agir de maneira insana, a fazer loucuras por ele. E o cara começa a entender o que está acontecendo, e seus amigos, com quem ele trabalha na mesma loja, também percebem.

Ao mesmo tempo em que ele está assustado e com medo, também é egoísta demais para tentar desfazer aquilo, porque, mesmo com as loucuras, ela transa com ele, só tem olhos pra ele. Consegue imaginar? Aquele rapaz que sempre foi travado, nunca namorou e nunca teve jeito com as mulheres, e de uma hora para outra isso acontece. O ego do cara fica maior do que ele.

No início você até passa um pano para ele, mas, na metade do longa, percebe o quão egoísta o cara é, e aquele amor que ele dizia sentir por ela se transforma em um desejo de continuar sendo adorado, tendo uma atenção que ele nunca recebeu de ninguém. Mesmo no meio de toda aquela loucura, ele meio que se aproveita da mina.

Em determinado momento, enquanto ela dorme, a voz da verdadeira Nikki se faz ouvir no quarto. Ela implora para que Bear a mate. Ou seja, ela estava presa ali no próprio corpo e outra coisa estava controlando tudo, uma entidade maligna.

E quando você pensa que o cara vai cair em si e ter alguma empatia, ele simplesmente responde: "Por que é tão difícil para você me amar?" Algo assim. E Nikki diz que ela nunca havia ficado com ele; antes de tudo aquilo, eles eram só amigos.

E aí tem um momento, acho que no carro dele, em que uma outra amiga dá a entender que gosta dele. No meio disso, ela mostra um envelope contendo a resposta da universidade de artes na qual sonhava entrar. Mas ela faz um suspense antes de abrir.

Nesse momento, a Nikki chega, segura a cabeça dela e a joga várias vezes contra um tijolo encostado no volante. A cara da mina fica destroçada, destruída, e claro, ela morre ali mesmo.

Depois disso, Bear abre o envelope e lê a resposta da universidade. A amiga havia sido aprovada. Nesse momento, ele então grita.

O cara podia ter pedido a ajuda dessa amiga para desfazer o pedido, comprando outro graveto e pedindo para ela desejar que a Nikki voltasse ao que era antes, que só o amasse como amigo. Mas esse idiota só vai pensar nisso depois, quando já não tinha mais jeito.

Ele tenta fazer com que o amigo faça o pedido, mas o cara é outro egoísta de merda e deseja um milhão de dólares. Nesse momento, o dinheiro começa a cair do teto.

E aqui o filme perde força para mim. Eu já não estava achando aquilo tudo. Tipo, essa cena meio que cortou o clima. Eu entendo que o diretor imprimiu humor negro nos personagens. É um "terror" misturado com comédia nonsense. Mas em nenhum momento eu ri. Sei que isso é relativo. Mas, para mim, essa parada não funcionou. Só deixou tudo extremamente inverossímil, esquisito (não no bom sentido) e forçado.

Tem algumas cenas um tanto desconfortáveis, mas por causa do comportamento da Nikki, das expressões dela, dos movimentos abruptos e repentinos que ela faz. Achei interessante essa ideia. A atriz arrasou na interpretação.

Mas o protagonista não me desceu. Ele tem aquele jeito de "ai, coitadinho de mim, olha como eu sofro" o filme inteiro. Só que o cara se mostra mais insano do que a garota em vários momentos.

Bom, ela dá um tiro na cara do amigo que pediu um milhão ao graveto, pega o corpo da mina lá e o prende nu em uma cadeira. Nesse ponto ela já está toda acabada, com a cara toda zoada porque é doidona, começa a gritar do nada e fica se batendo com qualquer coisa que vê pela frente.

Aí o cara se tranca no banheiro, manda um monte de remédio para dentro. Ele até tenta jogar tudo para fora, mas desiste, sai do banheiro e vai até ela.

Nesse momento, parece meio que um sonho. Os dois ficam se olhando de forma apaixonada e cômica um para o outro. Eles se beijam, mas ele começa a convulsionar e morre.

Ela pega a arma da mão dele (agora eu não lembro de onde surgiu a arma kkk) e, antes de apertar o gatilho, o tal feitiço se quebra, e a Nikki volta para seu corpo, se dando conta de tudo e se desesperando.

Fim de filme.

Ah, e acontece uma coisa bem louca: as tatuagens da mina que ela matou no carro passam para o corpo dela. Tipo, ela estava com aquele ciúme doentio e, para impressionar o Bear, fez isso.

Enfim, a Nikki normal era uma aspirante a escritora, e tem um momento, numa festa, em que ela faz um monólogo de João e Maria, uma versão bizarra que ela criou. Eu entendi que ela incluiu incesto e fez menção à maldição do graveto.

Enfim.

Não achei tão terror assim. Praticamente a única cena gore é a do carro, e fora isso é só a Nikki agindo feito louca, se batendo e ficando toda suja, ensanguentada.

Sério, gente, esse é o melhor filme do ano?

Que marketing forçado!!

u/Ewer1111 — 2 months ago
▲ 8 r/filmes

Oh, Hi!

Cheio de clichês, mas até que é legalzinho. Mas é irritante a burrice do cara. Dava facilmente para contornar a situação; a menina é tolinha, fácil de enganar.

A partir daqui, SPOILER!

A garota entra em um assunto delicado, e ele se mostra indignado. Ela já havia dado vários sinais de que não batia bem da cabeça. Por que ele simplesmente não deu a resposta que ela queria? Se ele respondesse qualquer coisa, ela iria cair. Por que cargas d'água o cara começa uma discussão com a garota estando amarrado?

Eu sei, eu sei. Se não fosse assim, não teria filme e blah blah blah. Mas é que eu acho irritante esse tipo de clichê, os personagens serem burros de propósito.

E, no fim, ainda fica tudo bem entre os dois, e ele chega a dizer que ela só era um pouquinho louca. Oi?? A menina é perturbada da cabeça, possivelmente uma psicopata, narcisista, que só enxerga o próprio umbigo.

E para você está tudo bem terminar da forma que terminou? Você todo quebrado, sendo levado por uma ambulância e com o psicológico abalado. E a doida lá, sorrindo e provavelmente feliz por ter se safado daquela situação doentia que ela criou.

u/Ewer1111 — 3 months ago
▲ 4 r/TIdaL

O que está acontecendo?!

Acho que prefiro o design de antes. Ele perdeu um pouco da originalidade, da sutileza e do minimalismo que eu tanto gostava. Parece que quiseram copiar o Spotify.

As páginas dos artistas também estão muito bagunçadas, e ainda existem páginas duplicadas do mesmo artista. Nessa segunda página, inclusive, faltam vários singles e álbuns. Não sei se isso é uma tentativa de reorganização, mas está péssimo.

Sem contar que as músicas feitas por IA estão tomando conta do aplicativo, e isso já está começando a me irritar. Antes eu não ligava tanto, mas parece que está tomando uma proporção gigantesca. Isso precisa ser contido.

u/Ewer1111 — 3 months ago
▲ 12 r/filmes

THE BABADOOK (Contém Spoilers)

Um filme com várias camadas de profundidade. Além de ser um suspense/terror psicológico, é também um drama sobre traumas, luto e depressão.

Uma mãe viúva e seu filho pequeno são atormentados por uma entidade estranha e misteriosa que ganha vida a partir da leitura de um livro escolhido pelo menino. Não se sabe de onde o livro surgiu nem como apareceu na casa da família.

A entidade se apodera da casa gradativamente. O ritmo do filme é lento e soturno, e o drama, assim como toda a densidade da dor e dos traumas que os dois personagens carregam, parece palpável.

Há duas formas de encarar esse filme. A primeira é que a entidade realmente existe e se alimenta dos traumas, especificamente da depressão e do luto da mãe. Seu objetivo seria se apossar de seu corpo e então levar o garoto consigo para sabe-se lá onde. A entidade é malévola e cruel, não tem piedade nem dos animais. Infelizmente, um cachorrinho muito adorável é morto.

A segunda forma de encarar o filme é a seguinte: tudo o que nos é apresentado em tela trata-se de uma metáfora sobre o estrago que a depressão causa na vida de uma pessoa e a forma como esse estrago afeta aqueles ao seu redor. Especificamente, uma depressão que tem origem na perda do marido e pai daquela família.

Ele morreu em um acidente de carro enquanto levava a esposa grávida para o hospital. Desde então, o menino nunca celebrou seu aniversário com a mãe, nunca teve uma festa. Isso mostra que, mesmo após seis anos, a mulher não havia superado a perda.

Quando a entidade entra no corpo da mãe, esta se torna extremamente violenta, mata o cachorro de estimação e chega muito perto de matar o filho. Mas o garotinho, muito inteligente e cheio de truques, consegue contê-la após usar uma de suas armadilhas. Com a mãe presa, ele consegue fazê-la vomitar a entidade, lembrando-a das promessas que ela havia feito de proteção mútua, assim como do amor materno, que era mais forte do que toda a depressão e o luto que ela carregava.

Em um momento próximo dessa cena, fiquei apreensivo, pensando que ela — ou o Babadook — mataria a vizinha, uma senhora com Parkinson que era um amor de pessoa. Mas, graças a Deus, no final vemos que ela foi poupada e estava bem.

Enfim. No final, vemos mãe e filho sentados no sofá de casa, conversando com a assistente social e seu parceiro. A melhora dos dois protagonistas é notável. A mãe, que não conseguia dormir, vivia exausta e ainda precisava trabalhar como enfermeira e cuidar do filho, aparece corada e totalmente descansada.

Uma das características do menino é sempre falar o que pensa, algo que aparentemente puxou do pai. Isso incomodava a mãe após a perda, mas nesse momento, conversando no sofá, ela demonstra se orgulhar dessa característica, evidenciando sua superação.

O menino comemora seu aniversário com a mãe e, depois, ela vai até o porão "alimentar" a entidade com as minhocas que ele pegou no jardim.

O que eu entendi dessa cena foi o seguinte: o quadro depressivo da mulher entrou em remissão. A doença estava contida, e sua mente estabilizada, permitindo que ela pudesse trabalhar, descansar e ser uma boa mãe.

A depressão é retratada como o bicho-papão dentro do armário escuro ou debaixo da cama de uma criança, assustando-a todas as noites. A união e o vínculo entre mãe e filho fizeram com que o demônio da depressão fosse domado.

A doença não foi curada; ela apenas estava fraca, sem poder de influência.

E ela alimentar a entidade com minhocas é algo muito simbólico. A mulher aceitou a perda, acolheu o luto e seguiu em frente. Mesmo com as memórias dolorosas, entendeu que precisava continuar, pois seu filho dependia disso.

Para mim, aquilo também pode significar que ela está em tratamento e que a doença entrou em remissão. As minhocas representariam esse cuidado constante consigo mesma e com a própria mente. Por isso ela diz ao Babadook, quando ele ameaça se apoderar dela novamente: "Está tudo bem. Está tudo bem."

E quando ela volta para o jardim, o filho pergunta como foi, e ela responde que "hoje foi tranquilo".

Ou seja, é convencer a si mesma todos os dias de que está tudo bem e de que tudo o que precisa fazer é passar por mais um dia. Um de cada vez, como dizem.

Eu prefiro essa segunda interpretação e me identifico muito com ela. Não consigo ver esse filme apenas como terror. Por mais que tenha vários elementos do gênero, para mim ele é muito mais um drama.

Na cena final, eu me emocionei e chorei um pouquinho. Foi muito forte.

Os dois protagonistas são extremamente cativantes, e é impossível não criar empatia por eles, principalmente pela mãe.

E você, que já assistiu, gostaria muito de saber seus pensamentos sobre essa produção. Enxergou a história de alguma outra forma? Vou adorar ler.

u/Ewer1111 — 3 months ago

Casas Estranhas 2: O Mistério das Onze Plantas Baixas

Casas Estranhas 2: O Mistério das Onze Plantas Baixas

O protagonista (e autor do livro em questão) reúne um total de 11 documentos, nos quais entrevista pessoas envolvidas em casos relacionados a um mistério bastante intrigante. À primeira vista, os documentos não parecem ter nenhuma relação entre si, mas, conforme o leitor avança na leitura, começa a notar similaridades entre uma história e outra, detalhes que aumentam a curiosidade. Então fica clara a ligação que existe entre os casos relatados ao autor.

SPOILERS:

Mais uma vez, Uketsu explora o tema das seitas e dos grupos religiosos. É fácil notar que uma característica forte da escrita do autor é o extraordinário, a exacerbação. E, para se aprofundar no universo que ele cria, é necessário, além de suspender a descrença, abraçar a história e seus exageros.

Como eu tinha descrito na minha resenha do primeiro livro, a revelação final me decepcionou em alguns pontos. Mas, nesse segundo livro, achei que o autor fez uma construção mais inteligente, por assim dizer.

Cada documento apresenta uma história que, a princípio, não parece ter ligação com as demais. Dá aquela sensação de que você está lendo uma coletânea de contos. Mas não. O autor teve uma ideia bem original. Após o sucesso de seu último livro, muitos pedidos acerca de mistérios relacionados a construções enigmáticas chegaram até ele e, a partir disso, ele começa a entrevistar pessoas, escrevendo seus relatos, reunindo informações e separando tudo em 11 documentos, que mais tarde seriam analisados com seu amigo projetista e amante de livros de mistério e terror, Kurihara.

O cara é um crânio. Suas hipóteses são muito plausíveis e convincentes. Eu só comecei a entender que todos os mistérios dos documentos estariam relacionados a uma seita e terminariam em complexos familiares durante as hipóteses de Kurihara; caso contrário, eu ficaria boiando. É impressionante como ele consegue levantar tantas hipóteses a partir de informações tão aleatórias e, em sua maioria, escassas.

O autor é perspicaz ao abordar temas como relações familiares e seus conflitos, seitas, egocentrismo, ganância, traição, religião, culpa, suicídio e crimes. E é tudo feito de uma forma muito característica. Não é explícito, não é gritado; tem um ar soturno e lento. Você sente que está lendo relatos reais de pessoas, ao mesmo tempo em que imagina a forma como aquelas coisas aconteceram.

Alguns detalhes me fizeram perceber que se tratava de um mistério muito maior e que ligava todas as histórias: em vários momentos se fala sobre o braço esquerdo de alguém ou a perna direita de outra pessoa. Bonecas enigmáticas escondidas em caixas, quartos ocultos ou em um santuário. Em tudo isso há alguma metáfora ou simbolismo estranho.

Uma líder feminina de seita religiosa com deficiência física, outra mulher também com deficiência física, que não demora para descobrirmos ser a mesma pessoa. Assim como o bebê preso em uma cabana ou no moinho de água. A história do moinho de água foi a mais enigmática para mim e talvez a mais incômoda. Mas depois, com as análises de Kurihara, passou a fazer sentido.

É impressionante como todas as histórias vão tomando uma proporção imensa e, no fim, o quebra-cabeça se encaixa de uma forma bastante satisfatória. Diferente do primeiro livro, aqui eu não senti que faltaram peças. O final não é aberto, mas são muitos detalhes.

Imagino que muitos leitores tenham se incomodado com as repetições feitas inúmeras vezes no decorrer do livro. Eu achei que elas foram importantes, mas talvez pudessem ser reduzidas. Como eu disse, são muitos detalhes, são 11 documentos, e é importante revisitar algumas passagens para fazer as ligações; caso contrário, o leitor fica perdido.

E olha que, mesmo assim, eu ainda fiquei meio perdido em alguns momentos, pois existe um pouco daquilo que já aparecia no primeiro livro: linhagens familiares, parentescos e conexões entre pessoas da mesma família. Então são muitos personagens, muitos pontos de vista e muitos testemunhos. Mas, no fim, dá para fazer um rápido resumo mental e entender a história no geral.

Mas é isso. O livro é muito bom e vale super a pena.

Agora vou colocar aqui os documentos que eu mais gostei de ler:

A Casa que Alimenta a Escuridão

Me fez pensar sobre a casa em que já morei com a minha família e em como era difícil a convivência. Em comparação, vejo como as coisas estão melhores hoje em dia, em outra casa.

O Moinho de Água na Floresta

Esse trecho, que o autor pega de um livro antigo de viagens, passa uma sensação muito estranha. Nem sei explicar direito. Mas gostei bastante de ler.

O Local do Incidente Estava Bem Ali

Esse passou muito bem a vibe de suspense investigativo. É palpável o receio e o nervosismo do novo morador de uma determinada casa enigmática, assim como sua curiosidade em descobrir o que aconteceu ali.

A Casa do Tio

Esse documento consiste em pequenas entradas de diário pertencentes a um garotinho que passou por muita coisa ruim e morreu de forma brutal. É bem triste e pesado. Não que eu tenha gostado de ler, mas é muito enigmático e aumentou minha curiosidade em descobrir qual seria a ligação desse documento em particular com o restante da trama, pois ele me parecia muito desencaixado do contexto dos outros.

E, por último, O Quarto que Apareceu Só Uma Vez

Esse aqui foi bem interessante de ler. Foi legal imaginar o Uketsu em ação, tentando desvendar o mistério de uma determinada casa em tempo real, conforme descrito no documento 11.

E então chega a parte das deduções de Kurihara, da qual eu gostei bastante. Achei algumas explicações bem fora da caixa, mas, dentro do universo que o autor criou, até que fizeram sentido. Achei tudo mais coeso do que a revelação final do primeiro livro. Acho que já deixei isso claro.

Bom, acho que é isso. Minha nota para o livro é 7.

Recomendo a leitura!

u/Ewer1111 — 3 months ago

Casas estranhas

Casas Estranhas

Vou estruturar esta resenha/análise em partes. A primeira será minha visão geral da obra, de forma resumida, junto com minhas impressões e, claro, minha opinião. Essa parte é mais voltada para quem ainda não leu, mas pretende ler ou está em dúvida.

Primeira parte: O que eu achei do livro?

O suspense e o mistério construídos do início até a metade são excelentes e me envolveram até mais do que em Imagens Estranhas. Em Casas Estranhas, a explicação final demora mais para ser entregue ao leitor, o que cria ainda mais suspense e interesse. Isso foi muito positivo ao meu ver.

Em contrapartida, o foco do livro não é o terror, e sim o mistério. Não espere mortes extremamente brutais e descritivas, porque o livro não segue esse caminho.

Pois bem, vou fazer agora um breve resumo da história.

O autor do livro é um dos protagonistas da trama e amigo de Kurihara, personagem que aparece em Imagens Estranhas. Essa é praticamente a única ligação entre os livros, porque a história em si não é uma continuação.

Os dois formam uma dupla de investigadores. Kurihara é projetista e arquiteto, especialista em estruturas arquitetônicas incomuns. Já Uketsu é jornalista e escritor especializado em ocultismo e mistérios.

É fácil entender a persona de Uketsu: inocente, talvez um pouco ingênuo e bastante empático. Ele tende a acreditar nas supostas vítimas dos mistérios que investiga. O contraponto é Kurihara, muito mais analítico, racional e menos emocional, embora continue sendo gentil e amigável. Inclusive, ele me lembrou bastante o L, de Death Note. É fácil criar afeição por ele. Você pensa: “que cara inteligente, perspicaz e legal”.

Fora o trabalho, ele é obcecado por livros de mistério e terror, além de adorar desvendar histórias macabras no mundo real.

O autor recebe a ligação de um amigo interessado em comprar uma determinada casa. Ele é casado, e sua esposa está grávida. À primeira vista, a casa parece comum. É descrita como bastante espaçosa e ventilada, com cerca de dezesseis janelas espalhadas pelos cômodos.

Uketsu e Kurihara passam dias analisando a planta baixa da casa, levantando hipóteses e juntando pistas. Claramente havia algo muito errado ali, e a casa estava longe de ser comum.

Eles acabam descobrindo outras duas casas ligadas à primeira. Uma delas, inclusive, foi destruída em um incêndio misterioso.

As investigações acontecem principalmente através das plantas baixas das casas, obtidas em corretoras e imobiliárias. Uketsu então escreve um artigo reunindo todas as teorias e observações de Kurihara. O próprio Kurihara o incentiva a fazer isso.

A partir daí, é encontrado um cadáver com a mão esquerda decepada.

Uma mulher entra em contato com Uketsu dizendo ser esposa do morto e afirmando conhecer aquela casa. Os encontros entre os três passam a acontecer com frequência.

Mais tarde, descobrimos que ela estava mentindo. Na verdade, era irmã da mulher que havia morado naquela casa estranha junto do marido e do filho pequeno.

Ela demonstra arrependimento e resolve contar tudo o que sabe sobre a irmã e a família.

Kurihara continua desconfiado e mantém sua postura fria e analítica. Seu foco está em entender os crimes e os mistérios envolvendo aquelas casas — inclusive os assassinatos ligados a crianças.

A mulher teve acesso ao artigo, entrou em contato com os rapazes e mentiu para se aproximar deles. Depois disso, passa a colaborar nas investigações, alegando querer desvendar os mistérios envolvendo sua irmã e sua família. Mas claramente havia algo maior por trás de suas intenções, e quem percebe isso é Kurihara.

Ela demonstra enorme carinho pela irmã e diz que faria qualquer coisa para protegê-la. As duas perderam contato ainda na infância. A mãe nunca explicou o que aconteceu; a menina simplesmente desapareceu de um dia para o outro, e os pais nunca falavam sobre o assunto.

Todo esse mistério envolvendo a moça e sua irmã, assim como as casas e suas estruturas bizarras, com cômodos projetados especificamente para ocultar crimes, é extremamente envolvente. Foi algo que realmente me prendeu até a metade do livro.

E é aqui que eu vou entrar nos SPOILERS.

Segunda parte: SPOILERS

A propósito, a mulher que procura os rapazes se chama Yuzuki, e sua irmã se chama Ayano.

A mãe de Yuzuki decide revelar toda a verdade para a filha. Uketsu está presente. Ela mostra aos dois uma carta escrita por Keita, marido de Ayano.

Descobrimos então que os assassinatos faziam parte de uma seita/culto que existia desde 1899.

O patriarca da família Katabuchi possuía muitas riquezas e queria preservar o legado da família. Ele tinha três filhos. Um deles era extremamente talentoso, inteligente e preparado para herdar os negócios. O problema é que esse filho era fruto de um caso com uma empregada.

Por medo do escândalo, o patriarca escolhe o outro filho — considerado mais fraco — como sucessor.

O filho rejeitado foge, cheio de ressentimento, e funda um ramo secundário da família.

Anos depois, o sucessor da família principal acaba se envolvendo incestuosamente com a própria irmã.

A esposa descobre a traição e se automutila até a morte, decepando a própria mão esquerda.

A irmã engravida e dá à luz uma criança sem a mão esquerda. O homem entra em colapso psicológico.

É então que surge uma xamã dizendo que a família havia sido amaldiçoada.

Na realidade, tudo não passava de uma deformidade genética causada pela consanguinidade, mas o homem, tomado pelo medo, acredita completamente na história.

Assim nasce o ritual da “Oferenda Memorial da Mão Esquerda”.

As crianças da família, dos dez aos treze anos, deveriam cometer assassinatos e oferecer mãos esquerdas em um altar.

Mais tarde, descobrimos que a xamã fazia parte de uma conspiração criada pelo ramo secundário da família para destruir o legado da família principal.

Mesmo assim, o culto continua atravessando gerações.

Ayano se torna vítima dessa lavagem cerebral e é treinada para continuar os assassinatos.

Então surge Keita, um rapaz apaixonado por ela.

Segundo a carta, ele decide continuar ao lado de Ayano mesmo depois de descobrir o legado sangrento da família.

Seu plano era construir uma nova casa, manter a estrutura ritualística exigida pela família e substituir assassinatos reais por mãos retiradas de cadáveres, protegendo assim Ayano.

Antes disso, ele faz um acordo com um homem endividado, identificado apenas como “T”. Keita assume suas dívidas em troca do uso de seu nome nos registros da casa, tentando despistar a polícia.

Mas tudo começa a desmoronar novamente.

Ayano engravida e cria Hiroto sem que ele soubesse da existência de outra criança, Momoya, que vivia escondida em um cômodo secreto e se movia pelas paredes através de passagens ocultas para cometer os assassinatos. Pelo menos, era isso que eles queriam que os líderes da família principal acreditassem.

Essa mesma criança havia vivido anteriormente na casa da avó de Ayano e supostamente matou o próprio irmão.

Mais tarde, descobrimos outra possibilidade: o pai de Yuzuki e Ayano talvez tenha sido o responsável pela morte da criança, temendo o perigo que as filhas corriam dentro daquela seita, antes de cometer suicídio.

O sobrinho do patriarca sabia do esquema criado por Keita, mas fingia não perceber porque estava sendo bem pago e não acreditava realmente no ritual.

Mas o avô descobre tudo e decide trazer Momoya de volta, planejando retomar os assassinatos diretamente.

Segundo a carta, Keita acaba matando os líderes da família principal e fugindo.

Ao final da carta, descobrimos que Keita supostamente se tornou um fugitivo, enquanto Ayano e as crianças passaram a viver com Yoshie, mãe dela.

Essa história chega aos ouvidos de Kurihara, e ele imediatamente diz que Uketsu foi ingênuo por acreditar completamente nessa versão.

Segundo Kurihara, Keita provavelmente foi manipulado psicologicamente por Ayano e pela mãe dela. Ele seria emocionalmente dependente de Ayano e constantemente vigiado.

As duas o teriam usado para matar os homens da família principal — Shigeharu e Kiyotsugu — sem precisar sujar as próprias mãos.

Depois disso, talvez tenham matado Keita ou forjado seu desaparecimento.

A carta provavelmente teria sido falsificada para fazer parecer que ele havia cometido tudo sozinho e fugido consumido pela culpa.

Outro detalhe importante: os vãos e passagens secretas das casas eram pequenos demais. Foram claramente projetados para crianças ou pessoas muito pequenas.

Ou seja, na casa da avó, não poderia ter sido o pai quem matou a criança.

Segundo a interpretação de Kurihara, quem provavelmente matou o menino foi a própria Ayano, influenciada pela mãe.

Ou seja: as mulheres estariam manipulando homens e perpetuando silenciosamente os crimes ritualísticos há anos.

Agora, meus apontamentos:

O autor se confunde um pouco na cronologia dos eventos, e isso gera certas inconsistências.

Uma das regras do ritual era que as crianças começassem os assassinatos aos dez anos e continuassem até os treze.

Ayano é enviada para a casa dos avós aos doze anos, enquanto Yuzuki tinha dez.

Segundo Kurihara, Ayano teria cometido seu primeiro assassinato nessa época, matando o primo Yoishi.

Mas depois, quando já adulta, ela diz a Keita que ele deveria se afastar porque ela logo se tornaria uma criminosa.

Aqui fica claro que ela provavelmente estava manipulando emocionalmente Keita, se fazendo de vítima indefesa e convencendo-o de que era obrigada pela família a cometer crimes.

Mas ao mesmo tempo surgem outras interpretações.

Yousuki era a filha favorita da mãe. Então talvez Ayano não tenha sido enviada para a casa dos avós como uma vítima ou serva, mas sim como alguém já preparada para cumprir um propósito: matar o primo Yoishi, futuro sucessor da família principal.

Ou seja, o autor criou um quebra-cabeça extremamente difícil de montar.

Quando eu achava que finalmente tinha entendido tudo, me confundia novamente em relação às motivações das personagens.

E são coisas que o livro deixa muito implícitas.

Kurihara é justamente o personagem que faz o leitor duvidar constantemente de tudo.

Agora, o que definitivamente não funcionou totalmente para mim foi a própria origem e longevidade da seita.

A “maldição da mão esquerda” nasce de uma deformidade genética causada pelo incesto. Ou seja: a maldição nunca existiu de verdade.

Meu problema é acreditar que uma seita tão absurda conseguiria sobreviver por tantas gerações sem que ninguém percebesse a origem genética do problema — especialmente com o avanço da medicina e da genética.

O que mantinha todos presos era justamente a estrutura de poder da família, o fanatismo e a conveniência dos líderes masculinos, que utilizavam o culto para controlar os membros e preservar a fortuna.

Mesmo assim, ainda acho difícil acreditar que ninguém teria descoberto a verdade depois de tantos anos.

Bastaria algum membro pesquisar sobre genética e consanguinidade para perceber que a “maldição” não passava de superstição.

Por isso, o livro exige um nível muito alto de suspensão de descrença nessa reta final.

E acho que isso enfraqueceu um pouco o impacto do mistério.

Claro, o fanatismo religioso pode ultrapassar limites absurdos. Eu até consigo aceitar isso em algum nível, mas para mim tudo acaba ficando exagerado demais, até para a ficção.

Foi exatamente por isso que gostei mais de Imagens Estranhas.

Ele me parece muito mais real, cru e visceral.

É isso. Acho que me estendi até a exaustão nessa resenha kkkkk.

Confesso que precisei ler vários textos no Google para entender melhor essa parte final envolvendo a família e os rituais.

Apesar de eu não ter gostado tanto da revelação final, a leitura foi extremamente interessante.

Gostaria muito de conversar com outras pessoas que já leram o livro — ou mesmo quem pretende ler.

Minha nota para Casas Estranhas é 6.

Já para Imagens Estranhas, minha nota é 9.

Obrigado por chegar até aqui. E tenha um ótimo dia.

u/Ewer1111 — 3 months ago

imagens estranhas

Esse é o melhor livro de terror e mistério que eu já li. Na verdade, li poucos livros do gênero, mas sinceramente? Dificilmente algum vai superar esse.

É MUITO bom.

Apesar de ter mortes extremamente cruéis e descritivas, acho que o livro puxa mais para o suspense do que para o terror em si. O foco não está apenas na violência, mas principalmente na história, que é maestralmente bem escrita.

Sério, preciso procurar outros livros desse autor — ou histórias parecidas com essa — porque foi uma grata surpresa.

Eu até poderia fazer uma resenha mais elaborada, mas ainda estou digerindo tudo. É uma história muito profunda, e o final é tão tocante, tão humano...

Sensacional. Só leiam.

u/Ewer1111 — 3 months ago
▲ 4 r/Livros

Mulher em queda. Minha opinião.

Essa resenha é mais voltada para quem já leu o livro.

Mulher em Queda foi uma leitura preguiçosa. O livro não é longo, mas parecia ter umas 450 páginas. Eu sou um leitor vagaroso, leio sem pressa, degusto o que estou lendo. Isso não é necessariamente um problema, mas tenho dificuldades de atenção, então encontrei minha própria forma de ler livros sem tornar a experiência tão exaustiva. Não pelo processo em si, mas pelas minhas limitações. Não tenho diagnóstico de TDAH, mas sinceramente acho que tenho.

Enfim. Que besteira, ninguém quer saber disso. Mas vamos ao livro.

Eu gostei e não gostei ao mesmo tempo. Achei a ideia boa, em algum nível original, mas ela cai em muitos clichês, e senti que o livro precisava de mais revisão e polimento em várias partes. Os pensamentos da protagonista se repetem demais, o que acaba sendo cansativo, e parece que a história não anda, fica sempre naquele vai e não vai.

Como eu disse, gostei da ideia. Tem alguns plots interessantes que realmente me fizeram pensar: “Caramba, me pegou.” O “detetive” misterioso, o romance tórrido dos dois, ele mentindo sobre literalmente tudo e tendo pessoas próximas da Petra como cúmplices. A Mari, dona do chalé, e a melhor amiga da Petra. Esse último plot foi o que mais me pegou, apesar de simples. Acho que a Colleen conseguiu amarrar isso muito bem.

Mas o que me incomodou foi a própria escrita e as repetições da autora, como se ela não confiasse que o leitor já entendeu o que está acontecendo. Tipo: ok, já ficou claro, agora segue o baile. Alguns trechos também me soaram meio amadores, abaixo da média. Para uma escritora com dezenas de livros publicados — e sendo esse o mais recente — confesso que esperava mais maturidade na escrita.

E não, eu não sou hater. Só estou compartilhando minha percepção sincera, sem desrespeitar a autora. O livro não é um desastre. Tem boas sacadas, boas soluções e algumas amarrações interessantes que dão certa coesão à história. Mas, ao mesmo tempo, os acontecimentos são tão absurdos, e a ingenuidade da Petra me irritou tanto, mas tanto, que em vários momentos ficou difícil comprar as decisões dela.

O cara era claramente um sádico perturbado. Quem, em sã consciência, colocaria toda a própria vida em risco por algumas migalhas de inspiração? Essa justificativa de que é necessário viver certas experiências na pele para descrevê-las com autenticidade até faz algum sentido, mas não em extremos como os apresentados no livro.

E no fim, fica meio claro que ela vai ceder ao jogo doentio do Saint/Erick/Cam porque, lá no fundo, ela é tão perturbada quanto ele.

Minha nota para o livro é 5. Bem mediano. Boas ideias que seriam ainda melhores se a autora tivesse tido mais cuidado com a execução da história. Mas confesso que gostaria de assistir a uma adaptação.

reddit.com
u/Ewer1111 — 3 months ago
▲ 2 r/filmes

O experimento de aprisionamento de Stanford

Terminei de assistir a este agora mesmo. Bizarro! Mas é muito interessante como um estudo da psique humana. Até onde as pessoas podem ir quando lhes são dados determinados papéis? Mostra que somos capazes de qualquer coisa, seja quando estamos em uma posição de poder, ou quando somos subjugados e não temos outra opção além de obedecer. E também mostra o quão domesticáveis somos pelo sistema, pois não nos questionamos, e mesmo quando fazemos isso, continuamos sendo o que eles querem que sejamos, porque não há saída. Resta aceitar, porque é mais fácil. O filme é baseado em uma história real.

O Experimento de Aprisionamento de Stanford, realizado em agosto de 1971, foi um estudo psicológico que demonstrou como o ambiente e os papéis sociais podem transformar drasticamente o comportamento humano.

u/Ewer1111 — 3 months ago
▲ 3 r/filmes

Keeper & O Som da Morte

ATENÇÃO: CONTÉM SPOILERS!

Keeper até que me agradou em algum nível, mas faltou terror de verdade. As entidades são medonhas e diferentes, mas praticamente só aparecem em uma cena, já no final.

Eu entendi que os dois caras — o amante da protagonista e o primo dele — fizeram um pacto de vida eterna, ou juventude por séculos, com as entidades, filhas da bruxa que eles mataram. E, em troca, teriam que oferecer mulheres como sacrifício. As entidades, ao que parece, se alimentavam delas.

A bruxa em quem eles atiraram na infância era a cópia perfeita da protagonista. E talvez por isso, no final, as entidades possuam ela em vez de matá-la, já que ela se parecia com a “mãe” delas? É… acho que foi isso. E aquela outra entidade com vários rostos parece uma espécie de simbiose das mulheres sacrificadas, algo assim.

E na cena final, o pacto com o amante é quebrado, e ele surge super velho. Parece não enxergar, ou enxergar só vultos, mas, conforme a protagonista se aproxima, a visão dele entra em foco. Isso não fez muito sentido pra mim. Enfim, ele é mergulhado num líquido que parece mel, e o filme acaba. Esses últimos detalhes eu realmente não entendi.

Ah, e eu não lembro se mostra o que aconteceu com o primo. O cara simplesmente parece sumir depois de invadir o apartamento, enquanto a protagonista estava sozinha esperando o amante. São muitos furos nesse filme, e muito potencial desperdiçado. Poderia ter sido um terror realmente bizarro.

O Som da Morte é um terrorzinho bem abaixo da média. Tem muitas situações sem coerência alguma e resoluções rápidas, sem nenhum aprofundamento. A protagonista não tem um pingo de carisma. E parece que ela só começa a atuar de verdade no final do filme, quando ele ganha um pouco de gás. Mas, na maior parte do tempo, ela não esboça quase nenhuma expressão, fica bem engessada.

Eu até achei legal a ideia do objeto antigo e amaldiçoado, mas essa boa ideia se perde em meio a todo o amadorismo.

u/Ewer1111 — 3 months ago

Junji Ito. Declínio de um homem.

ATENÇÃO: CONTÉM SPOILERS!

Tudo aqui é intensificado ao nível máximo do horror psicológico. Apenas alguns acontecimentos são os mesmos do livro. É mais como se Junji usasse a história original como inspiração para criar algo ainda mais denso e sombrio.

Os traços de Junji são hipnotizantes. Mas a história, apesar de ter muita personalidade, me decepcionou em alguns aspectos. A covardia do personagem nessa adaptação, por exemplo, é exacerbada. Junji pegou essa característica do livro e extrapolou ao máximo. O cara é, literalmente, um cagão. Além de sentir medo do ser humano, especificamente, também sente pavor das mulheres, e foge delas — ou até as estupra, sim, isso mesmo — quando se sente ameaçado, traído, ou quando deseja algo que elas possuem.

E chances é o que não falta para Yozo tentar reparar algumas coisas, se redimir, mesmo que isso pareça impossível. Mas ele não faz isso. E isso me incomodou imensamente. Não senti isso tão forte no livro. O personagem entra quando quer na vida de diferentes mulheres e, quando a situação aperta — obviamente por erros que ele mesmo comete — simplesmente foge ou se faz de vítima.

E, sério, nesse ponto eu concordei que ele é uma completa farsa e manipula as pessoas ao seu bel-prazer. Yozo se faz de vítima para escapar das consequências de suas ações, e quase sempre consegue. É patético.

E, mesmo assim, as mulheres ficam gamadas nele, e isso não entra na minha cabeça. Uma delas, a mulher que tinha uma filha e trabalhava num jornal, chega a dizer que o jeito melancólico e meio engraçado de Yozo era o que fazia as mulheres se apaixonarem por ele. E eu só consegui pensar: “É sério isso?”. Não acho que as mulheres sejam tão ingênuas a esse ponto. Quer dizer, elas ficariam loucas de paixão por um homem nitidamente destruído, com bafo de pinga e que aparenta não tomar banho? O cara está sempre acabado, se arrastando, entrando e saindo de bares como se fossem sua própria casa. Não tem nenhuma decência, abusa da boa vontade das pessoas.

Desculpa, mas aqui vou ter que pegar pesado: ele é um hipócrita e um mau-caráter.

Eu entendo tudo o que ele passou, mas foi ele quem escolheu permanecer na miséria e numa autopiedade sem fim. Como eu disse, ele teve várias chances de tentar melhorar como ser humano.

Mas voltando... essa mulher que disse aquilo tinha acabado de conhecer Yozo, sentiu pena dele e o levou pra casa, mesmo tendo uma filha pequena. Quão imprudente e sem noção essa mulher é? Bastava ajudá-lo a conseguir um emprego no jornal onde ela trabalhava.

E, nessa adaptação, a mulher da farmácia, que consegue morfina pro Yozo, se envolve romanticamente com ele. Yozo viola a pobre mulher — porque é isso que ele faz: suja mulheres que são boas por natureza. E o pior é que, depois disso, ela continua ao lado dele e ainda se apaixona. Aqui foi o cúmulo pra mim.

Yozo estava claramente se aproveitando dela ao mesmo tempo em que recebia a morfina. E ainda tem a cara de pau de dizer que ela era sua alma gêmea. E não, não era porque ela tinha uma veia artística; ele só estava interessado na morfina mesmo.

Enquanto isso, a esposa dele vai definhando e enlouquecendo, tudo por culpa dele. Ele destrói a vida dessa mulher de um jeito horrível. Esqueci o nome da personagem, mas a principal característica dela é confiar nas pessoas. Ela acredita na bondade humana e se entrega completamente.

Então aparece um homem que trabalhava num jornal famoso e estava tentando convencer o chefe a serializar os mangás de Yozo. Esse escroto estupra a moça, e Yozo — sabendo muito bem que sua esposa era inocente, bobinha e confiava em qualquer um — insiste que ela o traiu. Ele encara aquilo como infidelidade, não como estupro.

Eu já tinha largado a mão do Yozo na metade do mangá, mas aqui foi demais pra mim. Ele a culpa várias vezes e, não satisfeito, ainda a viola, como se ela não fosse um ser humano. O personagem é podre.

No livro, Yozo tinha consciência de que aquilo havia sido um estupro e foge. Apesar de errado, eu entendi por que ele agiu daquela forma, por causa de toda a construção psicológica do personagem. Não foi gratuito. Ele tinha um medo genuíno dos seres humanos, causado pelos traumas e pela incapacidade de se encaixar na sociedade.

Mas o Yozo do mangá age de forma muito mais intencional. No livro, ele é autodestrutivo, mas as consequências do que faz recaem mais sobre si mesmo do que sobre os outros. Já no mangá, o que ele faz com a esposa é extremamente pesado. Ele é um narcisista da pior espécie. E ainda conta pra si mesmo — e pros outros — essa historinha de que foi traído, como se tivesse sofrido a pior injustiça do mundo.

A mulher da farmácia se sente culpada porque a esposa de Yozo roubou suas plantas venenosas para se matar. Então ela queima todas as plantas, mas o fogo alcança a casa, que parecia ser feita de madeira, e tudo se alastra rapidamente. Ela entra desesperada para salvar o sogro doente, e os dois morrem. Muito triste... Fiquei com muita pena dessas duas mulheres. Elas eram boas demais, e Yozo não merecia nenhuma delas.

Depois disso, o irmão de Yozo aparece com o Linguado — um conhecido do pai dele, que foi uma espécie de “guardião” por um tempo. Ele tinha esse apelido por parecer um peixe. Também aparecem o irmão e a madame do bar, outra mulher com quem Yozo se envolveu em algum momento da vida.

Yozo descobre que o pai faleceu, depois de muito resistir. Em certo momento, é dito que ele sofreu um acidente, uma queda, e ficou em estado crítico.

Yozo é internado num sanatório e sofre abstinência química, além de alucinações, por uma semana. Lá, fica amigo de um paciente fisicamente muito parecido com ele. Aqui achei o Junji extremamente criativo: o paciente é ninguém menos que Osamu Dazai.

Os dois trocam confidências, riem e choram juntos. Osamu entrega a Yozo seu primeiro livro, uma coletânea de contos. Yozo se identifica profundamente com as histórias e relê o livro várias vezes.

Em determinado momento, descobre que sua prima — a que ele engravidou — também estava internada ali, e o filho dela ficava andando pelo jardim. Yozo achava que aquilo era mais uma alucinação. O menino era a cara do Takeichi, um dos colegas de infância de Yozo e um dos poucos que percebiam suas “atuações de palhaço”.

Ah, eu não tinha falado do Takeichi. Mas Yozo foi podre com ele também. O menino já tinha dificuldade para se encaixar, sofria bullying, e Yozo, sem a menor empatia, inventa uma mentira porque sente que Takeichi poderia expor sua farsa na escola. Ele diz ao garoto que sua prima mais nova tinha interesse nele.

Takeichi, todo ingênuo e emocionado, escreve uma carta e pede para Yozo entregá-la. Depois disso, começa a frequentar a casa de Yozo para ficar perto da menina. Mas ela começa a achar que estava sendo perseguida e passa a tratar o garoto como um bicho, humilhando-o. Pouco tempo depois, ele se suicida.

Yozo passa a vida sendo assombrado por Takeichi. E, como uma espécie de karma, a menina engravida, e o bebê se parece justamente com ele.

Essa mesma garota descobre que a irmã mais velha também estava grávida de Yozo e a mata com extrema frieza. Depois disso, é presa ou internada.

Yozo então se muda para a capital, entra na universidade e conhece aquele cara do livro — o sujeito sem caráter que o afunda no mundo dos vícios.

A diferença entre o mangá e o livro é que, no mangá, Yozo já comete ações horríveis desde cedo. No livro, o foco está muito mais na psicologia dele, na visão distorcida que tinha do mundo e de si mesmo, do que em atitudes que destroem diretamente a vida de outras pessoas. Pelo menos foi essa a impressão que tive.

Mas enfim. Em um dos desabafos para Osamu, Yozo chega a dizer que Takeichi o odiava — o que é uma mentira absurda. Mais uma vez, ele tenta justificar suas merdas e se colocar como vítima, ao invés de admitir que foi um lixo como ser humano.

Yozo recebe alta e decide sair dali com o filho e a prima, que provavelmente se tornaria sua esposa.

Doze anos se passam.

Osamu escreve Declínio de um Homem e vai até o endereço de Yozo para rever o amigo e lhe entregar o livro. Ao chegar lá, descobre que Yozo vive numa casa caindo aos pedaços. Quando entra, encontra um homem moribundo, aparentando ter uns setenta anos.

Yozo passou a vida sendo abusado e agredido pela prima. Ela é paranoica e não aceita mulheres bonitas perto dele, porque acredita que ele a traiu com todas elas. Então o agride e o subjuga constantemente.

Ao que parece, o karma veio com toda a força.

Osamu vai embora dali. E, na última página, no jornal que o filho de Yozo usa para fazer um pipa, está a notícia do suicídio de Osamu e a frase: “Não consigo mais escrever.”

E, na praia, sentado numa cadeira enquanto o filho brinca com o pipa e a esposa caminha pela areia, Yozo pensa:

“Eu só espero o tempo passar. Tudo passa. Me tornei livre de alegrias e tristezas.”

Fim de Declínio de um Homem.

u/Ewer1111 — 3 months ago