As 24 horas do não-monogâmico

Qualquer um com bom senso sabe que aquele ditado “todo mundo tem as mesmas 24 horas” é balela. Dá pra gente debater sobre essa ideia ridícula em vários aspectos da nossa existência, mas quero falar aqui sobre o impacto da limitação do nosso precioso tempo dentro do estilo de vida não-monogâmico.

Trabalho, visitas à família, rolês com diferentes núcleos de amigos, eventos importantes, viagens, estudos, obrigações da vida, idas e vindas, pra lá e pra cá. O cotidiano base, majoritariamente comum a milhões, já é um absurdo de exaustivo. Agora, salpique alguns dates aqui e ali. Momentos de prazer, intimidade e carinho com uma fila enorme de afetos, ansiosos para se encaixarem no tetris sem fim que é a vida de um não-mono. Isso sem contar uma possível relação primária, aquela que ganha senha preferencial na hora de buscar uma vaga nas nossas escassas horas livres da semana.

E não para por aí: que tal o grande desafio de agendar uma suruba? Veja bem, eu falei de agendar, e não organizar. Organizar é tipo andar de bicicleta, depois da primeira a gente aprende. Quero ver é você bater a agenda de 10, 20 pessoas. Um alinhamento único e especial dos astros. A suruba acaba sendo não apenas uma festa qualquer, mas uma verdadeira celebração desse evento.

Ainda não mencionamos a famigerada saúde mental. Como fazer malabarismo entre relacionamentos diferentes, com intensidades, expectativas e formas de amar distintas entre si? É seguro dizer que a não-monogamia não é para os fracos de cabeça. Terapia é quase tão obrigatória quanto a tal responsabilidade afetiva. E adivinha só: ela entra ali naquelas poucas 24 horas.

Uma relação tão abusiva com o tempo, que insiste em escapar das nossas mãos como areia, invariavelmente faz a gente se questionar se essa vida vale a pena. Nada mais justo. Mas é injusto dizer que não vale. A verdade é que, assim como descobrimos que o amor se multiplica, também entendemos que o tempo age, magicamente, de forma parecida. Quando a gente decide passá-lo com quem a gente, a sensação de "tempo perdido" simplesmente não existe. Talvez a clareza sobre desejos e expectativas tire da gente o fardo de uma busca incessante para moldar-se ao que a sociedade exige. Talvez aquela coisa de "tempo de qualidade" acabe sendo mais regra do que exceção para nós. Sim, ele cansa. Mas é uma delícia.

Terminei de escrever esse texto ouvindo uma música que diz que o tempo se move lentamente quando se está sozinho. Ela é sobre amores monogâmicos. E é por isso que escolhi a intensidade dos vários amores que encurtam o tempo.

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u/Sholum666 — 4 days ago