u/SeixasdaCosta

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O choro e o riso

Vivi no Brasil e conheço os brasileiros suficientemente para entender que a sua eliminação, logo nesta fase do Mundial de futebol nos Estados Unidos, constitui um imenso desapontamento, se bem que as dúvidas sobre a real força deste grupo já tivessem surgido há muito na imprensa. O futebol é muito importante para o imaginário brasileiro, é a “pátria em chuteiras”, como escreveu Nelson Rodrigues. Mais do que os clubes, a seleção — o “escrete” — tem um significado profundo numa brasilidade partilhada com fervor por quase todos. O Brasil tem uma história gloriosa no futebol mundial, e o presente contrasta, com frequente nostalgia, com esses dias gloriosos. O país provou, contudo, ser possuidor de um arsenal histórico de esperança, mesmo quando as razões para essa esperança foram ténues. Por isso, embora desiludido e em lágrimas, o Brasil vai reinventar-se. Não seria o Brasil se assim não fosse. 

Vivi na Noruega e julgo conhecer suficientemente os noruegueses para poder dizer que esta vitória sobre o Brasil — a Noruega não ganhou o Mundial, mas o Brasil perdeu-o — é uma alegria extraordinária e quase inesperada. Ainda assim, essa alegria não se compara, do “outro lado” do espelho, à intensidade da derrota brasileira. Os noruegueses estão felizes por esta saborosa vitória, mas, se, por acaso, tivessem perdido, não se atirariam do alto dos fiordes. O futebol é, na Noruega, um desporto popular, mas apenas uma das componentes em que se espelha o orgulho de ser norueguês. Perder com o Brasil não seria “morte de homem”, como se diria entre nós. Ganhar vai ser um ótimo pretexto para celebrar com cerveja, aquavit e boa disposição.

u/SeixasdaCosta — 13 hours ago

O que tem de ser

Há pouco mais de nove anos, no dia em que Donald Trump tomou posse pela primeira vez, escrevi este texto na coluna semanal que então tinha no "Jornal de Notícias". No artigo, não falava em Trump, mas nele já transpirava o "otimismo" com que aguardava a sua chegada. Nem nos piores pesadelos, contudo, era expectável o que por aí viria. Repito o artigo neste 4 de julho em que a América assinala o 250° aniversário da sua Declaração de Independência:

O que tem de ser

Todos somos, um pouco, filhos da América. Da literatura ao cinema, da música ao consumo, da pintura à universidade, somos herdeiros e sujeitos do poderoso soft power que nos chega do outro lado do Atlântico, servido por uma língua que se tornou comum e absorvente. O iPad em que escrevo é, pela certa, feito na China, mas a esmagadora maioria dos conteúdos que nele observo são tributários de fontes a que os Estados Unidos não são alheios.

A América foi o instrumento da esperança que, na Segunda Guerra mundial, ajudou a Europa a libertar-se dos seus demónios. Depois, por aqui ficou, como poder europeu, através da Nato, protegendo o template demo-liberal da ameaça soviética. Pelo mundo, impulsionou uma arquitetura institucional que ainda hoje sobrevive. Contra Moscovo, bipolarizou o mundo, que, por décadas, passou a branco-e-preto. Exauriu depois a União Soviética e ganhou a Guerra Fria. Pelo caminho, demonstrou, não raramente, um descarado cinismo estratégico, colocando os seus interesses à frente da coerência com princípios que apregoava e a que apelava a respeitar. Criou inimigos, mas foi sempre temida – e, no fim de contas, o medo dos outros é fautor de poder próprio.

Marcelo Rebelo de Sousa perdoar-me-á se eu escrever que qualquer presidente americano, de uma certa forma, é também, um pouco, nosso presidente. Porque a atitude internacional dos EUA é sempre relevante, queiramos ou não, para o nosso dia-a-dia. É-o na forma como se relaciona com a Europa, na leitura que promove do multilateralismo, na política comercial, nas opções de segurança. Até o é nas Lajes, na política de vistos ou na gestão dos salvíficos green cards.

Não votamos nas eleições americanas, mas, na realidade, cada votante yankee é um «grande eleitor» de todo um mundo que gostaria de o poder fazer.

Eu não escapo à regra. Com três anos, devo ter estado com Adlai Stevenson contra Eisenhower. E perdi. Não me recordo, porque não tinha idade para isso, de ter então visto o debate em que a sua five o’clock shadow ajudou Nixon a ser derrotado. Mas, com toda a certeza, eu estava ali ao lado de Kennedy. Depois, daí em diante, hesitei com Johnson, apreciei Carter, detestei (e detesto, for the record) Reagan, respeitei Bush pai, acabei convencido por Bill Clinton, desprezei Bush filho e considerei a eleição de Obama uma benesse civilizacional.

E chegámos ao dia de hoje. Bob Dylan, numa das suas canções, conta e canta que, um dia, foi, creio, ao Utah e deu-se conta da estranheza hostil com que o viram sobraçar o The New York Times. Sabia-se que essa América existia, Sarah Palin e o Tea Party prenunciavam-na, mas ninguém acreditava que ela se corporizasse um dia na Casa Branca. Agora? Agora, como diz o bom-senso do óbvio, o que tem de ser tem muita força."

duas-ou-tres.blogspot.com
u/SeixasdaCosta — 2 days ago

Amalia

Nem às paredes confesso a tentação que tive de criticar a IA Amalia, pelos erros e invenções ("hallucinations") detetadas, nestas suas primeiras horas. É que isso aconteceu (e ainda continua a acontecer) a todas, desde logo ao afamado ChatGPT. Vou dar de beber ao tempo da Amalia.

reddit.com
u/SeixasdaCosta — 3 days ago

Lídia Jorge recebe Prémio Camões

O Prémio Camões foi atribuído a Lídia Jorge. 

Sinto-me sempre bem quando estou plenamente de acordo com escolhas feitas por júris: fico com a modesta sensação de que acertaram.

u/SeixasdaCosta — 4 days ago

Os amigos do Massano

Há algumas décadas, quando vivia em Londres, convidámos para jantar três casais portugueses que ali estavam de passagem. Não se conheciam entre si. A certa altura, surgiu um nome: António José Massano. Com alguma surpresa, percebemos que todos eram “amigos do Massano”. Seguiram-se elogios unânimes e acabámos a telefonar-lhe, no meio de uma cacofonia de abraços à distância.

O Tó Zé Massano tem este raro dom de congregar afetos. Moustaki criou o “Les Amis de Georges”, para evocar os companheiros de jornada de Brassens. O Nuno Júdice partiu, sem nos deixar o poema. Mas a Maria do Rosário Pedreira ou o Luís Castro Mendes podiam alinhar uns versos. Quem faz a música para “Os Amigos do Massano”?

Conheci o Massano no final de 1968, na Granfina, em Entrecampos, um café onde então parava ao fim da tarde ou no início da noite. Era por ali que alguns de nós, recém-chegados a Lisboa, íamos criando conhecimentos e fazendo novas amizades. Pelas minhas contas, o Massano será o meu amigo mais antigo em Lisboa. Mais do que isso, é há muito um dos meus amigos mais próximos.

O António é das melhores pessoas que conheço — e conheço magníficas pessoas. Leal e sempre atento aos amigos, com uma disponibilidade e generosidade desarmante, é alguém com quem sabemos poder sempre contar. Positivo por natureza, avesso à intriga, projeta sempre uma boa onda. Com os muitos anos, aprendi que o simples facto de dizer que somos “amigos do Massano” nos faz entrar num clube muito especial.

Beirão, licenciado em Letras, passou pelo jornalismo, traduziu inúmeros livros, foi leitor universitário em Espanha e trabalhou no Instituto Camões. Mas a sua marca profissional maior talvez seja outra: é o mais arguto sabedor da língua portuguesa que conheço. Um livro revisto por ele sai com um selo de qualidade que as melhores editoras portuguesas bem reconhecem. Quantas manhãs acordo com um email do Massano a dizer “tens uma vírgula a mais no post de hoje no blogue” ou “compõe a concordância” na frase tal. 

O Tó Zé Massano faz hoje 80 anos. Com a Paula e a filha Joana, há muito constituiu uma família feliz. Neste dia, fui dar-lhe um abraço e fazer, no fundo, aquilo que fazemos há muitos anos: conversar, rir e partilhar histórias.

u/SeixasdaCosta — 5 days ago

Elogios

Sou, por inclinação e por feitio, um tímido assumido e só às vezes arrependido. Abordar alguém que apenas conheço de um ecrã é coisa que quase nunca faço. Não gosto de incomodar, e suspeito sempre que as pessoas muito conhecidas passam a vida a ser interrompidas por desconhecidos convencidos de que têm qualquer coisa importante para lhes dizer.

Há dias, porém, fiz uma exceção. Num evento público, cruzei-me com uma figura do humor português. Nunca o tinha visto ao vivo. Sem saber bem porquê, aproximei-me e disse-lhe apenas isto: “Queria agradecer-lhe. Ao longo dos anos, tenho-o visto na televisão e na internet, e o seu humor, simples, sereno e inteligente, tem-me dado momentos de muito boa disposição. Num tempo em que meio país parece andar zangado com a outra metade, isso faz-nos bem a todos. Por isso, pela parte que me toca, muito obrigado.”

A pessoa sorriu, agradeceu e seguimos cada um o seu caminho. A conversa, se assim lhe podemos chamar, durou um minuto, se tanto. (Não, não era nem Herman José, nem Ricardo Araújo Pereira, nem Bruno Nogueira. Para o caso, o nome não importa).

Há minutos, numa área de serviço de uma autoestrada, assisti a uma outra cena. 

Uma senhora dirigiu-se a um cavalheiro, à entrada da cafetaria, e disse qualquer coisa como isto, que eu ouvi sem querer ouvir: “Tenho uma grande admiração por si. O país precisa de muitos homens como o senhor. A curiosidade fez-me olhar. O homem estava naturalmente desvanecido com o elogio. 

Como sou o tal tímido assumido, mas também alguém que (quase sempre) procura evitar conflitos inúteis, não disse alto o que me apetecia: "Eu penso exatamente o contrário dessa senhora".

Quem era o cavalheiro? Um conhecido arruaceiro de extrema-direita, negacionista da covid. O nome? Que interessam os nomes?

reddit.com
u/SeixasdaCosta — 6 days ago

Burn...

Burn...ham é o nome adequado para um político neste tempo de assados climáticos em que estamos metidos.

u/SeixasdaCosta — 7 days ago

Taludes

Tenho uma amiga que é obcecada por taludes. Nas estradas, passa o tempo a olhar para as zonas laterais e a comentar, com o rigor solene de quem foi iniciada nos altos mistérios da engenharia civil, o modo — cuidado ou desleixado, nunca há meio-termo — como os taludes estão construídos e conservados. É uma vocação. Algumas pessoas encontram deus; ela encontrou os taludes.

Em viagens ao estrangeiro — e sou disso testemunha presencial, com as cicatrizes emocionais que isso me deixou —, recorda com prazer mal disfarçado os defeitos dos taludes nacionais e gaba qualquer declive que por lá veja, com o entusiasmo de quem avista uma catedral gótica. Eu próprio já tive de vir a terreiro, convocado por um primário orgulho pátrio que desconhecia possuir, defender a honra ferida dos nossos taludes, ao ouvi-la apreciar manhosas rampas suburbanas alheias como se fossem os jardins suspensos da Babilónia. 

É que ela no fundo pensa, com uma sinceridade que me deixa simultaneamente admirado e preocupado, que o grau de civilização de um país se mede pelo cuidado colocado no arranjo dos seus taludes. Não a educação, não a justiça, não a saúde pública — o que importa são os taludes. O Nobel de Saramago? Que é isso ao pé de um talude bem talhado, com a inclinação certa, a relva, o cimento ou o cascalho a preceito? 

Há não muitas semanas, numa daquelas estradas cinzentas através das quais os nórdicos adubam as suas frígidas angústias existenciais, era vê-la a gabar cada declive, a qualidade do revestimento da rampa e outras grandezas que eu, na minha ignorância crassa, tomaria por simple terra a descer para a berma da estrada. 

Sorte teve ela de a visita ser naquele período do ano em que, com generosa licença poética, esses lapões mais a sul julgam estar já num verão. É que, no seu longo e merecido inverno com neve, todos os taludes passam a ser iguais — brancos, mudos e indiferenciados. Essa é que é essa! 

Vivam os taludes portugueses, pim!

u/SeixasdaCosta — 8 days ago