
Dêem nome pra esse mingau de leite em pó (Macho)
Ele é muito fofo.

Ele é muito fofo.
Eu não gostei, parece industrial... Saudades da minha terrinha 🫠
Fazia um frio insuportável. O tipo de frio que entra pelas frestas das janelas de madeira de Kamenka e faz a casa toda ranger, como se estivesse desmoronando. A torneira da cozinha fez um barulho estranho, soltou um chiado e três gotas de água suja e, depois, não funcionou mais.
Irina suspirou e jogou o pano de prato sobre a mesa. Ela era uma mulher ainda bonita, embora o cansaço já tivesse começado a marcar seu rosto. Seu cabelo preto, longo e ondulado, caía pesado sobre os ombros, preso de qualquer jeito para não atrapalhar o trabalho. Mesmo dentro de casa, usava pequenos brincos e mantinha as unhas cuidadas; havia nela uma preocupação constante em parecer mais arrumada do que a casa permitia.
— Sem água de novo — disse, quase para si mesma, cruzando os braços. — Como vou cozinhar? Como vou lavar alguma coisa aqui? Seu pai devia ter reparado isso antes de sair para o trabalho. Agora só vai resolver na terça-feira.
Simon não respondeu.
Tinha catorze anos, mas, na cabeça, cinquenta.
Era um garoto magro e franzino, pequeno demais dentro do suéter marrom largo que vestia por baixo do casaco. Seus óculos redondos escorregavam um pouco pelo nariz, e uma gravata já frouxa aparecia torta sobre a gola. Seu cabelo escuro estava bagunçado pelo sono e pelo frio, exceto por uma mecha branca que atravessava a lateral da cabeça como uma mancha de tinta.
Ele odiava aquela mecha.
Não suspirou. Não reclamou. Tampouco tentou ser herói. Só se levantou, pegou a caixa de ferramentas de ferro que estava debaixo do balcão e vestiu o casaco velho.
A caixa fez um pequeno rangido quando ele a puxou.
— Simon.
Ele parou.
Irina olhou para a caixa e depois para ele.
— Não precisa.
Simon segurou a alça com as duas mãos.
— Eu sei.
E saiu.
Se eu não fizer, quem vai?
Do lado de fora, o vento do inverno de 2016 cortava o rosto como uma faca. Simon ajoelhou na neve e abriu o alçapão do poço. O cheiro de óleo velho e umidade subiu imediatamente. A neve já começava a cobrir suas marcas de sapato. Simon passou os próximos minutos com as mãos na graxa até os cotovelos. Sem luvas, precisava sentir as porcas pequenas com os dedos, e suas mãos ficaram vermelhas e dormentes rapidamente. Desmontou a bomba entupida, limpou o óleo congelado da fiação, testou a pressão da tubulação soprando no cano e improvisou uma vedação com um pedaço de borracha velha que tinha no bolso.
De vez em quando, erguia a cabeça para ouvir. Nada. Só o vento. Ao longe, um trem passou pela ferrovia, abafado pela neve. Simon voltou ao trabalho.
Quando o motor começou a funcionar com um som pesado, os canos tremeram. A água voltou, espessa, barulhenta e gelada. Simon ficou alguns segundos observando. Funcionava. Passou a mão pela lateral da bomba, como se precisasse confirmar, e então fechou o alçapão.
Limpou as mãos na calça e tomou um gole direto da tubulação. A água era tão fria que doeu nos dentes. Fez uma careta, mas não comentou consigo mesmo. Apenas fechou o alçapão e voltou para dentro.
Na cozinha, a torneira agora pingava com força.
Mas Pavel já havia chegado do trabalho.
Era um homem alto e rígido, de cabelos loiros e postura quase imóvel. Ainda vestia o sobretudo pesado da ferrovia, fechado até o pescoço, e a ushanka escura estava sobre a cabeça, com a estrela metálica presa na frente. O rosto permanecia parcialmente escondido pela sombra do cômodo e pelo gorro, deixando os olhos difíceis de ler.
Ficou perto do fogão, observando o cano tremer. Depois olhou para a caixa de ferramentas nas mãos de Simon e para a graxa cobrindo os braços do garoto.
— Você mexeu nisso?
A voz era fria. Não havia surpresa. Tampouco orgulho.
— Tá quebrada — respondeu Simon, baixo.
Pavel nem piscou.
— E quem mandou você mexer?
Simon parou. Olhou para a torneira e depois para a caixa.
— Ninguém.
Pavel tirou as luvas devagar.
— Então por que mexeu?
— Porque não tinha água.
— Eu sei que não tinha.
— A mãe precisava.
Irina começou a preparar a comida, mas não interveio. Apenas apertou os lábios e continuou mexendo a panela.
Pavel foi até a pia e abriu a torneira. A água saiu irregular, espirrando no metal. Ele a fechou. Esperou alguns segundos. Abriu novamente.
— Você não sabe o que está fazendo.
Simon olhou para as mãos. A pele estava vermelha pelo frio. Havia graxa nas unhas e pequenas rachaduras nos dedos.
— Funcionou.
Pavel virou o rosto para ele.
— Isso não significa que funcionou direito.
— Eu só consertei a bomba.
— Você abriu uma bomba sem saber se a tubulação estava pressurizada.
— Eu sabia.
A voz saiu mais alta. Irina olhou para ele, e Simon percebeu. Baixou os olhos.
Pavel respirou fundo.
— Está vendo? É exatamente disso que estou falando.
Simon não respondeu.
Pavel voltou a fechar a torneira, dessa vez com mais força do que precisava.
— Você é imprudente.
A palavra ficou no ar.
Imprudente.
Ele já havia ouvido aquilo antes. Não muitas vezes. O suficiente.
— Eu não ia deixar a casa ficar sem água.
— Não é sua responsabilidade.
Simon ficou em silêncio. Pavel apontou para a caixa de ferramentas.
— Você tem catorze anos. Não precisa assumir a casa.
Simon apertou a alça da caixa.
Catorze.
Os catorze inevitáveis.
Abaixou os olhos. Não havia muito o que dizer. Pavel já havia decidido o que ele havia feito antes de perguntar.
— Eu só consertei a bomba — disse, mais baixo.
— E da próxima vez vai esperar.
Simon assentiu.
— Tá.
Pavel voltou para o fogão. Por alguns segundos, ficou de costas para Simon. Então tirou as próprias luvas e deixou um par menor sobre a mesa.
— Use isso quando sair.
Simon olhou para elas.
— Você disse para eu esperar.
Pavel não respondeu imediatamente.
— Eu disse para não mexer.
Pegou o jornal que havia deixado sobre a cadeira.
— Não confunda as coisas.
Simon ficou olhando para as luvas. Depois voltou a guardar a caixa.
Irina continuou preparando o jantar, mexendo a panela. Simon levou a caixa de ferramentas para baixo do balcão. Quando se abaixou, viu a água que escorria da torneira formando uma pequena poça. Pegou o pano e limpou, primeiro uma vez, depois outra, até não restar nada.
— Deixa isso — disse Irina.
— Já terminei.
Ele torceu o pano e o pendurou perto do fogão. Só então percebeu que ainda estava com as mãos tremendo. Esfregou uma contra a outra. A pele estava vermelha e rachada, com graxa grudada nas linhas dos dedos. Havia um pequeno corte perto do polegar que ele não lembrava de ter feito.
Irina olhou para o dedo.
— Você se cortou.
Simon acompanhou o olhar.
— É pequeno.
Ela abriu uma gaveta, tirou um pedaço de gaze e colocou sobre a mesa.
— Mesmo assim.
Simon pegou a gaze.
— Obrigado.
Irina assentiu e voltou para a panela.
— Vai se trocar — disse Pavel, sem olhar. — Você está imundo.
Simon olhou para a roupa.
— Tá.
Subiu para o quarto.
O corredor estava mais frio que a cozinha. O vento entrava pelas frestas com um som fino e contínuo, e a madeira respondia rangendo de um jeito seco e alongado, como se a casa inteira estivesse se acomodando ao peso da noite. Simon fechou a porta atrás de si e ficou parado por alguns segundos, ouvindo o silêncio se formar. Lá embaixo ainda havia movimento — o arrastar de uma cadeira, o barulho abafado da panela —, mas aqui em cima o frio parecia mais antigo, mais instalado nas paredes e no chão.
Começou a tirar o casaco. Só depois de deixá-lo sobre a cadeira percebeu a mancha escura na manga. Ficou olhando. Por um instante, a mancha pareceu vermelha, viva, quase úmida. Simon piscou várias vezes até a cor voltar ao normal. Era apenas graxa. Passou o polegar sobre ela e espalhou ainda mais a sujeira pela pele.
— Merda.
Foi até o pequeno espelho. O rosto que apareceu nele parecia cansado demais para alguém de catorze anos: nariz vermelho pelo frio, cabelo desgrenhado, óculos tortos, olheiras profundas.
E aquela mecha branca.
Simon desviou o olhar dela primeiro, como sempre fazia, e depois se forçou a olhar de frente. Por um segundo, teve a impressão de que os próprios olhos estavam fundos demais, como se tivessem recuado um pouco mais para dentro do rosto. Afastou-se. Continuavam iguais. Soltou o ar pelo nariz e começou a trocar de roupa com movimentos lentos, quase mecânicos. Pensou que o cansaço não vinha só do frio nem da bomba. Vinha de saber que, independentemente do que fizesse, haveria uma forma de estar errado. Se consertasse, era imprudente. Se não consertasse, era omisso. Não existia um meio-termo que Pavel aceitasse sem ressalva.
Ao passar pela escrivaninha, parou. O relógio fazia um ruído irregular. O ponteiro dos segundos estava prendendo em algum lugar invisível, soltando-se com atraso, como se precisasse de força extra para continuar. Simon inclinou a cabeça, escutando o tique irregular que se repetia. Estendeu a mão, mas os dedos pararam a poucos centímetros do vidro.
Não era importante.
Baixou o braço e guardou a mão no bolso. Poderia abrir o relógio, ajustar a engrenagem, colocar uma gota de óleo. Sabia como fazer. Mas a lição daquela noite ainda estava fresca demais. Melhor deixar. Se funcionasse torto, pelo menos ninguém poderia dizer que ele tinha mexido sem autorização.
A cadeira também estava um pouco bamba. Simon percebeu assim que se sentou na beirada da cama para tirar as botas. Uma das pernas batia no chão com um atraso leve, um desequilíbrio quase imperceptível. Ele notou e não mexeu. Empurrou a cadeira um pouco para o lado com o pé e deixou-a ali. Quantas coisas naquela casa estavam assim? Ele se perguntou. Pequenas falhas que só ele parecia enxergar. A porta do armário que emperrava, a torneira da pia de cima que pingava de madrugada, o batente da janela que deixava passar corrente de ar. Cada uma delas pedia uma decisão, e cada decisão carregava o risco de estar errada.
Lá embaixo, a água corria outra vez. O som atravessava o piso e chegava abafado ao quarto, constante e pesado, como se a casa estivesse funcionando de novo. Ele deveria estar satisfeito. A bomba estava consertada. A mãe teria água para cozinhar. O pai não precisaria sair no frio. Tudo estava bem.
Simon olhou para as mãos. A pele ainda estava vermelha e rachada. Havia graxa grudada nas linhas dos dedos e um pequeno corte perto do polegar que ele não lembrava de ter feito. As mãos tremiam um pouco, não exatamente de frio, mas de alguma outra coisa que ainda não tinha nome e que ele preferia não nomear. Pensou que talvez o problema não fosse a bomba em si. O problema era que ele não conseguia deixar as coisas quebradas em paz. E, ao mesmo tempo, cada vez que tentava consertar, recebia a confirmação de que não deveria ter tentado.
Talvez Pavel estivesse certo. Talvez tenha sido imprudente. Talvez um dia ele fizesse algo que não conseguisse consertar. A ideia ficou ali por alguns segundos, quieta, como a cadeira bamba e o relógio irregular. Simon passou a língua pelos dentes e sentiu o gosto metálico da água gelada que tinha bebido direto do cano. Ainda doía um pouco. Ele se perguntou até quando conseguiria continuar assim, notando tudo, calculando o risco de cada gesto, tentando adivinhar qual seria a escolha menos errada. Não havia resposta. Só o frio do quarto e o som abafado da água embaixo.
Ele se deitou de lado, de costas para a porta, e puxou o cobertor até o ombro. O frio do colchão subiu pelas costas. Lá embaixo, a torneira ainda pingava de vez em quando, ou talvez fosse outra coisa. Simon ficou escutando até perceber que o som não vinha mais da cozinha. Era o próprio coração. Fechou os olhos e tentou não contar as batidas.
Pensou, pela última vez naquela noite, que amanhã haveria outras coisas quebradas.
E que, de um jeito ou de outro, ele iria notá-las.
Aos quinze anos, Simon se deparou com outro problema: a porta do galpão. A dobradiça já estava torta havia semanas, e ele lembrava de ter notado aquilo sempre que passava por ela. No entanto, ninguém mais parecia ter percebido. Até que, certa manhã, a porta simplesmente caiu. Simon a encontrou inclinada sobre a neve e decidiu consertá-la antes que Pavel voltasse para casa. Quando o pai chegou, abriu e fechou a porta várias vezes para testá-la. Funcionava perfeitamente.
Então, olhou para Simon.
— Quem mandou você consertar a porta?
Simon não soube responder.
Pavel ficou em silêncio por alguns segundos.
— Não faça de novo.
Naquela noite, Simon ficou pensando sobre o que exatamente havia feito de errado.
Aos dezesseis anos, surgiu outro problema: o aquecedor. Dessa vez, Simon decidiu esperar que o pai chegasse em casa. A casa ficou fria durante horas, e Irina chegou a dormir de casaco naquela noite. Simon sabia como o aparelho funcionava e onde estava o problema, mas escolheu não fazer nada.
Quando Pavel reclamou porque ele não havia consertado o aquecedor, Simon não respondeu. Naquela noite, aprendeu uma lição diferente: às vezes, esperar também podia ser um erro.
Aos dezessete anos, Simon já não sabia mais quando deveria agir e quando deveria esperar. Algumas coisas precisavam de peças novas, outras precisavam de tempo, e havia aquelas que continuavam quebradas mesmo depois de ele tentar consertá-las. Era uma diferença sutil que ninguém havia lhe ensinado a reconhecer.
Capítulo 1 — Consertar
Era um frio insuportável. O tipo de frio que entra pelas frestas das janelas de madeira de Kamenka e faz a casa toda ranger, como se estivesse desmoronando. A torneira da cozinha fez um barulho estranho, soltou um chiado e três gotas de água suja, e depois não funcionou mais.
Irina suspirou e jogou o pano de prato sobre a mesa. Ela era uma mulher ainda bonita, embora o cansaço já tivesse começado a marcar seu rosto. Seu cabelo preto, longo e ondulado, caía pesado sobre os ombros, preso de qualquer jeito para não atrapalhar o trabalho. Mesmo dentro de casa, usava pequenos brincos e mantinha as unhas cuidadas; havia nela uma preocupação constante em parecer mais arrumada do que a casa permitia.
Sem água de novo - disse, quase para si mesma, cruzando os braços. - Como vou cozinhar? Como vou lavar alguma coisa aqui? Seu pai devia ter reparado isso antes de sair para o trabalho. Agora só vai resolver na terça-feira.
Simon não respondeu.
Tinha catorze anos, mas, na cabeça, cinquenta.
Era um garoto magro e franzino, pequeno demais dentro do suéter marrom largo que vestia por baixo do casaco. Seus óculos redondos escorregavam um pouco pelo nariz, e uma gravata já frouxa aparecia torta sobre a gola. Seu cabelo escuro estava bagunçado pelo sono e pelo frio, exceto por uma mecha branca que atravessava a lateral da cabeça como uma mancha de tinta.
Ele odiava aquela mecha.
Não suspirou. Não reclamou. Tampouco tentou ser herói.
Só se levantou, pegou a caixa de ferramentas de ferro que estava debaixo do balcão e colocou o casaco velho.
A caixa fez um pequeno rangido quando ele a puxou.
Simon.
Ele parou.
Irina olhou para a caixa e depois para ele.
Não precisa.
Simon segurou a alça com as duas mãos.
Eu sei.
E saiu.
Se eu não fizer, quem vai?
Do lado de fora, o vento do inverno de 2016 cortava o rosto como uma faca. Simon ajoelhou na neve e abriu o alçapão do poço. O cheiro de óleo velho e umidade subiu imediatamente.
A neve já começava a cobrir suas marcas de sapato.
Simon passou os próximos minutos com as mãos na graxa até os cotovelos. Sem luvas, precisava sentir as porcas pequenas com os dedos, e suas mãos ficaram vermelhas e dormentes rapidamente. Desmontou a bomba entupida, limpou o óleo congelado da fiação, testou a pressão da tubulação soprando no cano e improvisou uma vedação com um pedaço de borracha velha que tinha no bolso.
De vez em quando, erguia a cabeça para ouvir.
Nada.
Só o vento.
Ao longe, um trem passou pela ferrovia, abafado pela neve.
Simon voltou ao trabalho.
Quando o motor começou a funcionar com um som pesado, os canos tremeram. A água voltou, espessa, barulhenta e gelada.
Simon ficou alguns segundos observando.
Funcionava.
Passou a mão pela lateral da bomba, como se precisasse confirmar.
Então fechou o alçapão.
Limpou as mãos na calça e tomou um gole direto da tubulação. A água era tão fria que doeu nos dentes. Fez uma careta, mas não comentou consigo mesmo. Apenas fechou o alçapão e voltou para dentro.
Na cozinha, a torneira agora pingava com força.
Mas Pavel já havia chegado do trabalho.
Era um homem alto e rígido, de cabelos loiros e postura quase imóvel. Ainda vestia o sobretudo pesado da ferrovia, fechado até o pescoço, e a ushanka escura estava sobre a cabeça, com a estrela metálica presa na frente. O rosto permanecia parcialmente escondido pela sombra do cômodo e pelo gorro, deixando os olhos difíceis de ler.
Ficou perto do fogão, observando o cano tremer.
Depois olhou para a caixa de ferramentas nas mãos de Simon e para a graxa cobrindo os braços do garoto.
Você mexeu nisso?
A voz era fria.
Não havia surpresa. Tampouco orgulho.
Tá quebrada - respondeu Simon, baixo.
Pavel nem piscou.
E quem mandou você mexer?
Simon parou. Olhou para a torneira e depois para a caixa.
Ninguém.
Pavel tirou as luvas devagar.
Então por que mexeu?
Porque não tinha água.
Eu sei que não tinha.
A mãe precisava.
Irina começou a preparar a comida, mas não interveio. Apenas apertou os lábios e continuou mexendo a panela.
Pavel foi até a pia e abriu a torneira.
A água saiu irregular, espirrando no metal.
Ele fechou.
Esperou alguns segundos.
Abriu novamente.
Você não sabe o que está fazendo.
Simon olhou para as mãos. A pele estava vermelha pelo frio. Havia graxa nas unhas e pequenas rachaduras nos dedos.
Funcionou.
Pavel virou o rosto para ele.
Isso não significa que funcionou direito.
Eu só consertei a bomba.
Você abriu uma bomba sem saber se a tubulação estava pressurizada.
Eu sabia.
A voz saiu mais alta.
Irina olhou para ele, e Simon percebeu.
Baixou os olhos.
Pavel respirou fundo.
Está vendo? É exatamente disso que estou falando.
Simon não respondeu.
Pavel voltou a fechar a torneira, dessa vez com mais força do que precisava.
Você é imprudente.
A palavra ficou no ar.
Imprudente.
Ele já havia ouvido aquilo antes.
Não muitas vezes.
O suficiente.
Eu não ia deixar a casa ficar sem água.
Não é sua responsabilidade.
Simon ficou em silêncio.
Pavel apontou para a caixa de ferramentas.
Você tem catorze anos. Não precisa assumir a casa.
Simon apertou a alça da caixa.
Catorze.
Os catorze inevitáveis.
Abaixou os olhos.
Não havia muito o que dizer. Pavel já havia decidido o que ele havia feito antes de perguntar.
Eu só consertei a bomba - disse, mais baixo.
E da próxima vez vai esperar.
Simon assentiu.
Tá.
Pavel voltou para o fogão.
Por alguns segundos, ficou de costas para Simon.
Então tirou as próprias luvas e deixou um par menor sobre a mesa.
Use isso quando sair.
Simon olhou para elas.
Você disse para eu esperar.
Pavel não respondeu imediatamente.
Eu disse para não mexer.
Pegou o jornal que havia deixado sobre a cadeira.
Não confunda as coisas.
Simon ficou olhando para as luvas.
Depois voltou a guardar a caixa.
Irina continuou preparando o jantar, mexendo a panela.
Simon levou a caixa de ferramentas para baixo do balcão.
Quando se abaixou, viu a água que escorria da torneira formando uma pequena poça. Pegou o pano e limpou, primeiro uma vez, depois outra, até não restar nada.
Deixa isso - disse Irina.
Já terminei.
Ele torceu o pano e pendurou perto do fogão.
Só então percebeu que ainda estava com as mãos tremendo.
Esfregou uma contra a outra.
A pele estava vermelha e rachada, com graxa grudada nas linhas dos dedos. Havia um pequeno corte perto do polegar que ele não lembrava de ter feito.
Irina olhou para o dedo.
Você se cortou.
Simon acompanhou o olhar.
É pequeno.
Ela abriu uma gaveta, tirou um pedaço de gaze e colocou sobre a mesa.
Mesmo assim.
Simon pegou a gaze.
Obrigado.
Irina assentiu e voltou para a panela.
Vai se trocar - disse Pavel, sem olhar. - Você está imundo.
Simon olhou para a roupa.
Tá.
Subiu para o quarto.
O corredor estava mais frio que a cozinha. O vento passava pelas frestas e fazia a madeira ranger. Simon entrou, fechou a porta e começou a tirar o casaco.
Só depois de deixá-lo sobre a cadeira percebeu que havia uma mancha escura na manga.
Ficou olhando.
Por um instante, parecia vermelha.
Simon piscou.
Era apenas graxa.
Passou o polegar sobre a mancha e sujou ainda mais a pele.
Merda.
Foi até o pequeno espelho.
O rosto que apareceu nele parecia cansado demais para alguém de catorze anos, mas não havia nada diferente. Nariz vermelho por causa do frio, cabelo desgrenhado, óculos tortos, olheiras.
E aquela mecha branca.
Simon desviou o olhar dela primeiro.
Aproximou-se.
Por um segundo, teve a impressão de que os próprios olhos estavam fundos demais.
Afastou-se.
Continuavam iguais.
Simon soltou o ar pelo nariz e começou a trocar de roupa.
Ao passar pela escrivaninha, parou.
O relógio fazia um ruído irregular.
Tic.
Tic.
Tac.
Tic.
Simon inclinou a cabeça.
O ponteiro dos segundos estava prendendo.
Ele estendeu a mão.
Parou antes de tocar.
Não era importante.
Continuou trocando de roupa.
A cadeira também estava um pouco bamba.
Simon percebeu.
Não mexeu.
Lá embaixo, a água corria outra vez. O som atravessava o piso e chegava abafado ao quarto, constante, como se a casa estivesse funcionando de novo.
Ele deveria estar satisfeito.
A bomba estava consertada.
A mãe teria água para cozinhar.
O pai não precisaria sair novamente no frio.
Tudo estava bem.
Simon sentou-se na beirada da cama e olhou para as mãos.
Talvez Pavel estivesse certo.
Talvez tenha sido imprudente.
Talvez um dia ele fizesse algo que não conseguisse consertar.
A ideia ficou ali por alguns segundos.
Então ele ouviu a torneira pingar.
Uma vez.
Duas.
Três.
Simon levantou a cabeça.
O som continuou.
Ping-ping-ping...
Ele ficou escutando até perceber que não era a torneira.
Era seu coração.
Aos quinze anos, Simon se deparou com um problema: a porta do galpão. A dobradiça já estava torta havia semanas, e ele lembrava de ter notado isso sempre que passava por ela. No entanto, ninguém mais parecia ter percebido.
Até que, certa manhã, a porta simplesmente caiu. Simon a encontrou inclinada sobre a neve e decidiu consertá-la antes que seu pai, Pavel, voltasse para casa. Quando Pavel chegou, abriu e fechou a porta várias vezes para testá-la. Funcionava perfeitamente.
Então, ele olhou para Simon e perguntou: “Quem mandou você consertar a porta?” Simon não soube responder. Pavel ficou em silêncio por alguns segundos e, em seguida, disse: “Não faça de novo.” Naquela noite, Simon ficou pensando sobre o que exatamente havia feito de errado.
Aos dezesseis anos, surgiu outro problema: o aquecedor. Dessa vez, Simon decidiu esperar que seu pai chegasse em casa. A casa ficou fria durante horas, e sua mãe, Irina, até dormiu de casaco naquela noite. Simon sabia como o aparelho funcionava e onde estava o problema, mas escolheu não fazer nada.
Quando Pavel reclamou porque ele não havia consertado o aquecedor, Simon não respondeu. Naquela noite, ele aprendeu uma lição importante: às vezes, esperar também pode ser um erro.
Aos dezessete anos, Simon já não sabia mais quando deveria agir e quando deveria esperar. Algumas coisas precisavam de peças novas, outras precisavam de tempo, e havia aquelas que continuavam quebradas mesmo depois de ele tentar consertá-las. Era uma diferença sutil que ninguém havia lhe ensinado a reconhecer.
Ninguém:
Meu cérebro às 3 da manhã: "Vou escrever uma lore mais elaborada que muito filme."
O sonho já começa numa aula de história.
O professor explica que existiu a Era do Mar de Carne, quando a Terra inteira foi coberta por carne (SIM, tinha até pele) para servir de alimento para aranhas gigantes.
Depois essas aranhas foram devoradas por caracóis gigantes. Aparentemente foi uma rebelião. Ninguém questionava.
Corta a cena.
Eu e meu parceiro Willy (um boneco de palito muito mal desenhado) estamos indo A PÉ para o planeta Plathine, um dos vários planetas habitados depois desse incidente. Pelo que o sonho explicava, a gosma dos caracóis era tão saudável que atraía outros planetas para perto.
Chegando lá...
Era um planeta pequeno onde ninguém fazia ideia do valor das coisas.
- Ouro jogado nas ruas.
- Pedras de prata pura.
- Lojas vendendo guarda-chuvas enfeitados com folhas de opalina.
Até no sonho eu sou mercenário. Peguei dois sacos de lixo e comecei a roubar tudo.
Do nada começa um terremoto e eu e o Willy saímos correndo de um perigo que nem conhecíamos.
Nessa hora o sonho ficou lúcido. Percebi que o Willy nem tinha pernas, então simplesmente dei pernas pra ele. A cena virou um videogame em terceira pessoa e ele corria igual um boneco feito no Photoshop, com as pernas totalmente desconexas.
Aí eu falei:
"QUERO RELAXAR!"
A lógica do universo simplesmente nos virou de cabeça para baixo e nos jogou dentro de uma banheira de espuma... NO ESPAÇO.
Depois voltamos para a Terra.
Lá existia um orfanato que também era um circo, onde humanos eram literalmente fabricados para fazer graça, tipo uma Disney muito errada. Tinha um garoto completamente obcecado em roubar o chapéu de um pato porque ele valia uma fortuna.
E ainda tinha mais.
Dois animatronics gigantes queriam fugir para formar uma família, mas as próprias crianças que assistiam ao circo julgavam uma animatronic sem boca.
O sonho terminou com uma tela digna do filme de FNAF, todo mundo chorando porque ninguém conseguiu escapar do circo/orfanato.
Sinceramente, foi um dos sonhos mais roteirizados que eu já tive. Totalmente maluco... mas, estranhamente, tudo fazia sentido enquanto eu estava sonhando.