Eu sou a funcionária das Lojas Americanas do Metrô Tatuapé. Eu era quem perseguia ele!
Antes de qualquer coisa: meu nome é Rafaela, tenho 26 anos, trabalho na Americanas do Tatuapé há 3 anos e meu nariz é, clinicamente, um problema. Minha mãe sempre disse que eu devia ter sido sommelier ou cadela farejadora. Sinto cheiros que ninguém sente. Isso não é dom. Isso é uma maldição com carteira assinada.
A história do homem que peidava nos corredores? Eu li o post dele ontem à noite. Fiquei olhando a tela por cinco minutos em silêncio, lendo os comentários e respostas. Depois liguei para ele e disse: minha amiga Bruna e disse: "Eu preciso contar a minha versão pro Brasil."
Então aqui vai.
Era uma terça-feira comum de março de 2023. Eu estava organizando o corredor de papelaria quando senti. Não vi nada. Não ouvi nada. Senti. Um odor de alcance estratégico. Quente. Com notas de feijão e algo que eu só consigo descrever como "arrependimento".
Olhei pro corredor. Tinha um homem andando devagar, de terno social cinza, olhando uma fita durex de 5 metros com uma concentração que nenhum ser humano deveria dedicar a uma fita durex. Ele saiu. O cheiro ficou.
Na quarta, mesmo horário. Mesmo homem. Mesmo corredor. Desta vez perto dos porta-retratos. Minha teoria inicial: problema de saúde. Dei benefício da dúvida. Sou gente boa.
Na quinta, ele voltou. Desta vez foi no corredor de utilidades domésticas. Entre os rodos e as bacias. Eu estava no corredor ao lado e, juro pelos meus orixás, o ar-condicionado lateral transportou aquela experiência olfativa até mim com uma nitidez que eu não mereço.
Foi aí que percebi: ele estava fazendo isso de propósito.
Eu falei pro meu gerente, o Seu Marcos. Ele me olhou como quem olha uma pessoa louca e disse: "Rafa, você não pode acusar cliente de peidar na loja." — "Seu Marcos, ele volta todo dia!" — "Rafa, todo mundo peida." — "Seu Marcos, não todo dia no mesmo corredor com o mesmo horário e a mesma trajetória—" Ele foi buscar um café e não voltou na conversa.
Então eu decidi agir sozinha.
Semana 2: comecei a mapear. Toda vez que ele entrava — e eu sabia quando ele entrava porque meu nariz avisava antes dos olhos — eu pegava meu celular, fingia checar o estoque e anotava o corredor, o horário, a duração da passagem. Criei uma planilha. No Google Sheets. Com abas. Uma aba por semana.
Semana 3: já tinha identificado o padrão. Ele entrava sempre entre 13h40 e 13h55. Começava em papelaria (carga leve), migrava pra utilidades (carga média/pesada) e nunca, jamais, ia no corredor de brinquedos. Isso eu anotei como "sujeito tem princípios".
Semana 5: mostrei a planilha pra Bruna, que trabalha no caixa. Ela ficou em silêncio por um tempo e disse: "Rafa, você precisa de férias." Eu disse: "Bruna, eu preciso de JUSTIÇA."
Mês 2: o projeto de análise comportamental chegou na loja. Uma startup parceira ia instalar câmeras adicionais e um sistema de rastreamento de fluxo de clientes. Quando o pessoal de TI veio instalar, eu — com minha planilha aberta no celular — disse pro rapaz da startup, sem rodeios: "Tem um sujeito que vem aqui todo dia útil entre 13h40 e 13h55 percorrer um trajeto específico para liberar gases intestinais. Eu tenho três meses de dados. Você quer?"
O rapaz me olhou. Abriu o notebook. Disse: "Me mostra essa planilha."
Naquele dia, eu me tornei consultora não-oficial do projeto. Sem salário extra, é claro, porque o capitalismo não remunera gênios intuitivos.
Mês 3: com as câmeras novas, confirmamos tudo. O sujeito tinha 99,7% de previsibilidade de rota. O algoritmo deles nunca tinha visto nada igual. O rapaz da startup disse que era "um achado científico". Eu disse que era "um pesadelo olfativo com CPF."
No dia que a gente foi confrontá-lo, eu estava nervosa. Tinha imaginado esse momento muitas vezes. Peguei a câmera, me posicionei na saída do corredor de utilidades e esperei.
Ele entrou. Ficou entre os rodos e as bacias. E então realizou o que, pelos dados, era um evento fora da curva normal — uma anomalia estatística de 4 desvios-padrão segundo o sistema deles, que eu entendi como: meu Deus do céu esse homem almoçou dobradinha.
Quando ele se virou, eu estava lá, câmera na cara, sorrindo.
E então aconteceu o negócio que eu não contei pra ninguém até hoje.
Quando ele me viu, ficou branco. Aí olhou pra câmera. Aí olhou pra mim de novo. E disse, com a voz de quem acabou de ver um fantasma:
"Rafaela?"
Eu não entendia. "Como você sabe meu nome?"
Ele apontou pro crachá na minha blusa. Ok, justo.
Aí ele passou a mão no rosto e disse:
"Você é a Rafa do 11° B. Eu sentei atrás de você no colégio Objetivo por três anos."
Eu fitei aquele homem. O terno cinza. O cabelo um pouco diferente. Dez anos mais velho.
Era o Gustavo Henrique. O menino mais bonito da minha sala no ensino médio. O cara pelo qual eu fui apaixonada dos 15 aos 17 anos sem ele nunca saber.
Eu abaixei a câmera.
O Seu Marcos chegou atrás de mim com o segurança.
Eu disse: "Pode deixar, Seu Marcos. Eu conheço ele."
O Gustavo me olhou com cara de "você vai me prender ou não?"
Eu olhei pra ele. Pra câmera. Pra planilha no meu celular. Três meses de investigação. Centenas de horas de monitoramento. O case de sucesso da startup. A apresentação em São Paulo.
E disse:
"A gente pode tomar um café?"
A gente tomou café. No mesmo shopping. Ele ficou mortinho de vergonha. Eu fingi que não sabia de nada por uns vinte minutos até ele contar tudo espontaneamente, com as orelhas vermelhas, segurando um copo de água com as duas mãos.
Foi a coisa mais engraçada e mais adorável que eu já vi.
Isso foi em outubro do ano passado.
Em fevereiro, a gente começou a namorar.
No mês passado, ele foi na loja me buscar depois do trabalho e o Seu Marcos olhou pra ele, olhou pra mim, e disse apenas: "É o peidador?" Eu disse: "É o peidador." Seu Marcos apertou a mão dele com muita solenidade e disse: "Respeito."