Você não é gente para o patrão. E esse é o problema.
O que aprendi trabalhando como consultora, anos atrás, é que, se você é pobre e vende seu tempo, muitas empresas simplesmente não te enxergam como pessoa.
Alguns exemplos que vivi:
Em um mercado com alta rotatividade e muitos problemas de saúde no trabalho, sugerimos medidas simples: equipamentos ergonômicos, cintas para postura, bancos para descanso, ginástica laboral obrigatória e ações de educação em saúde.
Resposta do patrão: “Isso dá muito conhecimento e poder para os funcionários.”Em uma loja de roupas com muitos afastamentos, fizemos um estudo buscando melhorar a vida dos funcionários sem aumentar custos. Descobrimos que, se as pessoas entrassem 1 hora mais tarde e saíssem 30 minutos depois, evitariam o pico do transporte público. Não aumentava custo, porque havia muito tempo ocioso. Também sugerimos transformar uma sala cheia de bagunça em um espaço de descanso para pausas de 15 minutos.
Resposta: “Não precisa disso. A lei já dá direito a 44 horas semanais.”
A dona fazia academia e Pilates em horário comercial, mas, aparentemente, qualidade de vida só importava para ela, porque ela é gente!Em uma indústria com sérios problemas de qualidade, baixa produtividade e funcionários insatisfeitos, fomos conversar com a dona para entender o que ela queria melhorar.
Resposta: “Quero que os funcionários entrem mudos e saiam calados.”Em um supermercado com dificuldade para contratar e manter funcionários, fizemos um estudo completo de fluxo, horários de pico e escalas. Descobrimos que era possível reduzir a escala de 6x1 para 5x2 sem aumentar custos, apenas organizando melhor as equipes e os horários. Também sugerimos mais pausas e uma sala de descanso.
Resposta: “Não vai funcionar porque funcionário é burro. E eles têm que trabalhar 6 dias porque a lei permite.”
A conclusão que tirei disso tudo é que muita gente não vê trabalhador como ser humano. Não enxergam alguém com família, cansaço, problemas, sonhos e limites. Veem apenas mão de obra.
E é curioso como funciona a lógica. Quando uma regra protege o trabalhador, dizem que o Brasil tem lei demais, que tudo é exagero, que o funcionário quer vantagem. Mas, quando a lei beneficia a empresa, aí vira obrigação absoluta e inquestionável.
Também adoram falar sobre mérito, lógica e eficiência, até o momento em que você apresenta dados mostrando aumento de produtividade, redução de custos e melhoria de resultados sem prejudicar ninguém. Nessa hora, a ciência deixa de importar e o bom senso deles vale mais.
Quando o pobre desconfia da ciência, é ignorante. Quando eles ignoram dados porque não gostam da conclusão, é experiência e visão de negócio.
Isso me deu tanta raiva que acabei saindo da área.