O rumor dos claustros

O rumor dos claustros

O embaixador errava, por aqueles dias, pelos corredores das Necessidades. Pelo vigor da passada, pelo modo confiante como observava à sua volta, era patente que estava ungido da determinação daqueles a quem, ao virar da esquina do futuro próximo, iriam ser atribuídas novas e importantes responsabilidades.

Os contínuos já o olhavam de uma forma mais respeitosa, os jovens adidos com os quais se cruzava baixavam a cabeça, num reverencial temor, ficando a segredar murmúrios em torno do seu nome.

Ele era, nesses dias de mudança, o objeto privilegiado do chamado "rumor dos claustros" - uma vetusta forma de boataria diplomática que, em casos limite, chega quase a ser constitutiva de direitos.

Forte das bênçãos do destino que inexoravelmente se aproximava, faltando apenas o despiciendo detalhe do convite, mas já com a segurança dos putativos eleitos, prenhe de confiança que contactos recentes só tinham adubado, abriu a porta de um determinado gabinete e, não podendo conter a exploração do sucesso que aí vinha, comentou, para uma funcionária, pessoa tida por bem informada, dado o seu lugar privilegiado na geografia funcional da casa, ciente de a ir ver ecoar as suas expectativas:

- Então!? Fala-se por aí muito no meu nome, não é?!

A senhora, uma distinta servidora da casa, já vira passar muitos mundos, das glórias aos ocasos, testemunhara a chegada e a partida de várias ambições, olhava já para tudo aquilo com uma relativização construída num sereno bom-senso. Pelo que, arvorando um indefinível sorriso, respondeu ao seu interlocutor:

- Falava, senhor embaixador, falava! Agora, esta semana, já se fala noutros nomes...

u/SeixasdaCosta — 3 days ago
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O vestido

Era azul escuro, comprido, e assentava muito bem na figura elegante e esguia daquela senhora, que andava acompanhada por um catraio pequeno, no hotel onde estou instalado. Só havia um pormenor: o vestido estava do avesso. A marca do produto, num retângulo branco, flutuava bem visível, salvo para a própria.

— Minha senhora. Peço desculpa, mas queria chamar a sua atenção para o facto de ter o vestido do avesso. Provavelmente nem notou...

— Olhe lá! Tem alguma coisa a ver com isso! Meta-se na sua vida! Olha que topete! Ele há cada um! Que intrometido!

O diálogo, com este final desagradável, não teve lugar.

— Ah! Muito obrigada. De facto, não tinha notado. Foi muito delicado da sua parte chamar-me a atenção. Fico muito grata.

Ela também não disse isto. Aliás, não disse nada. É que eu, ‘à cause des mouches’, como dizia um amigo do meu pai que julgava falar francês, decidi também não arriscar e nada lhe dizer. O mundo está difícil e eu já não tenho idade para comprar guerras.

E lá continuou a passear pela sala a elegante senhora de azul, acompanhada pelo catraio, com o vestido do avesso que, apesar de tudo, lhe assentava muito bem.

u/SeixasdaCosta — 9 days ago

José Alberto Oliveira

Creio que conheci o José Alberto nos finais de 1969. A família tinha-se transferido para Lisboa, vinda de Souto da Casa, no Fundão, para proporcionar aos cinco filhos melhores oportunidades de educação.

Os pais do José Alberto, com quem me relacionei por uma fortuita circunstância familiar, eram um casal de extrema simpatia, de quem fiquei para sempre amigo. Fiéis ao propósito que os trouxera para Lisboa, conseguiram dar a cada um dos filhos uma formação universitária que lhes assegurou um percurso profissional. Ao longo dos anos, tive sempre o cuidado e o gosto de visitá-los. Eram aquilo a que, sem necessidade de mais palavras, se chama gente boa. 

O José Alberto era quatro anos mais novo do que eu. Quando nos conhecemos, essa diferença ainda significava alguma coisa: eu andava envolvido em alguma política e nas lutas universitárias, enquanto ele acabara há pouco o liceu. Recordo-o um leitor ávido, intelectualmente curioso. Fez-se médico e os caminhos das nossas vidas acabaram por afastar-nos. Muitos anos depois, ao tentar obter notícias sobre a sua mãe, que eu visitava a espaços, consegui localizá-lo num hospital onde trabalhava. Falámos ao telefone. Como tantas vezes sucede nestes reencontros breves, combinámos um jantar que nunca chegou a acontecer. Viria a morrer em 2023.

Além de médico cardiologista, José Alberto Oliveira era poeta. A Assírio & Alvim reuniu agora, num único volume, toda a sua obra. Como durante décadas quase não falei com ele, vou procurar conhecê-lo melhor através da poesia que escreveu. Afinal, nunca é tarde.

u/SeixasdaCosta — 12 days ago

O João e as RIAs

Há dias, num daqueles encontros — uma espécie de “amigos de Alex” que vamos repetindo nesta fase da vida —, em que travamos conversas retrospetivas, já cheias de lacunas de memória em que nos compensamos mutuamente, vieram à baila os tempos da vida associativa universitária, antes da Revolução de Abril. 

Foram surgindo vários nomes. Algumas dessas figuras haveriam de ter um futuro político em democracia. Outras enveredaram, com maior ou menor sucesso, por carreiras profissionais e desapareceram serenamente dos caminhos da notoriedade.

Creio que fui eu quem trouxe à conversa o nome de João Crisóstomo, a propósito das RIAs.
Para quem não saiba, o acrónimo RIA designava, em Portugal, no tempo das lutas académicas, as Reuniões Interassociações — encontros de dirigentes estudantis de várias faculdades, geralmente convocados para discutir “novas formas de luta”, naqueles tempos áureos em que os universitários se uniam em torno de reivindicações que iam muito para além das propinas e das praxes.

João Crisóstomo, que infelizmente já desapareceu há muito, era um dirigente associativo dos anos 1960 e 1970 e uma figura marcante para a minha geração académica. Representava o IES — Instituto de Estudos Sociais, uma escola que nascera no Ministério das Corporações e soubera evoluir até se transformar no ISCTE — que hoje é uma bela universidade que deliciosamente tanto irrita alguma direita da paróquia.

O João tinha um vozeirão tonitruante, que lhe saía da cara emoldurada por um bigode farfalhudo. O seu discurso era sempre pontuado por expressões criativas, que escapavam à linguagem estereotipada dos comícios associativos da época. Ouvi-lo era uma delícia. Ficou célebre — embora seja impublicável — um comentário que lançou durante um sit-in na Alameda da Cidade Universitária.

Lembro-me bem da primeira vez que conheci o João, numa reunião em que procurávamos desenhar uma estratégia comum para as escolas ligadas às Ciências Sociais, creio que em 1970 ou 71. Perante um comentário meu — talvez sugerindo alguma linha de ação —, despachou-me com uma frase definitiva:

— Deixa-te disso! Essa questão já foi discutida no IV Seminário!

A timidez de novato impediu-me de perguntar o que era esse “IV Seminário”. Passei, por isso, alguns dias a tentar perceber do que se tratava, recorrendo a caminhos tortuosos que não expusessem a minha ignorância. Vim finalmente a saber que a referência era ao IV Seminário de Estudos Associativos, que tinha tido lugar meses antes da minha chegada a Lisboa, uma iniciativa cujas conclusões acabaria mais tarde por obter. Deduzo, por pura lógica, que antes dele teriam ocorrido outros três seminários — cujo rasto nunca encontrei e que, confesso, já não tenho grande curiosidade em procurar.

João Crisóstomo era uma verdadeira enciclopédia do associativismo. Falava dos pormenores das lutas académicas anteriores com uma segurança e um conhecimento impressionantes, citando, com inesperada precisão, factos muito antigos a que, naturalmente, não tinha assistido.

Certa madrugada, numa sala de Económicas, no Quelhas, à margem de uma RIA, alguém lhe lançou uma pergunta provocatória:

— Ó João, diz lá uma coisa: afinal, estiveste ou não na greve de 1907, antes da implantação da República?

O João, já de si propenso a reações fortes, “passou-se” de vez, aconselhando o interlocutor a deslocar-se para um destino menos nobre. E por pouco qur não começaram a voar dossiês. Depois, tudo se reconciliou — também com a “ajuda” da polícia, que entretanto nos cercara e nos obrigou a saltar o muro da escola.

Belos tempos? Ora essa! Os tempos de ditadura podem ter sido excitantes, mas bons não foram. Ou, melhor dizendo: só tinham de bom o facto de sermos muito mais novos.

u/SeixasdaCosta — 14 days ago

Volta

Conta-se a história como passada no Ministério dos Negócios Estrangeiros, algures nos anos 70.

Num dossiê levado ao ministro, seguia o texto de uma qualquer convenção estabelecida no âmbito das Nações Unidas, acompanhado de um anexo, com a lista dos países subscritores que já a haviam ratificado. 

Estranhamente, porém, a lista dos países incluída no anexo tinha uma primeira página apenas com a referência a dois Estados, seguida de uma outra com mais de 80. Tudo por ordem alfabética.

O ministro terá perguntado, um pouco intrigado, a razão pela qual se faz essa separação. Ninguém soube responder. Seria um lapso, pela certa. Nada de importante, contudo.

Aborrecido com o incidente, logo que regressou ao seu serviço, o responsável chamou o jovem funcionário diplomático que preparara o dossiê. A mesma perplexidade: ele também não vira a lista antes.

Para tentar acabar com o mistério, chamou-se a dactilógrafa, para que explicasse por que razão fizera as coisas daquela forma. 

Com a maior calma, a senhora elucidou: "Por que razão só coloquei dois países numa página e os restantes noutra? Ora essa! É muito simples: porque depois do segundo país estava lá escrito... Alto Volta. E eu mudei de página, claro!".

Um dia, ao ouvir alguém repetir pela enésima vez a historieta, assisti a um alto funcionário da casa comentar, com um ar de falsa gravidade: “Foi precisamente para evitar futuras confusões que decidiram mudar o nome do país de Alto Volta para Burkina Faso”. Elementar.

Porque me lembrei disto agora? 

Desde logo, porque estamos em agosto, mês auge da "silly season". Depois, por causa da confusão que por aí anda com o vasilhame marcado com a palavra “Volta”. E também porque, depois de amanhã, salvo erro, começa a Volta.

u/SeixasdaCosta — 17 days ago

Internacional Situacionista

Não recordo quando terei ouvido falar, pela primeira vez, na "Internacional Situacionista", um movimento intelectual (nascido em meados dos anos 50 e que se prolongou pelos anos 70) que criticava o capitalismo, acusando-o de transformar a vida num espetáculo da própria vida — culto das imagens e do consumo. 

Havia por ali algum marxismo, mas também influências libertárias, surrealistas e uma forte crítica cultural. Uma das formas de resistência era a ‘dérive’, o vaguear sem rumo pela cidade. Deve ter sido isto que me atraiu. Terei chegado ao Situacionismo pelo diletantismo...

Pode ser que tenha sido numa ida a França, no final dos anos 60, que acordei para o conceito. E tenho ideia de, em 1970, ter escrito um artigo para o segundo e último número da revista "Ibis", da associação de estudantes do ISCSPU, inspirado naquela corrente. Na altura, o texto foi considerado "inoportuno" e não foi publicado. Há anos, encontrei-o, numas papeladas antigas: era simplesmente mau, pelo que, retrospetivamente, deixo a minha gratidão à censura do coletivo que orientava a revista.

Nada sei sobre o eventual curso do Situacionismo em Portugal. Apenas me recordo de, no Café Montecarlo, em Lisboa, ao fundo do corredor que levava aos bilhares (depois do pouso dos neo-realistas e dos degraus, antes da cabine telefónica), haver, no início dos anos 70, a "mesa dos Situacionistas".

Porque falo agora da "Internacional Situacionista"? Porque estamos em agosto, tempo em que se fala daquilo de que normalmente não se fala, e porque a imprensa nos trouxe agora a notícia da morte, aos 92 anos, de Raoul Vaneigem que, como Guy Debord, foi figura central do movimento. 

Vaneigem escreveu o "Traité de savoir vivre à l'usage des jeunes générations" e Débord foi autor do "La société du spectacle". Ambos os textos foram publicados antes do Maio de 1968, para cujo caldo cultural contribuiram. Recordo também uma brochura, muito popular pela simplicidade e pela frontalidade da linguagem utilizada, chamada "De la misère en milieu étudiant".

O movimento editou 12 números de uma revista teórica com o seu próprio nome. Creio que em 1972, saiu um volume com capa prateada que agregou esses números. Algures nos anos 70, comprei-o em Paris, numa tabacaria no passeio do Boulevard St. Michel em frente às termas de Cluny. (É verdade: tenho boa memória!) Creio que jaz na biblioteca municipal de Vila Real, no fundo bibliográfico com o meu nome. 

Quem, na capital transmontana, se sentir, nos dias de hoje, apelado a revisitar o Situacionismo, faça favor! O volume estará à sua espera, desde que entretanto não tenha iniciado a sua própria "dérive" pelas estantes.

u/SeixasdaCosta — 17 days ago

Os illuminati

Quase sempre de blazer e de camisa aberta até ao terceiro botão, com um cosmopolista sorriso condescendente, exibem por colóquios e palestras o esgar superior de quem já viu tudo e se esforça por tornar óbvio o que devia ser evidente aos pobres néscios, a nós. Acham que este país, para o qual olham do alto da bolsas com que pela estranja adubaram o currículo (escrevem "curriculum"), não os merece. 

Portugal, no fundo, não passa, como dizia o outro, de uma choldra, recheada de invejosos, de incapazes e de gente menor, tutelada por políticos incompetentes, que não estão à altura dos seus melhores — isto é, deles. Sentenciam com regularidade que a pátria a que, com desgosto, acabaram por ter de aportar (talvez porque ninguém lhes tenha dado atenção lá fora), afinal podia ser uma terra rica (como eles desesperadamente querem ser), não fosse a falta de ambição (que a eles não falta, claro) e a endémica relutância em absorver o salvífico receituário liberal — essa bíblia da verdade económica que, por uma incompreensível e endémica teimosia nacional, ainda não é hoje uma doutrina com a devida consagração constitucional.

Há um pormenor que os denuncia sempre: falam de economia com o mesmo sotaque com que outrora, os adolescentes imitavam os primos emigrados. Um leve arrastar de vogais, uma pausa estratégica antes do inevitável termo técnico em inglês, como quem verifica se o auditório os está a conseguir acompanhar. Não é bilinguismo — é blindagem. Se dissessem o mesmo em português, a magia desaparecia, arriscavam ser compreendidos, e pior ainda, ser contestados.

Quem passou uns anos em Londres, no INSEAD ou em Boston regressa convertido, não em economista, mas em missionário. E como todo o missionário, não vem discutir — vem revelar a verdade a quem, coitado, nunca teve acesso a ela. Para estes conversos, Portugal não é um país — é uma sala de espera onde o resto de nós aguarda, resignado, que alguém venha finalmente aplicar o que “lá fora” já se sabe. A palavra “lá fora” funciona como selo de autenticidade: não importa o quê, se veio de lá fora é evidência; se nasceu ou se pensou cá dentro, é opinião, quando muito.

A ironia mais deliciosa é que este discurso raramente é apresentado como o que é — uma posição ideológica entre várias outras — mas como diagnóstico técnico, quase clínico. “A economia manda”, dizem, como se a economia fosse uma força da natureza e não um conjunto de escolhas políticas com vencedores e vencidos bem identificados. E os vencidos, convenientemente, nunca são eles.

No fim, o retrato mais fiel destes repatriados (uma espécie de retornados de uma colonização estrangeira) não é o do blazer nem o do sotaque — é o da certeza. A certeza de que existe uma resposta única, já testada algures, que só falta um país inteiro ter o bom senso de aplicar. Falta-lhes, a eles, a humildade de perguntar por que motivo, apesar de décadas de conselhos idênticos vindos de gente igualmente convicta, o “receituário” continua por aprovar no referendo permanente que é a vida democrática de um país livre para discordar.
Talvez a choldra não seja Portugal. Talvez seja apenas a arrogância de quem confunde o facto de ter vivido lá fora com o já ter compreendido tudo cá dentro. E não lhes ocorre que um país possa ouvir os seus conselhos, compreendê-los perfeitamente e, ainda assim, considerá-los completamente errados. E não lhes ligar peva.

u/SeixasdaCosta — 18 days ago

Jean Quatremer

Quem tenha passado algum tempo pelos corredores de Bruxelas conhece Jean Quatremer. Durante décadas, foi o correspondente do "Libération" junto das instituições europeias. Num meio relativamente pequeno, onde os jornalistas especializados nos assuntos comunitários acabam por formar uma espécie de tribo, Quatremer era uma figura incontornável. Tinha informação, conhecia os mecanismos, percebia os jogos de influência e escrevia com autoridade. Tinha um estilo muito próprio, muito vivo e um "boyish look" que era uma imagem de marca que nem o tempo apagou em definitivo.

Mas Quatremer nunca escondeu as suas convicções. Tinha uma agenda. Foi sempre um federalista assumido, embora sem o fervor quase religioso que, por vezes, se encontrava em setores europeístas. Publicou livros, criou o blogue "Les Coulisses de Bruxelles" e conquistou uma influência que ultrapassava largamente o universo dos leitores do seu jornal.

Entretanto, os tempos mudaram. Sentindo-se cada vez menos à vontade no "Libération", em particular por divergências relacionadas com a cobertura do conflito israelo-palestino, acabou por abandonar o jornal e vai integrar a redação do "Marianne". Um percurso que ilustra bem as transformações aceleradas que atravessam a comunicação social francesa. E que, de certa forma, acompanha também a própria evolução de Jean Quatremer.

No final de 1999, quando se caminhava para a presidência portuguesa da União Europeia, no primeiro semestre de 2000, Quatremer quis falar comigo. Já nos tínhamos cruzado no passado, mas sem tempo para conversar. Encontrámo-nos num bar de hotel. Meses mais tarde, voltámos a sentar-nos à mesa para almoçar. Curiosamente, a primeira conversa correu muito melhor do que a segunda.

Do primeiro encontro saiu uma pequena entrevista para o jornal. Pode ser lida aqui. A partir de então, porém, as coisas evoluíram de forma menos linear. Durante a presidência portuguesa, Quatremer foi-se tornando progressivamente mais crítico. Suspeito que não terá sido indiferente a essa evolução a influência de alguém do jornalismo português em Bruxelas, que então se empenhava em difundir a ideia de uma alegada divergência entre António Guterres e o secretário de Estado dos Assuntos Europeus que eu era. Como se isso fosse possível, num governo onde a hierarquia era clara.

As coisas eram bem mais simples. Com total cobertura de Guterres e do MNE Jaime Gama, eu procurava denunciar, através do modo como dirigia o grupo negocial da Conferência Intergovernamental que revia alguns pontos do Tratado de Amesterdão, o que entendíamos ser uma descarada tentativa francesa de relativizar o trabalho da presidência portuguesa, a fim de poder reservar para a presidência seguinte — a sua — o protagonismo da conclusão das negociações daquilo que viria a ser o Tratado de Nice. Os franceses desejavam chegar ao fim da nossa presidência com as mãos livres para virem posteriormente a moldar o resultado da negociação segundo as suas prioridades. Que não eram necessariamente as nossas. 

Foi nessa altura que comecei a ouvir, a meu respeito, a crítica da "falta de ambição" europeia. Em Bruxelas, esta expressão tinha um significado muito particular. Não se referia à ausência de objetivos, mas à insuficiente adesão aos "amanhãs que cantam" do federalismo. Quem não acompanhasse esse impulso era visto como excessivamente cauteloso, quando não como um obstáculo ao progresso europeu, no limite acusado de soberanista. Eu costumava usar então uma frase que irritava solenemente os euro-agitados: sou tão europeísta quanto os interesses portugueses o justificarem. Era uma frase discutível, mas a provocação fez sempre parte do meu "fond de commerce".

O almoço que tive com Quatremer — e que, dessa vez, foi da minha iniciativa — serviu precisamente para explicar essas diferenças. Não pretendia convertê-lo às minhas ideias. Também não procurava convencê-lo de que Portugal tinha descoberto uma nova teoria da integração europeia. O meu objetivo era mais modesto: era mostrar-lhe que a posição portuguesa não resultava de qualquer défice de visão estratégica, mas da consciência de que a União não podia ser construída ignorando os interesses dos Estados de menor dimensão e que se sentiam prejudicados na balança de poderes que se refletia no processo decisório em Bruxelas.

Entretanto, eu já tinha dito publicamente, numa declaração ao "Público", que a presidência portuguesa não se colocava ao serviço de uma agenda federalista. Essa declaração provocara alguma irritação nos meios mais entusiasticamente europeístas da época, tanto na nossa imprensa como em certos círculos intelectuais que orbitavam à sua volta. Havia então quem confundisse prudência com falta de convicção e quem visse qualquer resistência às soluções maximalistas como uma espécie de pecado político.

A conversa com Quatremer foi intelectualmente estimulante. Nenhum de nós saiu dela convertido às ideias do outro. O que eu pretendia, era fazê-lo compreender que a (sua) França não conseguiria fazer passar o novo tratado com o esmagamento institucional dos países de menor dimensão. Como não veio a conseguir em Nice.

u/SeixasdaCosta — 20 days ago

Hortaliças de Estado

Há poucas semanas, soube da morte de Carlos Westendorp. Foi uma figura relevante da diplomacia espanhola: ministro dos Assuntos Exteriores, secretário de Estado dos Assuntos Europeus, alto representante da União Europeia para a Bósnia-Herzegovina, deputado europeu. Chefiou o grupo que viria a ficar conhecido pelo seu nome — o “grupo Westendorp” —, criado em 1995 para preparar propostas de alteração ao Tratado de Maastricht. Foi também embaixador de Espanha em Washington e junto das instituições europeias. Uma carreira cheia e prestigiada.

Conheci-o precisamente nesta última função, quando chefiava a representação permanente espanhola em Bruxelas. Mais tarde, voltámos a trabalhar lado a lado no “grupo Westendorp” e coincidimos, por algum tempo, como secretários de Estado. Dessa proximidade repetida nasceu uma excelente relação pessoal.

É desse período em Bruxelas que data o episódio que aqui deixo registado — não tanto pela sua importância diplomática, que não foi nenhuma, mas pelo que ele revela sobre a fragilidade da compostura humana perante um imbróglio de línguas.

Estávamos reunidos no Luxemburgo, no final de outubro de 1989, num Conselho de Ministros dedicado à Cooperação para o Desenvolvimento. 

O dia fora longo e estava a prolongar-se pela madrugada dentro — essas horas que Bruxelas reserva para as decisões que o cansaço, mais do que a convicção, acaba por ditar. Discutia-se um pacote de concessões agrícolas a favor de países terceiros menos desenvolvidos. Era uma matéria sensível como poucas, porque o peso do lóbi agrícola em vários Estados-membros estreita drasticamente a margem de manobra dos governos. Ora é precisamente nesse setor que a abertura do mercado europeu mais interessa aos países beneficiários. O que estava em causa, no caso concreto, era aquilo a que em Portugal chamamos produtos hortícolas.

A Espanha era o Estado-membro com mais reservas quanto aos termos propostos pela Comissão. Para eles, o momento não podia ser pior: com eleições gerais marcadas para três dias depois, o governo de Madrid temia que qualquer cedência agrícola fosse lida pela oposição interna como configurando uma atitude de fraqueza. Por isso nenhum membro do governo se deslocara a Bruxelas — prudência política que, em termos práticos, deixava Carlos Westendorp, simples embaixador, a ter de segurar sozinho uma posição que nenhum político queria subscrever com o próprio nome.

O embaixador estava, literalmente, de mãos atadas. Por um lado, todos os restantes onze Estados já tinham dado luz verde ao pacote, o que aumentava a pressão sobre Madrid. Por outro, associar-se ao consenso naquele preciso momento equivaleria, para a delegação espanhola, a um imenso desastre. E Westendorp não tinha mandato para cometer esse suicídio diplomático.

A reunião decorria sob presidência francesa. Roland Dumas, ministro dos Negócios Estrangeiros e advogado de formação, empregou toda a sua arte oratória para colocar os espanhóis perante a responsabilidade de bloquearem sozinhos uma decisão ansiosamente esperada pelos países beneficiários, sublinhando o dano que esse isolamento causaria à imagem de Espanha.

Portugal tinha acompanhado a posição espanhola até onde tinha sido possível. Porém, a certa altura, a Comissão aceitou — após contactos bilaterais — retirar da lista alguns dos produtos que mais nos preocupavam, pelo que a importância do acordo para o conjunto das nossas relações africanas acabou por esvaziar-nos os argumentos para continuar a resistir. A meio da tarde pediram-me que explicasse a evolução da nossa posição aos espanhóis. Recordo-me de que a compreenderam — o que, convenhamos, não lhes tornou a solidão menos incómoda.

A Espanha ficou, assim, isolada por completo. Dumas fez um último apelo à sua flexibilidade e cedeu a palavra a Westendorp. Instalou-se na sala um silêncio quase teatral. Onze das doze delegações — eram ainda os tempos da Europa “a doze” — aguardavam, com a paciência de quem só quer regressar ao hotel, uma cedência de última hora.

Westendorp falava em espanhol, como as regras do Conselho aconselham. Para a delegação portuguesa, dispensava-se qualquer auricular: entendíamos tudo, e foi essa proximidade da língua que nos haveria de trair.

A Espanha não cedeu, como seria de esperar. Pelo contrário: invocou, com a gravidade de quem discursa perante a pequena História, a posição difícil do seu governo. E disse, mais ou menos, isto: “Les pido que entiendan que, para España, la cuestión de las hortalizas reviste una importancia estratégica. Puede decirse que es una cuestión de Estado.”

Fez então uma pausa — calculada, suponho, para deixar a interpretação simultânea da declaração alcançar as restantes delegações. Foi precisamente nesse silêncio solene, que a bancada portuguesa desatou, em bloco e sem aviso prévio, num coro surdo de riso e de gargalhadas pouco contidas. Juntaram-se-lhe de imediato meia dúzia de funcionários lusófonos da Comissão e do Secretariado-Geral do Conselho. A sala inteira voltou-se então para nós, incrédula: onze delegações a testemunhar o espetáculo insólito de uma delegação desfeita em riso perante uma alegada “questão de Estado”.

O problema é que não havia forma de explicar aquela nossa reação a ninguém. Para ouvidos portugueses, “hortalizas” — mero equivalente espanhol para “produtos hortícolas” — casada com a solenidade de “questão de Estado” produzia um efeito cómico instantâneo e absolutamente incontrolável, que se agravava exatamente na proporção em que se tentava contê-lo. Pior: o nosso descontrolo estava a ser lido como troça deliberada perante a posição espanhola — a começar pelos próprios espanhóis, que nos fuzilavam com olhares carregados de indignação ibérica. As restantes delegações, para quem a expressão traduzida não continha absolutamente nenhuma graça, olhavam-nos como se tivéssemos enlouquecido em conjunto. Recompusemo-nos com muito esforço.

Aquelas hortaliças, promovidas sem aviso a questão de Estado, ficaram para sempre gravadas na memória divertida de quantos, naquela noite no Luxemburgo, integravam a delegação portuguesa.

u/SeixasdaCosta — 28 days ago

Carol

Era uma senhora alta, com pouco mais de 60 anos, de uma beleza que se percebia ter sido esplendorosa e uns olhos verdes sem idade. Conheci-a em casa de um familiar, creio que em 1973. Era inteligente, culta e recordo ser simpática. O jantar prolongou-se pela noite dentro. Já de madrugada, levámo-la a casa, ali para os lados da Avenida de Roma.

Nunca mais nos encontrámos. Apenas falámos ao telefone dois ou três anos depois, quando me ligou a pedir conselho sobre como proceder para regularizar a situação da filha, que sempre vivera no estrangeiro e que deveria vir para Portugal. A senhora morreu em 1999.

Falo de uma das personalidades mais controversas da esquerda comunista portuguesa. Carolina Loff da Fonseca — Carol, para quem lhe era próximo — nasceu em Cabo Verde e viria a ser uma estrela ascendente no Partido Comunista Português.

Desde muito jovem, assumiu funções políticas importantes no partido e mesmo no movimento comunista internacional. Além da ação militante em Portugal, em anos de terrível repressão, trabalhou politicamente em Moscovo e em Espanha, durante a Guerra Civil, ao lado dos "rojos". Regressada clandestinamente a Portugal, foi presa. Tinha uma filha que viveu desde a infância na União Soviética.

Da sua prisão decorre um tempo novo e trágico da sua vida. Não só «falou» na cadeia, levando à prisão vários camaradas, como se enamorou de um agente da PIDE, com quem viveria durante uma década. O PCP nunca lhe perdoou esse comportamento. A Carol foi para sempre diabolizada, com forte razão, na memória do partido.

Na noite em que a conheci — estávamos em ditadura e eu tinha então uma ideia muito imprecisa da figura, fruto de conversas esparsas com amigos comunistas — deduzi, pelos seus comentários, que se situava politicamente à esquerda. A conversa não passou, claro, pela sua vida.

Sobre essa sua saga já houve várias publicações, sob a forma de relato histórico e até de ficção. Acaba agora de sair um pequeno livro que desenvolve um texto de jornal, que pouco acrescenta ao que já se sabia. Para mim, foi a oportunidade de recordar o facto de ter cruzado essa figura altamente polémica da história política da esquerda portuguesa— com quem, curiosamente, partilho familiares comuns.

u/SeixasdaCosta — 30 days ago

O momento Sanjo

Há já uma boa década, entrei numa câmara municipal, algures no país, para assistir à homenagem a um amigo. Estranhei ver o presidente do município, de fato escuro, calçado com sapatilhas brancas — de ténis, como agora se diz. Admiti, na altura, tratar-se de um episódico deslize de gosto. Registei o detalhe e segui adiante, com a indulgência que se reserva às excentricidades locais.

Com o tempo, vim a perceber que o equívoco era meu. Eu é que estava desfasado da nova ortodoxia: as sapatilhas brancas, além do "upgrading" vocabular para ténis, tinham ascendido, sem aviso prévio, à respeitabilidade protocolar. Um melhor conhecedor dessas matérias confirmou-mo, com uma resignação mal disfarçada: não só eram admissíveis, como algumas ostentavam marcas de luxo, com preços capazes de ombrear com os meus prezados Church’s — e até de humilhar os meus honestos Sebago.

A realidade encarregou-se de dissipar as minhas últimas dúvidas: na recente cimeira da NATO, um chefe de Estado apresentou-se de sapatilhas brancas e, ainda ontem, na tribuna e nos rituais protocolares do Mundial de futebol, o inenarrável presidente da FIFA exibia o mesmo zelo estilístico. A informalidade tornou-se, pelos vistos, a nova farda da distinção.

O tempo passa por nós e, sem cerimónia, deixa-nos para trás. No meu caso, sem apelo. Usei sapatilhas brancas no liceu, nas aulas de ginástica do dr. Viana ou do professor Carvalhais. Eram, creio, Sanjo — herdeiras dignas da indústria de São João da Madeira. Em Vila Real, compravam-se na sapataria do Julinho ou do senhor Carlos. Quando a brancura cedia ao uso, restauravam-se com alvaiade (palavra que ressuscito após mais de seis décadas), devolvendo-lhes uma respeitabilidade tão artificial quanto eficaz.

Agora, um aviso à navegação. Se alguma vez me virem numa cerimónia com sapatilhas brancas, não se precipitem a concluir que me adaptei aos tempos: assumam, com a franqueza que a situação exige, que ensandeci e que ninguém, até ao momento, teve a caridade de me tirar da circulação.

u/SeixasdaCosta — 1 month ago

O lado certo da droga

Há horas, passou na televisão "The Living Daylights", um Bond — dos dois feitos por Timothy Dalton — com cenas passadas numa base soviética no Afeganistão, ao tempo ocupado por Moscovo. 

Na história, os "mujaedins" surgem a traficar ópio com alguns militares ocupantes. Como o filme foi feito em plena Guerra Fria, os rebeldes aparecem como os "bons", porque estavam então do "lado certo" para o ocidente. 

O realismo estratégico tem, aliás, no Afeganistão um dos seus palcos mais cínicos: os aliados libertadores de ontem transformam-se facilmente nos terroristas de hoje, consoante as conveniências do momento. Ou vice-versa, como está agora a acontecer na Síria. 

Depois de ver o filme (fracote, há que dizer), lembrei-me de ir à procura de uma fotografia tirada há 22 anos. E encontrei-a. 

Foi tirada em 2004 na base militar russa de Kharbmaidon, no Tajiquistão, junto à fronteira com o Afeganistão. O senhor cujo retrato se vê encaixilhado sobre as nossas cabeças é mesmo quem estão a pensar, e já então ocupava o Kremlin.

Na imagem estão os três colegas embaixadores junto da OSCE (Organização para a Segurança e Cooperação na Europa) com quem fui desde Viena, numa viagem de trabalho às cinco repúblicas da Ásia Central: ao meu lado, a canadiana Evelyn Puxley, o esloveno Janez Lenarčič, a norueguesa Mette Kongshem e, do lado de cá da mesa, o belga Bertrand de Crombrugghe. 

À época, uma das principais missões da base russa seria procurar travar o tradicional tráfico de ópio com origem no Afeganistão — uma das fontes de riqueza mais importantes, em diversos ciclos políticos. Para o Tajiquistão, essa presença militar russa ajudava a credibilizar o empenhamento do país na luta contra as acusações da sua cumplicidade com os circuitos internacionais da droga.

A nossa missão à Ásia Central era centrada nas questões dos Direitos Humanos, da liberdade dos media e no reforço da ordem democrática. Meses depois, como saldo dessa visita, publiquei na revista da OSCE um artigo que não terá agradado muito a alguns dos países que visitámos — "Central Asia: Not always a Silk Road to Democracy. The View Beyond the Hofburg".

Como o tráfico de droga não fazia parte da nossa agenda de trabalho nessa viagem, já não recordo bem a razão que justificou essa visita à instalação militar russa. 

Durante a conversa com o respetivo comandante, ele referiu ter poucos meses na tarefa e, ao que depois percebemos, os seus antecessores também não tinham estado muito tempo no posto. 

Na viagem de regresso, o delegado da OSCE no Tajiquistão deu uma possível justificação para essa grande rotatividade. Aparentemente, a generalidade dos militares russos enviados para a base eram facilmente seduzidos pelo tráfico de droga que lhe competia combater. A hierarquia russa optava assim por substutuí-los com maior frequência. 

Lembro-me de ter comentado, provocando umas boas gargalhadas no nosso simpático grupo: "Temos de ver as coisas pela positiva: não será por uma mera questão de equidade, para também dar oportunidade a outros?"

u/SeixasdaCosta — 1 month ago

De quadra em quadra

O convite para aquele jantar fora aceite com gosto. O casal brasileiro que nos ia receber — que tínhamos conhecido num cocktail, semanas antes — revelara-se muito simpático. Ele era magistrado.

Estávamos há pouco tempo em Brasília, nesse ano de 2005. Os embaixadores de Portugal, na capital brasileira, são figuras bastante requisitadas pelo “social” local, sendo mesmo importante fazer uma triagem dos imensos convites — sem o que arriscam tornar-se “arroz de festa”, expressão brasileira que qualifica quem aparece com demasiada regularidade nesse tipo de eventos.

E assim, ataviados com aquele “esporte fino” que, nos homens, dá saída regular aos blazers azul-escuro de botões dourados, lá avançámos para a festa.

Em Brasília, as ruas, por regra, não têm nomes. A geografia da cidade é feita quase exclusivamente de letras e números. Na zona do Lago Sul, onde se situam as melhores residências, existe uma espécie de pequenos bairros numerados, as “quadras”, contadas numericamente a partir da zona do aeroporto. Essas “quadras” subdividem-se, por sua vez, em ruas também numeradas — os “conjuntos” —, onde se situam as "casas", igualmente identificadas por um número. E se se disser que as quadras podem ser “internas” ou “do lago” — QI ou QL —, já se percebe a confusão que isto pode causar a um não iniciado. Contudo, uma vez captada a lógica, tudo se torna curiosamente bastante mais simples do que em qualquer outra cidade.

O cartão do convite não permitia enganos: “QI tal, conjunto tal, casa tal.” E não era longe de nossa casa. Nessas áreas residenciais de Brasília, o estacionamento costuma ser fácil. Chegados à quadra, constatámos que o conjunto 9 era o último. Restava apenas procurar a casa — e não foi preciso pesquisar muito: as tradicionais lamparinas marcavam a entrada para a festa. O nosso colega italiano e a mulher estavam precisamente a estacionar ali perto. Esperámos pela Elena e pelo Michele e entrámos os quatro juntos.

Era uma bela residência, com empregados vestidos a rigor, que nos ofereceram uma taça de champanhe à entrada.

— Onde estarão os donos da casa?, perguntou minha mulher, desejosa de entregar a tradicional caixa de chocolates para a anfitriã.

— Estão ali, junto à piscina — respondeu o Michele, com olho de lince.

E lá fomos nós, pelo meio de outros convidados, nos quais saudámos algumas caras já conhecidas desses nossos primeiros tempos em Brasília. 

Um casal, com ar de quem estava bem à-vontade na casa, aproximou-se, sorridente.

— Sejam muito bem-vindos — disse a senhora.

Fiquei perplexo, mas tive a reação formal.

— Boa noite. Sou "fulano", embaixador de Portugal.

Pela minha cara deve ter passado uma súbita perturbação, que se agravou, ao ouvir:

— Ah, não estávamos à espera, mas são muito bem-vindos - disse aquela que era, de facto, a anfitriã.

Como costumam dizer os brasileiros, nesse instante “caiu a ficha”: estávamos na casa errada, na festa errada, com os anfitriões errados. O jantar para onde pretendíamos ir era, afinal, numa casa exatamente no lado oposto do conjunto, como os simpáticos donos da casa esclareceram, cheios de sorrisos.

Depois de muitas desculpas, naquele ambiente de amabilidade brasileira que torna tudo mais caloroso e fácil, despedimo-nos dos colegas italianos — esses sim, na festa certa — e rumámos, finalmente, ao jantar onde já tardávamos. Um jantar onde, minutos depois, contámos esta saga, para imensa diversão de todos, em especial da Regina e do Edson — os verdadeiros anfitriões, que já estranhavam o atraso. (Para eles, aqui fica um abraço saudoso.)

Nunca mais soube quem eram os donos daquela casa onde entrámos por engano. Mas continuo convencido de que, se algum dia nos tivéssemos cruzado de novo, ainda nos teriam convidado para jantar. Conhecendo os brasileiros — e, em particular, os brasilienses —, não me pareceria nada improvável.

u/SeixasdaCosta — 1 month ago

POWDER ROOM

Há minutos, ao ler a biografia de Pamela Harriman — agora publicada em Portugal — deparei-me com um episódio delicioso.

Num jantar em casa de Averell Harriman, milionário e político americano, as senhoras foram convidadas, no final da refeição, a separar-se dos maridos e a passar para outra sala, deixando os homens entregues à conversa. A mulher de Ben Bradlee, diretor do Washington Post e também ela jornalista, recusou-se terminantemente a alinhar no ritual: interessava-lhe muito mais acompanhar a conversa dos homens do que participar numa tertúlia feminina. Harriman insistiu, praticamente expulsando-a da sala, e ela chegou a ameaçar abandonar a casa. O livro não esclarece como terminou o incidente.

O episódio trouxe-me de imediato à memória uma cena que vivi — creio que em 1981 — na embaixada de Portugal na Noruega.

Tratava-se de uma pequena missão diplomática, com apenas dois diplomatas: o embaixador e eu. Numa noite, Cabrita Matias — assim se chamava o chefe da missão — organizou um jantar na residência oficial de Portugal, na Drammensveien, em Oslo. O traje era de smoking para os cavalheiros e vestido comprido para as senhoras. Seríamos vinte e poucas pessoas. Eu e a minha mulher estávamos entre os convidados.

Cabrita Matias era um embaixador da velha escola. Cultivava escrupulosamente os rituais do protocolo e tinha escassa tolerância para modernices. Numa sociedade já então aberta e igualitária como era a norueguesa — sem aristocracia nem grande apreço por formalismos excessivos — imagino que muitos dos convidados locais, misturados com os chers collègues do corpo diplomático, assistissem àqueles rituais como a um curioso espetáculo. Ainda assim, suspeito que com algum prazer por participarem numa coreografia elegante.

O jantar destinava-se a retribuir, com genuína cortesia, a hospitalidade com que várias personalidades norueguesas tinham acolhido o novo embaixador, desde a sua chegada ao país no ano anterior.

Tudo decorrera na perfeição. Cabrita Matias era um excelente anfitrião. O ambiente era descontraído e animado. Já fora servida a primeira ronda de cafés.

Foi então que o embaixador, apoiado em práticas adquiridas em países anglo-saxónicos, deu início a um pretendido ritual:

— Minhas senhoras, convido-as a passarem ao living. And the powder room is over there — acrescentou, indicando o caminho que conduzia à casa de banho de visitas.

Inveterado solteiro, Cabrita Matias tivera o cuidado de equipar o espaço com escovas, perfumes e outros pequenos apetrechos que imaginava úteis para que as senhoras pudessem retocar a aparência após o jantar, enquanto aguardariam que os cavalheiros terminassem a sua conversa.

Antes da refeição, o embaixador pedira à minha mulher que, chegado esse momento, se levantasse e conduzisse as restantes senhoras para fora da sala.

Só que a realidade se impôs ao desejo do dono da casa: ouvido o "convite" do embaixador, a maioria das convidadas deixou de imediato claro que não tinha a menor intenção de abandonar os respetivos companheiros, todos envolvidos numa conversa animada. Algumas ainda fizeram menção de se levantar — mais por delicadeza do que por convicção —, mas acabaram por permanecer sentadas. 

Uma delas respondeu de forma absolutamente desarmante:

— Nem pensar. Eu fico por aqui. E, se o senhor embaixador não se importa, vou mesmo beber um cognac.

Outra comentou que, pensando melhor, lhe apetecia um charuto, cuja caixa o Domingos já circulava à volta da mesa, acompanhado de um bom scotch. Uma terceira, que vivera alguns anos em Portugal, pediu um cálice de vinho do Porto.

A sala inteira sorriu. E ali ficou.

Naquele instante, Cabrita Matias talvez tivesse percebido que entrara num mundo diferente — e, sobretudo, num tempo diferente, em que homens e mulheres já se relacionavam socialmente de forma muito mais igualitária.

Tenho a impressão de que esse foi o último jantar, naquela residência de Oslo, em que as senhoras foram convidadas, no final da refeição, a retirar-se sozinhas para o living, passando pelo powder room, claro.

u/SeixasdaCosta — 1 month ago

O autocarro soviético

Éramos cerca de trinta pessoas numa excursão à União Soviética, em julho de 1981, ida da Noruega. Tirando nós os dois, todos os restantes participantes eram noruegueses.

A maioria eram casais reformados, gente de província, com um aspeto rural. Percebia-se, sem esforço, uma certa simpatia pela União Soviética — memória ainda viva do papel do Exército Vermelho na libertação do norte da Noruega.

Nós estávamos ali por razões mais prosaicas: curiosidade e preço. Duas semanas entre Leninegrado, Moscovo e alguns dias de praia em Ialta por uma verba quase inacreditável. Só mais tarde soubemos que a agência organizadora tinha ligações ao pequeno Partido Comunista Norueguês. Já pouco importava.

Além de nós, da guia e de um discreto funcionário público de Oslo, ninguém falava outra língua que não fosse norueguês. Do nosso lado, o vocabulário norueguês resumia-se a meia dúzia de palavras.

Durante dias, quase sempre juntos com a guia e com o norueguês que se exprimia em inglês, limitámo-nos a sorrisos e cumprimentos aos restantes viajantes. O facto de sermos portugueses — e de eu exercer funções diplomáticas — parecia criar com eles uma distância respeitosa, difícil de vencer.

Saídos de Leninegrado, voámos para Simferopol, na Crimeia. Dali seguiríamos de autocarro para Ialta, por uma estrada de montanha. O voo atrasou-se. Quando partimos, já era noite cerrada. O autocarro era velho, com um roncar metálico pouco tranquilizador. Subia devagar, em esforço. Ao fim de meia hora, parou. O motor calou-se. Ficou apenas o silêncio da estrada escura.

Sem trânsito, sem luz, muito antes dos telemóveis, a situação não prometia.

A guia trocou algumas palavras com o motorista e voltou com a solução: era preciso empurrar o autocarro. Todos os homens teriam de ajudar. Sendo, de longe, o mais novo do grupo, fui dos primeiros a sair. O ar era fresco, com cheiro a óleo e a metal quente. Encostei as mãos à traseira do veículo. Ao meu lado, alinharam-se os outros. À primeira tentativa, nada. À segunda, apenas um rangido. À terceira, o motor pegou, numa explosão de fumo e ruído, arrancando um suspiro coletivo de alívio.

Quando regressámos aos lugares, algo tinha mudado. Talvez tenha sido o ridículo da cena — uma dúzia e meia de homens, que supostamente deviam estar numas férias descansadas, a empurrar um autocarro soviético no meio da noite — que desfez, de repente, o gelo de dias. 

O certo é que, dali até Ialta, o ambiente se transformou. Os noruegueses começaram a cantar canções populares. Nós acompanhávamos como podíamos, imitando sons, mimando refrões, provocando gargalhadas. A barreira desaparecera.

Nos dias seguintes, a convivência tornou-se fácil, quase natural. Em Ialta, num jantar animado, um dos noruegueses ergueu um brinde “à noite do autocarro”, entre risos e copos de vodka. Entendíamo-nos mais por gestos do que por palavras — e isso bastava.
Quando regressámos a Oslo, despedimo-nos com abraços e beijos, como velhos conhecidos. Nunca mais voltámos a ver nenhum deles.

Mantivemos apenas contacto com a guia e com o discreto funcionário público que falava algum inglês. Algum tempo depois, num jantar em nossa casa, confessou-nos que era membro dos serviços de informação noruegueses e que integrara a excursão nessa qualidade, observando discretamente o grupo durante toda a viagem. Nesse tempo de Guerra Fria, o espião norueguês fora o nosso mais próximo companheiro de viagem.

Passaram entretanto quarenta e cinco anos. A União Soviética desapareceu. A Crimeia tornou-se território disputado e voltou ao centro da guerra.

Hoje, quando oiço falar ou falo da Crimeia, além de mapas e conflitos, vem-me muitas vezes à memória um decrépito autocarro soviético, parado no escuro numa estrada de montanha, e um grupo improvável de noruegueses e dois portugueses que, depois de o empurrarem juntos, deixaram de ser estranhos entre si.

u/SeixasdaCosta — 1 month ago

Escribas

Nas redes sociais, surgem uns fulanos a afirmar que o destino da sua vida é escrever e que a escrita lhes ocupa tanto tempo que praticamente não leem. Alguns não têm pejo em afirmar que a leitura pouco ou nada lhes ensina. Na minha terra, dizia-se: "Quem lhes atasse um arado!"

reddit.com
u/SeixasdaCosta — 1 month ago

O choro e o riso

Vivi no Brasil e conheço os brasileiros suficientemente para entender que a sua eliminação, logo nesta fase do Mundial de futebol nos Estados Unidos, constitui um imenso desapontamento, se bem que as dúvidas sobre a real força deste grupo já tivessem surgido há muito na imprensa. O futebol é muito importante para o imaginário brasileiro, é a “pátria em chuteiras”, como escreveu Nelson Rodrigues. Mais do que os clubes, a seleção — o “escrete” — tem um significado profundo numa brasilidade partilhada com fervor por quase todos. O Brasil tem uma história gloriosa no futebol mundial, e o presente contrasta, com frequente nostalgia, com esses dias gloriosos. O país provou, contudo, ser possuidor de um arsenal histórico de esperança, mesmo quando as razões para essa esperança foram ténues. Por isso, embora desiludido e em lágrimas, o Brasil vai reinventar-se. Não seria o Brasil se assim não fosse. 

Vivi na Noruega e julgo conhecer suficientemente os noruegueses para poder dizer que esta vitória sobre o Brasil — a Noruega não ganhou o Mundial, mas o Brasil perdeu-o — é uma alegria extraordinária e quase inesperada. Ainda assim, essa alegria não se compara, do “outro lado” do espelho, à intensidade da derrota brasileira. Os noruegueses estão felizes por esta saborosa vitória, mas, se, por acaso, tivessem perdido, não se atirariam do alto dos fiordes. O futebol é, na Noruega, um desporto popular, mas apenas uma das componentes em que se espelha o orgulho de ser norueguês. Perder com o Brasil não seria “morte de homem”, como se diria entre nós. Ganhar vai ser um ótimo pretexto para celebrar com cerveja, aquavit e boa disposição.

u/SeixasdaCosta — 2 months ago