O vendedor de felicidade.

Sons agudos, quase roucos, de uma corneta ecoam pelas ruas. O sol brilha mas as poças ainda não secaram. Vultos ensombreados dos raios decorados por discos velhos e arranhados cortam cada portão, arbusto e metro de calçada adiante. Pernas motivadas pedalam incansavelmente em direção à mais um quarteirão. Fôlego é o seu nome.

Seu suspiro é profundo e frenético. Sua regata, completamente enxarcada no suor. Seus lábios sempre ressecados, procuram pela próxima boa senhoría empunhando um jarro gelado. Seus olhos, caçando a próxima curva antes de finalmente apertar os freios. Sua mente, presa na lembrança mais recente de onde ainda não esteve naquele entardecer.

Sua mochila é suja e pesa. Sua postura, meio camarão. Seu objetivo, entregar o máximo pelo mínimo. Pois garantir o bom humor dos moradores é espalhar a felicidade na sua forma mais pura. Para o bem de todos.

Supostamente descobertas entre os escombros de um desabamento recente, cada pacote é vital. Cada segundo conta. Cada bairro há um cliente. Cada olhar, uma chance. Cada movimento, um sinal. Cada venda, um sorriso.

Se a vida te der limões, plante-os e abra uma empresa!

u/MrPuloTheOriginal — 4 days ago

A caligrafia irá desaparecer.

Isso é uma loucura? Sim.

Mas não para os mais informalizados pois isso já é uma realidade gritante em muitos contextos do nosso cotidiano. Conseguiram emburrecer a população num nível ainda mais deplorável dessa meta ao ponto de simplesmente esquecermos a forma como se manuseia uma caneta.

Se antes a disgrafia era motivo de piada entre colegas da escola, agora, ela se torna parte de uma terrível batalha pessoa contra a agonia dos quem ainda não desejam abdicar desse dom humano e para quem ainda espera por melhores reconhecimentos e a fatídica retomada dessa prática reparadora de neurônios, só sobraram os registros do que nunca mais veremos como antes.

As telas nos roubaram até a nossa vontade de escrever num papel. O que mais ela ainda pode substituír? O amor humano? Ainda conseguimos amar?

u/MrPuloTheOriginal — 1 month ago

Sem portas...

O ar meio abafado daquele quarto, disputava o espaço com a paira da madrugada. O susto era real. Não havia uma porta alí, mas deveria, lembro bem. Me levantei, procurando pelo resquício da vela que jurava ter deixado aos pés da cama, e que também tinha sumido.

Enquanto aguardava pelo foco do meu escopo ao relento, escutei sons agudos, distantes e que até pareciam choros. Perneiando o meu imaginário, me condicionando ideias irrisórias sobre a minha sanidade.

Conforme caminhava pela casa, eu percebia a ausência total das portas. Banheiro, cozinha, varanda. Aquilo realmente era uma sensação ruim. As brisas que, aos assobios, invadiam os cômodos eram eternas, assim como aqueles soluços camuflados pelo barulho caótico das folhas chaqualhando e que me repelia a curiosidade em investigar.

Em direção do som, ignorei a escuridão, a terra entre meus dedos, os galhos ríspidos gastando meus braços, meu rosto, os olhares turvos e curiosos aos aredores, os comentários sobre o jeito que eu me portava, as incontáveis formas que me usaram naqueles intervalos, quando o motorista se atrasava.

Os relatos e sinais que não deram em nada. As portas fechadas; os risos; as dores; os xingamentos; as gargalhadas; o sangue; a raiva; o medo; a culpa e o brilho das chamas.

Parado, diante daquilo e observando, não cheguei em lugar nenhum. Não tinha sentido e nem queria tentar novamente. Não cabia tentar. Havia uma máscara, um altar e uma pilha de portas queimando. Alguém pisava num graveto próximo e finalmente eu acordava.

u/MrPuloTheOriginal — 2 months ago