Aos 18 anos eu era filho só no discurso, na prática era mais como um inquilino.
Minha família veio de uma origem muito pobre. Meu pai é o típico homem que trabalhou a vida inteira para sustentar a família. Nossa condição só melhorou porque ele passou anos trabalhando em dois empregos, 12 horas por dia. Eu admiro isso nele. Sempre cobrou notas boas e eu sempre me esforcei muito, principalmente por medo de decepcioná-lo.
Perto dos 17 anos, comecei a estudar para conquistar uma vida melhor para mim e para meus pais. Ao mesmo tempo, queria ter minhas próprias coisas. Quando fiz 18 anos, meu pai me indicou para um trabalho 6x1, 10 horas por dia, ganhando R$1400 em 2020.
No meu primeiro salário, mandei R$500 para ele como agradecimento e ainda comprei comida para casa. Foi aí que tudo começou: ele me cobrou mais R$400 porque, segundo ele, dali em diante eu era adulto e precisava pagar as contas e até ai tudo bem, nunca quis ser um filho parasita.
Pensei que R$400 não seriam um problema, bastava me controlar financeiramente. Mas no mês seguinte ele mostrou uma planilha: eu, meu irmão e ele dividíamos tudo em três remédio, gasolina, ração do cachorro, água, luz, comida ou seja literalmente tudo. O valor final ficou em quase R$1000 para cada um.
Na época, meu pai ganhava cerca de R$3500, meu irmão R$2000 e eu R$1400. Mesmo assim, todos pagavam exatamente o mesmo valor.
Depois de um ano assim, eu mal conseguia comprar algo para mim. Trabalhava e estudava todos os dias, passava horas no transporte e sobrava quase nada do salário.
Foi então que consegui passar no ENEM e ganhar um bom desconto na faculdade que eu pedi ajuda ao meu pai para aliviar um pouco as contas enquanto eu estudava. Ele recusou.
A resposta dele foi "Se você quer desconto, arranje um emprego melhor e continue pagando as contas. Na minha época eu não tinha essa moleza.”
Naquele momento eu surtei. Parecia que eu era tratado mais como inquilino do que como filho.
Depois de conseguir um emprego melhor, saí de casa. Precisei desistir da faculdade temporariamente para conseguir me sustentar sozinho.
Hoje, aos 24 anos, já voltei para a faculdade há um ano e consegui um emprego em que ganho cerca de R$4000. Ainda converso e visito meu pai, mas sempre que esse assunto surge ele diz que fez tudo isso “para me ver crescer".
Até hoje fico remoendo isso...