O QUE É O AMOR? (E que diabos isso tem a ver com medicina e cuidados paliativos?)
É bem curioso que a maioria das pessoas passam a vida dependendo de estruturas e instituições sociais básicas, de grande importância, e que não refletem a respeito de sua natureza e das implicações disso.
'Bora filosofar?
O amor, embora possa nascer a partir de sentimentos, questões sociais, ou mesmo biológicas (desde a descarga de ocitocina no momento do parto, até os feromônios emitidos durante a ovulação e coito), é uma construção social baseada em COMPROMISSO.
Os sentimentos fazem parte dele, mas é o compromisso que é sua estrutura fundamental.
Na construção especial do amor entre as pessoas, ele é obrigatoriamente um compromisso BIDIRECIONAL, firme como aço (na riqueza, e na pobreza; na saúde e na doença ...), que as pessoas assumem entre si, de forma voluntária. ("É estar-se preso por vontade").
Muitas vezes, não é construído de forma abrupta, mas paulatinamente, se tornando mais profundo e intenso ao longo dos anos.
Obrigatoriamente BIDIRECIONAL, porque deve ser recíproco, senão assimétrico e disfuncional. Um cônjuge assume esse compromisso com seu par, assim como seu par assume com o primeiro.
A única forma de verdadeiro Amor unidirecional, é entre pais e filhos quando estes são crianças, porque a criança não tem maturidade cognitiva ou biológica para assumir tamanha responsabilidade. Porém, quando os filhos se tornam adultos, eles podem decidir se vão construir esse compromisso de volta com seus pais. Os filhos que decidem não construir o compromisso de amor com seus pais, correm o risco de que seus pais rompam esse compromisso com eles.
E é esse compromisso de amor, que constrói as famílias - eixo fundamental da rede de assistência que observamos enquanto médicos de família e comunidade, e enquanto médicos paliativistas.
É a esposa que cuida do marido terminal de câncer e acamado, são os filhos que cuidam da mãe frágil idosa com Alzheimer.
Certa vez, uma garota vivendo uma decepção amorosa bateu no meu consultório com queixa de depressão. Seu noivo havia terminado com ela um relacionamento de 8 anos. Ao fim da consulta, ela me perguntou: "Dr, você que é experiente, e trabalha com famílias: qual é o tipo ideal de homem que eu devo procurar para construir um relacionamento?" Já como paliativista, respondi: "o homem ideal é aquele que quando você precisar, irá trocar a sua fralda".
No Twitter, nos últimos dias, ocorria um debate em algumas bolhas sobre "filhos não devem obrigação aos pais, porque não pediram para nascer".
Fica o lembrete:
os pais tinham um compromisso unidirecional com os filhos crianças, mas quando adultos, esse compromisso entre pais e filhos têm que ser reestruturado de forma bidirecional.
Na maioria das vezes, é o compromisso de amor que faz com que os filhos cuidem de seus pais idosos e doentes. Mas é muito comum na minha prática ver pais idosos de 80 anos cuidando de filhos de 50 e 60 anos, em fase terminal de câncer.
Fica a mensagem aos filhos: se vocês decidirem romper o compromisso de amor com seus pais, entendam que de forma bilateral, eles também poderão romper o compromisso com vocês.
E sem compromisso, não há amor, e é só o amor e esse compromisso que são o verdadeiro alívio para as pessoas que sofrem nos momentos mais difíceis da vida.
Como médico paliativista do serviço domiciliar, eu faço visitas e oriento cuidados. Porém, enquanto eu fico naquela casa uma hora por dia, é a família que cuida do doente durante as 24 horas, sete dias para semana, durante meses.
O cuidado é acima de tudo, uma atividade familiar e baseada em compromisso de Amor.
Sem amor genuíno e abnegado, não há cuidado de fato...
Toda a sociedade seria muito melhor, se as pessoas entendessem que compromissos formam a teia fundamental das relações sociais estáveis e eficientes.
Como motorista, assumo o compromisso de respeitar as leis de trânsito. Como padeiro, sumo compromisso de fazer os pães com higiene. como o médico, assumo compromisso de cumprir bem a minha função, aplicando a melhor medicina para o paciente.
Como político, eu deveria assumir o compromisso de ser ético, justo, e honesto...
Amor-compromisso, como estrutura fundamental da família, e compromisso, como estrutura fundamental da sociedade, em qualquer outra relação humana de qualquer outra natureza.
Essa é a fórmula básica da civilização.