Resenha: A Assombração da Casa da Colina
Recentemente, após ler um conto do Poe, escrevi sobre meu amor pela estética de casa mal assombrada e é o que temos em Shirley Jackson. Poe, o mestre do gótico sombrio influenciou Henry James em A Volta do Parafuso e agora Jackson em A Assombração da Casa da Colina. Nas três narrativas o terror fica nos detalhes, fica na dúvida e o desconhecido é sempre perturbador.
Jackson nos apresenta um doutor que estuda fenômenos sobrenaturais e que convida três pessoas, a fim de fazer uma experiência científica, para passar uma temporada na Casa da Colina. Essa residência ficou conhecida por eventos sobrenaturais e mortes esquisitas que aconteceram nela.
A narrativa é permeada por certa comicidade, os personagens são um pouco caricatos, isso causa um contraste com as descrições sombrias. Não sei se esse efeito é por ser um texto antigo ou se foi intenção da autora. Mas eu acredito que seja intencional porque sinto que esse ar engraçado contribui para a construção de uma atmosfera doentia, de loucura e irrealidade.
Os acontecimentos são contados pela perspectiva da Eleanor Vance, uma mulher que passou a vida em função de cuidar de sua mãe que adoeceu. Sua irmã seguiu em frente, casou e teve filhos, deixando toda a carga de cuidar da mãe para Eleanor. Isso tornou Eleanor uma mulher carente, contida e ressentida por não ter conseguido viver sua própria vida.
Após a morte da mãe Eleanor estava sozinha e sem amigos, com um relacionamento ruim com a irmã e sem lugar para morar, sendo obrigada a dormir no quartinho da filha da irmã. Ela não tem nada que seja dela e nem ninguém que se importe com ela.
Seus sentimentos estão refletidos em toda a narrativa, de maneira que há sempre um tom de melancolia e desejo, sonho e pesadelo. Então temos o motivo dela aceitar o convite: ela busca viver sua vida pela primeira vez.
Ela aparece sempre preocupada com o que estão pensando a seu respeito. E vamos acompanhamos suas reflexões sobre si, seus relacionamentos, seus sonhos e seus medos, mas também vemos ela se apropriar da casa e dessa nova vida como a primeira coisa realmente dela.
É muito fácil entrar na cabeça da Eleanor e isso é aterrorizante! O terror é muito mais psicológico do que fantasmagórico. Os fantasmas mais perigosos são os do passado. Isso mostra uma narradora pouco confiável, podemos acreditar na visão dela? Em uma mulher que está disposta a criar uma persona nova para si desde o início da narrativa?
Para finalizar A Assombração da Casa da Colina tem uma das melhores aberturas de livros, na minha opinião: “Nenhum organismo vivo pode existir muito tempo com sanidade sob condições de realidade absoluta; até cotovias e gafanhotos, supõem alguns, sonham. A Casa da Colina, desprovida de sanidade, se erguia solitária contra os montes, aprisionando as trevas em seu interior; estava desse jeito havia oitenta anos e talvez continuasse por mais oitenta.”
Esta resenha faz parte de um projeto pessoal pra melhorar minha escrita. Se alguém tiver críticas construtivas sobre o modo como apresentei o livro ficarei feliz se puder comentar.

