u/Piracic4baa

A resolução do arco do Aang (e a pedra nas costas) é uma contradição aos próprios temas que Avatar construiu.

Pessoal, reassistindo a série, tem um ponto no desenvolvimento do Aang que me incomoda bastante: a forma como ele recupera o Estado Avatar e como isso dialoga (ou falha em dialogar) com os temas centrais da obra.

Antes de qualquer coisa, quero deixar claro que eu amo a série de paixão. Avatar é incrível, tem uma construção de mundo impecável e esse detalhe de forma alguma estraga a obra como um todo. No entanto, fica a forte sensação de que a resolução que recebemos no final não era o objetivo temático que os próprios roteiristas tinham em mente quando construíram a segunda temporada.

Durante toda a série, Avatar trabalha magistralmente temas muito maduros: o peso do dever, o sacrifício pessoal em prol de um bem maior e, principalmente, que escolhas têm consequências. A jornada do Zuko é o maior exemplo disso, mas o arco do Aang no Livro Terra também estava indo exatamente por esse caminho.

O Guru Pathik apresenta ao Aang o dilema definitivo do herói: para abraçar seu dever como Avatar (o universal), ele precisa abrir mão do seu maior apego terreno, a Katara (o pessoal). Em um momento brilhante, muito parecido com o Luke em O Império Contra-Ataca, o Aang escolhe a emoção, abandona o treinamento para salvar seus amigos e o resultado é tematicamente perfeito para o tom da série: um desastre absoluto. Ele quase morre e Ba Sing Se cai. A série nos ensina ali que o peso de ser o Avatar é real e que fugir do desapego tem um preço caríssimo.

Toda essa construção deixava claro qual seria o tema do Livro Fogo para o Aang: a dura lição do sacrifício. Ele teria que lidar com as consequências de sua escolha e amadurecer, entendendo o fardo da sua posição.

Mas o que acontece no final? A série simplesmente abandona esse tema maduro.

Ao invés de resolver esse conflito filosófico e temático (Dever vs. Desejo / Desapego vs. Humanidade) através do crescimento espiritual do personagem, o roteiro apela para uma conveniência física. O Aang não chega a uma nova conclusão sobre seu papel no mundo; ele recupera o Estado Avatar porque é prensado contra uma "pedra mágica" que bate exatamente na sua cicatriz durante a luta contra o Ozai.

No fim das contas, a série entrega ao Aang uma "saída livre de consequências". Ele não precisa fazer o sacrifício que a segunda temporada estabeleceu como fundamental. Ele derrota o vilão sem ferir seu pacifismo, recupera o poder divino por acidente e, de quebra, casa com a Katara no final.

Até aquele momento, Avatar teve a coragem de ser complexo sobre guerra, perda e redenção. Mas no clímax temático do protagonista, sinto que os roteiristas "amarelaram". O final entrega um fechamento de conto de fadas que não corresponde à maturidade temática que a própria série construiu com tanto cuidado até ali.

Vocês também sentem que a série abandonou seus próprios temas nessa resolução ou sou apenas um doido querendo demais de um desenho sozinho nessa?

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u/Piracic4baa — 6 hours ago