- 𝖺𝗂𝗇𝖽𝖺 𝖾𝗌𝗍𝗈𝗎 𝗀𝗋𝗂𝗍𝖺𝗇𝖽𝗈 𝗌𝗈𝗓𝗂𝗇𝗁𝖺..
Oi... Não sei bem como começar isso.
Quando eu tinha 10 anos, fui vítima de grooming (alicmento de menor). Isso durou cerca de cinco meses, até minha mãe descobrir.
A reação dela não foi muito acolhedora. Na época, me senti culpada por tudo o que tinha acontecido e passei muito tempo enxergando minha mãe como um monstro por causa da forma como ela reagiu. Hoje não penso mais assim.
Depois de alguns anos, comecei a entender que ela foi mãe muito nova... passou por muitas dificuldades e provavelmente não sabia como lidar com uma situação dessas. Acho que ela tentou me proteger, mas fez isso de uma forma que acabou me machucando também.
E eu sei que isso pode soar estranho, mas não sinto ódio da pessoa que me aliciou. Na época, ele parecia me entender mais do que qualquer outra pessoa. Me escutava, me dava atenção e me tratava melhor do que muitas pessoas à minha volta. Hoje eu sei que isso fazia parte da manipulação... mas ainda é uma parte confusa da minha história.
O que mais me machuca não é apenas o que aconteceu. É tudo o que veio depois.
Eu nunca senti que tive alguém para conversar sobre isso. Não consigo falar com familiares... tenho trauma de psicólogo por causa de uma experiência ruim que tive... e minhas amigas parecem não entender a dimensão do que isso significou para mim.
Às vezes vejo pessoas recebendo muito apoio por causa de términos ou outros problemas... enquanto quando penso em falar sobre o que aconteceu comigo sinto que vão me tratar como se eu estivesse exagerando ou procurando atenção.
Com o tempo, comecei até a acreditar que minha própria dor não era importante.
Hoje eu me sinto muito sozinha.
Tenho muita raiva acumulada. Às vezes qualquer coisa que me machuca, por menor que seja, me faz reagir de forma rude. E depois da reação eu não sinto alívio... sinto ainda mais raiva.
Também sinto que perdi a capacidade de pedir ajuda. Quando estou mal, tenho vontade de conversar com alguém, mas acabo ficando quieta porque já espero ser ignorada, incompreendida ou não levada a sério.
O pior não foi apenas o que aconteceu quando eu era criança...
O pior foi carregar tudo isso praticamente sozinha.
Eu não estou escrevendo isso porque quero pena. Só queria que, pelo menos uma vez, alguém entendesse o quanto isso ainda dói.
Também tem uma parte que quase nunca conto.
Depois disso, situações parecidas voltaram a acontecer mais duas vezes.
E quando cheguei aos 13/14 anos, acabei desenvolvendo um hábito autodestrutivo de conversar com homens que eu sabia que não eram pessoas seguras para mim.
Hoje percebo que não estava procurando essas conversas porque me faziam bem. Acho que eu estava tentando preencher algum vazio, procurar compreensão nos lugares errados ou repetir padrões que já tinham se tornado familiares para mim.
Só que isso acabou me machucando ainda mais.
Às vezes sinto vergonha de admitir isso, porque sei como parece visto de fora. Mas acho que esconder essa parte da história seria esconder uma parte importante do impacto que tudo isso teve em mim.