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Separar a arte do artista...

Existe um debate frequente na Internet sobre a questão da arte e do artista. Depois que as pessoas resolveram olhar as biografias de alguns escritores, pintores e músicos, descobriram que elas não são tão "sublimes" quanto os livros, quadros e melodias. Aos montes, essas pessoas correram para as planícies das redes gritando, cada uma a seu modo, se devemos, ou não, separar a arte do artista.

Não há nada de novo nesse tema na velha filosofia, é um debate longo e vasto, dito de novo e de novo nos inúmeros cursos e livros de estética. Mas, no senso comum, que costuma ser mais lento nesses assuntos, o tema é quente.

Devemos separar a arte do artista?

A primeira vista esse parece um questionamento moral. Na verdade, a questão não pode ser respondida pelo viés moral, simplesmente porque a arte nada tem a ver com moralidade. Na esteira do que afirmou Nietzsche, que "não existem fenômenos morais, apenas uma interpretação moral dos fenômenos", gostaria de começar essa reflexão perguntando porquê, de repente, as pessoas começaram a ter tanto interesse moral na arte. Quando a arte se transformou em um questão de certo ou errado? De bem ou mal?

Ainda na antiguidade, no oásis da filosofia, no mundo grego, a arte não pertencia ao artista. Na verdade, a arte nada tinha a ver com o artístico. A arte, para o homem de Atenas ou Éfeso, não era vista como uma expressão do artista. Arte em grego é τέχνη (téchne), que nós traduzimos por técnica. Mas técnica aqui envolve qualquer fazer do conhecimento humano. Τέχνη é um produzir a partir de um conhecimento, de uma επιστήμη (episteme). A produção de um vaso de flores, de uma máscara mortuária ou de uma escultura, não possuía nenhuma diferença, tudo era Τέχνη. Também o era a escrita, o pensamento, a matemática, a lógica... tudo isso estava no âmbito da produção. A técnica grega, a arte, era ποίησις (poíesis) - produção. O produzir aqui não provém da genialidade do artista, ou da vontade de produzir algo esteticamente bonito. O produzir é um fazer emergir: o artesão deixa emergir o jarro no barro, o escultor deixa emergir a figura no mármore e o pintor deixa emergir a pintura na interação das cores. O produzir grego é um deixar a coisa, seja ela o que for, ser aquilo que ela é. Em sentido grego, a arte não pertence ao artista, não é um produto da criatividade e, muito mesmo, possui alguma ipseidade com o artista. O Belo, nesse sentido, é aquilo que está sendo no jarro enquanto ele despeja a água no rito em homenagem à deusa Ártemis.

Cito aqui a dimensão do mundo grego para ilustrar e dar profundidade à nossa questão: quando a arte se tornou uma questão moral?

Na nossa época tão moderna, diferente dos gregos, a arte nunca foi um deixar ser, nas cores, a pintura. Na verdade, pouco ainda tem desse deixar ser grego na época da cibernética e da velocidade. Descobriu-se algo inédito na história, a subjetividade. Inicialmente, a tão aclamada subjetividade dizia respeito à estrutura que o homem tem para apreender o real. Nesse sentido, subjetividade era aquilo comum a todo os humanos - afinal, todos apreendemos a realidade. Mas hoje o sentido da subjetividade se desdobrou em algo particular de cada sujeito, que é em si um mundo a parte, estruturado e delimitado pela vivência. O sujeito é o homem que vivencia. O vivenciado é aquilo que foi medido, processado e adicionado à subjetividade particular do sujeito e que compõem, como uma peça de engrenagem, o Eu. Tampouco a produção é pensanda como ποίησις: a produção é, nos dias atuais, um fazer do homem que, como causa do fazer, produz um efeito.

Por isso, a arte, no glorioso tempo do sujeito, é tida como um efeito produzido pela subjetividade do artista. Em outras palavras: a arte é a expressão da vivência do artista. Um quadro, pintado e exposto nos dias atuais, não resplandece na interação das cores, nem naquilo que está a ser no quadro como Belo. A obra é ofuscada e ignorada para que a vivência subjetiva do artista possa ser enaltecida. Em muitos casos, a obra e o artista são vistos como o mesmo, mas o que é levado a julgamento permanece sendo a subjetividade.

Isso se mostra evidente quando uma pessoa passa dez anos admirada com o tom, as cores, o ritmo das pinceladas e o acontecimento que está a ser na obra "A Persistência da Memória" de Salvador Dalí, e basta um reels de dois minutos no Instagram, informando sobre as inclinações racistas e as excrescências da vida particular desse artista, para que a experiência com o Belo na obra seja obliterada pelo julgamento moral sobre a vivência do artista.

A resposta para a questão "Quando a arte se transformou em uma questão de certo ou errado?" fica mais clara: quando nós esquecemos da arte e nos voltamos para nós mesmos, para nossa subjetividade. A arte nunca esteve em questão nesses estranhos âmbitos morais. O que está sob o crivo da moralidade é a vivência subjetiva do artista, somos nós mesmos.

Então, agora, resta-nos pensar se devemos ou não separar a arte do artista. Mas o que a arte tem a ver com o artista? Embora seja muito difícil para nós, homens modernos, conceber tamanha heresia, as coisas não se esgotam no interior de nossas vivências subjetivas. Não se esgotam e nem mesmo se reduzem ao produto delas. A arte não é o lugar em que o artista deposita seus traumas, suas felicidades e sua visão de mundo. A arte é o lugar onde um mundo se encontra fixado, um lugar onde o mistério permanece, atemporalmente, como o misterioso. Por isso é possível um italiano, um brasileiro e um chinês olharem para o quadro de Salvador Dalí e experienciarem o mistério. Eu não estou falando de uma sensação estética arrebatadora - isso também é da ordem do subjetivo, estou falando de enxergar o Belo que está a ser na obra como a memória persistindo misteriosamente. Nenhuma análise, nenhum contexto social ou inclinações aterrorizantes do artista pode esgotar esse mistério que nos faz enxergar o Belo através do tempo.

A questão nunca foi se é possível separar a arte do artista, pois eles nunca estiveram juntos. A questão do nosso tempo nem mesmo com arte tem a ver. É uma questão moral, uma questão de autoafirmação na visão de mundo que apetece cada um, em sua particular e isolada subjetividade. É exatamente por isso que um filme com atuações duvidosas e um roteiro preguiçoso pode fazer sucesso planetário: porque nunca foi sobre a arte das atuações ou de um bom roteiro, mas de falar sobre o que as pessoas vivenciam. É por isso que é preciso boicotar suas experiências com os quadros e filmes quando o autor se mostra um cretino.

Talvez tenha chegado o tempo em que nós precisamos parar de fingir que estamos discutindo a arte. Talvez devemos agora assumir que nunca discutimos nada para além de nós mesmos e de como vivenciamos as coisas. Talvez assim, a gente volte a enxergar algo para além... como a arte em seu mistério.

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u/Internal_Water_9891 — 12 days ago