É fato consumIdo
Estou decidido a obedecer unicamente às influências de minhas entranhas a partir de agora.
Há muito tempo tenho dado azo demais à razão, à minha mente explicadora e esfomeada por entendimento. Não digo que não foi boa a viagem. Mas do meio pro fim do alto de meus 35 anos de explorações, observações, experimentações, deduções e sistematizações, dei, eu, em lugar nenhum.
As perguntas não se acabam. Não importa quantas respostas obtenha. Em verdade, muitas vezes acho que a mente nem sequer quer mesmo uma resposta. O que anseia de verdade sempre é a próxima dúvida, a próxima porta.
Se ao ponto zero se chegar, cabe saber o quê o desenhou e talvez por que não o fez mais cedo.
Pra viver com a mente no lugar, é preciso se aprofundar (em si, na vida, nos porquês e 'para-quês'); sem isso, se a cabeça deixar de perguntar, é quase como se afogar.
A ironia é que entender não é o mesmo que respirar. Requer esforço. Cansa.
O outro lado é que o que tudo explica, o que tudo sabe, em nada crê. Os primeiros porquês, que sustentam a vida cotidiana da massa, deixam logo de fazer sentido pra uma mente ávida. Lá em cima tudo é raso, tudo é igual. E ninguém quer ir tão fundo. A maioria se deixa convencer sem nem discurso.
Os troféus não me bastam, Bourdieu entenderia. Racionalizar dessacraliza, Weber certamente me diria.
E nesse descompasso com a massa, o ser que essa mente habita está sempre sozinho.
Fora isso, é na mente onde vive e se infla o ego. É nela também que se abriga o apego, o acerto e o erro e onde se inventa tudo: dá-se função, faz-se relação, subverte-se o conteúdo. Uma mente ágil vai do céu ao inferno num minuto, condena Deus, o diabo e todo mundo; faz do justo um impuro com uma leve torção de seu julgo.
Dito isto, assumo: minha mente não me leva pra lugar algum, só me usurpa de estar aqui. Essa iludida, reinando do alto da cabeça, pareceu ser a óbvia coordenadora desta experiência. E nisso eu cri. Até aqui. Está deposta.
Quem manda a partir daqui são minhas vísceras — e elas parecem saber — pois os meus peristálticos gritam agora. Acredito que estejam reivindicando a atenção por muito tempo abdicada. Ouvi-los-ei.
São, sem dúvidas, um tanto mais difíceis de compreender. Mas compreensão, lógica, linguagem, clareza na comunicação (...) isto é tudo frivolidade de Cabeça.
As tripas são analógicas, simples, pragmáticas.
Um pensamento não existe. Existe? Onde?
Meu bucho? Sem dúvida, sim. Sinto claramente seu humor. E quando algo não lhe cai muito bem, faz ele mesmo o expurgo.
Então simplifiquei-me:
O que quer que me vire o estômago, a mim não cabe mais.
O que quer que me acenda as borboletas, vale a pena seguir, vale a pena demorar.
Regras básicas, que são mesmo uma só de duas vistas. Pois então está como fato: meu juízo vive nas tripas.