Tudo que eu gostaria de falar ao dono da escola de onde me demiti
Sim, estou prestes a me formar, mas preferi a demissão a continuar aqui, mesmo que isso significasse navegar pela incerteza do desemprego após a graduação. Olhe em sua volta, os professores daqui não são pessoas realizadas e felizes com suas profissões, nem perto disso. A professora de inglês, que passa todas as manhãs e tardes aqui, reclama, na sala dos professores, das dificuldades de sustentar a si e a seu filho com o que recebe... A professora de português, que também passa todas as manhãs e tardes aqui, sonha em passar em um concurso para bancária, ou algo parecido, para se livrar da sobrecarga extrema e do mau salário. Esses são só exemplos pontuais da insatisfação com a insalubridade desse ambiente e de seu aspecto financeiro, há muitos outros.
Outras coisas me chamaram atenção desde que iniciei meu estágio aqui. Em primeiro lugar, a quantidade enorme de estagiários e de pessoas recém-formadas atuando na biblioteca, dando aulas no horário integral da escola e até mesmo exercendo o cargo de coordenadoras. Observa-se com clareza que se trata de um esforço para cooptar jovens desesperados por oportunidades, suscetíveis a aceitar qualquer salário, para mantê-los no mesmo ciclo de exploração do qual as professoras de inglês e português reclamam. Você pensa ser esperto... Eu vejo seus truques baratos...
Em segundo lugar, a falta de uma mesa própria ao professor na sala de aula. Ao estranhar e questionar a respeito disso para uma professora, ela me respondeu que era mal visto pela coordenação e pela direção que os professores se sentassem durante as aulas... Eu achei isso um absurdo, e teria saído da escola naquele instante mesmo, se não precisasse do dinheiro. Você pode negar até os últimos momentos de sua vida, pode se acreditar uma pessoa que se importa com seus funcionários e com a educação, mas nesse simples gesto sua máscara cai e a verdade se revela: para você, os professores não passam de peões, escravos indignos de tamanho conforto.
Em terceiro lugar, achei estranhíssimo, desde o começo, que os professores fossem obrigados a utilizar um uniforme da empresa, uma blusa que, no contexto escolar, até lembra farda de aluno. Tratam-se daquelas blusas clássicas que você veria um funcionário qualquer de lojinha usando. Eu vejo isso como um ataque à individualidade e à dignidade dos professores... Numa loja, é relativamente compreensível a uniformização dos funcionários, mas qual a necessidade disso em uma escola? Humilhar ainda mais esses profissionais que se dedicaram a 4 anos de universidade, para serem tratados como peões no mercado de trabalho? Eu já vi escolas que pedem que os professores usem jalecos, o que eu acho mais condizente e mais digno, agora isso?
Como cereja do bolo, tivemos uma reunião recentemente. E nela, você demonstrou com clareza que não sabe o que quer. No dia anterior, você e a coordenação relataram que houve uma reunião com os pais, e eles reclamaram que os filhos não estavam assimilando bem os conteúdos, apesar de frequentarem o integral da escola. Vocês reclamaram da prática de alguns professores que consistem em simplesmente copiar as respostas dos deveres de casa no quadro e pediram que passassem a estimular mais o raciocínio e a autonomia dos alunos. Parece razoável, não? Acontece que os professores já vinham reclamando há muito tempo da completa indisciplina e descaso dos alunos em relação ao integral, nós relatamos reiteradamente que os alunos simplesmente não o levam a sério e que por vezes temos dificuldade em convencer alguns deles a simplesmente pegar o livro. Seria possível realizar um trabalho com esses alunos, apesar disso? Sim, mas isso levaria tempo. Se um aluno que hoje não quer nem pegar o livro, amanhã resolve uma única questão por si mesmo, isso já é um baita progresso. Porém, a coordenação pressiona os professores a fazer com que todos os alunos saiam com os deveres de casa resolvidos, para que os pais não tenham que se preocupar com isso e sintam que o dinheiro está sendo bem gasto... E é justamente isso que leva alguns professores a copiarem as respostas em primeiro lugar. Por isso, digo que você não sabe o que quer: ou você pede que a autonomia dos alunos seja estimulada e aceita que esse é um processo árduo e demorado ou você exige deveres de casa perfeitamente concluídos todos os dias!
Ver o modo como você ignorou tudo o que os professores tinham a dizer e apenas encerrou a reunião abruptamente foi a gota d'água. Imagine que você está em um consultório médico, ele te dá um diagnóstico e você o ignora e diz que ele está errado. Isso te parece razoável, normal, corriqueiro? Então por que seria no caso dos professores? Como profissionais, não damos opiniões sobre o que se passa em sala de aula, damos diagnósticos. Se você tivesse qualquer respeito por esses profissionais que trabalham para te deixar rico, entenderia... Mas não tem.
Isso, para nem falar de como esse projeto de "integral" tocado pela escola é ridículo... Não é ensino integral, é uma banca oferecida pela própria escola. Isso, pra não dizer que é uma creche, onde pais irresponsáveis depositam seus filhos mal-educados durante a tarde.
Isso, para nem falar de como você gastou uns 200 mil para fazer um laboratório novo (até aí, tubo bem), mas não tem coragem de pagar um salário digno aos seus funcionários. E até me confessou isso uma vez, você tem a consciência de que paga mal os professores do integral... Mas me disse que não poderia inaugurar o laboratório novo se escolhesse aumentar seus salários... Enquanto isso, seu bolso se enche de dinheiro. Entenda uma coisa, você pode ter todos os laboratórios do mundo: se os professores que trabalham nele não se sentem valorizados, a qualidade do ensino não vai chegar nem perto do que poderia ser...
Mas tudo bem, tudo bem, esse é o jogo: algumas pessoas enriquecem e outras gastam suas vidas enriquecendo outras pessoas. Você está jogando o jogo e vencendo às custas da educação, fazendo-a de mercado e de lucro para si...
Eu contemplei uma possibilidade de destino apavorante para mim, caso continuasse aí, caso precisasse trabalhar em um lugar assim de novo em minha vida. Por isso, escapei.