u/First-Consequence526

Pedro Diazepan

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Eu tava no auge da crise em Sorocaba, janeiro de 2026. Ansiedade do tamanho de uma dívida de cartão. Chefe me humilhando no grupo do trabalho, mulher pedindo divórcio por áudio de 47 segundos e o cachorro morrendo de velho só pra completar o combo. Três da manhã, olho pro teto e mando no status do WhatsApp: “Alguém conhece um remédio que acalma de verdade ou eu vou fazer uma besteira engraçada.”

Número desconhecido responde em dez segundos: “Eu. Pedro Diazepan. Te acalmo agora. Sem receita, sem farmácia, sem frescura. Só me liga.”

Eu ri. Ri de nervoso, porque o nome parecia piada pronta: Pedro Diazepan. Tipo o diazepam, só que com cara de gente. Liguei. A voz dele era macia, quase melosa, como locutor de comercial de colchão.

— Fala, cara. Já sei que você tá pensando em pular da ponte da Raposo. Relaxa, a queda é rápida, mas o barulho do corpo batendo na água é meio constrangedor pros peixes. Eu tenho opção melhor.

Eu congelei. Nunca tinha contado pra ninguém sobre a ponte. Nem pro espelho.

— Como você sabe?

— Eu sei tudo que te deixa acordado. É meu trabalho. Eu sou o Pedro Diazepan. O cara que resolve estresse de uma vez. Você quer que eu acalme sua chefe? Ou prefere que eu acalme sua ex? Escolhe. Eu cobro em risada.

Ele riu. Um riso baixo, gutural, como se tivesse engolido a piada e achado o gosto engraçado.

Na manhã seguinte minha chefe postou no grupo: “Pessoal, tô tirando uns dias. Crise de ansiedade forte. Quem quiser rir da minha cara, manda áudio.” Três horas depois, o corpo dela foi encontrado no banheiro da empresa. Overdose de diazepam verdadeiro. A piada do Pedro veio no meu celular: “Viu? Eu acalmei ela de vez. Sua vez, ou quer que eu faça sua ex rir também?”

Eu ri. Ri alto, sozinho no apê, porque era absurdo demais pra ser real. Bloqueei o número. Duas horas depois ele desbloqueou sozinho e mandou foto: minha ex sorrindo no velório da chefe, com legenda “Agora ela tá calma pra caralho. Próximo?”

A tensão começou de verdade quando eu parei de responder. Pedro mandava áudio todo dia, voz sempre tranquila, sempre com piadinha.

— Cara, você tá me evitando? Isso é ansiedade resistindo ao tratamento. Sabe o que eu faço com ansiedade resistindo? Eu dou um beijinho e mando ela dormir pra sempre. Tipo o seu cachorro. Lembra como ele ficou quietinho no final? Eu posso fazer você ficar assim também. Sem dor. Só um suspiro longo e... paz.

Eu comecei a ver ele. Não em pessoa. No reflexo da geladeira. No fundo do copo de café. Sempre sorrindo, sempre com o mesmo jaleco branco sujo de pílulas desenhadas. Uma noite acordei com ele sentado na beira da cama, real pra caralho.

— Shhh. Não grita. Grito é estresse. Eu só vim te dar a receita final. Você engole sua vida toda de uma vez. Eu ajudo. É tipo um coquetel: um pouco de arrependimento, dois dedos de dívida, uma pitada de ex traindo... e no final você vira eu. Pedro Diazepan. O cara mais calmo de Sorocaba.

Eu tentei correr. As pernas não obedeceram. Ele só ficou ali, coçando a barba, rindo baixinho.

— Olha, eu entendo. Todo mundo resiste no começo. Sua ex resistiu. Agora ela é uma mancha bonita no asfalto da Marginal. Seu chefe resistiu. Virou estatística engraçada no jornal. Você... você vai ser o meu melhor paciente. Porque você já tá rindo. Tá vendo? Tá rindo agora.

E eu tava. Rindo enquanto chorava, porque a piada era eu o tempo todo.

Pedro se inclinou, cheirando a remédio velho e humor podre.

— Pronto. Tratamento encerrado. Você não vai mais sentir nada. Eu cuido disso.

Quando a polícia arrombou a porta do apê dois dias depois, me encontraram sentado na cama, sorrindo pro teto, olhos abertos. Sem pulso. No celular, o último áudio enviado pra mim mesmo, voz idêntica à dele:

“Oi, cara. Aqui é o Pedro Diazepan. Parabéns. Você finalmente tá calmo pra porra toda.”

Se você tá lendo isso agora e o peito apertou... relaxa.

Manda mensagem.

Eu respondo em dez segundos.

Eu sou o Pedro Diazepan.

E eu adoro uma boa piada de quem não aguenta mais.

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u/First-Consequence526 — 22 days ago

O Sammy Creamy Absoluto

Sammy Creamy Absoluto não é lenda. Eu queria muito que fosse, mas depois do que aconteceu comigo, não tem mais como fingir que isso é só história de internet. Eu nem deveria estar escrevendo isso, pra ser sincero. Quanto mais gente fala dele, mais parece que ele se aproxima. Mas ficar calado é pior.

Os desaparecimentos começaram de forma discreta. Gente comum sumindo sem explicação: um cara que treinava de madrugada, uma mulher que voltava da caminhada, um entregador que nunca terminou a última rota. Nada conectava os casos de forma óbvia, então ninguém deu muita importância. Só que eu comecei a perceber um padrão quando tive acesso a alguns vídeos de câmeras de segurança que vazaram em um grupo.

No começo parecia montagem. Edição mal feita pra assustar gente desocupada. Só que tinha detalhe demais pra ser falso.

Num dos vídeos, um cara saía de uma academia por volta das duas da manhã. Estava sozinho, olhando o celular. Tudo normal. Até que, do nada, alguém aparece atrás dele. Não entra pela porta, não vem correndo, não faz barulho. Ele simplesmente está lá.

Esse alguém era o que chamam de Sammy Creamy Absoluto.

Ele parecia humano, mas tinha algo errado. Alto, corpo perfeito demais, postura reta demais, movimentos controlados como se cada gesto fosse calculado. Ele não tinha pressa. Nunca tinha pressa. O cara no vídeo demorou alguns segundos pra perceber que não estava sozinho. Quando virou, já era tarde.

Sammy colocou a mão no ombro dele.

Foi só isso.

O corpo do cara parou na hora, como se tivesse sido desligado. Não teve luta, não teve grito. Só uma coisa estranha no rosto dele: alívio. Um alívio absurdo, como se todo o peso da vida tivesse sido arrancado de uma vez.

A câmera falhou logo depois.

Quando voltou, não tinha mais ninguém.

Eu vi outros vídeos. Muitos. Sempre o mesmo padrão. Sempre alguém sozinho. Sempre de madrugada. Sempre aquele toque. E sempre o desaparecimento.

O nome “Sammy Creamy Absoluto” aparecia em comentários antigos, prints salvos, fóruns abandonados. Ninguém sabia de onde tinha surgido, mas todo mundo que mencionava demais acabava sumindo ou parando de postar do nada.

O que mais me perturbou foi perceber que, antes de desaparecer, as pessoas mudavam. Melhoravam. Ficavam mais bonitas, mais confiantes, mais… leves. Era como se algo nelas estivesse sendo preparado.

Até que um dia eu vi um rosto conhecido em um dos vídeos.

Era de um cara que já tinha sido dado como desaparecido semanas antes.

Mas lá estava ele, andando normalmente, saindo da academia como se nada tivesse acontecido.

Só que não era ele.

Eu pausei o vídeo, ampliei a imagem, analisei quadro por quadro.

Os olhos estavam errados.

Vazios.

Sem emoção nenhuma.

Parecia alguém usando o corpo dele, mas sem estar realmente ali.

Foi aí que eu entendi o que estava acontecendo.

Sammy não só mata.

Ele substitui.

Ele tira alguma coisa de você… e deixa outra coisa no lugar.

E o pior é que ninguém percebe. Família, amigos, todo mundo aceita a versão vazia como se fosse até melhor que a original.

Eu devia ter parado por aí. Sério. Devia ter ignorado tudo isso e seguido minha vida.

Mas eu fiz a pior escolha possível.

Fui até uma academia 24h.

De madrugada.

Sozinho.

Fiquei lá por um tempo, tentando me convencer de que era tudo paranoia. Nada aconteceu no começo. Só o silêncio, o som das máquinas e aquele clima estranho de lugar grande demais pra pouca gente.

Até que eu senti.

Não ouvi passos. Não ouvi porta abrindo.

Só senti alguém atrás de mim.

Uma presença.

E então uma voz calma, quase amigável, falou bem perto:

“Você anda procurando demais.”

Eu não queria virar. Cada parte do meu corpo dizia pra eu ficar parado. Mas eu virei.

E ele estava lá.

Sammy Creamy Absoluto.

Ao vivo, ele é pior do que em qualquer vídeo. Porque você sabe que tem algo profundamente errado, mas não consegue explicar o quê. O rosto dele é perfeito demais, simétrico demais. E o sorriso… não combina com os olhos.

Ele me olhou como se já me conhecesse.

“Relaxa”, ele disse. “Eu não faço sofrer.”

E começou a estender a mão.

Devagar.

Sem pressa.

Eu tentei me mexer, mas meu corpo não respondia. Era como se eu já tivesse desistido sem perceber.

Quando ele encostou em mim, eu não senti dor.

Eu senti alívio.

Um alívio absurdo.

Como se tudo de ruim dentro de mim estivesse sendo arrancado: medo, culpa, vergonha, tudo sumindo de uma vez.

Por um segundo, eu quis deixar.

Quis que ele levasse tudo.

Mas alguma coisa em mim travou. Um instinto, um medo mais profundo que qualquer alívio.

Eu puxei o braço com força, caí pra trás e bati a cabeça.

Quando consegui olhar de novo…

ele não estava mais lá.

Só o espelho na minha frente.

E o meu reflexo demorou um segundo a mais pra me acompanhar.

Desde aquele dia, eu não sou mais o mesmo.

Não fiquei mais forte, não emagreci, nada disso.

Mas sinto que falta alguma coisa.

Meus pensamentos às vezes ficam vazios.

Memórias somem.

E quando eu me olho no espelho, parece que tem menos “alguém” ali.

Ontem, passando na frente da academia, eu vi alguém saindo.

Andando do mesmo jeito.

Postura perfeita.

Calmo demais.

Era eu.

Ou alguma coisa usando o meu corpo.

Se você estiver lendo isso, presta atenção.

Se alguém aparecer atrás de você do nada…

não vire.

Se uma voz calma disser que não vai doer…

corra.

E se você encontrar alguém perfeito demais, vazio demais…

não tenta entender.

Porque isso significa que já aconteceu.

Sammy Creamy Absoluto não está mais te procurando.

Ele já te encontrou.

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u/First-Consequence526 — 23 days ago