Situação estranha na barbearia
Meu último cliente me sugeriu uma coisa estranha e eu aceitei por cansaço
Eu trabalho como barbeiro há anos. Já vi cliente dormir na cadeira, já vi gente virar a cabeça bem na hora do acabamento, já vi cara entrar triste por término e sair querendo meter degradê navalhado porque "é uma nova fase". Achei que nada mais pudesse me surpreender.
Até ontem.
Era o último cliente do dia.
E quando eu digo que o cara deu trabalho pra cortar, eu não tô exagerando. O cabelo parecia ter física própria. Cada vez que eu achava que tava alinhando, aparecia um detalhe novo torto. Eu já tava cansado, a lombar pedindo aposentadoria e a alma querendo ir embora.
Finalmente deu horário de fechar.
Tranquei a porta, desliguei a placa luminosa e falei:
— Meu brother, já fechei, mas eu não vou deixar você sair daqui sem terminar isso.
Ele olhou tranquilo e respondeu:
— Ok.
Voltei pro acabamento. Só faltava o pezinho.
Mas não tava entrando na minha cabeça. Eu olhava, acertava, afastava... torto. Olhava de novo... torto.
Aí eu falei:
— O pezinho tá muito difícil.
Ele respondeu na maior calma:
— Mas é porque você não tá enxergando, tá muito longe, meu brother.
Eu estranhei.
— Mas é uma área muito pequena.
Ele pensou uns dois segundos e soltou:
— Pode sentar em cima da minha cadeira. Vai ter um ângulo melhor.
Eu parei.
Olhei pra cadeira.
Olhei pra ele.
Olhei pra cadeira de novo.
— Mas você tá sentado nela.
Aí o cara:
— Relaxa. Ninguém tá vendo. E você não quer passar mais meia hora tentando acertar isso, né?
Nessa hora eu queria dizer que não. Queria dizer "isso tá estranho". Queria dizer várias coisas.
Mas eu tava cansado.
Cansado num nível que o cérebro simplesmente aceita decisões questionáveis.
Então eu só falei:
— Ok... mas sem viadagem.
Silêncio.
Máquina ligada.
Pec tec.
Pec tec.
Eu ajustando.
"Agora sim tá ficando bom..."
Foi aí.
Foi exatamente aí.
Aconteceu uma coisa.
Uma sensação.
Um negócio.
Uma percepção.
Não vou entrar em detalhes porque até agora eu mesmo não entendi.
Só sei que meu cérebro imediatamente falou:
"Não."
Meu coração falou:
"..."
E minha alma saiu do corpo e ficou observando a cena do teto.
Aí o cliente falou:
— Desculpa, meu brother...
Silêncio.
— Foi sem querer.
Eu congelei.
SEM QUERER O QUÊ, IRMÃO?
SEM QUERER O QUÊ???
Meu cérebro entrou em tela azul.
Eu desliguei a máquina lentamente.
Fiquei encarando a parede.
Encarei o espelho.
Encarei minha vida.
Terminei o corte em completo silêncio.
O cara agradeceu e foi embora como se tivesse sido uma terça-feira normal.
Mas NÃO FOI UMA TERÇA-FEIRA NORMAL.